Não ler esse livro deveria dar cadeia
Vai parecer atrevimento dizer isso de um homem da lei, mas ouso: a mais potente arma do Ataíde é a imaginação. Não que ele seja desatento à realidade nem sempre doce de uma Aracaju que espelha o Brasil. Ataíde é um cronista empedernido: come e bebe dos esplendores e das tolices do tempo presente. Mas alguém com tamanha capacidade de fabulação não se contenta com a fórmula confortável de ditar regra em primeira pessoa. Então cria mundos inteiros para falar do mundo que passa diante de seus olhos.
A arma de Ataíde não é letal, a menos que tornemos literal a metáfora do morrer de rir — de nervoso, no caso. Pelo contrário, o calibre grosso de humor, domínio da linguagem e erudição livre de afetações nos dá pulsão de vida; não aquela existência plastificada dos coaches, mas uma inquietação que nos põe pulsantes a prestar atenção ao ridículo das coisas.
A crônica que empresta nome ao livro talvez seja a melhor porta de entrada para esse universo. É preciso imaginação incandescente para transformar um erro de crase num fenômeno meteorológico e criar uma repartição pública para monitoramento do léxico. O desleixo no trato com o idioma tende a resvalar perigosamente para uma patrulha gramatical. Mas, enquadrado na alça de mira do Ataíde, converte-se numa reflexão sobre linguagem, percepção e a necessidade de mudarmos o ponto de vista para compreender o absurdo.
O papo de clima, a propósito, é um clássico do elevador, uma argamassa social débil entre desconhecidos ou pouco íntimos. No lápis do Ataíde, porém, adquire ares de fantástico. Em “A Paternidade É Fogo”, um catarinense ardendo sob o calor do Sergipe adota o sol, e o desconforto térmico dá lugar a um breve e inquietante tratado sobre as agruras de lidar com filhos, com uma piscadela para a mitologia grega.
Ataíde, aliás, não fica dando carteiraço intelectual gratuito. Em “O Desaparecimento do Senhor Crusoé”, promove o encontro de Lima Barreto com Daniel Defoe para futucar, com a branda anestesia do gracejo, a solidão que se acentua conforme os anos correm.
Começos e fins: é impossível estabelecê-los nestas crônicas. Depois de lidas, ficam ricocheteando em nós. No cano fumegante de Ataíde, a imaginação nunca é ornamento, mas um método de investigação. A autoridade apura fatos; o cronista suspeita deles para extrair-lhes o sumo.
Não ler esse livro deveria dar cadeia.
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Fabrício Barcelos