AO SOM DE UM ESTILETE AMOLADO NA PELE
Provocado pelo autor para redigir as orelhas deste livro, mergulhei no discurso que compõe suas “bem-aventurânsias”, e detive-me na suavidade de um estilete afiado, invadindo a carne do verbo do mundo, limpando pouco a pouco, com profundidade, os ossos de suas palavras.
Sustentei o fôlego nos cabelos do seu “corasol” em continuado brilho, em mim, a incendiar o corpo do meu universo, grudado com suas “digitais na pele” da manhã, recém-chegada, na escrita do poeta.
Confirmei que a poesia, se bem emendados os fios de seus mistérios, pode gerar a luz que brota do branco do papel ou da tela, para seguir escancarando as portas da escuridão.
A poesia deste livro alcança nossos ouvidos trazida pelos ventos da memória, em clamor de Vila de pescadores, estragada pelo descuido dos passos dos estrangeiros, em continuada invasão; de algum deserto de riacho, guardado por uma concha, em angústia de partilha de cantoria com outras escutas, do barro esturricado que bebeu toda a água das nascentes, pedindo clemência para que a chuva crie outras correntezas, acabe com o lodo, o lixo, que o peso da insensibilidade humana, impôs ao seu vazio.
Experiente escafandrista, o autor vai ao fundo do riacho seco, porém fértil, com suas touceiras de capins maduros, experimentando ressureição, faz os olhos dançarem nas margens do mundo; reabilita o girar de tudo que necessita de inquietação para não enferrujar a engrenagem do seu sopro.
Atravessado por momentos sublimes, capazes de nos levar às alturas, sem tirar os pés do chão, este livro nos ensina a refletir sobre o sequestro da rotina que estraga o lirismo de nossos dias, e empobrece a convivência com o que nos resta de sagrado.
Fotografa com maestria a imagem do poema, para determinar o ritmo que move o destino de cada palavra de seus versos; rastreia a sua poesia o sentido de tudo pelo ouvir, pelo tocar, pelo aroma, deixado na pele das coisas.
Solar e noturna, a poesia de Rogério Newton, serve para abrir nosso 3º olho e enxergar além dos abismos humanos, no fundo da noite adormecida, inquietada por areias das distâncias que nos transportam ao infinito da matéria escura.
Deixo com o leitor a continuidade da busca da claridade de um horizonte possível, com olhar livre, ao encontro da ânsia criadora do verso e re/verso, deste livro, em reunião da arte com a poesia de um autor que aprendeu a transitar com segurança, pelos labirintos da voz.
Rubervam Du Nascimento-poeta