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	<title>Contos /Novela /Romance &#8211; Editora Urutau</title>
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		<title>Quinta categoria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2026 13:27:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quinta Categoria é uma coletânea de contos sobre o pesadelo da inadequação. Cada uma das sete histórias é um vislumbre da dor espinhosa de se sentir por baixo, sem rumo e assombrado pela falta. É um caleidoscópio de mulheres desguarnecidas, memórias sinistras, bichos fantásticos e um pouco de piada sobre tudo que arde.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sempre há algo de errado nas histórias de Júlia Fovitzky. Em Quinta categoria o absurdo não é gratuito. As histórias nascem em um mundo reconhecível, levemente deslocado, onde o grotesco e o banal se unem como fundamentais ingredientes em um caldeirão de estranheza. O resultado dessa alquimia é um elixir literário, doce e amargo, que desce rasgando na garganta de quem o lê. Em um jantar de gala, Bibi tenta conter o impulso de romper a própria pele enquanto lida com convenções sociais estranhas ao seu dia a dia; na sequência, uma jovem lida com a Síndrome de Estresse Pós-Traumático causada por uma presença infernal em seu próprio corpo.<br />
O humor ácido continua com uma dupla de artistas, ligeiramente familiares, que dão o sangue para ter uma única<br />
oportunidade — sua bala de prata — dentro do mundo pop; o absurdo se aprofunda quando um cão, humanizado por falar demais, mostra o seu próprio mundo (cão).<br />
Com uma escrita afiada e imagética, Quinta categoria continua sua seleção de narrativas que se fundem entre a comédia-veneno e a violência visceral de nossa sociedade. Ora misterioso, ora em um ambiente mais onírico, a autora expõe o status quo cáustico de nossos costumes com uma narrativa inusitada e, não raramente, bizarra. É<br />
algo que fica, como o gosto metálico de sangue na boca.<br />
Sempre há algo de errado nas histórias de Júlia Fovitzky.<br />
E isso é um grande acerto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Leo Raoni</strong></p>
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		<title>Arché: água, fogo e urina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 16:12:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">11:47. Da janela. Do vidro da janela, vidro embaçado, esbranquiçado da janela, a gente vê. Ou não vê. Não dá pra ver mais o que é céu e o que é chão. A chuva veio e apagou o limite. A borracha da chuva apagou o limite que separa a terra e o céu. Tudo branco. Um branco molhado e frio. Branco. Ao contrário da águafogo. Águafogo ardida. Ardida e quente. Ardida, quente e laranja. Cor de quase sangue. Cor de quase fogo, e quase sangue que devora minha carne íntima. Íntima acho que já não é, já não é faz tempo. Que é que vou fazer? Que é que eu faço se não parar essa chuva? Melhor ir, melhor ir assim mesmo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A chuva não é apenas um fenômeno meteorológico, é uma metáfora implacável para o desnorteio da psique humana. Por meio de um tríptico narrativo, somos confrontados com as vozes de um artista, um operário e uma prostituta, cada qual tateando os contornos de um mesmo acontecimento sob o derramar constante de um céu dantesco. A obra se constrói sobre o alicerce da polifonia, para nos mostrar que não há uma consciência soberana que submete as demais, mas uma pluralidade de vozes plenivalentes que interagem em sua irredutível alteridade. Cada narrador é um sujeito de seu próprio discurso, que lança sobre o real uma “ideia-força” responsável por moldar a cidade como um labirinto, uma metalúrgica infernal ou um antro de dor. Cada enunciado torna-se um campo de batalha onde diversos pontos de vista — ou enunciadores — se manifestam. O sentido não é uma unidade estanque, produto e um ponto de vista que cria a realidade, que aprova ou rejeita as perspectivas que o atravessam. Assim, a “verdade” do acontecimento fragmenta-se: ela deixa de ser uma essência imutável para tornar-se uma singularidade. O que é verdadeiro para o artista no auge de seu delírio estético não o é para o operário sufocado pelo fogo das máquinas ou para a mulher que transmuta seu trauma em vingança. Ao cruzar erudição e coloquialidade, a narrativa revela que a verdade é uma rede de práticas e afetos, situada no tempo e no lugar daquele que sente. A linguagem é construída sobre repetições de frases e imagens, gerando um efeito de hipnose que contribui no desenvolvimento da temática existencial. Em meio à cadência sensorial e rítmica semelhante a um mantra ou música, o que confere densidade poética ao texto, o leitor é convidado a abandonar a segurança da leitura linear para se molhar na incerteza. Afinal, neste livro de vozes desencontradas, a única certeza é que, uma vez cruzada a porta da esperança, a chuva — e a vida — continuará a cair, revelando tantas verdades quantos forem os olhos dispostos a encará-la. Se a própria narrativa é responsável pela concepção do real, a <em>arché</em> não deve ser a água, o fogo ou a urina, mas a própria linguagem que as traz à luz.</p>
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		<title>Gentes do cerrado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 13:38:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Gentes do Cerrado reúne contos que atravessam o Cerrado como território vivo de memória, conflito e afeto. Entre rios, estradas, veredas e cidades em transformação, as narrativas dão voz a personagens marcados pela resistência cotidiana, pela violência silenciosa e pela insistência da vida. Com escrita sensível e precisa, Ana Saragossa constrói um mosaico humano em que a paisagem não é cenário, mas força ativa que molda destinos, preserva lembranças e revela o que persiste mesmo diante da perda.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há territórios que não cabem em mapas. O Cerrado é um deles. Em Gentes do Cerrado, Ana Saragossa constrói um conjunto de contos que atravessa esse espaço como quem percorre uma memória viva: feita de rios que guardam silêncios, cidades que se deslocam, estradas que atravessam corpos e histórias.<br />
As narrativas reúnem personagens comuns (mulheres, jovens, velhos, trabalhadores) marcados por perdas, afetos e resistências cotidianas. Sem recorrer ao excesso de explicação, a autora deixa que a paisagem atue como força narrativa, moldando gestos, escolhas e destinos. O território não aparece como pano de fundo, mas como presença ativa, capaz de revelar violências sutis, laços profundos e a persistência da vida.<br />
Com escrita precisa e sensível, Gentes do Cerrado propõe uma travessia literária pelo Brasil interior, onde memória e experiência se entrelaçam. Um livro que escuta o que permanece mesmo quando tudo parece ruir e encontra, nesse resto, a possibilidade de continuidade.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A inventariante</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 May 2026 12:09:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que você faria se alguém que te abandonou te deixasse responsável por organizar o que restou da vida dele? Para Marcela, a morte do pai, Álvaro Hoffmann, não trouxe o luto esperado, mas sim uma última ironia: ele, o engenheiro boêmio e ausente, a nomeou inventariante de seu espólio.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre doses calculadas de ansiolíticos para suportar a realidade e a burocracia sufocante de uma Salvador quente e caótica, Marcela mergulha na bagunça deixada pelo pai. O que deveria ser apenas um processo legal transforma-se em uma caça ao tesouro absurda, que vai de imóveis sem escritura a seguros de vida excêntricos, de dívidas bancárias a generosas concessões a estranhos, cada elemento póstumo revelando um aspecto da personalidade contraditória do inventariado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto tenta equilibrar os pratos de sua própria vida desmoronada — um divórcio recente, uma relação tensa com a mãe e uma carreira burocrática no Detran —, Marcela é forçada a conviver com Miguel, o meio-irmão “perfeito” que ela sempre manteve à distância.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A inventariante</em> é um romance sobre as heranças que não escolhemos e os afetos que redescobrimos. Com um humor ácido e uma honestidade cortante, Analu Leite nos conduz por uma jornada de autodescoberta, lembrando-nos de que, às vezes, é preciso revirar os documentos de um morto para finalmente começar a viver.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Alguma vez você já sentiu que a vida estava te atropelando?</p>
<p style="text-align: justify;">É sob essa perspectiva que o novo romance de Analu Leite toca em pontos tão sensíveis. Grandes e pequenos acontecimentos que podem estar presentes na vida de qualquer um dão o tom da narrativa: luto, divórcio, dificuldades de relacionamento, pressão no trabalho. Às vezes, até as funções mais básicas, como dormir e acordar, tornam-se um desafio.</p>
<p style="text-align: justify;">Marcela tem uma vida comum, entre as subidas e descidas da cidade de Salvador. Uma vida em camadas, como a de qualquer um de nós, repleta de acúmulo de atividades e sentimentos mal resolvidos — subprodutos da sociedade atual. Mas o chamado para inventariar os bens de um pai ausente e complexo é o gatilho que a joga de volta em suas memórias e a obriga a revisitar o passado, fazendo do processo de inventário o fio condutor que nos guia pela trajetória da protagonista.</p>
<p style="text-align: justify;">A protagonista decide abraçar a tarefa que lhe foi confiada, contudo o estresse, a ansiedade e os compromissos mal administrados – misturados no caldo de uma mente instável – tendem a adoecê-la silenciosamente, levando ao abuso de medicamentos que apenas mascaram seus sintomas. A pergunta que resta é: o que é estar mentalmente saudável? Equilibrar os pratos que giram sobre nossas cabeças? Talvez. A resposta é única e individual, não há uma fórmula geral a ser oferecida.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>A inventariante</em>, acompanhamos uma trajetória que surpreende o leitor por refletir a nossa própria vida ordinária. Aquela sensação de que tudo está bagunçado e de que viver tornou-se um peso a ser carregado ganha forma no desenvolvimento do romance. A Marcela de Analu Leite vem nos lembrar da necessidade de percebermos nossos limites e de buscar ajuda nos primeiros sinais de alerta. Adoecer mentalmente não é sinônimo de fraqueza, e a ficção pode ser um excelente lembrete disto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Adriana Moro</strong></p>
<p>Escritora</p>
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		<title>Grisalhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 May 2026 21:00:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Grisalhos encara o possível incômodo de um tema polêmico: no ainda preconceituoso 2026 — que assiste, pasmo, à luta para banir ou, ao menos, reduzir ao mínimo civilizado a visão de mundo patriarcalista do país e do mundo —, a presença de um livro clara e integralmente dedicado ao amor homoafetivo, aquele de que não se
costumava dizer o nome até o final do século xx. Diante de um período tão sensível à diversidade e, ao mesmo tempo, tão intolerante às diferenças, talvez faça sentido um livro demarcado não apenas pelo amor entre iguais,
com todos os seus nomes, mas também por sua dimensão antietarista.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eis <em>Grisalhos</em> e, como sugere o título, uma obra senescente do mais que ciente poeta Paulo Roberto Sodré da sua bioficcionalidade. Autor de longa data em poesia e prosa, a verificarmos, ambas porosas. Deixe-me explicar, com todos os poros à prova, ao sabor do tempo das personas e dos leitores, a saberem do autor ludo. Este que nos dedica, por vezes, cheio de dedos; sempre, de língua, predominantemente portuguesa, seu amor pela vida. Assim, vai transpirando em frentes e versos ternuras homoafetivas, a demonstrarem elas que para tanto toda idade é de ouro, desconsiderar isso passaria a ser alguma coisa de muito tolo. Aproveitemos então esta orelha para sussurrar nela algum de seus quase degredos:</p>
<p style="text-align: center;">“O peso dos dias de espera,</p>
<p style="text-align: center;">o ardor das horas de imaginação,</p>
<p style="text-align: center;">o áspero das vezes de insônia:</p>
<p style="text-align: center;">tudo escorre corpo idoso afora</p>
<p style="text-align: center;">quando as digitais dos seus lábios</p>
<p style="text-align: center;">marcam os recantos do meu nome</p>
<p style="text-align: center;">todo entregue para sua caça</p>
<p style="text-align: center;">aos meus arrepios todos em murmúrios”</p>
<p style="text-align: justify;">Sussurros, murmúrios; quiçá: gemidos, grifos, acompanhados de espasmos voluntariosos, estão aqui para lá de sugeridos, mesmo em templos de tantas proibições, ódio e rancores com relação a sentimentos sentidos, ainda que somente pela imaginação, tão vital para o desejo, pelejante, a locupletá-la. porque não lhe faz jus nenhuma mesquinhez. Se há algo entre nós que realmente pode romper todos os limites é o pensamento. Por meio dele podemos possuir qualquer coisa e também nos tornamos possessos para além das convenções e aquém das margens: “serei, serei, serei leal contigo, quando eu cansar dos seus seixos lhe digo!”, diria o cantor popular!</p>
<p style="text-align: justify;">Há muitas camadas a serem transpostas e transportadas pelas páginas presentes, entre a tez e o tesão em lê-las. Venham conosco nessa lida a desfilar com os rapazes que nelas estão, quando cada nome ou desnome sugere lascivos percursos delineados pelo poeta, de alegres a alegóricos. <em>Queer</em>+: não sei se o mundo é gay, mas sei que ele não cabe num armário. Assim sendo, não temos como não nos sentir parte do intento, atento a cada minúcia, buscando um todo pelas partes postas nem tão particularmente num labirinto de sensações, isentas de heterotoxidades, ainda que possa parecer a alguém aqui haver um certo lugar de falo, à maneira formal de uma <em>cantiga de amigos</em>:</p>
<p style="text-align: center;">“Ai eu, cativo, arreitado, idosado,<br />
numa aula em forte dia o vi,<br />
desde quando não me deito sem aspirar, eu<br />
que vejo seu pau azeitar de porra o paulino anel:<br />
em forte dia o vi barbudo<br />
e cheio de porra para servir!”</p>
<p style="text-align: center;">Peita, por ora cheguemos de transbordamento!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Pedro Gazu</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O testamento do alferes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 15:18:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Algo foi assim brotando em mim, um não sei o quê, uma sensação de que meu corpo se enchia de orquídeas, que brotavam feito rosas e iam tomando todo aquele quadrilátero-quadrado, só para me lembrar que, sim, para aqueles que sofrem danação de memória, a fé, escapa à razão, e muito. Aquilo tudo foi invadindo meu corpo, tomando a minha mente e cobrindo meu caminho com orquídeas e mais orquídeas-rosa, que suplantavam, em minha memória, qualquer dor, que um dia tive, só para transformá-las em felicidade, pois nada que eu pudesse ter, iria, realmente, me fazer feliz, se não soubesse amar…</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O romance <em>O testamento do alferes</em> é a história de um garoto chamado Tião, que, com toda a sua sensibilidade e seu melindre, encontrou no amor a cura para a sua ferida mais profunda. Tião perdeu a mãe no parto e passou a maior parte da vida em colégios internos, lugares para onde seu pai, um fazendeiro de cana-de-açúcar em decadência, o enviou para não ter que lidar com a responsabilidade de criar um filho.</p>
<p style="text-align: justify;">Por meio dos mistérios da vida, toda a vez que Tião sonha com a mãe, ele tem a certeza de que algo em sua vida mudará. Foi o que aconteceu quando foi enviado para o internato pela primeira vez, aos sete anos, e quando foi expulso dele, aos quatorze. Após o terceiro sonho, ele se envolve em um acidente e é falsamente acusado de assassinar um colega de escola. O pai, com receio da repressão política da ditadura militar brasileira e com medo dos próprios inimigos, o envia clandestinamente para a Europa. Tião então vaga pelas cidades da Itália até atravessar a fronteira e chegar a Paris no fim de março de 1968.</p>
<p style="text-align: justify;">Na viagem de trem para a capital francesa, Tião conhece uma jovem franco-brasileira chamada Hélène, que o apresenta à vida cultural e intelectual parisiense. Entre muitos beijos, Tião faz pequenos serviços para sobreviver. No chão de uma fábrica, nos subúrbios da cidade, experimenta as dores do capitalismo. Na pia de lavar pratos do <em>La Coupole</em>, reconhece a solidariedade humana. Isto tudo enquanto testemunha o tecido da história europeia se transformar. A felicidade de Tião e Hélène dura até o jovem sonhar pela quarta e última vez com a mãe, e a revolta estudantil de maio de 1968 tomar conta das ruas de Paris.</p>
<p style="text-align: justify;">Ancorada na ópera de rua sergipana conhecida como Guerra dos Lambe-Sujos e Caboclinhos, uma das mais importantes da América Latina, Matheus Batalha nos apresenta uma narrativa leve que entrelaça passado e presente, misturando o erudito e o popular aos anseios de futuro. Num mundo que ainda teima em não aprender com os  próprios equívocos, este romance nos oferece uma reflexão sobre memória, trauma, família, política e revoluções, somente para destacar que, no fundo, nenhuma saga se tornará vitoriosa sem o amor. Com bem diz Tião: “nada que se possa ter, vai te fazer feliz, se não souber amar”. Esta é uma lição ainda necessária para o mundo em que vivemos.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Não vou soltar sua mão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 21:43:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao encontrar a fotografia de uma mulher com rosto semelhante ao seu, Mariana sente o chão da casa — e da infância — rachar. Filha adotiva de Helena, vê a relação de ambas se desfazer em silêncio e tensão, o que a impulsiona para saber mais sobre aquela mulher da foto. O que começa como uma fuga se transforma em uma jornada profunda ao emergir em memórias, traumas e segredos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>não vou soltar sua mão</em> é a história de uma jovem que, para descobrir quem é, precisa atravessar dores e histórias que não são suas, mas que a levarão exatamente para onde deve ir.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>na sala da casa, a foto em família parecia tomar todo o ambiente.<br />
Mariana passou o dedo e riu de sua cara fechada e dos cabelos<br />
puxados para trás.<br />
olhou pro pai, pensando em como ele estaria hoje — em como<br />
aquele dia seria<br />
se ele existisse<br />
naquele hoje.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Voo cego em zona morta</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/voo-cego-em-zona-morta</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 20:56:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu estava sentado numa saleta, pensativo, num estado de espírito muito próximo ao melancólico, possivelmente em virtude do tempo chuvoso, quando Milena entrou, me cumprimentou e sentou-se na poltrona próxima. À luz do dia, padre, mostrou-se em todo o seu esplendor de mulher sedutora, causando-me um arrepio de prazer, considerando as recordações da noite anterior, quando a tive nos braços. Era uma beleza selvagem, felina...</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Romance confessional, <em>Voo cego em zona morta</em> é o trágico relato de um homem moralmente corrompido. Ao externar mágoas, frustrações e recalques, dando ênfase a defeitos e virtudes mascarados, o personagem encarna cada um de nós em nosso comportamento cotidiano, com nossos vícios, hábitos e pecados. Sobretudo os ocultos. Desafiado por um padre católico a fazer-lhe confidências, o narrador se desnuda, sem meias palavras, de forma franca e direta. E expõe a hipocrisia, o individualismo e a mediocridade que caracterizam a sociedade contemporânea, destacando a ambiguidade inata do ser humano. Ao tirar as máscaras que lhe escondem a verdadeira face, ao expor feridas e cicatrizes, o protagonista denuncia a decadência individual e coletiva da atual civilização, tornando-nos cúmplices também de sua existência atribulada e sem rumo. A vida de boêmio, a conturbada relação com as mulheres, a vida solitária e a suposta arrogância e narcisismo camuflam a busca da descoberta interior e da sua verdadeira origem familiar. Ele guarda segredos íntimos que aos poucos vão se revelando, numa trama que, no fundo, é a história de um homem tentando encontrar-se e redimir-se. No melhor estilo do existencialismo ateu propagado por Sartre, o décimo segundo livro de ficção do escritor gaúcho Luiz Carlos Freitas se embrenha em novas vertentes da corrente filosófica-literária que marcou especialmente os séculos XIX e XX. Em consonância com o “absurdismo” defendido por Camus, a obra revisita a comédia das criaturas e escancara o que há de mais obscuro na alma humana.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Kitchenete</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 20:48:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na volta para a casa, Célio sentia-se mais velho, mais responsável. Sentiu uma pequena vontade de contar ao rio o que havia acontecido, na esperança de que, sentado em sua margem, conseguisse deixar os pensamentos livres para correrem como água. Sentia-se cansado de tanto tentar controlar o sentir e o pensar. Mas julgou ridícula a ideia e entendeu que, dali em diante, deveria ser capaz de controlar as águas intensas de sua cabeça e agir de forma correta, como era exigido de um homem que tem o mundo pela frente.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em seu livro de estreia, Bianca Nóbrega ergue diante do leitor uma cidade que não se encontra em mapas oficiais, mas que pulsa em cada página como se fosse real. À primeira vista, trata-se de uma metrópole com todas as marcas de um espaço urbano: o concreto que se impõe, o ruído que nunca cessa, a pressa que atravessa os dias. No entanto, ao nos aproximarmos com a lupa que a autora nos oferece, descobrimos que essa cidade, antes imensa, é também um microcosmo de vidas singulares, de histórias que se esbarram, se iluminam e se confundem, uma espécie de kitchenette que revela a complexidade da experiência humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada conto abre uma janela para um apartamento, uma praça, um corredor de prédio ou um café anônimo. São cenários comuns em que são encenados sonhos adiados e epifanias discretas. Os personagens que habitam essas narrativas carregam desejos, frustrações, silêncios e pequenas revelações. Mesmo quando deixam a cena, continuam a existir nas margens de outras histórias, compondo uma cidade anônima, embora estranhamente familiar. É como se cada vida narrada fosse um fragmento de um mosaico maior, em que a solidão e o cansaço convivem com a busca insistente por sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Bianca Nóbrega constrói sua cidade literária com delicadeza e intensidade, convidando o leitor a caminhar por ruas invisíveis e a reconhecer, nos gestos cotidianos de seus personagens, reflexos da própria vida contemporânea. Há, em cada conto, uma tensão entre o anonimato e a proximidade, entre o isolamento e a possibilidade de encontro. Essa ambiguidade dá ao livro uma força particular: nele, ninguém está realmente sozinho, ainda que todos se sintam assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que um conjunto de histórias, esta obra é um convite à reflexão sobre o que significa habitar uma cidade — seja ela concreta ou imaginada. Ao percorrer suas páginas, o leitor é levado a reconhecer que, por trás das fachadas e dos ruídos, há sempre vidas que se entrelaçam silenciosamente, compondo uma sinfonia de existências que, embora anônimas, são profundamente humanas. Bianca Nóbrega estreia com uma escrita sensível e envolvente, capaz de transformar o ordinário em extraordinário e de revelar, nas pequenas fissuras do cotidiano, a beleza e a dor de estar vivo.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O ventríloquo de Ybyrá</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 20:10:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">qual o tempo das coisas, dos sonhos, dos desconhecidos habitando em nós? no instante do encontro onde se colore a separação, tudo que brota da terra desata ao fórceps da colonização. na criança que renasce, o anúncio de uma infância morta. um romance que dialoga com as imagens que Araquém Alcântara revela e a linguística de um povo (quase) exterminado que sonha com a permanência. toda árvore é sonho que brota nos pulmões.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vitor Miranda</em></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como muitos de nós, “Núncio abriu seu mundo em total solidão”. E, a partir daí, foi sentenciado a novos cenários, novos contextos e antigas humilhações. O protagonista de <em>O ventríloquo de Ybyrá</em>, romance de estreia de João Paulo Vieira, vivencia uma jornada em que o passado continua a assombrá-lo, seja por meio da figura violenta do padrasto ou pela dissonante imagem da mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Com um enredo repleto de reviravoltas e diálogos bem construídos, a narrativa transforma fazendas, florestas e cidades em extensões dos conflitos internos e externos de personagens complexos e cheios de contradições.</p>
<p style="text-align: justify;">No centro da história estão os traumas familiares e a busca incansável pela redenção. Mas não só. Ao longo de pouco mais de duas décadas, Núncio redescobre feridas abertas, revisita as barbáries do passado e planeja sua vingança.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo caminho que parece guiá-lo até Ybyrá — um lugarejo com mais armas que gente –, conhece um pouco mais do Brasil profundo e compreende que há mais infernos na cidade do que na carvoeira.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O ventríloquo de Ybyrá</em> é um romance de formação sobre privação, desejos, violência e espaços pouco capazes de acolher o outro. Com uma escrita elegante e um trabalho que se baseia na psicanálise para construir personagens, João Paulo Vieira apresenta uma narrativa envolvente e existencialista sobre um Brasil desigual, autoritário e alheio à brutalidade.</p>
<p><strong>Bruno Inácio</strong></p>
<p>Jornalista e escritor</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Música da noite</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 15:42:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ouça com atenção.
