Há livros que se oferecem como companhia leve, como quem puxa conversa na beira do caminho. Escritos que se insinuam como gestos cotidianos, simples e essenciais: passar um café, acender uma vela, contar um caso ao lado do fogão. Este livro é desses.
Em Beber histórias como se fossem café, Laís Nunes convoca o leitor a participar de uma partilha ancestral implicada em escutar, lembrar, guardar e transmitir. Suas narrativas caminham por quintais de terra batida, varandas de madeira, festas de agosto, árvores antigas e rios encantados. Aqui, o forno de barro devolve calor à casa, o sino da capela convoca os mortos à reza, o trem da saudade insiste em passar por trilhos já cobertos de mato. São histórias que parecem brotar da própria terra, carregadas de pólen, cinza, vento e reza.
Ler estas páginas é como ouvir o murmúrio de uma ladainha antiga, já que, mais do que compreender, sente-se que algo nos atravessa. A autora escreve como quem tece, entrelaçando o visível e o invisível, o vivido e o sonhado, o humano e o encantado. Cada conto abre um portalzinho: seja para a infância que ainda mora no cheiro do pão de queijo, para a memória das lavadeiras que lavam o tempo, seja para a quaresmeira que resiste como altar de flor e silêncio.
Há, no coração deste livro, uma certeza que as histórias confirmam a cada página: “o sagrado mora onde o povo não esquece”.
E é por isso que, neste livro singelo, há um compromisso de gosto mineiro com a prosa. A conversa nasce simples, parece despretensiosa, mas é tecida com firmeza e delicadeza. Quem é de Minas Gerais reconhece esse tom como coisa de casa; quem não é, se encanta ao se ver, de repente, dentro de uma conversa contra o esquecimento, contra a pressa, contra o empobrecimento da imaginação. Em cada narrativa, Laís devolve dignidade às pequenas coisas, da reza sussurrada ao tacho de doce que cura saudades. E nos lembra de que nada é banal quando se olha de perto.
Felipe Moratori
Escritor, dramaturgo e professor de teatro