O rio Mondego não é o Tietê, o Amazonas, o São Francisco, muito menos os córregos enterrados sob o concreto de São Paulo. Mas, nas crônicas deste livro, o Brasil mergulha, se banha, se mistura e se afoga em suas águas, que já não surgem tão claras e doces, como escreveu Camões.
Nos 258 quilômetros que percorre da Serra da Estrela até Figueira da Foz, o Mondego faz muito mais do que só molhar Coimbra. Nestes textos, ele arrasta também as faíscas do encontro entre o português lusitano e a língua brasileira, carrega os tijolos do labirinto onde imigrantes estão presos em Portugal e embala uma série de outros ruídos que fazem tremer as ruas do país — tudo diluído pela correnteza da linguagem, da literatura, da ambiguidade e da poesia.
Pode até não parecer, mas, depois que as águas do Mondego desembocam no Atlântico, elas cruzam o mundo e se tornam ondas nas praias brasileiras. Bafo do Mondego é fruto desse encontro. Uma coletânea em forma de pororoca, sobre dois países cada vez mais distantes e inseparáveis.