A noite já vai alta, e com ela vêm as vozes.
Vozes tão antigas quanto a mata. Vozes que se lembram. E que falam. São as crianças da noite, crias do medo ancestral que formam nosso folclore. Arautos de julgamentos e assombrações, terrores e culpas que se recusam a morrer. São essas as protagonistas das histórias que você está prestes a ler, nos contos que compõem esta Música da noite.
Aproxime-se e ouça.
Afinal, a noite é cheia de sons.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>A noite está próxima. </em>[&#8230;]</p>
<p><em>Pressinto uma sombra, a envolver-me. Ouço músicas&#8230;</em></p>
<p><em>espirais de som subindo aos subúrbios da alma.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Al Berto, <em>Horto de incêndio</em> (1997)</p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Música da noite</em>, de Lucas Freitas, é um livro que nos convida a atravessar a escuridão: não apenas a que se aninha na noite paraibana, mas também aquela que habita a memória, a culpa e o medo. Em cada conto, o autor convoca figuras do imaginário para costurar histórias em que o sobrenatural age como continuação da vida cotidiana, ampliando seus conflitos e dores.</p>
<p style="text-align: justify;">As páginas pulsam a partir de uma chave essencial: o som. Nada aqui acontece em silêncio. O lamento incessante de criaturas ancestrais, os passos que ecoam à meia-noite, o farfalhar das árvores que esconde decisões perversas, a batida na porta que marca um retorno inesperado, a gargalhada que pressagia a morte. São os ruídos os verdadeiros faróis das personagens, anunciando presenças ocultas e instaurando um clima de tensão profunda. As narrativas tornam-se, assim, verdadeiras composições sonoras, nas quais cada barulho é um prenúncio, cada silêncio é uma ameaça, e cada voz, humana ou não, molda os caminhos da leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Sombrio, envolvente e bastante enraizado na cultura popular nordestina, <em>Música da noite</em> é um livro que transforma lendas em presença viva e a noite em território de revelações. Um conjunto de contos em que o medo se constrói tanto pela aparição fantástica quanto por aquilo que reverbera dentro das personagens (ou seria dentro de nós?) quando a escuridão se aproxima e começamos, inevitavelmente, a ouvir.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Valnikson Viana</strong></p>
<p>Professor, escritor e mediador de leitura. Doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A pele dos peixes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 11:01:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pele que guarda mar, memória e ferida. Peixes que nadam entre infâncias, exílios e águas que sobem. Nestes contos, o corpo é território, o tempo é líquido, e o que resta é o brilho fugaz de uma escama antes do mergulho. Alexandra Lopes da Cunha costura Brasília, Porto Alegre e Portugal num mosaico de vozes que resistem ao esquecimento.

&#160;
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>10% de desconto</strong></span>
<span style="color: #ff0000;"><strong>PRÉ-VENDA ATÉ 14/06/2026.</strong></span></p>
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>Os livros serão enviados no prazo máximo de 15 dias após o término da pré-venda</strong></span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Numa prosa de cadência hipnótica, atenta ao ritmo e ao detalhe, Alexandra Lopes da Cunha abarca, nestes contos, temas que atravessam o nosso tempo, das alterações climáticas às migrações, do colonialismo à maternidade, do envelhecimento às artes e à literatura. No entanto, essa diversidade temática converge para uma reflexão implacável: a injustiça, social ou natural, como condição estrutural da existência.<br />
O retrato idílico da infância chega-nos atravessado pela consciência de que tudo se esboroa. “Nunca mais vou ser tão feliz”, diz a adolescente, melhor amiga da narradora num conto sobre corpos jovens à beira-mar, risos sem preocupações, prazeres por descobrir. E com a meia-idade vem a solidão.<br />
Casas e cidades são construídas como promessa de futuro e tornam-se, anos depois, ruína, como os corpos. Da construção de Brasília e do sonho malogrado de progresso às paisagens do Sul do Brasil, do mar às ruas urbanas, os espaços não funcionam apenas como cenário.<br />
Há ecos de uma tradição romântica na melancolia, no retrato dos artistas malditos, dos deslocados e no reconhecimento da natureza como presença ativa. O vento ou a água que avança sobre a terra torna-se força que interfere na vida humana.<br />
Mas se no poema “Ode ao Vento Oeste”, de Percy Bysshe Shelley, o vento é exaltado como renovador, o “Minuano” de Alexandra Lopes da Cunha revolve o passado e traz recordações sem espalhar sementes revolucionárias. É esse olhar lúcido e desencantado que distingue a sua escrita dos românticos e a situa firmemente no presente.<br />
No conto final, que dá nome ao livro, a autora abandona a memória e o passado para se projetar num futuro distópico. Num cenário inquietantemente próximo, as águas tomaram conta da terra. A narradora vê o mundo tal como o conhecia desaparecer. Não há espaço para nostalgia nem para contemplação. É preciso adaptar-se, aprender novas formas de viver, endurecer para sobreviver.<br />
<em>A pele dos peixes</em> é um livro sobre a inclemência da passagem do tempo, que desmorona o corpo, a casa, a terra e, eventualmente, a memória, porém não se vota completamente à desesperança. A obra encontra, na própria linguagem, uma forma de atravessar a enxurrada dos tempos sem perder a iridescência da pele dos peixes.</p>
<p><strong>Sandra Castiço</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Branco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 10:24:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Neste romance de estreia na ficção longa, Carla Coelho Branco constrói uma narrativa hipnótica sobre os prazeres secretos que nos definem. Ao passear por corredores hospitalares, a protagonista descobre mais sobre si do que sobre os doentes que visita. Com prosa depurada e um olhar cirúrgico sobre a duplicidade quotidiana, o livro confronta o leitor com a pergunta incómoda: quantas vidas vivemos, afinal, para além da que os outros imaginam?

&#160;
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>10% de desconto</strong></span>
<span style="color: #ff0000;"><strong>PRÉ-VENDA ATÉ 31/05/2026.</strong></span></p>
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>Os livros serão enviados no prazo máximo de 15 dias após o término da pré-venda</strong></span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A ciência é incerta sobre o que ocorre na mente daqueles que estão em estado de coma. Mas a arte não se inibe em fintar o incerto. Criar é fazer existir. E é essa a audácia da escrita de Branco de Carla Coelho: uma promenade hospitalar e psicológica através do olhar de uma mulher, tradutora de ofício, que, diante do insondável, imagina. A cor do título ecoa no espaço físico onde ocorre a acção, um hospital privado com paredes e corredores brancos, e repousa na palidez dos rostos e corpos comatosos. Mas convoca, antes que tudo, o lugar primordial da criação: a folha em branco. O branco é o campo infinito onde podemos encontrar as (nossas) vidas por imaginar. A autora sabe-o e leva-nos para esse exercício.<br />
Os elementos formais do livro são-nos entregues sem rodeios e emancipam-nos na leitura. Há um contrato íntimo com o leitor, que, sabendo a priori qual o artefacto do romance, colabora com a autora a imaginar as vidas daqueles que a protagonista começa a visitar de forma regular e oculta. Mas, ao contrário dos conflitos internos que esta mulher, tradutora, mãe de família e, ao fim e ao cabo, criadora, tem com a antiética da mentira, o exercício de suposição permite ao leitor entrar em contacto com a sua própria arte da imaginação. É neste pas-de-deux imaginário, entre autora e leitor, que laços afectivos se vão criando com R. e A., personagens entregues a um lado impenetrável da vida.<br />
Neste novo livro de Carla Coelho, flores nascem entre pedras de jardim, mesmo quando nos quartos do hospital morre gente. Os mais delicados sinais de vida são apontados como uma fresta de esperança, sem com isso nos lançar para transcendências gratuitas. A escrita de Branco flui como quem improvisa a vida em tempo real. E, se a morte é uma sombra incessante que nos ameaça com um fim à vista, este livro prova o contrário, a certeza de que a imaginação será sempre o início de tudo.</p>
<p><strong>Cláudia Varejão</strong></p>
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		<title>A carne entre dois ossos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2026 21:14:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os contos de A carne entre dois ossos compõem a imagem do abraço, por meio de narrativas de amor e de delírio, que tensionam o que é próprio do humano com as ideias óbvias e pré-concebidas que são ensinadas sobre o amor. Neste livro de estreia de Yann Maia na prosa, a sucessão de paisagens, seja de cidades ou de cenários íntimos, constrói um painel de relações afetivas, que entre o mistério e a saudade, desafiam a razão, naquilo que permite o encontro entre dois seres, mas que também os condena aos desafios do tempo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Foi Júlio Cortázar quem escreveu: “A gênese do conto e do poema é [&#8230;] a mesma, nasce de um repentino estranhamento, de um deslocar-se que altera o regime ‘normal’ da consciência”. Escolhi destacar esse trecho de Cortázar porque, ao ler os contos deste A carne entre dois ossos, senti o arrepio que se sente quando sabemos estar em contato com matéria poética capaz de se fundir e se transmutar em algo maior que a coisa em si.</p>
<p style="text-align: justify;">Um tipo de matéria capaz de deslocar a nossa percepção, atraindo-a para um corpo-centro, semente, tal qual acontece na poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao ler os contos de estreia de Yann Maia, foi impossível não sentir um deslumbramento, uma melancolia&#8230;<br />
um êxtase! A escrita, esculpida com refinamento, nos convida a adentrar pelos interstícios de narrativas que, apesar de curtas, parecem possuir mil camadas, mil véus (assim como os poemas!). Narrativas que se desembrulham, aos poucos, de si mesmas, nos levando a tocar o universo íntimo, tantas vezes ambíguo, de personagens humanas, tão humanas, que nos espelham em suas fragilidades, carências, afetos, solidão.<br />
Alguns contos marcam pela urdidura delicada. E é nessa delicadeza que as personagens nos entregam a própria existência. É impossível não se emocionar com Alzira, matriarca de um cotidiano que, vagarosamente, a engole entre paredes, enquanto prega a Deus naquele ano de 1991. Ou com os irmãos do conto que dá título à obra, que nos fazem sentir a carne viva de tantas melancolias, memórias e desencontros.<br />
Nestes contos, Yann nos apresenta um livro escrito sob a fina linha da sensibilidade tão bem combinada à lapidação das palavras, essa matéria às vezes fugidia, mas capaz de alcançar algo em nós, forma sublime de se contar o humano.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Taylane Cruz</strong><br />
escritora</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A mulher do Copan</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-mulher-do-copan</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2026 13:38:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“— cvv, boa noite!” A voz feminina ressentida: fantasmas e dores do passado. Bárbara vive só entre os milhares de moradores do Copan e os milhões de habitantes da cidade de São Paulo. Em seu mergulho sem rede às profundezas da solidão humana, encontra no espaço disforme e nebuloso da memória a adolescente acuada em um ambiente familiar dominado pela indiferença. Em sua clausura, pinta quadros que desvelam seu íntimo — a descoberta do amor, a primeira entrega, o envolvimento com as drogas, as relações fugazes, o diálogo constante com a proximidade do fim. Um mergulho repleto de temor e coragem.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao ler <em>A mulher do Copan</em>, tive a impressão de reviver diversos momentos do enredo da minha vida: a curiosidade adolescente sobre o amor, sobre o sexo e, finalmente, a madura percepção de que o sexo não faz ninguém deixar de ser virgem no amor. Acompanhar a trajetória de Bárbara — a mulher do Copan — sobre a percepção do relacionamento hipócrita dos pais, sedimentado na infelicidade da acomodação, a fuga da realidade pelo alcoolismo, o descobrimento da arte como elaboração do trauma e a busca incessante pelo amor genuíno que atravessa sua amizade com Ivana, seu namoro adolescente e perigoso com Pietro até o encontro improvável com João Batista não só permitiu o meu reconhecimento, como creio que, também permitirá, a rememoração amarga e doce do existir de cada leitor do romance de Sílvio Liorbano. É preciso chamar a atenção para a sensibilidade do olhar na criação da personagem principal Bárbara, especialmente em tempos literários, nos quais a imagem dos autores se mistura tanto ao narrado: <em>A mulher do Copan</em> é uma obra de autoria masculina que relata o subterrâneo do feminino e a busca universal pela maturidade do amor sincero; é, mais que isso, uma fresta prazerosa diante do sufocamento coletivo das violências e das injustiças, permitindo uma (re)visão justa e honesta de quem fomos, queremos e podemos ser.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Amanda Kristensen</strong></p>
<p>Doutora em Letras e escritora.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Litost</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 16:46:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Num desses dias, uma folha seca desprendeu-se e caiu num círculo quase perfeito. A queda foi demorada, como se houvesse, naquele pedaço de mundo, um acordo para que os acontecimentos não pesassem. Fiquei presa à folha, como se ela tivesse me escolhido. Quando tocou o chão, senti que minha permanência ali fora renovada por mais vinte e quatro horas.</p>
&#160;

<span style="color: #ff0000;">O livro está em pré-venda até 06 de junho. Os exemplares serão enviados após a data. </span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando li um trecho do livro para um amigo médico, ele me perguntou por quais hospitais essa paciente já havia passado. De certa forma, me senti impactado, pois tamanha é a associação de aspectos comuns de “humanidade” que se fazem em relação à personagem. Disse a ele que se trata de ficção, e a resposta foi: “impressionante o relato”.</p>
<p style="text-align: justify;">A precisão no detalhamento de fatores que, para a maioria das pessoas, é difícil de pensar ou sentir, torna a Denise uma escritora extraordinária. A forma como conduz o mergulho nas profundezas da mente da personagem, em sua própria mente e, consequentemente, na do leitor, provoca uma espiral de emoções, sentimentos e lembranças do que nos é comum, tornando possível nos colocar como agentes, e não somente observadores do texto — mas sim uma <em>Litost</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência é incomodativa, instigante, real e ao mesmo tempo fictícia. Distante como a infância, e presente como as angústias do nosso tempo. Às vezes, vê-se Verônica, às vezes Denise; às vezes uma paciente, às vezes a loucura; mas, na maior parte delas, vê-se a realidade, o humano, o feio e o deplorável em essência, coisas pequenas que se amontoam no ventre e que nos unem ao redor desta obra.</p>
<p style="text-align: justify;">Leia como leitor, mas leia também como escritor, como se estivesse enxergando o texto por cima do ombro da autora enquanto ela escreve, e tente conversar com ela. Isso é possível neste romance. Depois, escreva você mesmo nas páginas do caderno azul e perceba que <em>Litost </em>é um pouco de cada um de nós. <span style="color: #ffffff;">Denise Veras</span></p>
<p><strong>Valdimir Lima</strong></p>
<p>Psicólogo</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Mariposas: sobreviver sem ossos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/mariposas-sobreviver-sem-ossos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 12:55:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O livro de contos que o leitor tem em mãos é um convite a uma experiência de vertigem. Para percorrê-lo, é preciso acompanhar uma topografia que vai se revelando aos poucos, por meio de elementos que retornam — a mariposa, o espelho, o poço, o rio — e de temas que insistem: infância, segredos familiares, silêncios herdados, medos, loucura, violência. Um livro que convoca o leitor a uma escuta atenta, disposto a atravessar zonas de indeterminação. Não há garantias nesse percurso — apenas a experiência de se deixar afetar.</p>
Carla Cervera Sei]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A escrita que Fabrício Vijales nos apresenta em <em>Mariposas: sobreviver sem ossos</em> requer do leitor a sustentação de um gesto. Como um “inventário impossível da subjetividade circunscrita pela falta”, sua narrativa nos conduz a um lugar incômodo, úmido, de fruição, como diria Roland Barthes, em que a linguagem se parte e se esfacela diante do horror para dar lugar à escrita de um corpo que se tece na fresta do sentido, ou na ausência dele. Feito de restos (de infância, de palavra, de memória, de traumas), o texto abre uma fratura no espaço-tempo e nos convida a uma travessia. O leitor, nesta passagem, é uma testemunha-chave que toca a densidade de um mistério ainda sem forma, e que sente, em seu próprio corpo, efeitos de desmarginação que irrompem e rompem com a pretensão de localizar qualquer ideia de centro. Neste trabalho, entramos em contato com uma ideia crucial à qual Fabrício tem se dedicado em seus trabalhos: o fragmento e o mosaico. Como sua leitora, eu adicionaria algo a mais: a vertigem. Sem temer o abismo, <em>Mariposas: sobreviver sem ossos</em> é uma construção sofisticada e complexa que inaugura uma busca de sentido ao que permanece deteriorado sob a forma de escombro, horror, angústia, ausência e ruína. O livro é um verdadeiro convite para que não temamos perder nossos contornos, acompanhados de nossas memórias. A potência poética do texto faz lembrar o trabalho da artista brasileira Lenora de Barros, para quem a linguagem é uma matéria viva e erótica, uma “fluição” entre a língua e o corpo. <em>Mariposas</em> é mais do que uma alegoria ou uma imagem: é letra, vestígio e palavra a nos amparar diante do irrepresentável.</p>
<p><strong>Isadora Machado</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Onde bala tem nome</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/onde-bala-tem-nome</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Apr 2026 20:15:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Mais do que uma simples linha desenhada em um mapa, a fronteira é babélica, móvel, um lugar onde realidade e fantasia se confundem. Os fronteiriços são apátridas na própria terra, seres paradoxalmente ameaçados e protegidos pela violência, vivendo em um eterno entrelugar: o estrangeiro vem de fora ou os estrangeiros somos nós mesmos? A terra sangra ao seu redor. As chamas avançam pelos campos, originando riqueza, mas destruindo vidas. Este é o cenário conturbado e fervilhante no qual ocorrem as histórias presentes em <em>Onde bala tem nome. </em></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma fronteira nos remete a uma ideia de divisão: o lado de cá e o lado de lá, o nós e o eles. No entanto, a fronteira que separa Ponta Porã, Brasil, de Pedro Juan Caballero, Paraguai, é seca, o que, em sua mais aparente contradição, a torna mais fluida, sem barreiras visíveis. Há, nessa região, uma confluência entre dois mundos que <em>Onde bala tem nome</em> busca reconstruir ao coletar, fragmento por fragmento, pequenas imagens de um mosaico feito de contos. De um lado, apresenta-nos o mundo do primitivo e do ancestral em suas mais diversas facetas: a natureza que se manifesta em toda a sua violência; as relações históricas de opressão, exploração e conflitos; os encantamentos e as crenças sobre o desconhecido e o divino, que nos prometem algum grão de esperança em relação ao porvir. Do outro lado, nos introduz ao mundo do contemporâneo em um contexto marcado por um ambiente de tecnologias falhas, incongruências entre modos de vida distintos, linguagens híbridas e um latente espanto por um local que, sob a perspectiva do medo, tem trocado sua coroa de princesa dos ervais pelos grilhões do narcotráfico.</p>
<p style="text-align: justify;">É com um olhar perscrutador e crítico que Jonattan Castelli nos apresenta essa fronteira, sem deixar de transparecer sua admiração pela riqueza cultural desse lugar. Forasteiro em terra própria, Jonattan demonstra lucidez ao abordar temas complexos como a sub-humanização dos indígenas e escravizados, o avanço do agronegócio, a pedofilia e, claro, o tráfico de drogas. Ao mesmo tempo, mostra toda sua sensibilidade ao dar uma voz genuína às suas personagens, por vezes lançando mão do vocabulário Guarani-Kaiowá e de narradores infantis que nos permitem vislumbrar o talento de sua escrita e de sua percepção aguçada desses dois mundos que se chocam nos limites da fronteira. <em>Onde bala tem nome</em> é um convite à reflexão social e a uma literatura brasileira corajosa e vibrante, não nos permitindo vislumbrar uma divisão clara entre o real e o imaginário.</p>
<p><strong>Oz Iazdi</strong></p>
<p>Professor de Economia da UEMS</p>
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		<title>Impacto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Apr 2026 21:16:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em Impacto, Maria Carla de Avelar Pacheco tece as histórias de mulheres marcadas por culpas que carregam em surdina: o que se faz quando o instinto de sobrevivência fala mais alto do que o amor? O que resta quando se escolhe a si mesma?
