Ao reunir os contos desta coletânea — escritos ora com entusiasmo febril, ora com desmotivação errática, tendo sido rasurados, abandonados, retomados e adiados vezes sem conta —, cheguei ao fim, à presente página e coloquei-me a seguinte questão: o que têm em comum estas histórias tão dispersas? Existe neste saco de gatos algum elo, será possível deslindar um meridiano entre, por exemplo, uma história sobre uma pirómana convencida de que nasceu “com o diabo no ventre” e um conto sobre um homem que se fecha no seu apartamento, esmagado pela agorafobia? E a existir, terá esse fio vertebral brotado silencioso do meu subconsciente, visitando-me como um fantasma com a sua mão espetral pousada no meu ombro, sem eu dar conta?
Relendo-os cheguei à conclusão de que sim, existe uma linha de novelo que serpenteia entre estes contos, uma corda de roupa quase invisível na qual todas estas histórias díspares e muito modestas — a versão literária de peúgas, cuecas carcomidas por traças e t-shirts made in China — estão penduradas: a ideia de subúrbio.
É um subúrbio na definição mais lata possível — um espaço, ora físico e geográfico, ora psicológico e mental, fora do centro, à margem, desterrado, longínquo. Algumas das histórias que integram esta coletânea têm lugar, de facto, em subúrbios geográficos de Lisboa, como Almada, Corroios, ou o Barreiro, zonas dormitório onde as classes trabalhadoras são armazenadas e desarmazenadas diariamente no afã de prestarem o seu tributo e sacrifício mecânico — guardarem e limparem escritórios, passarem códigos de barras em caixas de supermercado, servirem cafés a turistas — à reprodução do Capital, esse deus Sumério. Mas outras desenrolam-se em subúrbios sociológicos e mentais, com personagens que, apesar de se situarem geograficamente no centro do centro da capital do antigo império, de viverem em Alvalade ou serem empresários do alojamento local em Campo de Ourique, possuem um qualquer traço marginal — são pessoas racializadas, leram os livros errados sobre os Descobrimentos, vêm de uma “ilha ardente e tropical, com presidentes loucos e sanguinários e árvores de fruto mágicas” — sendo, por conseguinte, colocadas numa situação de alteridade, depositadas à margem na consciência coletiva e perpetuamente afastadas da centralidade sociológica e histórica do país.
Tal como Júlio César disse acerca do seu rival Pompeu, “podemos tirar o homem do Piceno [região considerada atrasada e bárbara], mas nunca tiraremos o Piceno do homem”, muitas das personagens destas histórias carregam consigo essa marginalidade, essa longinquidade, essa “sub-urbanidade” mesmo quando se movem nas ruas do Príncipe Real ou do Chiado. E, outras vezes, noutras histórias, trata-se simplesmente de pessoas da Cova da Piedade a apanhar autocarros dos Transportes Sul do Tejo para irem para outro bairro dormitório de Almada.
Como pessoa que nasceu, cresceu e viveu muitos anos na Margem Sul, talvez eu também traga comigo um pouco dessa suburbanidade pós-industrial, de betão e dos estaleiros navais em corrosão — e, talvez, ela esteja sempre ao meu lado, com a mão pousada no meu ombro, enquanto escrevo.