Por seu ritmo entrecortado e sua sintaxe fragmentada, o leitor que percorrer Bagatelas, conjunto de 96 poemas escritos entre 2022 e 2024, se deparará com uma espécie de alvenaria de imagens deslocadas. Em sua definição dicionarizada, o termo que dá nome ao livro é utilizado para se referir a algo prosaico, trivial; mas é também, em música, o nome dado a pequenas peças, geralmente compostas para instrumentos de câmara, como piano ou quarteto de cordas, em que a brevidade não exclui a densidade.
Como em uma pintura de gênero barroca, um interior de cômodo holandês atravessado por luz lateral, os atos cotidianos adquirem uma carga litúrgica, contrapondo o sagrado e o mundano. Em versos curtos e sincopados, escritos com uma estrutura marcada (três estrofes de quatro versos heptassílabos cada), um imaginário de excessos e volutas se confronta com o desejo de ordem e simetria formal apolínea, marcado por rimas internas, ecos e aliterações.
Nestes hinos esburacados, o leitor perceberá uma condensação de imagens compostas por justaposições abruptas, montagens orientadas por uma direção de cor e de volume, quase como se fossem talhadas em camadas de matéria. Capelas, portos, desertos e cidades marcam êxodos e deslocamentos que coexistem com geografias interiores. A violência e a calmaria, o bélico e o civil, o náutico e o terrestre, o humor e a sobriedade, a história e o idílio, linguagem e ícone, se tensionam como superfícies em atrito, massas comprimidas em uma escultura instável, prestes a ruir ou a se recompor.
O material e o figurado aparecem em constante fricção com a cadência oral e uma lírica rarefeita, marcada pela cintilação de uma atmosfera metálica. Uma orientação escultórica e ornamental envolve os poemas em um véu delicado, mas que esconde estilhaços. Há aqui um impulso enciclopédico, com versos que evocam outros versos, que abrem fendas e nelas se insinuam referências, heráldicas, preces. Esse impulso opera ao lado de cartografias de territórios e romarias.
Talvez seja possível ler Bagatelas como um gesto de inconfidência lírica; não no sentido da ruptura, mas de uma continuidade que só se realiza por desvio. Como escreveu René Char, “nossa herança não é precedida de qualquer testamento”: é preciso traí-la para que sobreviva. A forma aqui não é cárcere, mas campo de tensão; e essa aparente contenção encena cópulas inesperadas, revelando o esboço de uma insurreição.