Um romance sobre maternidade, fé e os abismos que chamam outros abismos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Impacto</em> é um romance sobre culpa, ambição e as marcas invisíveis que atravessam o tempo. A narrativa acompanha a trajetória de Inês, uma mulher moldada por um episódio ainda na infância. Ao brincar à beira de um poço com o irmão, José, ela o empurra para se salvar. Essa decisão jamais é plenamente elaborada e repercutirá até o fim da história.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir desse ato, Inês passa a conduzir a própria existência sob o signo da contenção, do pragmatismo e do desejo de ascensão. Carregando um segredo, foge de casa, sobrevive em trabalhos precários em Salvador e no Rio de Janeiro e se envolve com Tadeu, um homem sedutor e moralmente opaco, cuja influência molda sua relação com o poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Grávida e abandonada, segue para Brasília nos anos iniciais da capital. Ali constrói um novo caminho, forma uma família, cria dois filhos e ascende socialmente por meio de negócios cada vez mais ambíguos. Sua existência se entrelaça ao espírito de uma cidade erguida entre promessas de modernidade, oportunismo e aparência.</p>
<p style="text-align: justify;">Augusto, o primogênito marginalizado, cresce marcado pela inadequação e pela rivalidade com o irmão. Conrado, o favorito, forma uma família com Cris, cuja vida de beleza e dinheiro aparentemente perfeita é devastada por sucessivas perdas gestacionais. Aos poucos, Cris se desloca para um território de luto, obsessão e delírio, criando rituais às margens do lago e atribuindo sentidos inquietantes a uma imagem de Nossa Senhora, que passa a ocupar um lugar central em sua mente.</p>
<p style="text-align: justify;">O impulso de Inês quando criança de sacrificar o irmão em seu lugar não se limita ao passado. Esse momento funda um rastro que se infiltra por gerações e alcança os descendentes de Augusto e Conrado, reaparecendo como luto e compulsão. O acontecimento inicial se transforma, mas não desaparece.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturando realismo e elementos fantásticos, <em>Impacto </em>explora o efeito em cadeia de um único gesto e o modo como essa escolha perpassa o tempo, moldando afetos, relações e destinos. É um livro sobre o instante em que um corpo em queda encontra a água e sobre as ondas que seguem se espalhando depois do choque.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Emancipação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Apr 2026 14:47:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por que temos tanto medo de viver nossos desejos? Por que preferimos o amargor adocicado das fantasias? Antônio e Carlos, separados pelo destino, são postos frente a frente décadas depois de muitos desencontros. O chão que agora os separa da juventude, marcado por perdas, pela disputa dos amores desencontrados e pelas ilusões desfeitas é revisitado. Ao inventário de pequenas misérias mistura-se a história de Laura, e de um triângulo formado nos tempos em que o país, mergulhado em chumbo, oscilava entre a convulsão e o transe, selando a sorte dos três. Como reparar tantas dores?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Emancipação, </em>romance inaugural de Cleon Bassani Ribas, é um gesto de coragem e inconformismo, que requestiona, com maestria, o que ainda nos resta da ditadura. O resultado dessa coesão é uma ficção díspar, de modo que o livro anunciado logo revela ser um outro, muito mais noturno e obtuso, ao jogar com três destinos frágeis tragicamente embaralhados, que revelam sabotagens do humano e suicídio civilizacional. Assim, o livro experimenta, com franca lucidez, a aproximação de dois modos de interioridade: tanto aquela das sobras do Brasil na documentalidade de Antonio Callado ou Carlos Heitor Cony quanto aquela das sombras da cultura na expressão de Lúcio Cardoso ou Raduan Nassar. Apostando conscientemente na narrativa sem ser em nada trivial, sucedem-se quatro momentos misturados com perspicácia, os quais convidam o leitor, respectivamente: à queda de um verão não tão idílico, à imundice invisível sob o sol do outono, à vanidade do inverno e, por fim, à inconsciência redentora de uma primavera. Como não poderia deixar de ser, o desafio proposto por uma tentativa de ordem panorâmica ou matemática, em um enredo complexo e corajosamente clássico, submerge com a queda da própria realidade, através da qual o autor desvenda, página a página, nossa própria derrota. Derrota diante do silenciar das testemunhas dos porões dos dops, da afasia daqueles privados de martírio — ou de Messias — e da letargia dos herdeiros de nenhuma sabedoria, senão do horror. Enfim, <em>Emancipação</em> é um encontro entre a grandeza da Literatura e os fragmentos de sensibilidade que ainda nos restam, sobretudo quando a ditadura, como este livro evoca, não nos tornou melhores.</p>
<p><strong>Leonardo D’Avila</strong></p>
<p>Editor da Tétrade Edições e doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Crônicas para ler em um dia qualquer</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/cronicas-para-ler-em-um-dia-qualquer</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Apr 2026 16:32:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Crônicas para ler em um dia qualquer é um convite a olhar para o que quase sempre passa despercebido. Entre memórias, ironias e pequenas tragédias cotidianas, o livro revela personagens comuns atravessados por afetos, ausências e contradições. Aqui, o riso convive com o incômodo, e a nostalgia caminha ao lado da crítica social. Cada crônica nasce do ordinário, mas aponta para questões profundas da existência. São textos que não pretendem trazer ensinamentos, apenas compartilhar humanidade. Um livro para ser lido sem pressa, no intervalo da vida real. Porque, às vezes, uma leitura despretensiosa é tudo o que precisamos em nosso dia.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Que delícia de leitura! A crônica de Chirles é um verdadeiro mergulho na memória e nos sentidos. Dá pra sentir o sabor, a textura e até a saudade em cada palavra, um convite à infância e à doçura escondida no quintal da memória. Cada palavra tem o sabor do tempo maduro, o brilho da fruta na sombra e o toque suave da saudade. Que beleza transformar simples jabuticabas em pura poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Simone dos Reis</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O Senhor do Adeus</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-senhor-do-adeus</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2026 11:08:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p class="ds-markdown-paragraph">"Um dia estava na rua e acenaram-me.
E eu acenei de volta"
João Manuel Serra, O Senhor do Adeus


Há encontros que nascem de um aceno. Um gesto simples, quase invisível, que atravessa o para-brisas e toca alguém do outro lado. João Albano Fernandes constrói, neste romance vencedor do Prémio Montijo Jovem 2022, a história de um homem que, na solidão dos dias que lhe restam, descobre que dizer olá pode ser mais urgente do que qualquer despedida.</p>
<p class="ds-markdown-paragraph">O velho do Saldanha não tem família, não tem pressa, não tem onde chegar. Tem dores nas costas, uma mãe falecida com quem ainda discute, e um braço que um dia, quase por acaso, se levanta para acenar. A cidade responde. E nessa troca mínima — uma buzina, uma mão no ar — habita talvez o essencial: a certeza de que ninguém quer passar por este mundo sem ser visto.</p>
<p class="ds-markdown-paragraph">Entre o Cemitério dos Prazeres e a Praça do Saldanha, entre as visitas à campa da mãe e as noites frias em que se instala no seu posto como um farol na costa, o velho vai tecendo uma comunidade improvável. Condutores anónimos, um rapaz de bicicleta amarela, vizinhos que redescobrem o gesto de cumprimentar. E, no meio de tudo, a ausência de um amor antigo, um poema de que já não se lembra, e essa pergunta que todos fazemos: terá valido a pena?</p>
<p class="ds-markdown-paragraph">Como lhe chamou Pedro Abrunhosa: <em>"Sou estátua de pele e de sonhos, / O Príncipe Feliz do Saldanha, / Escondo andorinhas no peito, / O coração é de quem o apanha."</em> Este livro fala do que nos faz humanos: a fragilidade, a memória, o medo de não ter feito a tempo, e essa coisa estranha que é precisar dos outros mesmo quando já aprendemos a prescindir deles. Não se trata de salvar o mundo. Trata-se, apenas, de não deixar ninguém passar sem um aceno.</p>
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>10% de desconto</strong></span>
<span style="color: #ff0000;"><strong>PRÉ-VENDA ATÉ 24/05/2026.</strong></span></p>
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>Os livros serão enviados no prazo máximo de 15 dias após o término da pré-venda</strong></span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Esta história de desamparo e solidão transforma-se, no seu final, numa história de esperança, em que o afeto entre os seres humanos é celebrado através do gesto do adeus. É esta transformação alquímica que constitui a maior das virtudes desta obra, que conta com um trabalho primoroso de linguagem e de compreensão psicológica das personagens. Desde a Dona Lucinda ao jovem Artur, companheiro do «Senhor do Adeus» nas suas peripécias, todas estas figuras são constituídas por uma humanidade rara, o que confere à obra uma dimensão reflexiva particular, nomeadamente do modo como podemos transformar os sentimentos mais negativos em humanidade irradiante.</p>
<p><strong>Maria João Cantinho</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Planetas doces na penumbra</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/planetas-doces-na-penumbra</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Apr 2026 11:06:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[— É para o Roseiral, se faz favor — enunciou, gerindo temerosamente o espaço tomado pelas botas na retaguarda do condutor. A viatura entrou em movimento, despertando o alarme do cinto. Tim. Tim. O coração de Carlota pôs-se-lhe ao ritmo enquanto, atabalhoada, deitava as mãos à faixa negra e puxava, puxava. Não entrava: não era aquele o trinco. Era o do lugar do meio. O que lhe pertencia estava enterrado nas ranhuras entre os bancos repletas de cotão, areias e pele morta. Tim. Tim. O clique final recuperou-a da urgência fria e incómoda. Cheirava a hortelã-pimenta. Ajeitou-se na cadeira, sentindo ainda o peso das botas para as quais mal tinha espaço e, finalmente, olhou o condutor no retrovisor.
Ele olhava de volta.

(O Roseiral, página 9)
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>10% de desconto</strong></span>
<span style="color: #ff0000;"><strong>PRÉ-VENDA ATÉ 24/05/2026.</strong></span></p>
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>Os livros serão enviados no prazo máximo de 15 dias após o término da pré-venda.</strong></span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Esta colectânea é o perfeito aglomerado da natureza eclética e exploratória de Carolina Fidalgo. Lê-la é, por isso, essencialmente, uma descoberta — de mundos e de sensações, de consciência, de como a estranheza, a violência e o absurdo se entranham no quotidiano e em todos nós.<br />
Em Planetas doces na penumbra, uma obra cujos temas a tornam intemporal, descobre-se também uma voz madura e elegante, onde as palavras são tecidas com precisão, sentimento e, sobretudo, com propósito. São palavras para guardar, para estimar no momento e mais tarde, no relicário da nossa mente.<br />
Só estes atributos seriam mais do que suficientes para fazer com que o leitor se apaixonasse por este livro, que submergisse nele, encontrando em cada frase novas chaves de significância. No entanto, ao percorrer estas histórias divididas em quatro partes, torna-se evidente que, aliada à forma, está outra das grandes fundações literárias: a imaginação.<br />
É nesse campo que a autora, entre a dureza concreta do realismo e o espectro prismático do fantástico, oferece fragmentos de quem é — vislumbres negros, cómicos, satíricos, trágicos — em narrativas intimistas que abrem espaço à reflexão, à desconstrução de conceitos e, em último caso, à reedificação de construções sociais e humanas.<br />
É raro encontrar uma primeira obra com uma linguagem tão maturada e inovadora, de sentidos e instintos tão apurados. Carolina Fidalgo é, portanto, uma raridade. Apreciem-na como tal.<br />
<strong>Pedro Lucas Martins</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>A água das plantas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-agua-das-plantas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2026 09:39:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As mãos de uma mãe, as mãos de um menino, a memória, um mundo, aquilo essencial que permanece em nós. Entre o lembrar e o viver “se não vier a chuva, cuida, meu filho, cuida da tarde, a água das plantas, elas esperam”. Um menino que tinha o cabelo da cor das águas do rio negro da terra, caracóis, correntezas, ventanias. Os cabelos de uma mãe que eram da cor das castanhas, da água e do sol, talvez fossem sonhos. Uma tarde que nunca termina.</p>
&#160;

<span style="color: #ff0000;">Plaquete em pré-venda até 08/05/2026. Os envios se darão posteriormente a essa data. </span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entre os maiores assombros humanos, certamente está a morte. Embora a finitude de nossa existência seja a principal certeza da travessia da vida, buscamos inevitavelmente respostas para decifrar o grande enigma vital. Diante do fim envolto no indissolúvel mistério, perseguimos incansavelmente alguma forma de fazer com que aqueles que amamos permaneçam, não se percam no esquecimento do mundo e, com eles, parte considerável de nós mesmos, do que fomos, do que somos e do que ainda poderemos ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Com maestria e sensibilidade, Daniel da Rocha Leite engendra essa ausência-presença pela palavra poética. Regando e perscrutando os porões da memória, o narrador de <em>A</em> <em>água das plantas</em> traz à tona a sua infância e redescobre um tempo “entre nós”, tempo esculpido pela voz de sua mãe. Palavras maternas que o faziam ver o passado não vivido, o protegiam dos perigos quando menino e o impulsionavam a imaginar mundos fantásticos dos livros. Entre palavras e silêncios de sua mãe, o narrador é encorajado a um estar-no-mundo viajante, guardando em seu íntimo o ensinamento: “és o teu sonho”.</p>
<p style="text-align: justify;">A exemplo da mãe, que erguia palavras como se erguem casas e cujas invenções repletas de ludicidade consertavam ora portas, ora medos, o narrador aprendeu a força das palavras. Uma experiência que, aproximando o leitor do pensamento de Walter Benjamin, fez o narrador compreender o mundo e a si mesmo através do encontro. A narradora-mãe planta no mundo e no filho um modo de olhar, um horizonte de possibilidades de ser. Assim, Daniel da Rocha Leite imprime, no âmbito da ficcionalidade, o tempo-vida que se tece e nos tece enquanto seres de linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante o desconhecido mistério do fim, consciente de que só a linguagem literária é capaz traduzir esse breve instante, o narrador de <em>A</em> <em>água das plantas</em> celebra o amor: a força que nos move. Por anos a fio, a mãe tocou a música da vida, um ritmo que não pode ser interrompido, pois “as plantas esperam”. O amor é, aqui, a força propulsora, viva e transformadora que sustenta, preenche, acolhe e nos constitui. O filho, então, plasma em sua narrativa a memória, inscrevendo a experiência do amor, eternizando-a. A frágil vida agora circula pelas águas da palavra do “livro sem fim” que somos, regando sonhos e semeando futuros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Joana Marques Ribeiro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, professora e pesquisadora na área de Literatura Infantil e Juvenil. Coautora do livro <em>Mediação de leitura: a literatura em jogo</em> (2024).</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>O palácio subterrâneo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-palacio-subterraneo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Mar 2026 13:50:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Enfrentando seres fantásticos e desafios, o príncipe Mandu luta para curar seu avô, o rei de Tamandaré, de uma terrível maldição. Em sua jornada, precisa descobrir o segredo desse misterioso lugar que é o Palácio Subterrâneo. Porém, acima de tudo, o jovem príncipe terá de confrontar os próprios medos e fraquezas.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Mandu, o herói dessa saga arquitetada por Paulo de Freitas em seu primeiro livro, <em>O Palácio Subterrâneo</em>, acaba por descobrir, ao final de suas aventuras, que “o fantástico da realidade não basta. Por isso, surgem as lendas” e é justamente nesse território, um não lugar entre o fantástico, a realidade e as lendas, que o leitor vai mergulhar ao abrir esse volume. Paulo nos conta a história de um pequeno príncipe e sua busca, não pelo muiraquitã de Macunaíma, mas pela esperança de salvar do mal do esquecimento o rei, seu avô, que fora amaldiçoado por uma bruxa poderosa e que está perdendo a memória. Não por outro motivo,  a literatura é sempre uma espécie de memória coletiva e o pequeno Mandu, ao empreender sua odisseia em busca da quebra do feitiço, nos lembra que a memória é a matéria que nos faz humanos. Sem memória, nada somos. A narrativa segue em camadas que vão sendo costuradas pela mão firme do autor, transitando entre a fábula e a mitologia, com seus símbolos e arquétipos, com suas passagens misteriosas, suas profundezas inconscientes, seus reinos ctônicos. Tudo nesse “palácio subterrâneo” é pretexto para a construção de significados que vão muito além de bruxas, demônios, anjos com mais de duzentos olhos, um Pirarucu-Rei, Curupira, Boiuna, a folha mágica. Manipulando referências de mitos amazônicos e do folclore brasileiro,  e usando sua criatividade para a composição das peripécias que envolvem o pequeno príncipe em sua saga no palácio subterrâneo do grande monstro, o autor ingressa na crítica à modernidade selvagem e destrutiva do meio ambiente. Mandu, em sua trajetória heroica, nos revela a realidade de um país que nos é, às vezes, tão familiar. Percebe enfim, nosso herói, como Sidarta, que o mundo é muito mais que seu reino pacífico, muito mais que um <em>locus amoenus</em>, e que, sem ação, sem decisão e coragem, as engrenagens em movimento nesse <em>locus horridus</em> destruirão qualquer pretensão de harmonia e beleza. Paulo de Freitas nos entrega uma deliciosa narrativa infantojuvenil que não dispensa o deleite da leitura por parte do público adulto.</p>
<p><strong>Leonardo Almeida Filho</strong></p>
<p>Escritor</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Se essa morte fosse minha</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/se-essa-morte-fosse-minha</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Mar 2026 08:13:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Com uma narrativa metafórica e embebida de sensibilidade, Se essa morte fosse minha flagra um retrato tão poético quanto carnal sobre amizade, abandono, solidão e resgate da criança interior: a mulher segura a mão da menina, a menina segura a mão da mulher. Este livro é um romance e ao mesmo tempo uma canção de ninar, mas, sobretudo, é um intenso exercício de ficção de uma escritora que se revela na ânsia de canalizar a dor do luto em palavra escrita.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em seu romance de estreia, Júlia Palhardi mergulha no imaginário da infância para tecer a simbiótica relação entre duas amigas, que “sob almas, sombras e verbos vão conjugando a si mesmas numa eterna primeira pessoa do plural”. O cenário é a fictícia cidade de Manacá da Serra, interior de Linhas Gerais, onde a protagonista, ainda criança, é levada para viver na casa “de quem há muito tempo se esqueceu como se brinca”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na vida adulta, ela sente se aproximar do “adultério de si mesma”. Todos os dias se tornam um recreio solitário, e Carolina vê seu passado ser assombrado por uma fatalidade do presente. Em uma narrativa que entrelaça primeira e terceira pessoas, as lembranças retrocedem e avançam no tempo. O leitor testemunha o desabrochar da maturidade de uma personagem que a todo momento permite o desaguar de seu inconsciente ao tentar reconstruir, caco a caco, as ruínas da sua subjetividade.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ela estava nesse buraco, em queda livre, desde quando caiu do útero.” Assim, com uma prosa guiada pelos sentidos, a autora coloca a unha em feridas que permeiam a tênue linha entre o belo e o trágico, o sangue e o gozo, o visceral e o poético que atravessam o corpo de mulheres do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">“Não sangrar em um mar de tubarões” é uma das poderosas metáforas sobre o luto nesta história extremamente fascinante, recheada de fotografias que capturam com sucesso o instante entre o sonho e a realidade. É também um livro sobre a loucura.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>O que falta é café</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 13:38:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que falta é café celebra a magia presente em cada xícara, seja quente ou gelada, forte ou suave. Do plantio ao aroma que invade a casa, o café acompanha encontros, memórias e recomeços. Entre risadas compartilhadas e momentos de introspecção, ele se torna pausa, afeto e convite. Mais que bebida, é ritual, companhia e metáfora da vida. Afinal, cada pessoa guarda uma história que começa ou renasce com um simples café. Qual é a sua?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Café para a alma</p>
<p style="text-align: justify;">Ao acompanhar a força criadora de Nélida Campos vi que, ali naquelas noites, estava se forjando uma escritora de mão cheia. Cuidadosa com a escrita, Nélida tecia o fio condutor de seus contos com zelo, trazendo para nós o sabor do café coado no fim de uma tarde de outono.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>O que falta é café</em>, Nélida Campos entrelaça contos onde o café é muito mais que uma bebida: é personagem, cenário e testemunha silenciosa das vidas que cruzam seu caminho. Cada xícara servida é um portal para um universo particular, um fio que costura memórias, desejos e segredos.</p>
<p style="text-align: justify;">Contos como “Incompleta” e “Café no singular” mostram a força criadora de uma autora em plena ebulição. A vida e o café se entrelaçam nas história mostrando como tudo pode se transforma em uma xícara de café.</p>
<p style="text-align: justify;">Do calor abafante de João Pessoa aos recantos mais íntimos da alma, esses contos revelam como o ritual do café pode marcar um reencontro, acalantar uma saudade ou acender a centelha de uma nova paixão. São histórias de amores que esfriam e se reaquecem, de amizades que se fortalecem à mesa e de silêncios que falam mais alto que palavras, sempre com o café como pano de fundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nélida nos presenteia com personagens que buscam refúgio, conexão ou simplesmente um momento de paz no aconchego de uma xícara quente. Atravessando gerações e estados de espírito, o café aparece como metáfora da própria vida, amarga, doce, forte e sempre transformadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro, descobrimos que cada xícara contém uma história. São segredos compartilhados, reconciliações feitas e portas que se abrem. Em cada conto, Nélida, habilmente navega entre o real e fantástico, conduzindo o leitor pelos mundos criados por ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O que falta é café </em>é uma obra para saborear devagar, um convite a descobrir quanta vida cabe no tempo de coar um café e quantas histórias podem nascer no simples ato de compartilhá-lo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eduardo Augusto de Carvalho</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Cientista Social e esposo</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quarto branco — contos psicoterapêuticos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 12:37:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Quarto branco – Contos psicoterapêuticos é uma coletânea de contos sobre saúde mental, emoções e neurodiversidade. Não tem caráter científico, mas parte de um conjunto de sintomas que são, nos dias de hoje, comuns na discussão pública sobre saúde mental.
A literatura pode e deve assumir um papel importante nessa discussão. Assim, de forma mais empática e menos científica, falo sobre gestão emocional e sobre o respeito pela neurodiversidade. A literacia em saúde mental é essencial na desmistificação do assunto.
Esta coletânea recebeu uma menção honrosa no<em> Prémio de Conto Manuel da Fonseca</em>, em 2024.
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quarto branco é um livro de contos que atravessa o território frágil e profundamente humano da saúde mental. Sem recorrer a explicações clínicas ou fórmulas científicas, estas narrativas partem da experiência emocional, da metáfora e da linguagem literária para dar corpo à depressão, à ansiedade, ao medo, à síndrome do impostor, à bipolaridade e à neurodiversidade. Aqui, a literatura surge como espaço de escuta e de tradução emocional, onde o sofrimento não é reduzido a rótulos, mas compreendido na sua complexidade e ambiguidade.<br />
Cada conto constrói um espaço íntimo onde as emoções ganham voz própria, forma e personagem. Bonecas de trapos, bichos no umbigo, ruas povoadas por sentimentos, janelas que se abrem e se fecham sobre o mundo interior: tudo serve para nomear o que tantas vezes permanece invisível, silenciado ou mal compreendido.<br />
Entre o real e o simbólico, as narrativas convocam o leitor para um lugar de partilha silenciosa: a depressão que não tem rosto, a ansiedade que ocupa as ruas, o impostor que sabota a criação, a instabilidade que oscila entre o excesso e o vazio. A dor psíquica surge aqui sem caricatura nem dramatismo excessivo, mas com a densidade de quem observa de perto e escreve a partir da empatia.<br />
Os textos não oferecem soluções nem promessas de cura. Recusam o discurso normativo e o conforto fácil. Oferecem, antes, reconhecimento: um espelho imperfeito onde o leitor pode encontrar fragmentos das suas próprias inquietações, contradições e fragilidades. Falar de saúde mental é também falar de identidade, de memória, de relações e da forma como habitamos o nosso corpo e o nosso pensamento.<br />
Este livro dá continuidade ao percurso de Grito umbilical, aprofundando uma escrita que insiste em tornar visível aquilo que socialmente se esconde ou se suaviza. Se nesse livro a dor surgia como grito primordial, urgente e quase corporal, em Quarto branco ela manifesta-se num registo mais silencioso, contido e reflexivo, como se o grito tivesse sido levado para dentro, para um espaço de clausura e escuta.<br />
A saúde mental é aqui tratada como experiência coletiva e íntima em simultâneo, atravessando o quotidiano, as relações e a identidade.<br />
Quarto branco propõe uma aproximação sensível a estados emocionais que fazem parte da experiência contemporânea, desmontando estigmas e abrindo espaço à escuta.<br />
É um livro que não explica, acompanha. Que não julga, observa. E que lembra que, mesmo nos quartos mais assépticos e silenciosos, há histórias a acontecer por dentro.</p>
<p><strong>Simone Noir</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>S.M.C.U. – Sociedade mineira de ciência ufológica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Mar 2026 15:24:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">De modo que viu a nave pousar uns dez metros à frente, uma porta se abrir, e dela baixar uma escotilha que desceu suavemente ao chão, saindo daí duas criaturas redondas, flutuantes, tentaculares (“bracinhos molengos”, explicou Antônio) e cheias de olhos, terrivelmente esgazeados. Ouviu uma voz perfeitamente inteligível, mas terrivelmente antinatural, que disse: “Viemos em paz, não vamos te machucar”. E ato contínuo um raio paralisante desprendeu-se de algum lugar de um dos seres, que lhe atingiu como uma bofetada e doeu como tal, e, como se não fosse suficiente quebrar a resistência do homem, ainda o puxou para dentro do objeto, sobre o chão, e ele nada pôde fazer, não conseguia nem proferir palavra, pedir ajuda, e só pensava, por incrível que pareça, no cachorro que fugira ganindo, todo espavorido.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um grupo de entusiastas mineiros de ovnis e alienígenas decide se reunir para coletar casos ufológicos e divulgá-los numa revista. Esse é o enredo básico de <em>S.M.C.U. – Sociedade Mineira de Ciência Ufológica</em>, o segundo romance de Arthur Marinho. Obra metaficcional, é uma espécie de antologia desses relatos publicados por essa agremiação.</p>
<p style="text-align: justify;">Incursão pela ficção científica, é mais apropriadamente um experimento das possibilidades do absurdo do universo, espécie de tratado sobre o imponderável e o impossível ante o desconhecido. Relato da pequenez humana diante de forças que não compreende e que usam de nós, simples habitantes do planeta Terra, como meros peões, peças de sua vontade incognoscível.</p>
<p style="text-align: justify;">Abduções, conversas, experimentos, contatos, homens e mulheres vivenciam as mais diversas situações, incapazes de entender sua participação nesse jogo elaborado pelas forças do Cosmos.</p>
<p style="text-align: justify;">Romance de situações, o interesse de Arthur Marinho está em construir episódios, centrados, acima de tudo, na vontade de despertar a estranheza.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro você encontrará um reality show intergalático, um cantor boêmio viajante no tempo, Deus, fantasmas alienígenas, máquinas elaboradas, voyeurismo, Gilberto Freyre e o próprio autor. Etc. etc.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>As voltas e revoltas da vida e da morte</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/as-voltas-e-revoltas-da-vida-e-da-morte</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 13:25:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Contos que nos mostram o quão frágil é a natureza humana. Histórias que revelam segredos, retratam os perigos de uma mente manipulada, ligações ambíguas, combinações perniciosas e relações desgastadas pelo excesso de amor, ou pela falta dele, que nos fazem descobrir que a vida caminha de mãos dadas com a morte e que uma não vive sem a outra.
