Bagatelas

Disponibilidade: Brasil

nada, nada, é funda a barra
ou canhão que à fura-barda
ou navarra surra, às tranças
nada às ratas, tudo às padas

nada, tudo, é pouca a borda
ou quinhão que à barafunda
ou mascarra, o nó e a corda
nada à parca e tudo à mosca

tudo, nada, é lança às barras
ou brasão, que à semelhança
ou amarra, ao mais se dobra
nada às faltas, tudo às duas.

R$52,00

_sobre este livro

Por seu ritmo entrecortado e sua sintaxe fragmentada, o leitor que percorrer Bagatelas, conjunto de 96 poemas escritos entre 2022 e 2024, se deparará com uma espécie de alvenaria de imagens deslocadas. Em sua definição dicionarizada, o termo que dá nome ao livro é utilizado para se referir a algo prosaico, trivial; mas é também, em música, o nome dado a pequenas peças, geralmente compostas para instrumentos de câmara, como piano ou quarteto de cordas, em que a brevidade não exclui a densidade.

Como em uma pintura de gênero barroca, um interior de cômodo holandês atravessado por luz lateral, os atos cotidianos adquirem uma carga litúrgica, contrapondo o sagrado e o mundano. Em versos curtos e sincopados, escritos com uma estrutura marcada (três estrofes de quatro versos heptassílabos cada), um imaginário de excessos e volutas se confronta com o desejo de ordem e simetria formal apolínea, marcado por rimas internas, ecos e aliterações.

Nestes hinos esburacados, o leitor perceberá uma condensação de imagens compostas por justaposições abruptas, montagens orientadas por uma direção de cor e de volume, quase como se fossem talhadas em camadas de matéria. Capelas, portos, desertos e cidades marcam êxodos e deslocamentos que coexistem com geografias interiores. A violência e a calmaria, o bélico e o civil, o náutico e o terrestre, o humor e a sobriedade, a história e o idílio, linguagem e ícone, se tensionam como superfícies em atrito, massas comprimidas em uma escultura instável, prestes a ruir ou a se recompor.

O material e o figurado aparecem em constante fricção com a cadência oral e uma lírica rarefeita, marcada pela cintilação de uma atmosfera metálica. Uma orientação escultórica e ornamental envolve os poemas em um véu delicado, mas que esconde estilhaços. Há aqui um impulso enciclopédico, com versos que evocam outros versos, que abrem fendas e nelas se insinuam referências, heráldicas, preces. Esse impulso opera ao lado de cartografias de territórios e romarias.

Talvez seja possível ler Bagatelas como um gesto de inconfidência lírica; não no sentido da ruptura, mas de uma continuidade que só se realiza por desvio. Como escreveu René Char, “nossa herança não é precedida de qualquer testamento”: é preciso traí-la para que sobreviva. A forma aqui não é cárcere, mas campo de tensão; e essa aparente contenção encena cópulas inesperadas, revelando o esboço de uma insurreição.

_outras informações

isbn: 978-85-7105-216-1
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 112 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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