Escrever o deserto não para fazê-lo, mas sim para operar deslocamentos. Segurar as palavras como pedras e desmembrar cada uma com o peso da respiração. Com os farelos, lavrar palatos – isto foi o próprio cavalo lavradeiro / fez algo aqui / deixe-o . Os poemas riscam o caminho, escavam em busca de uma língua anterior à captura – o que foi entoado antes da apropriação. Vocábulos deslizantes nas papilas e nas pálpebras, nos poros e nos punhos: essa é a matéria deste livro de estreia de paixao.
não tem falso ou verdadeiro, é um vínculo
A poeta lança as palavras contra a página, faíscas flutuantes que chocam. Seus versos no espaço do papel não são “como se”, mas sim a coisa em si no espaço do corpo de quem lê. Parecem vindas de experiências parciais que tentam firmar algum traço e, ao serem traçadas, escapam. Ainda assim, estamos a todo tempo sob o efeito do que se firma do apagamento. Os desertos deste livro guardam os caminhos pisados, um cemitério de pegadas. O desaparecimento é um modo de guardar.
eu perdi / toda a língua / que eu tinha
A poesia nesta obra brinca de desmontar a linguagem ao ponto de ruído, de segurar com mãos pequenas suas formas orgânicas. Pensando a língua como coisa que se ganha – uma colonização da qual não se escapa -, paixao nos convida a um levante contra a violência da educação, do discurso e das instituições. A uma travessia do deserto que nos separa de algo fundamental, seja uma disposição diferente / (…) // ou seja uma piada / ou até que seja algo pior / uma emoção.
Este livro arremessa as palavras contra as tentativas de dominação, sejam elas sociais, emocionais ou linguísticas. É com o som do infantil, na sua dimensão mais recalcada e indomável, que a poeta escreve. Ela nos chama a seguir esse rumor com ela, a fissura dos vocábulos nas mãos – ora munição, ora começo.
o sentido da fruta veio primeiro / o que explode veio depois
Ler “A forma deserto” é não apenas colocar a poesia de paixao nos olhos e na boca, mas também entregar-se à sua escuta. Este livro possui não apenas voz, mas também ouvido. Entre quem atravessa e o deserto, há um horizonte trêmulo. Caminhante e caminhado se confundem, a travessia é íntima.
estejam avisados
Nadja Rodrigues de Oliveira