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nascida nos anos setenta, lisboeta, com formação na área da comunicação e da cultura, Maria João Amaral Graça não consegue descrever-se sem referir uma grande paixão, os livros. Lê, escreve, tem participação ativa em comunidades literárias e possui vários contos publicados em coletâneas e antologias.<br />
As voltas e revoltas da vida e da morte é o primeiro livro em nome próprio. Uma coletânea de contos através dos quais a autora nos leva a viajar pela dualidade que caracteriza a vida e a morte, entidades opostas, mas indissociáveis, que são dissecadas ao longo desta obra — muitas vezes apresentadas com limites dúbios, que se mesclam e fundem à medida que as decisões das personagens são feitas com base no afeto, no desejo, no perdão ou na vingança. Um espelho da realidade, também ela sujeita à distorção provocada pelos olhos de quem a vê, como o leitor terá oportunidade de constatar.<br />
Este livro é, ainda, e talvez, acima de tudo, um conjunto de textos onde a figura feminina assume sempre o papel de relevo. Uma análise atenta da autora, que nos brinda com a introdução subtil de elementos sociais, culturais, ambientais e, muitas vezes, castradores, sem falsos ou pretensiosos pudores de disfarçar tanto as cicatrizes como as feridas abertas provocadas pelo patriarcado.<br />
Um início promissor na carreira literária da Maria João. Certamente, o primeiro livro de uma vasta obra futura, que desafiará as leis físicas da vida e da morte.</p>
<p><strong>Laura Vasques de Sousa</strong><br />
escritora</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Molho-lambão</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/molho-lambao</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 13:46:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Existem cidades onde o visitante vira refém de algo que chamaremos de “Síndrome do Titanic”. É a sensação de que a cidade mostra só a ponta e esconde o iceberg. A parte “invisível”, neste caso, é a Salvador da Bahia que emerge nestas crônicas. Um mergulho anárquico, uma vagabundagem punk, um situacionismo culto e popular, uma geografia existencial e de classes e um guia gástrico nos abismos da Bahia e da baianidade. Molho lambão é o resultado do trabalho sujo do flâneur que, mais acostumado a mergulhar nas profundezas, nos ajuda enxergar a cidade sem medo de nos reconhecer no espelho urbano.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Esteban Vivaldi</strong>
Quadrinista e ilustrador</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antes que me digam que não tenho lugar de fala para escrever a orelha de um livro desses, já adianto: sou mineiro com ascendente em baiano, lua em Piatã, Vênus em Rio Vermelho, Marte em Tapioca e Lilith em Café com Cuscuz. Não nasci baiano, vulgaridade indefensável essa, que decidi contornar com uma migração no início do milênio, seguida de casamento e três filhos, paridos à luz de luas projetando seus tapetes prateados nos mares de Salvador e Serra Grande.</p>
<p>Pronto, agora posso falar de Leo Pessoa e seus molhos lambões.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro me fez voltar ao cotidiano de que sinto saudades todos os dias. Leo consegue convidar-nos todos a pertencer a uma baianidade pouco óbvia, e ele só consegue fazer textos como os deste livro porque transforma seus passos pela cidade numa escuta atenta a cada broto de cena que se insinua aos seus olhos. A escuta é uma forma de estar no mundo que pede ausência de pressa para existir. Por isso, sugiro que você se relacione com <em>Molho lambão</em> com a mesma calma, escutando a leitura como uma bela novidade sobre aquilo que talvez você já conheça. Uma das belezas da crônica é voltar a morar nesse lugar onde a vida se deixa olhar sem medo.</p>
<p style="text-align: justify;">A Bahia é um lugar de se conhecer com o corpo inteiro. É um espaço de reaprender a dançar a reza, cantar o choro, escutar a gargalhada finalmente sair das vísceras, sentir o abraço regado a sorriso, transformar a indignação em ato coletivo. O texto de Leo faz jus a essa pluralidade emocional, e você vai se ver pensando com silêncios novos enquanto sorri de histórias inusitadas e até absurdas. Você vai percorrer o caminho destas páginas aprendendo a mesclar reverência e irreverência, cheiro e ritmo. É como se fôssemos convidados a ler um caderno de campo de um antropólogo generoso, que oferta sua alma ao compartilhar as miudezas e os sussurros que ninguém ouve. No fundo, eu sinto que Leo é aquela criança curiosa, que cresceu e não perdeu a curiosidade de ver através do buraco da fechadura para descobrir aquilo que está escondido, normalizado e que precisa voltar na forma de palavra bem dita.</p>
<p>Quando terminei a leitura, voltei às ruas que tenho percorrido, fazendo-me a pergunta: o que a pressa tem evitado que eu perceba, que eu reconte, que eu sinta como assombro ou poesia? Por isso, a honra de escrever este texto se soma à alegria de trazer agora molhos lambões nos olhos, na pele e nos ouvidos. Quero me lambuzar de mundo, mais uma vez, e isso eu devo hoje ao Leo Pessoa, esse cronista de se levar coração adentro.</p>
<p><strong>Alexandre Coimbra Amaral</strong><br />
Psicólogo e escritor</p>
<p><strong> </strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sob o céu do cerrado</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/sob-o-ceu-do-cerrado</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Mar 2026 11:59:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Seus braços estavam cruzados. O vento frio da noite trouxe o cheiro do perfume dele. Fazia tanto tempo… e ainda assim, seu corpo reagiu como se tivessem se visto pela última vez ontem.
Ela franziu o nariz e prendeu a respiração por um segundo. Ele já a tinha notado desde longe, como não notaria? Linda, sorridente, com aquele carisma que sempre o atraiu. Ficou imóvel por um segundo. Quis dizer algo, qualquer coisa, mas a garganta travou. Forçou um sorriso. Não esperava que ver Natasha de novo fosse doer tanto, nem que o desejo voltasse com tamanha força ...</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“E o que a dilacerava era o fato de que não importa o que escolhesse, alguém sempre sofreria e quase sempre, esse alguém era ela… Por que amar precisava vir com esse preço?”</p>
<p style="text-align: justify;">Qual seria o preço do amor para uma mulher após os quarenta anos, mãe, independente e marcada por cicatrizes profundas? Essa pergunta ecoa nas páginas desse livro que é sobre desejo e autonomia, sobre amor e perda, sobre a difícil arte de uma mulher madura amar sem abrir mão de si mesma. Em <em>Sob o céu do Cerrado</em>, Natasha retorna à cidade natal, Jaraguá, Goiás, carregando nas costas os anos de um casamento desfeito, a maternidade de dois adolescentes, o trabalho como professora e uma vida organizada em meio a responsabilidades, cansaço e reconstrução emocional. É nesse retorno ao território, à memória e a si mesma que ela reencontra Rodrigo, o grande amor da juventude, aquele que partiu sem explicações e deixou marcas que o tempo não apagou.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles descobrem que há amores que não morrem; ficam guardados no escuro dos escombros do coração, à espera de uma fresta de luz para renascer. Mas esse reencontro, vinte anos depois, não acontece no campo idealizado do passado, e sim no terreno áspero da maturidade. Natasha não quer ser salva e Rodrigo precisa revisitar a própria ideia de masculinidade para aprender a compartilhar a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambientada no interior de Goiás, a narrativa incorpora o ritmo, os costumes e a vida social do Cerrado: as reuniões familiares, os churrascos, a música sertaneja, a dança e as tradições que moldam os afetos e cotidianos. Nesse cenário, encontramos uma mulher viva que não cabe em estereótipos, que canta, dança, chora, ri e deseja. Que mata a dor dentro do peito todos os dias para sustentar a casa e os filhos de pé. Vemos também um homem que não é um herói e que trava uma batalha constante contra comportamentos tóxicos para se tornar um companheiro à altura dessa mulher que o instiga e inibe ao mesmo tempo. Juntos, eles se reconstroem, tijolo por tijolo.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Pague após o resultado</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/pague-apos-o-resultado</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Mar 2026 11:48:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Eles morrem no final.
Todos eles.
Quem você mais gosta, quem você menos gosta, o principal, o coadjuvante... não importa. Estão todos mortinhos da silva antes mesmo de você chegar na última página.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Cléo e Júlio perderam o rumo de suas vidas. Acontece com todo mundo, mas no caso deles tudo sempre pode piorar. Em uma tentativa de restaurar a ordem, procuram Dona Pepita, que realiza o seu maior desejo e dá ao seu coração o que mais precisa. Graças à consulta feita às pressas, e um feitiço que dá muito errado, Júlio e Cléo embarcam de repente em uma viagem para salvar as próprias vidas, temendo o pior. Uma história inesquecível daquelas que não vai deixar colocar o livro de lado até a última página, eu diria. Como eu sei? Baby, eu mato todos eles. E você também. <span style="color: #ffffff;">Sophia Ganeff S. Ganeff</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os crimes dantescos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/os-crimes-dantescos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Mar 2026 11:42:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Haveria uma mão invisível disposta a manter tamanha beleza sob controle? Um tributo de sangue a ser pago para continuar maravilhando o mundo?” Florença, a cidade exaltada como expoente máximo da arte renascentista e considerada uma das mais belas do mundo, também tem seu lado B. Ao longo dos séculos não foram poucos os conflitos, crimes e desastres que tiveram como palco as suas ruas estreitas. A jornalista Valeria Adamo, protagonista deste livro, também descobrirá uma Florença muito distinta da imagem celestial eternizada nos filmes e guias de turismo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Haveria uma mão invisível disposta a manter tamanha beleza sob controle? Um tributo de sangue a ser pago para continuar maravilhando o mundo?”</p>
<p style="text-align: justify;">Florença, a cidade exaltada como expoente máximo da arte renascentista e considerada uma das mais belas do mundo, também tem seu lado B. Ao longo dos séculos, não foram poucos os conflitos, crimes e desastres que tiveram como palco as suas ruas estreitas. A jornalista Valeria Adamo, protagonista deste livro, também descobrirá uma Florença muito distinta da imagem celestial eternizada nos filmes e guias de turismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O ano é 2011 e Valeria não está passando por um bom momento: aos 40 anos, com uma carreira estagnada e uma vida pessoal insatisfatória, já não sabe como reverter os dissabores em sua vida. Uma bolsa para estudar italiano por dois meses parece a oportunidade perfeita para fugir de si mesma, ainda que por um breve período. Assim, parte rumo à capital da Toscana com duas malas e um caminhão de expectativas. Está ansiosa para se reencontrar com a cidade que tanto a deslumbrou no passado e que, desde então, ficou gravada em sua memória afetiva.</p>
<p style="text-align: justify;">A escola, os professores, o alojamento, os museus, a gastronomia, tudo parece um sonho. Mas o estado de encantamento dura poucos dias, pois logo Valeria se vê conectada a uma sequência de assassinatos enigmáticos cometidos por um psicopata obcecado por Dante Alighieri.</p>
<p style="text-align: justify;">Erika Liporaci é uma grande admiradora do romance policial, gênero que neste livro mescla a outros temas de seu interesse, como arte, história, cinema e literatura.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>O santo, o paladino e as aventuras de farra do Pança</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-santo-o-paladino-e-as-aventuras-de-farra-do-panca</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Mar 2026 11:08:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Joaquito tem o sonho de tornar-se Paladino, encontrar sua Donzela e conquistar um Castelo. Para isso, veste sua armadura de samambaia e põe os pés na estrada. Porém, não consegue ir além da borda da cidade, onde conhece Dácio, um garoto que trabalha como guardinha do lugar. Juntos, planejam uma viagem que jamais acontece.</p>
<p style="text-align: justify;">O Santo e o Paladino é uma saga de amizade e de coragem. Uma prosa poética, uma sátira medieval, em que essas bravas crianças enfrentam mil razões que não as deixam ir além do que seus olhos podem ver. Mas quão valioso é o lugar tão problemático que seus olhos agora veem?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">MACONDO É AQUI</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0"><br />
Este livro, com fortes aromas da prosa de García Márquez, nos apresenta a questão curiosa da temporalidade. Isto se dá por meio da criação de um lugar intransponível, onde suas personagens conversam parecendo não se abater pelos ruí dos urbanos que tanto silenciam nosso espírito. O autor, que também me é um amigo caríssimo, parece sacar as pequenezas da existência e nos apontar que existe significado nos simples atos da vida. O que quero dizer é que se deitar sob uma árvore, comer uma fruta, cumprimentar o vizinho, em </span><span class="fontstyle2">O santo, o paladino e as aventuras<br />
de farras e panças </span><span class="fontstyle0">é um ato filosófico spinoziano, uma prosa de total imanência em que tudo acontece no exato momento em que acontece. Corolário urobórico: o que acontece, acontece. Schleiden acerta “no nervo” ao nos apontar uma narrativa em que a simplicidade vale ouro e jamais existe atraso, estresse, compromissos encavalados e noites mal dormidas. A fantasia faz com que respiremos e esqueçamos que vivemos exaustos, correndo e dopados.<br />
Me lembro de Theodor Adorno quando se perguntava se existiria poesia após Auschwitz. Depois da tragédia. Depois do progresso. Depois da terra arrasada. Depois do capitalismo tardio. Depois do fracasso do iluminismo. Não sei se há poesia após Auschwitz, nem narrativa possível. Mas, me recordo do poema de W. G. Sebald, em que ele diz que o legado a ser deixado para as gerações vindouras é que possamos aprender a dançar no escuro. Não aprendemos: seguimos chutando as canelas uns dos outros em silêncios incompreensíveis e gritos excludentes.<br />
No mais, se, como nos ensina Roberto Bolaño, em um milênio não restará nada do que se produziu neste século, para nosso assombro e in</span> <span class="fontstyle0">diferença, penso que o texto de Schleiden é excelente companhia enquanto caminhamos em direção à obsolescência inescapável. Uma boa narrativa para se ter nos bolsos enquanto vemos o réquiem de uma terra malsã. O que quero dizer é que a vida é de um horror insondável e essa prosa nos leva a lembrar dos Buendía e suas jornadas obsoletas. Os borroanenses me lembram de como Aureliano Buendía ficou atônito ao conhecer o gelo e me fazem esquecer que tudo está marchando e voltando à esgarçada solidão cósmica, como diz Victor Heringer.<br />
No mais, a máxima dessa produção pode ser resumida pela seguinte frase: Macondo é aqui!<br />
Que a exemplo de lá, passemos a morrer de mortes mais bonitas do que as que já temos nas terras moribundas daqui.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0"><br />
<strong>Pedro Henrique Alberton Perússolo</strong><br />
Psicoterapeuta, supervisor clínico, escritor e tradutor</span></p>
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		<title>Longitude 33° oeste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Mar 2026 10:58:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma família vive isolada no Atol das Rocas em 1901. Sua função é acender um pequeno farol para manter os navios afastados. Sem água e comida, dependem das provisões que chegam do continente. Até o dia em que mais nenhum navio é avistado no horizonte.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Longitude 33° oeste</em> é uma linha geográfica imaginária que atravessa o globo, da Groenlândia à Antártica, cruzando todo o oceano Atlântico. A terra firme mais próxima desta linha é o Atol das Rocas. Neste pequeno mundo isolado, cercado de azul por céu e mar, vivem João, Maria e suas duas filhas, Joana e Janaína. O ano é 1901. O único contato da família com o mundo exterior se dá por meio do precário farol que acendem todas as noites, alertando aos navegantes do perigo de naufrágio, recomendando distância. Nesta terra sem uma gota de água doce, a família sobrevive à custa das provisões vindas do continente. Até o dia em que navio algum é visto no horizonte.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Se não me falha a memória</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 11:08:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Com o cotidiano da lavanderia onde trabalha como pano de fundo, uma mulher apaixonada por roupas e obcecada pela própria aparência revisita memórias enquanto se vê envolvida na vida de seus clientes. Em meio a fofocas, comentários maldosos, fantasias eróticas e questionamentos sobre religião, sexualidade, casamento e maternidade, a sua voz percorre o humor, a lucidez e o delírio. Narradora de olhar afiado para a existência alheia, ela tece uma tensão constante entre realidade e invenção.
<em>Se não me falha a memória</em> aborda temas como o desejo na velhice, o ressentimento, a solidão e a deterioração do corpo, equilibrando aspereza e lirismo. Uma narrativa que atravessa o universo íntimo e perturbador de uma mulher na sua última semana de vida.
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>É um alívio quando uma voz dissonante rompe o coro da literatura. A narradora de Se não me falha a memória tem uma voz para lá de única. Sarcástica, aguçada, obscena, ácida e, às vezes, cruel. Uma voz que rompe toda e qualquer idealização do feminino, ainda mais quando levamos em conta a sua idade, algo em torno dos setenta anos.<br />
É do alto dessas décadas que ela assiste aos clientes entrando e saindo da lavanderia onde trabalha. As conversas de balcão e as roupas, com seu caráter sugestivo, servem de pretexto para que ela vá contando as suas memórias e fazendo um balanço de sua vida.<br />
Casada com um cara que não amava, mãe de duas filhas sem nunca ter desejado ser mãe. Gostava de sexo, mas não com o marido. E não se furtava a fazer o que queria, desde que escondido, às vezes quebrando a cara e voltando para trás do fogão, como em um dos momentos mais belos e comoventes do livro.<br />
“Queria ser uma mulher com uma coleção de chapéus”, a narradora revela, mostrando que o corpo pode murchar; os sonhos, nunca. Quantas mulheres assim conhecemos, sem saber que conhecíamos?<br />
Fernanda Ávila nos dá a chance de viajar nesse íntimo, e acerta duas vezes ao apostar numa honestidade implacável e corrosiva. Mesmo quando o romance dá uma guinada, que leva a narradora a uma situação-limite, seu humor não arrefece, suas tiradas não perdem o tino. Uma voz singular e, ao mesmo tempo, a voz de um coletivo.</p>
<p><strong>Giovana Madalosso</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O medo imaginava que nós éramos de porcelana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2026 18:33:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nos anos setenta, uma escola de datilografia é fechada pela ditadura militar. Uma avó amordaçada, um avô desaparecido, uma menina diante de uma máquina de esquecimento.
Mimeógrafos e antebraços como uma memória de tintas e letras, a escrita de uma mulher, aluna das suas próprias mãos, como a linguagem de um grito preso por liberdade.
