Todos nós sabemos que há um bicho no peito. Cada um carrega o seu próprio, mas, neste aqui é um bicho, de Vinicius Medeiros, ele rói, dança, esgarça e rompe a materialidade do corpo e quaisquer sistemas de classificação. Ele não fala a “língua humana”, apenas sabe roer, e talvez por isso ainda não tenhamos a total capacidade de ouvir o seu “silêncio verbal”. Mas é preciso estar atento.
Todo este livro é sobre a palavra, sobre as suas insuficiências, as suas dificuldades de ser pronunciada, a sua demora em chegar até nós. É um gesto que percorre boa parte de seus poemas, sobretudo os metalinguísticos, nos quais o poeta medita sobre o próprio ofício da poesia. Ensina-nos que o “não dito” não padece quando é dito — antes, está sempre à procura de uma palavra. A poesia é isso: a busca incessante pela palavra, mesmo que ela escape por entre os dedos da inteligibilidade.
Ao lado da palavra, o amor — e, sobretudo, o amor entre dois homens – irrompe nos poemas, resistindo aos medos e disfarces impostos pela homofobia, mas também é mutável, perecível e não cabe em coisas tão breves como um “te amo”. Em flerte intertextual com Carlos Drummond de Andrade (além de outros autores, como Caio Fernando Abreu), na “quadrilha” amorosa de Vinicius Medeiros ninguém sabe responder o que é o amor.
É também o tempo que atravessa aqui é um bicho, que mostra o quanto o mundo é feito de tempo — aquilo que é, que foi, que será e que poderia ter sido. Calculável, mas impalpável, ele irrompe no ritmo dos versos, nas sonoridades que dançam na boca ao passo da leitura, acompanhando a semântica da própria vida — ora ligeira, ora vertiginosa.
A homossexualidade é questão patente. Nele, sabemos que se aprende o “não gostar” antes do “gostar”; sabemos que “gay” é um nome que pode carregar outros nomes — muitos deles não foram cunhados por nós. Mas é preciso ir além: considerar este livro como “temático” é limitar as suas possibilidades de leitura e toda a capacidade de alteridade inerente ao ser humano.
Vinicius Medeiros desponta na literatura como nome que merece ser lido e relido. Estreia na poesia com aqui é um bicho, provando que forma e conteúdo podem (e devem) caminhar de mãos dadas — algo um tanto raro de se ver por aí. Com ele, aprendemos que “a palavra é nosso/único-último recurso” e que, se “não fossem as palavras/eu aqui não estaria” — e nós também não.
Leandro Noronha da Fonseca
Jornalista, pesquisador e doutorando em Estudos Literários (Unesp)