Quando nascemos, o óbvio parece já estar aí, dado para nós. Quase não podemos distinguir como tivemos dele ciência. O óbvio é, nesse sentido, como aquelas músicas de domínio popular que ouvimos desde a infância, e que ouviram nossos pais e avós: não sabemos muito bem registrar o momento e o lugar em que o aprendemos, e raramente procuramos discutir sua origem, embora carreguemo-lo, como o fazemos com as marchinhas, num canto empoeirado do tempo em nós. O desvelamento de sua verdade pode causar, então, espanto. Como no milagre que revela o desfalecimento do negacionismo e a estupidez do ódio, no conto homônimo ao livro, “Anunciação do óbvio”, e que o inaugura. Já de modo quase psicodélico, o óbvio se desdobra nas alucinações holísticas de uma talvez teia da vida — e da morte em “O atrás da máscara”. A escrita confessional toma corpo neste conto na voz de uma narradora segura dessa verdade íntima do todo; estilo semelhante aparecerá também em “Explicando o óbvio”, em que o mote do livro é conferido a uma espécie de “criacionismo” da literatura. A escrita confessional se destaca, portanto, como um dos subterfúgios cromáticos que expõem o óbvio à clareira. Dessa forma, é justamente a conversa informal com Deus em “Terapia teológica” o que permite, no conto, a elaboração de uma verdade emergente da liberdade do movimento dialético, da descoberta da alteridade dentro de nós mesmos. Entre o jogo das vozes narrativas, das pessoas da linguagem e suas posições, que perpassam os contos, joga-se também com a condição existencial da intersubjetividade como origem. Ubuntu: eu sou porque tu és — é o que se revela como óbvio em “Segunda do singular”, quando a alteridade já experimentada antes, se radicaliza agora e salta do “eu” para o “tu”. A posição do “eu” enquanto propositor, destinador, neste jogo dialético, aparece, em contrapartida, sob o protagonismo heroico do pensamento em “Saneamento básico”. O óbvio em todos os contos é uma revelação graciosa da verdade, resgatada em nós mesmos no frio de um sentimento contraditório, porque ao mesmo tempo estranho e familiar. Resiste o óbvio, a despeito da cansativa infantilidade da humanidade em ignorá-lo. O que, por consequência, pode expor o momento epifânico em uma experiência dramaticamente tardia: em “Coração selvagem” e “Diana”, a existência é sequestrada pelo estilo de vida moderno, liberal e capitalista, e o óbvio que fora teimosamente obscurecido parece emergir como uma última chance de libertação da má-fé.