Máquinas de escrever, três mães, um equilátero em movimento, mordaças, palavras, corpos que se acolhem, corpos que se escrevem.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Neste mais recente trabalho de Daniel Leite, escutamos uma voz cheia de sensibilidade e potência ameaçando o inimigo que vem assombrar a vida de uma família: <em>O medo imaginava que nós éramos de porcelana</em>. Inês narra com a coragem de quem sabe que o medo não pode sentar-se à mesa da casa, ou ainda, o medo não pode datilografar o destino de uma família, de uma sociedade inteira. Inês afronta o medo, mas as grandes protagonistas da história são as máquinas de datilografar. Em tempos em que tudo se resolve com um clique de um botão, cuja sonoridade não é capaz de fazer viajar a memória, como é bom ler as belas cenas em que o leitor pode escutar o barulho do papel nas tradicionais máquinas de datilografia, especialmente o som do sininho metálico indicando o final da linha. O leitor deste livro vai notar no elegante trabalho dessas máquinas a arma de que dispunha a narradora: a escrita, a palavra: ela vai <em>escrever palavras que acendem uma história</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Inês compartilha com o leitor a dor da criança ao ver a avó maltratada. Quem pode amarrar uma avó? Quem tem coragem de quebrar o relógio de uma avó e destruir todos os seus objetos de vó? A explicação não cabe no coração da criança que só anos mais tarde, já adolescente, consegue elaborar em palavras o que houve naquele dia. Entramos no coração dessa menina que fala ao leitor do seu equilátero de amor: avó, avô e neta, laço inquebrável e que, graças às máquinas de datilografar, chega a mim e a ti, leitor. É dentro dessa atmosfera melancólica de um tempo de sombra e de gente silenciada, que o barulho das teclas das máquinas compõe a trilha sonora daquela ofensa engasgada. Talvez por isso a boneca de porcelana, com tudo que pode representar para uma criança, não tenha conseguido salvar Inês do seu instante de abismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar da narrativa de dor pisada e amordaçada, essa história fala ao leitor sobre esperança, coragem e crença na potência da palavra.  Se o leitor prestar atenção à escrita elíptica do texto – recurso magnífico, diga-se de passagem, que o autor emprega com maestria &#8211; vai notar que ele mesmo é convidado a preencher certos silêncios de que a obra se compõe. Longe de pensarmos que um texto pode dizer absolutamente tudo, somos inevitavelmente convocados a sair de nosso silêncio de comportado leitor e preencher com nossas palavras os vazios das frases da narradora Inês, que cresce e amadurece diante de nossos olhos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Flávia Menezes, </strong>professora, IFPA, Belém.</p>
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		<title>Terapia do abuso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 20:07:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se disser “é tudo verdade”, terei que encarar as consequências de ir ao programa da Fátima Bernardes e lá dizer, às onze horas da manhã, que sim, fui abusado aos doze anos de idade por meu psicanalista de cinquenta e seis e que escrevi um romance sobre isso. Me tornarei um porta-voz, compulsoriamente um representante. Como dizer à multidão algo que é impossível dizer ao parente mais próximo, ao amigo mais querido, ao inconsciente mais raso? Mas escrevi um livro contando tudo, como depois não discorrer longamente sobre? Gostaria de ter a opção de não dizer mais nada, mas imagino que, depois de um livro escrito, serei obrigado a continuá-lo escrevendo sempre. Quando me leem e se aproximam de mim abrindo lentamente os lábios me perguntando algo como: “O que você escreveu é… verdade?”, respondo: “Que isso… é só literatura”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma escrita na antessala da escrita — ou na sala de espera da sessão de terapia, de psicanálise, ou no momento anterior ao de se ajoelhar no confessionário (ou para o sexo oral entre homens) —, assim se pode descrever <em>Terapia do abuso</em>, curto romance do novato Guido Arosa.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto, estranho de início, forte, apresenta uma técnica de narrar em camadas sobrepostas de sentido e de elementos narrativos.</p>
<p style="text-align: justify;">No enredo, numa atmosfera de suspense, um narrador em primeira pessoa, molestado aos 12 anos de idade por um pedófilo, busca por este homem que era seu psicanalista na época e que abusava dele nas sessões de terapia.</p>
<p style="text-align: justify;">A tensão que conduz a narrativa é movida pelo desejo do narrador de encontrar o pedófilo para denunciá-lo e se vingar dele — ou matá-lo, ou destruí-lo — ainda que quase duas décadas já tenham se passado desde o evento.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma escrita na antessala da escrita, não como defeito, mas como processo de quem se prepara para dizer, de quem ensaia para dizer, de quem, com esse discurso arrumado, arranjado, pré-pensado, espera livrar-se do confronto, espera convencer (o terapeuta) e se convencer de que, sim, apresentou-se como apresentável.</p>
<p style="text-align: justify;">Apresentou-se como apresentável, por meio de uma fala qualquer coerente a ponto de livrar o paciente-narrador do terapeuta, da terapia e do trauma (e da própria escrita?).</p>
<p style="text-align: justify;">Nada mais incômodo (em certo sentido) do que uma sessão de terapia. Nada mais incômodo (em certo sentido) do que escrever literatura, essa espécie de suicídio.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho de detetive do narrador, que procura o abusador criminoso, corre em paralelo ao do escritor que busca elaborar a experiência-limite, o sofrimento psíquico que carrega desde aquele episódio de infância, mas não sem julgamento moral (a vergonha, a culpa) do abuso e da própria condição de quem exerce clandestinamente sua sexualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O mais interessante talvez seja o fato de que, desta escrita na antessala, tudo vai aos poucos virando sala e se revelando: o set terapêutico que se desdobra em quarto do jovem narrador na casa dos pais (onde ele recebe, escondido, homens para transas fugazes), que, por sua vez, se transforma na “sala” do “aplicativo de pegação” ou nas cabines de trepação entre homens anônimos, nos submundos do universo gay clandestino.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><strong>Marilene Felinto</strong></p>
<p><em>Folha de S. Paulo</em></p>
<p>17/4/2021</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Teresa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 19:55:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entrou em seu banheiro pela primeira vez em meses. A familiaridade era tão terna que quase foi às lágrimas. Tirou a roupa com que viera de Florianópolis. Teve vontade de queimá-la, mas uma boa lavada tiraria os indícios dos traumas que sofrera. Ligou o chuveiro e deixou que a água quente a massageasse. Livrava-se do perigo, livrava-se dos corpos velhos e flácidos que a tocaram, livrava-se de uma apressada maturidade.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A arquejante Teresa, de Castro Alves; a de Manuel Bandeira, capaz de inspirar a criação do mundo; a Tereza Batista, de Jorge Amado; a mais recente, e ironicamente santificada, de Micheliny Verunschk; são muitas na literatura brasileira. A essa galeria, Diego Callazans vem trazer a protagonista deste livro.<br />
Desde 2013, o autor publicou duas reuniões de poesia, um volume de contos e um romance, além de vários textos<br />
em revistas e portais. Surge agora esta Teresa, sua primeira novela. A jovem sai do interior de Santa Catarina e muda-se para a capital; essa dualidade torna-se o princípio gerador da história. A protagonista divide-se entre a imagem e o trabalho de prostituta, para o qual adota o nome Laura; o personagem do político divide-se entre a imagem respeitável e suas práticas de gângster. O conflito entre as imagens sociais e o mundo às sombras prossegue na revelação gradativa da verdade sobre seus pais: primeiro, sobre a mãe, depois sobre o pai, que havia se suicidado.<br />
De forma parecida com o que ocorre em Urinol, o amor entre mulheres é um elemento importante na história. O leitor dos outros livros de prosa de ficção de Diego Callazans reconhecerá outras características dessa escrita, como o uso do narrador em terceira pessoa curiosamente distanciado, que se interessa em informar friamente o destino dos personagens após a trama.<br />
No entanto, neste livro a resolução do jogo de duplos no campo familiar e privado se encontra com o desvelamento que ocorre no plano público. Nesse sentido, Teresa reflete certos processos políticos da atualidade e é uma mulher (e um livro) bem de nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">
Pádua Fernandes</p>
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		<title>O fim das crianças</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Mar 2026 20:21:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(...) Se houve algum projeto celestial para evoluirmos de uma molécula primordial até esse cérebro complexo, escravo de prazeres, certamente foi para desaguarmos nesse tabuleiro de 64 casas, onde cabem todas as dimensões da vida. Isso que os indianos inventaram no século vi é uma metáfora quase literal da existência, porque propõe projetos em conjunto sem jamais alimentar a ilusão da igualdade.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Siga adiante por sua conta e risco</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se você coleciona certezas, é uma pessoa cheia de convicções, deixo um conselho sincero: não leia Fabrício Barcelos. Este livro não é para você. Há o risco real de perder o fio da meada na roda de amigos ao perceber, de repente, que você já não acredita tanto assim naquilo que costumava dizer com segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você não costuma prestar atenção nos semitons da alma humana, passe longe destas páginas. Aqui você vai esbarrar em sentimentos indefiníveis, desses que a gente só reconhece quando sente um amoramizade, essa mistura que deixa a vida mais saborosa do que uma louca paixão; um adeussaudade, o fim de uma relação que parecia necessário, mas deixa um enorme vazio; ou ainda aquele cuidadoloroso, a culposa dor que surge ao cuidar demais de alguém. Nada disso está escrito assim, com palavras grudadas umas às outras — o autor não é dado a neologismos —, mas o texto faz questão de deixar entender.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você é do tipo direto e objetivo, que sabe exatamente qual informação procura ao folhear um livro, pense duas vezes antes de ler estas crônicas. Há risco de labirintite. O autor provoca loopings emocionais e, sem perceber, você vai girar em torno de si mesmo como se lesse longas cartas pra ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">E, ainda, se você não tem curiosidade de ir até o limite do que cada palavra consegue expressar, este livro também não é recomendável. Se verbos como <em>farfalhar</em> ou adjetivos como <em>caudaloso</em> não encontram espaço no seu vocabulário, desista antes mesmo de começar. Talvez você passe a ouvir a própria fala como quem descobre um idioma novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora, se você — como eu — é ou busca ser o oposto de tudo isso, vá com calma mesmo assim. Não mergulhe de cabeça. Você corre o risco de queimar o almoço, se atrasar para um compromisso ou ouvir de quem divide a vida com você: “Onde você está, que eu falo e você não presta atenção?”. Os textos de Fabrício Barcelos são deliciosamente viciantes, como doce de leite. A gente começa e não quer largar mais. E, quando percebe, já está envolvido demais para voltar atrás. Talvez esse seja o maior aviso — e também o melhor convite — que um texto de orelha pode fazer: siga adiante por sua conta e risco.</p>
<p style="text-align: justify;">Edgar Gonçalves Jr.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Catarina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Mar 2026 19:57:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em uma narrativa marcada pela repetição e pela fragmentação do tempo, Catarina acompanha personagens presos a um ciclo de obsessões, memórias e perdas. A figura de Catarina atravessa a história como presença e ausência, reorganizando destinos e revelando a impossibilidade de um sentido único para os acontecimentos. Um romance sobre morte, desejo e a força perturbadora daquilo que retorna.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Catarina </em>é um romance dividido em cinco partes e um epílogo, construído como uma espiral sem centro fixo. A narrativa se organiza em torno da figura enigmática de Catarina: sua vida, sua morte e o impacto duradouro que exerce sobre aqueles que orbitam sua história.<br />
Ao longo de diferentes tempos e perspectivas, os acontecimentos se repetem, se distorcem e retornam, como imagens vistas por um caleidoscópio. Cada personagem parece preso a um movimento cíclico de obsessão, culpa, desejo e memória, incapaz de escapar da repetição ou de alcançar uma verdade definitiva sobre o que, de fato, ocorreu com Catarina.<br />
Mais do que contar uma história linear, <em>Catarina</em> investiga os limites da experiência humana diante da perda, da violência e do amor, explorando a dissolução das identidades e a instabilidade do tempo. O romance propõe uma leitura inquietante, em que o passado insiste em retornar e o presente se mostra sempre contaminado por aquilo que não foi resolvido.<br />
Com uma linguagem densa, imagética e por vezes onírica, o livro convida o leitor a entrar nesse movimento espiralado, no qual não há ponto de repouso, apenas o fluxo contínuo das consciências que os atravessam.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Você, colônia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Mar 2026 19:08:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Será que sofri mais um surto psicótico?”, pergunta-se ao acordar em um lugar de difícil reconhecimento. Observa as companheiras de quarto até compreender que está no subsolo de uma clínica de reabilitação psiquiátrica. Com o passar dos dias, Luciana aprende a circular pelos espaços para alcançar a Ala Feminina, mais confortável e digna, com vista livre, ainda que cercada por grades. Nada a afasta da busca pela beleza, alimentada por conversas telefônicas com a avó, ex-miss Paraná, hoje em asilo. Acompanhamos a luta de Luciana contra a doença, a burocracia hospitalar e a ameaça de um novo surto.</p>
<p style="text-align: justify;">Parte inferior do formulário</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Você, colônia</em>, Beatriz Leal Craveiro constrói um livro de escuta atenta e rigor formal, no qual o leitor acompanha, quase como cúmplice, a experiência de Luciana Pontal, uma mulher cujo corpo e cuja subjetividade se tornam campo de disputa. A escrita se volta para o corpo, o desejo e as formas silenciosas de ocupação da vida contemporânea, no atrito constante entre o íntimo e as forças que regulam a vida social.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa avança por fragmentos, pensamentos, gestos e pequenas cenas do cotidiano, compondo um romance que não se organiza pela linearidade, mas pelo tempo interior. Luciana observa o mundo a partir de pequenos gestos, objetos, cheiros e sensações, compondo uma percepção minuciosa que transforma o cotidiano em matéria de pensamento. São corpos observados, atravessados e vigiados, corpos que carregam marcas visíveis e invisíveis de discursos médicos e estéticos. Identidades em processo, nunca inteiras, nunca estáveis, que tentam se sustentar em meio a expectativas, normatizações e silêncios.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do livro, desenvolve-se uma reflexão profunda sobre pertencimento e autonomia. O corpo de Luciana surge como território ocupado, mas também como espaço de resistência. O desejo, mesmo fragilizado, insiste. A subjetividade se constrói em meio a perdas e controles. Beatriz Leal Craveiro não julga, não explica em excesso, não hierarquiza experiências, preferindo acompanhar seus personagens em sua complexidade e contradição.</p>
<p style="text-align: justify;">O espaço da internação psiquiátrica torna-se parte ativa da narrativa, revelando dinâmicas de vigilância, disciplina e cuidado que atravessam o corpo e a linguagem. Nesse ambiente regulado, a escrita emerge como gesto de sobrevivência e tentativa de reinscrição no mundo, lugar onde Luciana organiza o excesso de sentido, observa a si mesma e tensiona os limites entre sanidade, controle e desejo de existir.</p>
<p style="text-align: justify;">A escrita de Craveiro compreende a complexidade da existência contemporânea, confia na inteligência sensível do leitor e se constrói a partir do corpo, das sensações e dos estados de percepção da personagem. A arquitetura do corpo colonizado contracena com a arquitetura do texto e, no jogo entre o corpo da personagem e o corpo do livro, a narrativa se ilumina.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Você, colônia</em> constrói uma experiência narrativa de grande intensidade e consistência. É um romance que se afirma pela qualidade da escrita e pela forma como envolve o leitor desde as primeiras páginas, pedindo tempo, atenção e entrega.</p>
<p><strong>Marcelo Maluf</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Eu te odeio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Mar 2026 12:59:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu te odeio acompanha corpos que se aproximam não para se resolver, mas para sustentar uma tensão prolongada, onde o olhar pesa mais que a palavra, o desejo se alimenta da dificuldade, a imagem substitui o cuidado e o amor se confunde com a permanência no que fere.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Eu te odeio</em> é um romance sobre o vício no conflito e sobre as formas de amor que se sustentam na dificuldade. Três corpos se cruzam: um fotógrafo, uma mulher em crise anímica e um terceiro que atravessa a narrativa como sombra, desejo e desestabilização. Entre eles, não há equilíbrio — há tensão, insistência e repetição.</p>
<p style="text-align: justify;">No centro da história está um estúdio no coração de São Paulo, onde fotógrafo e modelo se encontram semanalmente. Ele é fixado por uma beleza que fere; ela tenta atravessar o abatimento, o luto amoroso, o esgotamento de si. O que começa como trabalho se transforma em um vínculo ambíguo, feito de poses, silêncios e choro contido. A lente ocupa o lugar da palavra quando esta falha. Cada sessão de fotos se torna um ritual em que arte, sofrimento e desejo se contaminam.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa percorre erotismos sutis, afetos truncados e a performance do corpo diante do olhar. Há vaidade, culpa, nudez — não como provocação gratuita, mas como exposição do que insiste em não se resolver. <em>ETO</em> investiga relações que não se organizam pela promessa de cuidado, mas pela manutenção da falta, pelo atrito, pelo adiamento.</p>
<p style="text-align: justify;">São Paulo surge como cenário polissêmico: ruídos urbanos, estúdios fechados, intimidades comprimidas. O romance pergunta o que acontece quando alguém é visto de verdade — e quando passa a existir apenas como imagem. O fotógrafo dá testemunho da estética contemporânea do que é beleza, contornada pela dor. A mulher chora pelo amante, o registro é feito e a imagem se cristaliza.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>ETO</em> não oferece respostas fáceis. Convida o leitor a entrar no estúdio, aproximar-se da luz, assistir às poses e sustentar o desconforto. Um romance sobre o risco de se expor — e sobre o abismo luminoso entre ser imagem e ser pessoa.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Buracos Negros as letras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Mar 2026 10:42:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pensar o mundo através das letras, dos números e dos astros. E através da religião da avó que chora, do avô que bebe, da que passa o dia no café e do que deixa bastardos espalhados aqui e além como troféus. Confrontar-se com a ausência de deus e a solidão. Aprender a homossexualidade pelos tímpanos. Ter sempre muitas vidas: a real, a sonhada, a sentida, a desejada, a proibida. Estar em trânsito entre Lisboa, Paris, Torres Vedras, Sevilha, Rio de Janeiro, Aveiro e Mem Martins.
Contado na primeira pessoa, um romance queer, fragmentado, de Ulisses ao Facebook e Instagram, passando pelos anos 80 e 90. Uma ficção autobiográfica organizada por capítulos segundo a sequência do alfabeto. Como um cubo mágico, onde se monta uma face de uma cor e depois se desmancha para ver as outras, de outras tantas cores. Uma tentativa de algoritmo e de organização do mundo a partir da aprendizagem da escrita, onde espaço e tempo são apenas dimensões pelas quais se viaja livremente. O retrato de uma sociedade rural como pano de fundo, de onde emerge um jovem gay a caminho da capital e do mundo.
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>para falar de buracos negros poderíamos começar pelo princípio: alfa + beta &gt; aleph + bet &gt; ab. ou seja, pai e mãe, masculino e feminino, concepção, coração, casa, pão, verdade, verbo. regressar à estrutura — à linguagem antes da linguagem — que permite que algo seja lembrado, organizado e dito. poderíamos falar de uma tentativa de reconstituir a própria origem — não para narrar uma vida, seja ela real ou ficcional, e, na verdade, qual é a diferença? —, mas para pesar, nomear e ordenar aquilo que a constituiu. uma tentativa de voltar ao lugar onde a linguagem começou a formar-se — verbal, afectiva, relacional e eticamente.<br />
as nossas experiências são descontínuas, intrinsecamente saturadas e confusas. e buracos negros dá-lhes uma ordem, cria um dispositivo de justiça íntima. diz-nos: isto é o que precisa de ser dito para que uma verdade se organize.<br />
cada participante de qualquer biografia é, inevitavelmente, um buraco negro: não os conhecemos em si, mas sim as deformações que vão causando. a sua influência não termina com a existência — aliás, a ausência pode ser ainda mais gravitacional do que a presença. sugam tempo, atenção e desejo. fazem colapsar possibilidades. obrigam a que se descreva uma órbita à volta deles, a que se façam ajustamentos. levam ao sacrifício de trajectórias pessoais para que não acabemos destruídos.<br />
o que é que fazemos com os outros sabendo que estamos presos, com eles, num sistema? e o que é que fazemos, mais tarde, quando compreendemos que esse sistema está dentro de outro, talvez ainda mais demente do que o primeiro? e o que é que acontece quando percebemos que não há lugar nenhum fora deles — lugar nenhum garantido?<br />
o primeiro impulso é o desespero. mas ele não resolve nada sozinho. então, pensa. e a resposta que lhe chega parece ser a autoria — ainda que tenha, desde cedo, a cara fixa. ainda que a escrita não resgate nada em absoluto. ainda que as novidades sejam invariavelmente as mesmas.<br />
se existe uma saída, ela é mínima: a capacidade de duvidar, talvez. e a recusa em naturalizar o sofrimento. e a insistência em não tratar os outros como objectos — mesmo num mundo possivelmente falso, cheio de memórias e de fragmentos.<br />
a autoria não nos tira do mundo, é certo — impede-nos de nos confundirmos totalmente com o labirinto.<br />
<strong><del>migue</del>l bonneville</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A vida das peles</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 13:53:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Contos sobre trauma, identidade, invisibilidade, violência e resiliência que atravessam as peles ancestrais de mulheres. Peles que se sobrepõem para proteger, para esconder, para expor a vida de manequins manipulados por jaulas internas e por relações de poder, que encarceram.
A autora, nesta coletânea, dá voz a mulheres sem rosto, que percorrem trilhos densos, tentando tratar a gordura visceral em excesso ou a sua ausência, de forma a manter a funcionalidade dos órgãos vitais e a encontrarem o seu reflexo.

—

Lembras-te de quando nem pensavas nas tuas peles? Provavelmente, não. Elas sempre fizeram questão de te lembrar que estavam ali.
Nunca as imaginaste apenas como uma barreira entre o mundo e os teus órgãos.
Lembras-te de a tua mãe ter uma pele por dentro igual à de fora? Acreditavas porque vias. Era irregular, com nódoas negras que apareciam e desapareciam para outras tomarem-lhe o lugar.
Deslizavas os dedos pelas nervuras das suas feridas, como se assim pudesses entender as que te nasciam por dentro.
(...)

(A vida das peles, página 15)

&#160;
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em A vida das peles, Joana Rocha compõe uma galeria de mulheres marcadas pelo trauma, mas que teimam em afirmar-se num mundo que as empurra para o limiar da insanidade.<br />
Os contos exploram relações de poder desiguais — familiares, amorosas e institucionais — e convidam-nos a refletir sobre a forma como essas relações se inscrevem na pele das personagens. A pele que protege e expõe.<br />
A escrita é quase física, sem deixar espaço para subterfúgios. A autora afasta-se da romantização da dor e usa uma linguagem crua, que acompanha a experiência interna das personagens. A voz narrativa mantém-se próxima, obrigando o leitor a sentir a derme áspera do trauma, que talvez em alguns momentos preferisse não tocar. Mas é nesse desconforto que nasce a literatura, e é nesse contacto que a obra nos prende.<br />
Este é um livro sobre mulheres que lutam para sobreviver dentro das suas próprias peles, e que através da voz única da autora encontraram forma de nomear as histórias de muitas mulheres.</p>
<p><strong>Lara Barradas</strong><br />
escritora</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os veios da invicta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 11:36:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Quando Manuel Teles se despede do filho e parte sem dar explicações, o mundo do pequeno Nuno Teles desmorona-se. Mas cedo, no seu lugar, emerge uma história de sonhos, resistência e esperança.
Três famílias, três realidades que se chocam entre o silêncio do campo e o bulício da cidade Invicta. Do Douro ao Alentejo, das ilhas açorianas até à costa da Galiza, este romance cruza gerações, interceptando as suas complexidades. Um retrato cru de uma sociedade que ecoa anseios e tribulações, de quem resiste à indigência e a quem a influencia, num mosaico de histórias tecidas ao longo de um século. O desfecho — vertiginoso, inesperado — expõe o que de mais humano existe em cada um de nós.
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um romance de resistência, onde a cidade do Porto pulsa como memória e destino, e onde uma nova voz literária se afirma com maturidade rara. Uma estreia literária sólida e comovente, que revela um autor atento às fissuras da intimidade e às origens enquanto matéria viva da escrita.<br />
<strong>Álvaro Curia</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Meia-bomba</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 14:18:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(...) Por favor, fique à vontade, diz a editora enquanto segura a porta da limusine para você, que, antes de entrar, repara nas longas laterais do carro, no anúncio da pré-venda de um box com toda a sua obra, os seus três romances, inclusive o que há pouco escolheu a capa. Quando chegam na livraria, o box já está à venda, e espera por você uma fila que dá a volta em todo o quarteirão, diante de uma mesa vazia, com sabe-se lá quantos exemplares empilhados, e quem diabos é Clarice Lispector, José Saramago, Elena Ferrante, Colleen Hoover perto de você, que acaba de assinar o milésimo autógrafo do dia? (...)</p>
&#160;

<span style="color: #ff0000;">A pré-venda vai até 02/04/2026. Os livros serão enviados posteriormente à data. </span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Alguém poderia dizer que os oito contos com que Rosa Beltrão nos captura em <em>Meia-bomba</em> formam o retrato de uma geração — a sua. De fato, personagens do livro giram em torno de sua idade (ela é de 1997), pertencem mais ou menos à mesma classe social e transitam pela zona sul do Rio de Janeiro, onde cresceu. E é implacável o tratamento que a autora dá aos temas ostensivos que frequenta: sexo, violência de gênero, redes sociais, solidão, consumismo, megalomania. Engana-se, porém, quem supuser que vai ouvir aqui mais uma voz no coro contemporâneo dos animados em julgar, diagnosticar, ensinar. A escrita de Rosa Beltrão é implacável em sentido contrário: não se atenua nem se pacifica em qualquer forma de lucidez final. Se os contos focalizam um modo particular de existir, não o fazem para corrigi-lo ou para dar à própria miséria tintas heroicas. Focalizam-no apenas e, ao fazê-lo, revelam, em meio a comportamentos tediosa ou furiosamente repetidos, espessuras inesperadas, brechas (e horrores) insuspeitos, sutis comoções. As frases se movem sobretudo pela via do riso. O sobe e desce “meia-bomba” das expectativas frustradas de satisfação, que a autora encena com violenta minúcia, provoca-nos aquele tipo de riso que Virginia Woolf um dia atribuiu às mulheres e às crianças: um riso alheio à ironia sábia, mais feito de dentes do que de noções, que atrai e aterroriza ao nos devolver, sem moral, a nossa sempre inexplicável e patética condição. Tingidos desse humor a um tempo empático e cruel, os contos entrechocam as velocidades e temperaturas da perturbada vida interior das personagens com as de seu entorno — uma praia cheia, uma rua movimentada, um bar em dia de final de campeonato; por toda parte, telas. Afeita a esse atrito constante entre dentro e fora, Rosa experimenta diferentes modos de composição narrativa. Efeitos admiráveis aparecem, por exemplo, na construção de diálogos vivamente orais, que se infiltram nos fluxos narrativos sem interrompê-los ou que, como em “As trigêmeas”, distribuem as vozes de modo ambíguo; no deslizamento sutil entre pontos de vista, notável em “0x0”, onde a perspectiva muda como a bola que passa de pé em pé numa partida de futebol; no uso expressivo da pontuação, que em “Caixas de acrílico” quase desaparece, como se não sobrevivesse à ansiedade da protagonista, uma consumista compulsiva; e na fabulosa construção em bloco da vertigem onírica de uma jovem escritora em “E o seu?”. Quanto à jovem escritora que assina este livro: atenção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Helena Franco Martins</strong></p>
<p><strong>Doutora em Linguística pela UFRJ, professora no Departamento de Letras da PUC-Rio</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Meio fio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 17:20:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As irmãs Olga e Priscila se reencontram após anos de ressentimento e distância. Profundamente marcadas pelo convívio com uma irmã atípica, Irene, elas escolheram caminhos opostos para superar uma infância incomum. Olga sente-se traída pelo sucesso de Priscila, e esta não suporta a ideia de não ter sido amada pelas irmãs. Vemos o desabrochar de uma nova relação conforme as duas revisitam as dores da infância e a necessidade familiar de concentrar forças em torno de uma filha.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Foram anos sem contato para que pudessem construir uma distância confortável. Aquelas irmãs tinham tudo para ser grandes parceiras, mas a vida não quis assim. Olga, a irmã do meio, tem uma vida pacata e sem grandes reviravoltas enquanto vê a caçula, Priscila, trilhar uma carreira de sucesso como atriz. Uma se dedicou a ficar invisível. A outra correu na direção oposta. Em comum, elas têm uma coisa: a infância com uma irmã atípica, Irene. As três cresceram na mesma casa, tiveram a mesma família e acesso às mesmas coisas. Mas a cada uma coube um destino diferente. Irene precisava de atenção especial dos pais, que se desdobravam entre cuidar dela e de Olga quando decidiram ter Priscila. O que era para ser uma bela parceria entre irmãs acaba se transformando em um antagonismo que só pode ser superado com um reencontro na vida adulta. <em>Meio fio</em> mergulha nas camadas de ressentimento, culpa e amor que permeiam relações fraternas e explora o papel da família como espaço de afeto e fratura.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Deus-me-livre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 13:29:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">DEUS-ME-LIVRE é uma novela cuja narrativa inclui o leitor de modo objetivo direto, enquanto o narrador se mistura no discurso das personagens mágicas e míticas, buscando a sua subjetividade.
