“Não se nasce mulher ou homem, torna-se”
Mas nascer negro é imperativo, e o primeiro baculejo nunca se esquece:
O camburão da polícia parou na porta do bar do meu pai (…) / caíram em gargalhada (…) / Acharam engraçado / o menino de cinco anos / afastar o máximo que pôde / perninhas e bracinhos magros / diante da parede / Por muitos anos essa foi uma lembrança / divertida da minha infância / no bairro Renascença em Montes Claros
Que ninguém se engane, ainda que o teor do vivido nem sempre reine sobre o sabor da lembrança, a perda da inocência também é obrigatória:
eu tinha cinco anos e já sabia / que coturnos chutariam as pernas / e cassetetes machucariam braços / que não se abrissem a contento / na hora do baculejo
O negro poeta* sabe o quanto é difícil flanar e observar o mundo, enquanto os olhos ao redor estão a pensar que se está a serviço ou planejando furto:
— Você trabalha aqui? / Fui promovido, penso / Antes de virar a última gôndola era o ladrão / Agora sou funcionário
Nem tudo é esbarro, predomina lirismo e o corpo que forma X enigmático, enquanto olhos fitam a parede, faz cair naturalmente a religiosidade (barroca) mineira do bolso esquerdo:
Bem-aventurados os luxuriosos / cuja paixão habilmente / intumesce a carne / e amolece o espírito / enquanto A Paixão com rispidez / faz o contrário / ao trespassar ferozmente ambos
Do bolso direito escorre tradição mais antiga:
Depois do verdejar / talos fibrosos / rútilos / trazem vermelho ao pasto / outrora verde aquoso, agora / longas lanças de Troia: / Marte / Morte / Moira à espreita / de Aqueus e Dânaos / Mas que memória é esta / que até mesmo doce pasto / palatável ao paciente boi / e ao belo e exigente cavalo / torna belicoso?
Se Lennon disse que “a mulher é o negro do mundo”, o negro poeta também pode em sonho (ou seria pesadelo?), formular necessária resposta:
Ontem fugi de Pasárgada / foi lá que matei o rei / Enforcado nas vísceras / do poeta que estripei / Pasárgada só é idílica / pros velhos amigos do rei
Baculejo é o primeiro livro de poesia tardio do escritor mineiro Marcelo Luiz Silva, representante da linhagem dos negros poetas brasileiros: Cartola, João do Vale e Zé Keti. Negros que o Brasil não deixou ser poetas, talvez vislumbre dos livros que poderiam ter escrito.
*Nem mesmo foi escolha ser negro primeiro, é apenas o mundo colocando as coisas em seu devido lugar