No fio condutor, o “eu” de uma personagem sem nome próprio.
Um eu algorítmico em um bar de esquina encontra seus parceiros fantásticos – culpados e inocentes – para buscar respostas em uma cidade desconhecida.
Misturando os estilos do realismo fantástico e o mágico, a novela se oferece aos leitores para imaginarem seus próprios caminhos até a cidade de DEUS-ME-LIVRE.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se em Deus-me-livre nada acontece, aqui no bar tudo é movimento. O ilustrador era um desses caras meio esquisitos, a fazerem do lápis o seu disfarce. Perguntei-lhe prontamente se o circo ia ou não ia e ele, com ares de falsa humildade, desenrolou o desenho onde em letras luminosas via-se escrito: “Circo espacial chega em Deus-me-livre.” As figuras do cartaz eu ajudo a imaginar. Algo tão espalhafatoso! Cores carregadas, formas variadas, intenções mais do que explícitas. O Inocente quando viu arrancou o pano de prato do garçom e amarrou em torno da boca. Prova clara de ato falho, bebeu a cachaça coada e sumiu-se sem palavras. O cartaz esboçado, não tinha<br />
hora nem data marcada. Mas desde então já se sabia que um dia em Deus-me-livre o circo chegaria. Terminei a minha bebida e fui para casa pensando: o que será desse lugar?</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O fiasco</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-fiasco</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 12:41:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Fino Fiasco já foi celebrado e premiado como gênio literário. Após o sucesso do único livro, passa a viver esquecido no porão do Dando Pinta, uma casa de shows de drag queens, revisando livros de autoajuda para sobreviver. Entre memórias de glória e amargura, seu caminho cruza com o enigmático Triunfo, que vira sua vida de cabeça para baixo. O Fiasco é uma narrativa tragicômica sobre arte, fracasso, orgulho e recomeço. Ambientado na pulsante Salvador, o livro mistura humor ácido, crítica cultural e personagens marcantes na linha tênue entre fracasso e redenção.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Você já tentou ser genial em um país onde sobreviver já é um feito?<br />
<em>O Fiasco</em> é um mergulho brutal, e por vezes hilário, nas entranhas de um artista em ruínas. Fino Fiasco, outrora aclamado como a voz indomável da literatura brasileira com seu icônico <em>O</em><em> Bravo Artista Brasileiro</em>, agora sobrevive em um porão úmido no subsolo do bar Dando Pinta, na Carlos Gomes, bairro central da cidade de Salvador, revisando livros de autoajuda para pagar o aluguel. Um gênio afundado em dívidas, orgulho e bebida.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, <em>O Fiasco</em> é também sobre recomeços. Sobre a amizade inesperada com Pitchi Coachella, uma drag queen de alma barroca que, entre paetês e porradas sinceras, insiste em lembrar ao nosso protagonista que ser artista é, antes de tudo, um ato de resistência. É também nesse cenário que Fiasco encontra Triunfo, um sujeito de terno impecável, sorriso enigmático e nome improvável. A partir desse encontro insólito, o romance toma um rumo ainda mais inesperado: entre o grotesco e o sublime, o delírio e a redenção, Fiasco embarca numa jornada em que passado e presente colidem. Seria Triunfo uma chance real de recomeçar? Seria esse encontro o que faltava para Fiasco tomar coragem para “triunfar”?</p>
<p style="text-align: justify;">Thaiane Machado constrói, com linguagem afiada e pungente, um romance que é, ao mesmo tempo, espelho e denúncia, riso e ruína. Com referências ao cenário literário, à história da arte, ao abandono cultural e à pulsante Salvador, a autora entrega um texto que conta a história de quem já perdeu tudo, inclusive a lucidez.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma narrativa sobre a crueldade do tempo, o desprezo do mercado editorial e a tragédia de quem ousou acreditar que a arte salvaria alguma coisa. Este livro é um convite ao desconforto. É para quem já fracassou e continuou, para quem conhece o gosto azedo da glória e do esquecimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cafés e lattes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 11:55:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Cafés e Lattes </em>reúne crônicas que atravessam o doutorado, o pós-doutorado e a vida de uma pesquisadora-imigrante. Entre textos curtos, fábulas parodiadas, cartas, ensaios e relatos pessoais, surgem histórias sobre escrever ciência, viver no exterior, enfrentar burocracias, relações de trabalho, identidade, afeto, saúde mental e recomeços. Um retrato fragmentado e honesto do que não cabe no currículo, mas marca a trajetória acadêmica e pessoal.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Cafés e Lattes</em> é o livro de estreia de Fernanda Maria de Miranda. O título joga com a cafeína que move a escrita e com o currículo Lattes, registro oficial da vida acadêmica brasileira, criando uma referência oculta para quem conhece esse universo. Não é um manual de sobrevivência nem um romance linear, mas uma coletânea de sonhos, frustrações e pequenas vitórias. A autora escreve como pesquisadora brasileira, imigrante e mulher, e encontra na literatura um espaço para o que não cabe no Lattes. O subtítulo “ensaio sobre as entrelinhas científicas” marca esse lugar das margens, onde a experiência cotidiana ganha voz.</p>
<p style="text-align: justify;">As histórias são contadas em diferentes formatos, como relatos pessoais, fábulas reinventadas, cartas, poemas e paródias. Elas mostram como a vida acadêmica se mistura com imigração, trabalho, relações afetivas e crises cotidianas. A autora parte de sua própria trajetória em um recorte de quatro anos entre doutorado e pós-doutorado. O resultado não é uma narrativa de superação, mas um retrato ácido das contradições que existem nesse caminho. O fio condutor não é a busca de respostas, mas o gesto de escrever para tornar concreto. O ato de digitar palavras se torna companhia, e ao fazer isso, convida o leitor a reconhecer também as suas próprias histórias.</p>
<p style="text-align: justify;">Os capítulos revelam que o prestígio convive com a precariedade, o reconhecimento público divide espaço com a solidão privada e a objetividade científica contrasta com as subjetividades do pesquisador. O humor aparece sempre em tensão com a crítica. Há capítulos em que a escrita raivosa torna-se autocuidado, outros em que burocracias se convertem em sátira, outros ainda em que uma simples placa na porta vira motivo de reflexão sobre identidade e pertencimento. O livro alterna momentos íntimos e políticos, confessionais e analíticos, sempre com a acidez de quem observa o próprio percurso sem filtros.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cafés e Lattes</em> é para quem está vivenciando a corrida acadêmica (seja você um estudante ou um professor) ou para quem quer compreender melhor alguém querido. Um mosaico que revela a vida por trás das produções científicas. Com franqueza, ironia e acidez, o livro mostra que essa experiência é feita tanto de conquistas quanto de contradições, e que contar essas histórias pode ser, por si só, um modo de resistir.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Fomos todos embora</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 11:40:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não tenha receio de ler este livro quantas vezes for possível. Não recomendo isso para assustá-los. É que cada leitura, de cada história, deixa um pouco de fome. E, quando estamos com fome, vamos atrás de saciedade. Cada conto aqui disponível é uma possibilidade de encontro. Juntos, formam uma “falange de ajuremados”. E é no solo amazônico, embora raramente nomeado, que os personagens desfilam razões e desrazões, onde gritam e onde silenciam.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Neste livro existe caos e ordem, muitos gritos e muitos silêncios. Os protagonistas das diversas histórias que fazem parte desta obra transitam entre o absurdo de poder morrer a qualquer momento e a possibilidade escassa de continuar vivo. Não há muita lógica em suas trajetórias, mas há sempre muita vontade de continuar vivendo, mesmo que isso, às vezes, não dê certo.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns personagens podem cultivar empatia no leitor. Em outros podem provocar irritação. Mas todos, sem exceção, vão suscitar atenção. Não é fácil acordar todos os dias e descobrir, para genuíno espanto, que viver precisa de coragem. Infelizmente, coragem é qualidade muito deseja, mas pouco cultivada. É no medo que passamos muito tempo de nossa vida. É no medo que fingimos lutar.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vida cabe num conto? É um questionamento válido. Assim como nunca seremos felizes plenamente todos os dias de nossa existência, também não o seremos para sempre tristes. Há pedaços felizes e há pedaços tristes. E, na soma de pedaços, podemos compor uma vida. E é somando contos que temos várias vidas. E elas estão dispostas aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os diversos tipos que terão suas vidas detalhadas por estas páginas poderão ser espelhos para muitos. De um simples enamoramento, um desejo de voar, uma experiência numa pista de dança, passando pela vontade infrutífera de ter filhos, estes tipos têm mais em comum com a vida real do que possamos imaginar.</p>
<p style="text-align: justify;">Há de se ter compaixão por alguns, raiva por outros, mas indiferença jamais. Para se lançar na vida, e eles o fazem com bravura, é preciso ter coragem. E isso, felizmente, não falta a eles.</p>
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		<title>Meu pai contra o monstro invisível</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Feb 2026 10:50:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há monstros que não rugem, vivem silenciosos e traiçoeiros dentro da gente. Esta é a história de um pai e sua luta contra a sombra da depressão, contada pelos olhos da filha. Da Montanha de Estrelas Elétricas à Cidade do Outro Lado do Oceano, acompanhamos memórias afetivas, um casamento que se desfaz e a busca desesperada por recomeço. Um romance sobre a fragilidade e a resistência, sobre amar, perder e ainda assim tentar ser lembrado.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Contador de histórias nato, Filipe Teixeira presenteia os leitores, em seu primeiro romance, com a oportunidade de acompanhar uma de suas narrativas mais potentes. Deixando cair por terra a premissa do “só quem viveu sabe”, ele oferece a todos, mesmo àqueles que nunca vivenciaram uma história semelhante à de Meu pai contra o monstro invisível, a chance de sentir, com a mesma intensidade, cada alegria, emoção, esperança, desesperança, dor e tormenta vividos pelo pai da narradora. Num realismo quase fantástico, essa criança — ou não? —, capaz de saber e sentir por ele, estende aos leitores o mesmo poder, conduzindo-os a uma imersão numa montanha-russa de sentimentos que leva a frios na barriga, mas também a calafrios. Trazer à luz esse monstro é ato de coragem: é chafurdar na dor, é pisar em espinhos, é pular do precipí cio. Mas é também se salvar. Ou ser salvo.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Aline Duarte</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Do trauma ao esquecimento: um relato sobre depressão e alzheimer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Feb 2026 10:12:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Neste relato verídico e íntimo, o narrador reconstrói uma infância atravessada pelo surto psiquiátrico da mãe e pela convivência comprometida entre os dois. Crescendo nesse ambiente instável, ele encontra no álcool uma forma precoce de anestesiar o sofrimento e só adulto decide buscar ajuda para enfrentar a própria depressão e a dependência alcoólica. Em uma fase posterior, é confrontado com um novo golpe: a mãe desenvolve Alzheimer, obrigando-o a lidar novamente com a perda, agora lenta e progressiva, da consciência da mulher que sempre esteve no centro de sua vida.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Logo nas minhas primeiras tentativas de compreender os surtos e a depressão de minha mãe, procurei ajuda nos livros disponíveis à época e os que mais me ajudaram não foram os de teor científico, mas sim, dois relatos autobiográficos: <em>O demônio do meio-dia</em>, de Andrew Solomon, e, <em>Uma mente inquieta</em>, de Kay Redfield Jamison. Foi neles que me inspirei para escrever minhas experiências.”</p>
<p style="text-align: justify;">Assim Del Candeias refere as fontes de inspiração para este livro, que narra a difícil realidade de alguém que vivenciou a luta de sua mãe para lidar com uma intensa depressão crônica e, posteriormente, com os problemas do Alzheimer. Partindo de uma experiência real, o autor constrói um texto de alta intensidade emocional, no qual memória, linguagem e lucidez disputam espaço com o silêncio e o apagamento. Não se trata de um livro sobre as doenças em si, mas sobre a vida que se organiza ao redor dela — e sobre os danos invisíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto explora com precisão os efeitos colaterais que não aparecem nas bulas: a solidão, a inversão de papéis, a culpa difusa, a necessidade precoce de endurecer. Nesse ambiente, o álcool aparece não como excesso, mas como estratégia de sobrevivência, um gesto compreensível dentro de uma lógica de abandono.</p>
<p style="text-align: justify;">A escrita é marcada por sobriedade e contenção. Não há apelo ao sentimentalismo nem à redenção fácil. O autor aposta na clareza, no rigor da observação e numa linguagem que expõe sem dramatizar. Ao mesmo tempo, ele propõe uma reflexão profunda sobre herança psíquica, memória familiar e os limites entre responsabilidade e destino.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma obra para quem se interessa por literatura de testemunho, por narrativas sobre saúde mental, dependência e relações familiares marcadas por assimetria e silêncio, mas ela se afirma também como obra literária em sentido pleno. Embora ancorada em fatos reais, ela se constrói com recursos do romance autobiográfico, colocados em jogo por um autor acostumado à composição ficcional. A memória não é tratada como arquivo fiel, mas como matéria estética, sujeita a cortes, elipses e rearranjos. Assim, o livro pode ser lido tanto como relato de uma experiência extrema quanto como uma obra de ficção literária, em que a vida, filtrada pela escrita, alcança complexidade, ambiguidade e permanência.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Confete usado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Feb 2026 08:04:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Confete usado mergulha no universo do Carnaval, do morro e da dor cotidiana. Patrick, traficante que se julga abençoado pela morte, e Jandira, determinada a descobrir uma verdade, se encontram na Sapucaí. Quando uma medalhinha troca de mão, o passado volta, o Carnaval estremece. Confete usado é um romance sobre amor, sobrevivência e vingança.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nem tudo é samba e suor</p>
<p style="text-align: justify;">
Estamos perante uma narrativa que nos pega pela escritura — corrente, sem invenções meramente retóricas, limpa e, ao mesmo tempo, sedutora. Por si só, a linguagem se impõe, revelando uma autora que não é nova no ramo: tem a maturidade, o conhecimento e a sensibilidade necessárias para realizar literatura de alto voo.<br />
Mas um livro não se faz apenas com estilo, e sim com personagens e uma história convincente num espaço compreensível para o leitor.<br />
Aqui, prepondera um universo sociocultural que não é de todo estranho aos brasileiros: o carnaval, o samba, o morro, a traficância e o crime. Tema difícil para ficcionalizar sem cair nos clichês do gênero; mas, aqui, temos duas personagens consistentes, Patrick e Jandira, que estabelecem um contraponto de tensões que se avolumam, levando a um final arrasador. Gosto muito de Confete usado. A partir desse conotativo título, você, leitor, acompanhará momentos de humor, raiva, amor e soluções originais para os conflitos que disso decorrem.<br />
Boa leitura!</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Luiz Antonio de Assis Brasil</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Anamnesis</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Feb 2026 11:33:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Um jogo? Um reality show? Uma conspiração que envolve os descendentes dos Bandeirantes, grandes patrocinadores multinacionais e a democracia corintiana? Afinal, o que é Anamnesis? Numa trama em que personagens aparecem e desaparecem na velocidade dos anúncios da internet, o leitor, protagonista da história, vivencia esta aventura durante uma semana inteira em uma São Paulo que, de tão surreal, lembra muito ela própria. O objetivo? Decifrar o Grande Enigma, diluído em pistas numa trama alimentada pela paranoia coletiva. Ora conduzido por uma motoqueira misteriosa que engana a própria morte, ora por Fusako, companheira de leitura apaixonada por pássaros, Anamnesis mostra que, em tempos de pós-verdade e necropolítica, nada é tão absurdo que não possa ficar ainda mais.

&#160;
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Anamnesis é uma insurgência textual que transborda. Um corpo linguístico em estado de febre permanente que pulsa, sangra e se derrama para além das margens que tentam contê-lo. Não se submete à classificação de romance, ensaio ou distopia — é uma sublevação ontológica da palavra, um organismo vivo que respira no abismo entre o colapso e a revelação.<br />
Lucas Augusto da Silva não transita entre gêneros literários, mas entre estados de consciência: habita simultaneamente o espetáculo e sua falha, o diagnóstico e sua encenação, o corpo e a interface digital que o devora. Sua escrita é um labirinto onde o leitor não se perde por desorientação, mas por excesso de verdades simultâneas — todas igualmente autênticas e fictícias, como ecoa o mantra que atravessa a obra: “A verdade tem estrutura de ficção”.<br />
No epicentro deste vórtice narrativo não encontramos personagens, mas presenças espectrais que emergem das fraturas entre linguagem e poder. São entidades que carregam nas dobras o peso da história colonial brasileira e, paradoxalmente, a potência subversiva da insurreição.<br />
Anamnesis não pede leitura passiva, exige escuta visceral. Escuta dos ruídos, das repetições obsessivas, dos silêncios ensurdecedores que habitam as entrelinhas. Há nele reminiscências de Hilda Hilst, Roberto Bolaño e Nuno Ramos, mas sua voz é singularmente original — uma voz que transmuta o trauma nacional em matéria-prima estética, que expõe as vísceras de um país que exibe suas feridas em transmissão nacional e disfarça tortura de entretenimento.<br />
A narrativa se materializa como um Ouroboros literário — inicia-se como névoa e culmina como lama — substância primordial que escorre entre os dedos de quem tenta apreendê-la em uma sinopse. Não oferece respostas, apenas perguntas cada vez mais incisivas sobre identidade, memória e os limites entre realidade e ficção em tempos de espetacularização da existência.<br />
Este livro não termina. Como toda ruptura sistêmica autêntica, ele continua a reverberar muito depois da última página, desestabilizando certezas, desorganizando convenções e convidando o leitor a participar de um ritual de passagem literário que é, simultaneamente, um ato político de desobediência textual.<br />
Anamnesis não é apenas um livro. É um território a ser habitado, uma ferida necessária aberta na literatura brasileira contemporânea — da qual emerge uma das vozes mais originais e perturbadoras de nossa ficção recente. Uma voz que não se deixa narrar: tensiona, desorganiza, desliza.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Freda Paranhos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Beber histórias como se fossem café</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 20:45:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“O sagrado mora onde o povo não esquece.” Beber histórias como se fossem café é uma coletânea de pequenos contos de realismo fantástico, todos ambientados em cidades imaginárias do interior de Minas Gerais.
Do sino da igreja matriz ao tacho de doce de leite, o leitor é frequentemente atravessado por suas próprias memórias e narrativas mais íntimas, que se misturam às histórias como queijo e goiabada.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há livros que se oferecem como companhia leve, como quem puxa conversa na beira do caminho. Escritos que se insinuam como gestos cotidianos, simples e essenciais: passar um café, acender uma vela, contar um caso ao lado do fogão. Este livro é desses.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Beber histórias como se fossem café</em>, Laís Nunes convoca o leitor a participar de uma partilha ancestral implicada em escutar, lembrar, guardar e transmitir. Suas narrativas caminham por quintais de terra batida, varandas de madeira, festas de agosto, árvores antigas e rios encantados. Aqui, o forno de barro devolve calor à casa, o sino da capela convoca os mortos à reza, o trem da saudade insiste em passar por trilhos já cobertos de mato. São histórias que parecem brotar da própria terra, carregadas de pólen, cinza, vento e reza.</p>
<p style="text-align: justify;">Ler estas páginas é como ouvir o murmúrio de uma ladainha antiga, já que, mais do que compreender, sente-se que algo nos atravessa. A autora escreve como quem tece, entrelaçando o visível e o invisível, o vivido e o sonhado, o humano e o encantado. Cada conto abre um portalzinho: seja para a infância que ainda mora no cheiro do pão de queijo, para a memória das lavadeiras que lavam o tempo, seja para a quaresmeira que resiste como altar de flor e silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">Há, no coração deste livro, uma certeza que as histórias confirmam a cada página: “o sagrado mora onde o povo não esquece”.</p>
<p style="text-align: justify;">E é por isso que, neste livro singelo, há um compromisso de gosto mineiro com a prosa. A conversa nasce simples, parece despretensiosa, mas é tecida com firmeza e delicadeza. Quem é de Minas Gerais reconhece esse tom como coisa de casa; quem não é, se encanta ao se ver, de repente, dentro de uma conversa contra o esquecimento, contra a pressa, contra o empobrecimento da imaginação. Em cada narrativa, Laís devolve dignidade às pequenas coisas, da reza sussurrada ao tacho de doce que cura saudades. E nos lembra de que nada é banal quando se olha de perto.</p>
<p><strong>Felipe Moratori</strong></p>
<p>Escritor, dramaturgo e professor de teatro</p>
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		<title>Contos de fado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Jan 2026 10:13:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em <em>Contos de Fado</em>, Nilton Marlúcio de Arruda mobiliza sua experiência fronteiriça para construir narrativas precisas e potentes. O “imigrande” — sua palavra-chave — não é só um personagem, é uma lente que desfoca clichês e revela novas perspectivas sobre identidade, pertencimento e resistência.
Aqui, a crítica social e a força poética não se opõem; são fios do mesmo tecido. Uma costura narrativa firme revela como os grandes movimentos da história ecoam nas pequenas sagas cotidianas. Este livro é um testemunho literário necessário e uma afirmação da arte de contar como ato político e de beleza.
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>10% de desconto</strong></span>
<span style="color: #ff0000;"><strong>PRÉ-VENDA ATÉ 28/02/2026.</strong></span></p>
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>Os livros serão enviados no prazo máximo de 15 dias após o término da pré-venda.</strong></span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quem conta um conto acrescenta mais um ponto na estrada já determinada de cada um. Com sensibilidade, o escritor Nilton Marlúcio de Arruda constrói pedra a pedra os seus contos, fados literários; não como uma narrativa acidental, mas com um propósito bem costurado e estrutural. A força do livro reside na sua capacidade de articular o político com o poético.<br />
Em “Carquejeiras, as mulheres invisíveis”, a luta pela memória torna-se um ato de resistência contra o apagamento histórico, narrado com um realismo sóbrio que evita o sentimentalismo fácil. Já em “A freira numa gira de fados”, o sobrenatural e o social entrelaçam-se, criticando a intolerância religiosa através de um imaginário que bebe tanto da tradição popular quanto da rebeldia contemporânea.<br />
O autor oscila entre o coloquial e o lírico, com uma densidade linguística que reforça o carácter “fadista” da escrita: uma elaboração consciente que transforma a dor em arte. Contos como “Adamastor, o gato voador” e “Entre carros e gaivotas” destacam-se pela subtileza com que tratam a solidão e o desenraizamento, usando elementos simbólicos (um gato-águia, gaivotas urbanas), para falar de invisibilidade e conexão.<br />
A saudade, este bem comum da língua portuguesa, também é elemento marcante nalguns contos. Ela é deslocada do plano individual e nostálgico para o território da memória coletiva e da justiça social. Esta releitura é fundamental, pois contribui ao tirar o fado de qualquer idealização populista e devolve-lhe o fio da navalha, a sua capacidade de corte social.<br />
A construção narrativa, no entanto, segue o mesmo espírito do género musical; no qual o drama das personagens é maior do que elas próprias. A menina Iris, a avó descartada, o menino cego e sua águia-gato; cada uma encarna uma luta contra um sistema (religioso, familiar, económico) que tenta defini-los.<br />
A força destas personagens não está na vitória, mas na resistência do gesto, no ato de permanecer resiliente, apesar dos reveses. A linguagem é sempre trabalhada, com um ritmo por vezes próximo da cantiga, sem medo de experimentar a pontuação e o fluxo de consciência para transmitir urgência e emoção.<br />
Fica exposta, nestas páginas dos Contos de fado, a presença de um escritor comprometido com as margens sociais, geográficas e existenciais, dando voz a personagens cujas vidas são, elas próprias, cantigas de dor e de resistência. O escritor dá inúmeras provas de que este seu fado, enquanto estrutura de sentir, é uma forma literária potente.</p>
<p><strong>Ozias Filho</strong><br />
escritor, fotógrafo, editor</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Por si só</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/por-si-so</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2026 16:03:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Caro leitor,
eu não sei qual é o seu nome, sexo, ou a cor da sua pele, não que mude muita coisa. Comprei esse papel de carta ontem numa livraria qualquer e, quando terminar de enchê-lo com meus pensamentos, vou colocá-lo em uma prateleira no fundo da biblioteca para que a vida faça o que quiser, assim como fez comigo. Amanhece o sol, o dia, e com ele vêm os ruídos: sobre estudo, alguém, isso e aquilo e talvez outra coisa, porém não escuto. Não passa de estática ao fundo. Em meio ao turbilhão na sala, o pensamento flui sóbrio. Tentam interromper-lhe, mas este não se permite findar, calar; ele é independente, abastado de desejo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há livros que chegam como um sopro delicado, e há aqueles que chegam como um estilhaço de vidro. <em>Por si só</em>, estreia literária da jovem escritora Bianca Parron, tem essa dupla face: por um lado, frágil e transparente, mas, por outro lado, também cortante e impossível de ignorar. Neste livro de contos a autora nos conduz aos labirintos de experiências limítrofes em que são abordados temas como violência, silenciamento, loucura, luto e os desencontros do amor.</p>
<p style="text-align: justify;"> A escrita feminina perfurante, direta e sensível de <em>Por si só</em> não é apenas disruptiva, mas traça rotas de cumplicidade com suas leitoras e leitores. Bianca nos conduz por narrativas intensas que se movem entre memórias, afetos e dores. Os contos nos levam a atravessar um vitral indiscreto, expondo zonas íntimas da vida cotidiana até então vedadas ao olhar comum. Suas primeiras palavras suaves, pueris, inocentes aturdem quando se encontram com os golpes inesperados do abuso sexual infantil, do delírio, da inadequação, da equivocidade dos amores vividos e das distorções de realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">As redomas que se apresentam neste livro – todas feitas de vidro &#8211; , seja para a proteção ou para a denúncia de suas personagens, erguem-se já trincadas e frágeis. São paredes de vidro que funcionam como um terceiro cenário entre a autora e seus leitores. A cada visada por entre as trincas deste invólucro vítreo, vemos o caráter vertiginoso e desconcertante da realidade. De um jogo de luzes e sombras de uma primorosa tessitura literária, deste livro não deixam portanto de brotar imagens carregadas de um lirismo transfigurador, revelando silêncios abafados e emoções que resistem mesmo quando ameaçam se estilhaçar.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada conto pode ser aqui lido como uma pequena redoma de vidro em que se abriga uma experiência intensa, guardada em segredo, até o momento em que o vidro se estilhaça e começamos a suspeitar do que realmente vemos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Por si só</em> anuncia assim a escrita de Bianca Parron como parte de uma nova geração de escritoras brasileiras que se arriscam a narrar o que muitas mulheres não conseguem ou não podem falar. Assim como outras vozes emergentes da literatura contemporânea brasileira, a autora paranaense traz com esta obra inicial a afirmação de uma potência literária capaz de tocar quem se dispõe a atravessar as redomas que envolvem as nossas histórias malditas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Profa. Dra. Regiane Collares</strong></p>
<p>Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Cariri</p>
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		<title>Sombras, fantasmas e dois charutos fumegantes</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/sombras-fantasmas-e-dois-charutos-fumegantes</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Jan 2026 17:30:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após a morte de seu último guardião e o roubo de uma misteriosa caderneta, as irmãs Iara e Camila precisam sobreviver sozinhas em um mundo pós-apocalíptico. Perseguidas por uma seita e por entidades de outro mundo nas cidades arruinadas de São Félix e Cachoeira, Iara se vê forçada a confrontar os segredos que os uniam. Entre a lealdade à irmã e a busca pela verdade, ela descobrirá que alguns fantasmas são mais perigosos que outros.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após a morte brutal de Curió e o roubo de uma misteriosa caderneta, as irmãs Iara e Camila têm de enfrentar sozinhas os perigos das cidades de São Félix e Cachoeira, arruinadas em um terrível mundo pós-apocalíptico. Perseguidas por entidades interdimensionais, pela seita do Círculo de Oito e por um estranho carcará, as duas precisam vagar pelas margens do rio Paraguaçu enquanto lidam com seus próprios poderes e maldições. Em uma realidade em que a verdade se confunde com a ilusão e o passado colide com o futuro, Iara terá de escolher entre a verdade e a lealdade enquanto tudo ao seu redor desmorona e a morte está sempre à espreita. Sem medo de usar expressões regionais nem cantar a própria aldeia, Marcio Melo presenteia o leitor com uma história universal sobre sobrevivência e sacrifício em um mundo lascado e quebrado que é ao mesmo tempo fantástico e assustadoramente real. Se praias e festas são características que automaticamente associamos à Bahia, a prosa<br />
visceral de Marcio nos leva a um lugar diferente, envolto em mistérios e perigos sobrenaturais enquanto explora temas como luto, amizade e resiliência. Sombras, fantasmas e dois charutos fumegantes é uma ode à fraternidade e ao sacrifício, uma viagem na qual os mortos podem ser mais confiáveis que os vivos e a única certeza é que, juntas, as irmãs são barril dobrado.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Lionel Leal</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Amor fácil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Jan 2026 22:14:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Miguel, Pablo e Caio têm em comum, além do afeto que os aproximou, a vivência do luto. Ao compartilharem suas visões sobre a morte e o amor, os três jovens apresentam diferentes perspectivas para uma mesma história marcada por muitas despedidas. E, na tentativa de transgredir as moralidades que consideram limitantes, se deparam com as aflições sentidas pela atual juventude miserável, cujas utopias são abafadas por uma realidade de desgraças inevitáveis. Entre um e outro adeus, os personagens tentam, cada um à sua maneira, encontrar o equilíbrio entre o amor livre e a segurança.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Carlos Drummond de Andrade não previu esta quadrilha: Miguel ama Pablo, que, por sua vez, ama Caio e Miguel. <em>Amor fácil</em>, romance de estreia de Tiago Marino, nos faz pensar sobre novas configurações de relacionamentos, especialmente, sobre como lidar com os amores de alguém que se ama.</p>
<p style="text-align: justify;">Miguel vê-se num triângulo amoroso quando se interessa por Pablo, que está com Caio. Embora o namoro seja aberto, surgem questionamentos sobre os limites deste formato de relação: pode haver envolvimento sentimental? O que se pode, ou não, revelar ao namorado nessas circunstâncias? Qual <em>status </em>carrega quem está com alguém que vive um relacionamento que não é fechado?</p>
<p style="text-align: justify;">No livro que você agora tem em mãos, somos colocados diante de três jovens sensíveis, talentosos e dotados de corações esperançosos — apesar de a situação político-econômica do país não colaborar; a história se passa por volta de 2022 — que estão tentando navegar as águas nem sempre calmas do amor livre. Os personagens, extremamente cativantes, nos convidam a experimentar o balanço desse mar com todas as suas consequências, seja a delícia de furar uma onda, seja o ardido no nariz depois de um belo caldo.</p>
<p style="text-align: justify;">O título parece ecoar Annie Ernaux, que, em <em>Paixão simples</em>, relata a experiência de quase loucura de apaixonar-se perdidamente por alguém. A autora, enamorada de um homem casado — rompendo, portanto, com convenções sociais — diz, em determinado momento, que, nesta relação, “tudo se resumia a uma falta infinita, exceto o momento em que estávamos juntos fazendo amor”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa falta infinita, tão própria do desejo, aparece em diversos momentos de <em>Amor simples</em>, como, por exemplo, nos e-mails trocados entre Pablo e Miguel, em que comentam a respeito do compilado de escritos deste último, bem como dos sentimentos que nutrem um pelo outro — uma das cartas eletrônicas termina com o trecho de uma canção que pergunta “será que você ainda pensa em mim?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Marino, como Ernaux, acolhe, com humor, graça e delicadeza, a transgressão para falar de amor. O texto corre pelos olhos de forma suave e deliciosa. Ao final, sentimos vontade de sentar em uma mesa de bar com Miguel, Pablo e Caio para tomar um litrão e contar-lhes das vezes em que também mandamos os versos de “Quase um segundo” — tão vivos e fundos na voz de Cazuza — para pessoas por quem já fomos terrivelmente apaixonados.</p>
<p><strong>Andressa Arce</strong></p>
<p>Escritora e defensora pública federal. Autora do romance <em>No dia em que não fui</em> (Patuá) e do livro de poemas <em>Arcada</em> (Hámor).</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Com amor, o que sobrou</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Dec 2025 11:00:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O bandido antigo caiu no barro. A vida inteira atirou em placas de trânsito e adereçou seu cavalo com fitas e joias. Com 4 balaços nas costas ele descobriu não estar preparado para deitar sobre a própria sombra. Já era tarde.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Com amor, o que sobrou</em>, Everton Freitag não escreve — ele escava. Com as mãos nuas, desenterra os ossos do amor, os cacos de memória, os fios de saliva seca que ainda grudam nos cantos da boca depois do último beijo. Este livro é um ritual de despedida e permanência, onde cada linha é um espelho quebrado refletindo o que insistimos em esquecer.</p>
<p style="text-align: justify;">Freitag opera com a precisão de um cirurgião-poeta, dissecando corpos abandonados em quartos de pensão, gestos que morreram na soleira da porta, objetos que se tornaram santuários. Uma escova de dentes guarda toda a história de um casal. Um bilhete queimado revela mais do que as palavras que resistiram ao fogo — mostra o que ardeu por dentro.</p>
<p style="text-align: justify;">Os personagens deste livro são sobreviventes do próprio colapso:</p>
<p style="text-align: justify;">Um homem que chora lágrimas salgadas para alimentar seu filho de gelo</p>
<p style="text-align: justify;">Uma marionete que acorda e cospe verdades na cara de quem a salvou</p>
<p style="text-align: justify;">Um urubu pousado no sino da igreja, mais divino que o próprio padre</p>
<p style="text-align: justify;">A linguagem é facão e seda: corta, mas o corte vem envolto em beleza. Freitag escreve sobre a podridão com a delicadeza de quem arranca uma bandagem de uma ferida — dói, mas é necessário.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Com amor, o que sobrou</em> é para quem:</p>
<p style="text-align: justify;">Sabe que objetos guardam fantasmas</p>
<p style="text-align: justify;">Já se encontrou cheirando uma camisa esquecida</p>
<p style="text-align: justify;">Entende que o amor verdadeiro às vezes parece um crime</p>
<p style="text-align: justify;">Reconhece a poesia num copo trincado, numa escova de cabelo com fios presos</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro não será lido — será experienciado como um luto, um êxtase, um soco no estômago que deixa o leitor sem ar, mas pedindo por mais.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Fernando Bueno</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A vida errada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 11:50:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É possível encontrar significado em um mundo em constante transformação? Como equilibrar as expectativas da sociedade e os desejos individuais? Essas questões permeiam a trajetória de Ana, uma adolescente que, depois de terminar o ensino médio, desiste de fazer faculdade. Sem um plano definido, ela sai do interior de Pernambuco para morar com o namorado em Recife, onde tenta encontrar propósito no teatro, um hobby abandonado na infância. <em>A vida errada</em> é um romance de formação que aborda as angústias da transição para a vida adulta, no contexto da sociedade brasileira atual.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A vida certa nos espreita como um vulto, aquele que juramos ter visto atravessar há um segundo na porta da cozinha, mas que, no instante seguinte, já não sabemos se era real ou só visão turva.</p>
<p style="text-align: justify;">Já a vida errada é quase sempre esta que o sol escancara dia a dia; esta que queima nosso sonho de criança de ser atriz e onde insistem em nos fotografar espontâneos, capturando as assimetrias de nossos rostos, que acabam com a imagem perfeita que havíamos feito de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Aninha parece intuir que a vida certa não existe. Ainda assim, ela vai em busca de uma que pareça menos errada.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda bem. Afinal, não é porque a realidade se impõe com tanta nitidez que a gente deixa de desejar aquela versão que poderia ter sido e que nos espreita pela porta.</p>
<p><strong>Fernanda Schmachtenberg</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Rio largo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 15:20:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Rio largo, de Wibsson Ribeiro Lopes, é um livro de contos que se constrói através do fragmentário, histórias construídas a partir de montagens e de elipses. São narrativas feitas dos restos da linguagem, de recortes de outros textos literários, notícias de jornal e fofocas. Circulam por esses contos personagens violentos, criaturas indefinidas, seres monstruosos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(&#8230;) O bairro da cachoeira já foi arrasado tantas vezes que parece que Deus quer rasurá-lo. Ruínas e mais ruínas até desfigurar as fábricas e as vilas operárias. O rio quer acabar com toda a imagem coletiva dos homens. Ele vaga em ondas e ondas de ataque como se fosse um abraço do tempo. Ele apaga o sonho dos homens, é a violência que se sobrepõe a outras violências. Grande apagador de utopias. Sua missão é aniquilar a história, seu movimento lembra à cidade que no fim é a destruição que vai prosperar.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma cidade de homens que nadam e que morrem. As mulheres morrem velhas, doentes e cansadas. Elas cuidam dos corpos familiares. O rio as afoga repentinamente. É uma república de garotos.</p>
<p style="text-align: justify;">O rio se move e você pode chamar seu movimento de ação, sua escrita na terra, seu ataque à terra, sua escrita. Sua ação é sua escrita e sua observação do mundo, dos rostos que envelhecem, das barbas grisalhas que se tornam pó, o pó que se torna uma pilha de ossos, e ele não se importa se tudo mudou ou se tudo permanece, ou melhor, não é que ele não se importe, é que até ele morrer outras coisas continuarão acontecendo, o ataque persiste, o rio será todos os rios, e as cidades à sua volta serão uma dádiva do Nilo, ele trará o húmus com suas cheias periódicas, ele trará o Crescente Fértil, será o Tigre e o Eufrates, o Amarelo e o Tâmisa, o Capibaribe e o Ipiranga, o Amazonas e o Pinheiros, será o Guaíba e o Rio Vermelho, escorrem por ele a morte e a vida, a violência e a paz.</p>
<p style="text-align: justify;">É o começo e é o fim do mundo a cada instante, o silêncio e o barulho, a ação que rasura a criação e a destruição. Sua pedagogia ininterrupta. (&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Do conto “Rio Largo”</em></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quando entrar setembro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 15:11:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Daquela caixa não emerge um diário, mas uma cidade, uma cidade em seu tempo, com suas pessoas e ruas, suas horas — as minhas preferidas sempre foram as da tardinha — e nela nada se modificou, foi congelado, da mesma forma que o rosto das namoradas que nunca mais vimos, e que nos recusamos a reconhecer se por acaso as encontramos. Ela, a cidade, cabe naquelas páginas, por isso é melhor deixar como está, para não ter o risco de saber que as pessoas e ruas se transformaram ou, pior, deixaram de existir.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em meio ao caos de uma mudança, em plena pandemia, Eduardo, professor de História, redescobre um diário escrito em Belo Horizonte em setembro de 1986. Longe da família e dos antigos amigos, iniciando a carreira em uma cidade ainda pouco conhecida, ele experimenta a solidão, as dúvidas sobre o trabalho, a amizade e o amor, as inquietações diante da vida no Brasil recém-entrado na democracia, onde não há mais espaço para construções narrativas e posicionamentos políticos simples. Urdido sob um texto leve, por vezes divertido, por vezes melancólico, Quando entrar setembro não se limita ao relato, ou exercício autoficcional de memória ou ainda ao registro das contradições do país em meados da década de 1980, tempo em que se alimentavam esperanças de uma vida melhor. O livro traz reflexões sobre o amadurecimento e a entrada no mundo adulto ao mesmo tempo em que deixa perceber as duras permanências de nossa trajetória histórica e social, o passado que nunca nos abandona de vez, retornando com muita força em momentos de crise.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Lenílson Ferreira</strong><br />
Psicanalista e escritor.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cadernos e artérias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 14:06:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Neste romance, nós acompanhamos a vida de personagens distintos unidos de modo arbitrário por um lugar potencialmente assombroso: a escola de ensino fundamental que são obrigados a frequentar diariamente. Embora todos tenham suas angústias particulares, além de alguns sonhos tolos e necessidades de sobrevivência, há algo a mais que os une ali dentro, numa espécie incompreensível de desespero: a sensação perversa, cotidiana e sem solução de que ali, a qualquer momento, vai acontecer uma grande tragédia.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em Cadernos e artérias, Nicole Oliveira nos oferece um pesadelo: atravessar o cotidiano de uma escola pública, entre abril e junho, quando professores e alunos ensaiam as quadrilhas. Logo, nossa sensibilidade aflora: sobre o território escolar, todos temos algo a dizer e fantasmas a lembrar. As salas abafadas, os corredores onde ecoam gritos e risadas, as relações que nos deixam marcas para sempre. É nesse edifício atravessado por sirenes, câmeras de vigilância e pátios onde a vida insiste em se arrastar, suada como é, que Nicole nos conduz com sua escrita mordaz, capaz de traçar conexões entre a banalidade e o extraordinário. Nada é garantido; tudo anuncia perigo. Os sinais se acumulam: um rabo oculto de aluno, fantasmas que se revelam aos olhos do vigia, o cansaço de uma professora, frases rabiscadas no banheiro feminino. Como em toda tragédia, vivos e mortos se confundem, erros do passado e presságios do futuro se entrelaçam, até desembocar no coração burocrático da instituição: a sala do diretor. Nicole expõe o embate entre o medíocre e o maravilhoso, entre o terror e a compaixão, dando corpo a uma experiência compartilhada por quem já habitou, ou foi habitado, pela escola. A autora compõe uma dramática do espaço escolar feita de vozes que se interrompem, de aulas sobre fascismo arruinadas pelo bullying e de reuniões pedagógicas transformadas em debates absurdos. Professores e alunos, gestores, vigias, todos se encontram embaralhados em suas posições: quem educa quem? Quem é mais imaturo, mais vulnerável, mais imprevisível? Enquanto todos se perdem nessa confusão de urgências, o perigo segue à espreita. As câmeras não ajudam a ver nada e, mesmo que funcionassem, de que adiantaria? Ainda assim, entre artérias, cadernos e fantasmas, irrompe um humor absurdo, uma maravilha insistente. Depois de Tarô (Urutau), Pequenas catástrofes (Alameda) e das peças Mantenha fora do alcance de crianças &amp; Stereo Franz: dois estudos trágicos (Giostri), Nicole reafirma sua condição de escritora que investiga formas literárias a partir da fricção entre o banal e o trágico. Com Cadernos e artérias, oferece a professores, alunos e leitores uma pequena maravilha que convoca nossa memória mais sensível: todos já passamos por essa escola, todos já ouvimos seus ruídos, todos já sufocamos diante de sua falta de ar. E, ao contrário dos vídeos edificantes da humanidade sorrindo ao som de “Trem-bala”, aqui a escola revela suas artérias: uma corrente pulsante de sujeira, barulho, bagunça e confusão onde não há, e nunca houve, garantia de nada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Luiz Pimentel</strong></p>
<p>escritor e doutor em Educação pela USP</p>
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		<title>Vinte segundos de silêncio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 11:08:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nesta coletânea de contos breves, o tema é o ser humano. Suas dúvidas, seus receios, a dualidade que o permeia, suas perceptíveis contradições. Renata Barrozo Baglioli confia na sua memória para dar vida a histórias de alguns personagens que passaram por seu caminho, e mais ainda na sua imaginação, para criar cenários e recortar cenas que buscam trazer significantes aos leitores. Os contos têm luz, sombra, barulho e aguçam o paladar, mas é no reconhecimento da aspereza dos detalhes que a prosa encontra o leitor. Cada um se identifica com o que lhe apetece.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O romance é como um filme, já o conto é uma fotografia, escreveu Cortázar num ensaio sobre este gênero compacto, mas não menos atraente da prosa de ficção. E antes, muito antes dos vídeos curtos invadirem as redes sociais, o conto já vinha atingindo dimensão ainda mais breve, à semelhança de um bonsai, na forma de minicontos. Poucos autores, no entanto, até os mais experimentados, conseguem escrever minicontos com alta qualidade literária, como Renata Barrozo Baglioli em <em>Vinte segundos de silêncio.</em> Precisa no início de cada narrativa e afiada em seus cortes finais, ela reúne, nesta coletânea, dezenas de minicontos de igual relevo, firmando uma paisagem unicamente de planaltos. Um feito que Renata já havia realizado em seus livros anteriores, <em>A última camada</em> e <em>De salto alto</em>, ambos voltados para, mas não apenas, o território feminino, com seus amores rasantes e suas dores profundas. Seu talento se consolida aqui, na linhagem dos relatos concentrados do Cortázar das <em>Histórias de cronópios e de famas</em>, do Dalton Trevisan de <em>Ah, é?</em>, do Drummond dos <em>Contos plausíveis</em>. Difícil escolher, neste álbum de miniaturas, um exemplo de sua escrita: em cada umas de suas fotos (narrativas) 3&#215;4, encontramos vivacidade e imaginação. Será fácil, para o leitor, transpor a primeira página e, sem parada, alcançar, com prazer, a derradeira.</p>
<p><strong>João Anzanello Carrascoza</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
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		<title>Corpo presente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 10:30:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Corpo presente apresenta uma coletânea de textos que brincam com a finitude dos corpos. O corpo de quem sabia demais. O corpo que vira cinzas e deixa um vazio. O corpo que morre em vida. O corpo que se vende para um amigo da infância. O corpo inanimado que sepulta sentimentos. Os corpos dos meros figurantes ao fundo de uma cena que não vemos. Alguns mais densos, outros mais cômicos, os contos deixam uma derradeira questão no ar: o que será dos nossos corpos?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro é um perigo. Uma vez aberto é difícil tirar o corpo fora. Tem um Gepetto que sacrifica o filho e o peixe de estimação, um estuprador que atravessa um rio rosiano, um ser enterrado vivo e até torturadores. Respira. A prosa ajuda: clara, sem literatice, vai lhe puxando para um reino estranho mas familiar. Em alguns momentos, a narrativa compõe uma superfície plácida que acoberta monstros — nazistas, milicianos, homem-bomba e gente como a gente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Corpo presente</em> é obra de quem domina este gênero difícil, o conto. O escritor argentino César Aira o coloca ao lado da poesia como aquele em que não se permite errar. Um conterrâneo célebre do Aira disse que o conto deve derrubar o leitor. Diego Gianni não desmente os hermanos e vai além. O curitibano consegue diversificar tons, narrativas, estilos, sem perder a mão, exibindo algo raro, que lembra os melhores contistas contemporâneos, como Sérgio Sant’Anna. Há histórias que tangenciam a crônica, como “Coppola”, “Bracatinga”, e outras em que experiências reais e cotidianas são assombradas por narradores desapiedados. E é notável como essa diversidade não se dispersa, ao contrário, se adensa em torno de um clima duro em que os corpos presentes são devorados pelo tempo (um serial killer, segundo um narrador), a morte e, quase sempre, com muita crueldade. Respira. Há alguns momentos em que o tom suaviza. Narrativas nas quais personagens próximas do narrador/autor protagonizam as histórias com algum lirismo, boas lembranças, mas sem perder a dureza.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse feito pode ser explicado pela capivara do Diego Gianni. Ele é jornalista de formação, escritor e roteirista de profissão, o que lhe dá o sentimento de conjunto. Narrativas com diferentes focos e vozes, contos dialogados à Luís Fernando Veríssimo, passagens do Machado fantástico, paródias de diferentes discursos à solta neste nosso país estranhíssimo, não tiram o foco da obra, uma luz forte e crua sobre nossos corpos dissolutos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eugênio Vinci de Moraes</strong></p>
<p>doutor em literatura brasileira (USP), professor e autor de<em> Rua: crônicas de reclusão e reencontro </em>(Cambalache, 2023)</p>
<p><em> </em></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>O espelho das almas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-espelho-das-almas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 10:24:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O espelho pulsava escarlate diante dele, convidando-o. Marley estendeu os dedos trêmulos, esperando encontrar a resistência sólida do vidro — mas suas mãos atravessaram a superfície cintilante.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em tempos de narrativas apressadas e respostas imediatas, <em>O Espelho das Almas e outros contos</em> surge como um resgate necessário de uma literatura que parece ter se perdido nas brumas do tempo. A coletânea de contos é um convite a revisitarmos textos imaginativos, que desafiam nossa percepção da realidade e nos transportam para universos onde cada palavra foi cuidadosamente lapidada.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui encontramos histórias que instigam a curiosidade desde a primeira linha, construindo mundos tão vívidos e detalhados que o leitor se vê imerso em uma experiência quase sensorial de uma narrativa que inspira pela riqueza de suas informações, precisão de seus detalhes e grandiosidade de suas proposições, deixando-nos literalmente sem fôlego diante da forma com que cada elemento se entrelaça.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>O Espelho das Almas e outros contos</em>, redescobrimos o prazer de uma narrativa que não teme a complexidade e que celebra a riqueza da língua portuguesa em uma história bem contada.</p>
<p style="text-align: justify;">Um livro feito para quem gosta de sonhar acordado.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Gabriela Bastos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">jornalista</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>As flores crescem devagar</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/as-flores-crescem-devagar</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 10:17:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estes contos comuns são familiares a muitos. Uma morte. Um homem que morreu amanhã. Um filho e sua mãe. Um marido e uma esposa. Gatos. Um prédio com gente dentro. O ordinário guarda em si a faísca do horror e da beleza, e é necessário lapidá-lo até que crepite o pequeno fogo. No breve instante de seu brilho, ele nos ilumina algo. Os gatos são seres anônimos. As janelas não servem para a luz entrar. O amor é um labirinto de céus. E as flores crescem devagar.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O livro <em>As flores crescem devagar</em> é uma genuína onda de sentimentos observados de forma sensível e surpreendente de eventos cotidianos, que, por vezes, são despercebidos por nossos olhares descuidados.</p>
<p style="text-align: justify;">O título é um convite a desacelerar o ritmo frenético das nossas rotinas; com a afirmação de que as flores não crescem rápido, mas sim, de-va-gar. Além da serenidade envolta nos contos, Antonio aborda eventos brutos e dolorosos de maneira singular; através de duplos movimentos de violência e delicadeza, fantasia e vivência etc.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro conto, “Cortejo fúnebre”, e o segundo conto, “O homem que morreu amanhã”, se encontram na brutalidade e fragilidade do ato laboral. Antonio nos mostra que trabalhar é morrer. Assim como a morte, a realidade e a fantasia estão presentes em todos os contos do livro. Em um constante balanço da realidade concreta e ficções palpáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">No terceiro conto, “A varanda dos gatos”, a barbaridade com a qual nos acostumamos a vivenciar é exposta na indiferença e inércia das personagens. O sentimento muda no quarto conto, “Meu sapato, nosso guarda-chuva”. A beleza, o cuidado e a ternura são amplificados e convertidos no amor de mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">A violência e burocracia voltam no penúltimo conto, “A instituição”.  Colocadas lado a lado e de forma serena, aborda o problema latente em um dos pilares de qualquer sociedade democrática.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalizando de forma florescente, Antonio retoma o sentimento de amorosidade e afeto no último conto, “Todos os dias, caio de amores”. Através da relação das personagens, a emoção e sentimentalidade são colocados em seu nível máximo de apreciação, deixando que a esperança da brandura reduza a dureza do dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes contos realçam episódios genéricos, transformando-os em sensações e reflexões pertinentes na atualidade; como a dor, a perda, o interesse, o carinho, o rito e o desejo. Antonio observa os pequenos detalhes efêmeros e os ilumina de forma única.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bianca Cruz</strong></p>
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		<title>Dois embaixo, dois em cima</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 10:09:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A família só soube do namoro quando já havia acabado. Ela temia os pitacos alheios que pudessem atrapalhar a nossa história. Nesse período, sonhava com frequência que a mãe tentava matá-la, e, nos próprios sonhos, o pai não se dispunha a defendê-la. Se nem ali encontrava proteção, por que, na vida real, o namoradinho não poderia, de vez em quando, sentar-lhe a mão?
[…]
Quando eu tinha por volta dos onze anos, encontrei um vídeo na internet e a atriz me lembrou Cláudia. Fiz questão de mostrar para Rute, e ela terminou comigo pela quarta vez. Os colegas de turma brincavam que o nosso namoro parecia um iô-iô. No total, foram treze ultimatos. Por consequência, doze chances. Bastava a promessa de que eu mudaria.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A entrada na vida adulta é uma etapa marcante. Permeada por descobertas, desilusões, dores e alegrias. É nesse espaço de circunscrição temporal que se definem aspectos determinantes do que entendemos como “maturidade”. Embora essa percepção seja sentida de forma variada, ela não pode deixar de ser notada, e o registro dessas passagens tornou-se cada vez mais recorrente na literatura, principalmente a partir da Modernidade. Essa etapa é também uma chave temporal que liga a infância, a adolescência e a velhice. Nesse romance, as percepções do narrador nos inserem radicalmente nesse processo, delineando vidas cujas aspirações vamos descobrindo paulatinamente em um misto de espanto, empatia e autoidentificação. O que torna esse relato peculiar, de algum modo, é que o narrador, ao fazê-lo, não vai se apropriar das vidas que narra, mas, ao contrário, ao tocá-las, opera no sentido de extrair delas toda a crueza, as pequenas glórias, o jorro da própria voltagem da vida. De uma perspectiva privilegiada, recupera caracteres e ações de maneira atenta e rascante. Talvez nisso resida a relevância desse relato. Na dosagem justa desse procedimento, de alguém que, ao falar de si e dos outros, torna-se capaz de se apoderar magistralmente das minúcias descortinadas nesse trânsito. Qual seria então a probabilidade de numa rua estreita do Jardim Botânico, distraída com a nossa própria existência, toparmos com personagens que já cansamos de ver, mas que nunca olhamos direito? É nessa segunda mirada que nós leitores atamos as pontas de temporalidades quase sempre diversas, em intenso contato com a vertigem ao mesmo tempo obscura e sem reservas do contemporâneo. É como se pudéssemos olhar pela primeira vez, e o que vemos não é necessariamente bom ou mau, e só o tempo e sua implacável operação nos fará decidir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Flávia Vieira dos Santos</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Doutora em Estudos de Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (puc-Rio), docente de Letras da mesma universidade.</strong></p>
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		<title>Guaxupé</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 09:27:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Josélia morreu mês passado e ainda não sei o que fazer com tudo que ela deixou para mim: um apartamento de frente para o mar, estantes repletas de livros, dois gatos, um carro dos anos 80 caindo aos pedaços, sua coleção de relógios de pulso e relatos da sua — da nossa — vida, escritos em inúmeros diários guardados numa caixa onde se lê “conte essa história por mim”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Conte esta história por mim</strong></p>
<p style="text-align: justify;">José é o protagonista de uma travessia emocionante, trilhada em direção ao direito de viver e ser feliz. Ele é também o irmão de Josélia, a “garotinha que não queria filhos por medo de morrer partida ao meio”, temor que se origina no inconsciente, na intuição de que, durante um nascimento, algo se parte, na premonição de que, para muitas mães, o início pode — não raro — significar o fim. E leva Zelinha a perguntar: “O que é morrer de parto, Zé? [&#8230;] Ela partiu no meio e só sobrou o bebê dentro dela?”</p>
<p style="text-align: justify;">Responder a essa indagação infantil é somente um dos desafios no percurso de José, que, na “terra dos Farinhas” ou fora dela, tem sua existência polvilhada de reviravoltas e todas lhe exigem coragem.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto do romance nas mãos de quem o lê é o relato sobre uma família despedaçada e os seus remendos a costurar um todo “ligado não apenas pelos laços de sangue, mas, sobretudo, unido pelo amor [&#8230;]”. Um enredo comovente, marcado pela honestidade das personagens que o perpassam, pela crueza do sofrimento a elas imposto, pela violência de um pai e pela brutalidade das cruzes de “Ja, Je, Ji e Ju, porque ela era a Jo”, a única sobrevivente da punição pelo crime de ter nascido mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Principalmente, é a saga enfrentada por aqueles que amam e dão lições de perdão e de generosidade: “Minha filha, sabe por que eu deixei o Zé ir sem fazer escândalo? Porque entendi que assim seríamos só dois a sofrer. Antes éramos quatro. Eu, que amava ele sabendo que ele amava a Gabi. O marido da Gabi, que amava ela sabendo que ela amava o José. E o José e a Gabi, que se amavam e não estavam juntos. Eu deixei seu avô partir porque ninguém é dono de ninguém. Depois que eu entendi isso, ficamos só dois infelizes.”</p>
<p style="text-align: justify;">Nos encontros e desencontros com que a autora tece a trama, somos conduzidos por uma voz narrativa em reconhecimento de sua identidade mediante a revelação do passado. Seguimos adiante, nas viradas de página, para descobrir o antes e perceber que “o pior de se ficar velho não era olhar para frente e ver que se tinha pouco tempo de vida, mas sim olhar para trás e ver que não se tinha vivido”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Guaxupé</em>, Erica Terra escreve com o pulso firme dos que têm muito a dizer. Faz isso com precisão, movida à sensibilidade de quem respeita as dores alheias — e as próprias —, acolhendo os dramas humanos. E vai além. Conta esta história não só por ela, mas por todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marília Lovatel</strong></p>
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		<title>A tessitura do tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Nov 2025 20:55:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Henry contemplava a rachadura na parede. No teto na sala, as reminiscências do Tempo o invadiam. Bem dizendo, o Tempo se tornara Ruína. A cidade estava destruída. Os comércios fechavam e as placas de aluguel se multiplicavam sobre os imóveis abandonados. As bombas haviam deixado pela metade várias construções. Os vagantes passavam com seus cigarros e bebidas e placas de fome nos sinaleiros. Mas tudo isso acontecia lá fora. A cidade já não era a mesma. Aqui dentro, Henry contemplava no velho apartamento apenas as marcas da ruína de sua própria experiência no Tempo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando foi que o Tempo se perdeu, se tornou fragmentado, um <em>Zeitgeist</em> inapreensível? Em que ponto uma geração se realiza, em que ponto deixa de sonhar? Qual o papel da literatura em um mundo dilacerado no qual não pode haver mais um eu depois da morte de todo autor? O nascimento, a morte, o amor e o tempo, são termos que ainda fazem sentido?</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são as perguntas que movem o jovem Henry Illiteratti, numa espécie de “mise en abîme”.  Em um misto de romance e ensaio filosófico, acompanhamos as perambulações de Illiteratti em meio a um mundo deixado em destroços, o lançamento de seu próprio <em>livro não escrito</em>, bem como as consequências desse lançamento em um tempo que perdeu a razão.</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira parte, <em>Santuário em ruínas</em>, acompanhamos a narração acerca de Illiteratti em sua tentativa de entender o mundo, refigurar o tempo e vencer o cinismo, até o momento do lançamento de seu livro dentro do livro.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda parte, <em>O livro não escrito</em>, publicado por Illiteratti dentro da narrativa, acompanha a jornada de duas histórias paralelas, a de Nathanael e de Halland, um universitário desiludido e um artista desesperançado, reflexos de uma geração que sente haver desencontrado seu rumo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a terceira parte, <em>A</em> <em>tessitura do Tempo</em>, novamente narrada, demonstra a resolução de Henry em seu propósito de escrever, tarefa que o acompanha desde sempre e que a resolve para até o final da vida, em sua jornada para recosturar o próprio tempo fragmentado em que vive, para poder entrever a luz do renascimento de um novo tempo fabulado, e vislumbrar alguma esperança ou caminho na descrição de uma geração que talvez não esteja sumamente perdida.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Farelo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Nov 2025 14:42:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando o Caetano veio pra cidade estavam os seus grandes olhos negros cheios de cor, vagando por entre espaçonaves, fotos e nomes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Farelo</em> nós chegamos em uma metrópole igualmente caetanizada, mas submergida na desolação de tempos enfermos e com a morte por desnutrição à espreita. Bolsos rasos e vazios.</p>
<p style="text-align: justify;">Chafurdamos na cidade poluída à base de vinhos de qualidade duvidosa, entre sofás emprestados, cervejas duplo malte e a busca incessante por migalhas de compaixão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Farelo</em> vaga, observando a humanidade em seu estado mais cru e desesperado. De bailes de gafieira a chamadas de vídeo. Esta é a crônica de uma sobrevivência íntima, irônica e sem filtros.</p>
<p style="text-align: justify;">Diego Diniz</p>
<p style="text-align: justify;">jornalista e escritor (<em>Sheila use &#38; abuse</em>)</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">_________ é para os fortes! É o que diz todo imigrante já nos primeiros dias em que chega aqui. A cidade é uma máquina de moer gente. É uma legião de seres com suas solidões caminhando para todos os lados, com apenas um pensamento na cabeça: mostrar para ela que os fortes não se dobram.</p>
<p style="text-align: justify;">Das centenas de milhares de gentes solitárias que habitam _________, este livro nos coloca dentro da cabeça, dos pensamentos, de uma delas. Cabeça que está do lado mais interessante da cidade, o lado dos desvalidos, dos que batalham sem perder a ternura jamais. <em>Farelo</em> encontra a cidade em seu momento mais vulnerável, quem diria, a cidade que já era doente, adoeceu. As ruas esvaziaram, o pânico se instalou, a economia se abalou e o setor cultural, já tão cansado, tombou de vez. E seus trabalhadores zanzaram sem rumo. Atordoados.</p>
<p style="text-align: justify;">Fabrício é esse cara andando de casa em casa comendo os farelos vivendo de favores desafiando a cidade descortinando vidas em bares sujos ruas mal iluminadas puteiros obscuros sem grana nos bolsos com o estômago doendo ladeado por seus pares os marginalizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Note que em todo esse parágrafo acima dispensei o uso da vírgula pois essa vida não acontece com vírgula nem com pontos nem com qualquer sinal que nos conceda o benefício da tranquilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Farelo</em>, o que é ponto de eterno retorno acaba por se transformar em uma estética. A estética da fome. Fabrício escreve com o estômago colado às costas, ouvindo os ruídos animalescos do seu corpo, com os olhos esbugalhados e respiração ofegante. E é exatamente esse estado o que torna tudo mais interessante, mas estar atento aos pequenos detalhes dessa cidade faz uma puta diferença. Olhar nos olhos das pessoas, tão fora de uso por aqui, faz a cabeça de qualquer escritor preencher as lacunas que faltam para desvelar aquela pessoa, a cidade, a vida. Fabrício saliva, amola os dentes e tem uma arma poderosa, a caneta sem tampa e um caderno velho e sujo.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata de um <em>flâneur</em>, Fabrício não tem esse tempo, ele não passeia pela cidade, ele dorme em bancos de terminais, caminha a noite inteira esperando o amanhecer e com o charme característico dos bons malandros consegue acolhimento nas casas dos muitos amigos que conseguiu fazer, o que é mais uma vitória. Com os devidos exageros, Fabrício é uma espécie de Baudelaire dos miseráveis. Mas não pense que <em>Farelo</em> seja mera ilustração da vida que não se mostra, este livro é também inquisidor. Leia e verá surgir assim que fechar o livro a pergunta imperativa: E aí, <em>mermão</em>, qual é a sua?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Adriano Barroso</strong></p>
<p style="text-align: justify;">ator e escritor (<em>Eras de ti</em>, <em>Ato/Paixão segundo o Gruta</em>)</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quando entrar setembro</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/quando-entrar-setembro</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Nov 2025 14:28:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Daquela caixa não emerge um diário, mas uma cidade, uma cidade em seu tempo, com suas pessoas e ruas, suas horas — as minhas preferidas sempre foram as da tardinha — e nela nada se modificou, foi congelado, da mesma forma que o rosto das namoradas que nunca mais vimos, e que nos recusamos a reconhecer se por acaso as encontramos. Ela, a cidade, cabe naquelas páginas, por isso é melhor deixar como está, para não ter o risco de saber que as pessoas e ruas se transformaram ou, pior, deixaram de existir.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em meio ao caos de uma mudança, em plena pandemia, Eduardo, professor de História, redescobre um diário escrito em Belo Horizonte em setembro de 1986. Longe da família e dos antigos amigos, iniciando a carreira em uma cidade ainda pouco conhecida, ele experimenta a solidão, as dúvidas sobre o trabalho, a amiza de e o amor, as inquietações diante da vida no Brasil recém-entrado na democracia, onde não há mais espaço para construções narrativas e posicionamentos políticos simples. Urdido sob um texto leve, por vezes divertido, por vezes melancólico, Quando entrar setembro não se limita ao relato, ou exercício autoficcional de memória ou ainda ao registro das contradições do país em meados da década de 1980, tempo em que se alimentavam esperanças de uma vida melhor. O livro traz reflexões sobre o amadurecimento e a entrada no mundo adulto ao mesmo tempo em que deixa perceber as duras permanências de nossa trajetória histórica e social, o passado que nunca nos abandona de vez, retornando com muita força em momentos de crise.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Lenílson Ferreira</strong><br />
Psicanalista e escritor.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Lado de cá do abraço</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/lado-de-ca-do-abraco</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Nov 2025 14:02:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Não só o escrever à mão, que por si só é o rabisco lento da construção do que se tem a dizer, mas a lápis cru, à madeira simples que no sentir tem o ruído das palavras, o toque do tempo aqui vira som do atrito. E assim letra por letra se constrói na calma das linhas ou na confusão da caligrafia.”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Lado de cá do abraço</em> é sobre distâncias e encontros. É o lado de cá em histórias que costuram afastamentos observados nos períodos de pandemia com o toque e o que se tornou próximo às rotinas de olhares pra dentro, ausências e cuidados. Aquelas distâncias que são longe, mas também das que se fazem perto. Essas que ficaram para além daqueles tempos, pro hoje e o agora. No dia a dia das relações, nos miúdos da vida comum, no abraço que não mais chegou, naquele que hoje é casa e aconchego. Este livro é um breve convite à reflexão dos significados do contato humano na vida presente, com sensibilidade e delicadeza aos que têm coragem de ler as entrelinhas tão bonitas da vida.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Três perus metafísicos e outras crônicas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/tres-perus-metafisicos-e-outras-cronicas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Oct 2025 12:31:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O bichinho abana o rabo e sorri para o médico. “E qual é o problema do seu Herói?”, pergunta o profissional. “Mudança brusca e inexplicável de comportamento. Não faz muito tempo, era fidalgo, esnobe, antissocial até. Eu chegava a esquecer que tinha um político de estimação, só me lembrava disso quando via a sujeira pela casa. Mas era um inconveniente menor, pois eu varria tudo para baixo do tapete e passava pano. Tornei-me um exímio passador de pano, dou tor, modéstia à parte.”</p>
<p style="text-align: justify;">“Continue.”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O desfibrilador</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Caros futuros leitores,</p>
<p style="text-align: justify;">há boatos que apontam para a morte da crônica (o jazz, ora ouçam, também está em bocas de matildes). O coração, sabe&#8230; Cronistas são sensíveis e muitas vezes irritadiços: reagem com velocidade jornalística aos fatos e, mormente, travam com a memória batalhas melancólicas e perenes — ninguém se dá por vencido. Neste livro, aqui mesmo, o tema será explorado.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, tal rumor jamais será confirmado. Como sei? Simples: a literatura brasileira conta com um desfibrilador. Ao menor sinal de arritmia, paralisia ou palpitação (palpitações e crônicas andam sempre de mãos dadas), um choque de mais ou menos uma lauda revive o gênero. E esse desfibrilador tem nome. Atende por Ataíde Menezes e, folgo em saber, é meu fraterno amigo.</p>
<p style="text-align: justify;">A última revelação do parágrafo anterior antecede minha inveja para consigo: antecipo uma epifania de sua parte ao trilhar as páginas. Sabe o olhar do viajante quando se encanta pela paisagem inédita? É! Sabe o frio na barriga do primeiro beijo? É, também. Saltando desta humilde orelha para o miolo do livro, posso até ver aqui de longe, no tempo e no espaço, nascerem centenas de sorrisos em sua face.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, Ataíde, o Desfibrilador. E de onde vem a energia destes choques? Primeiro, na consistente erudição do escritor, trazida para a crônica por fios de oralidade e cultura popular. Se numa linha é citado Machado de Assis, Adam Smith, Pitágoras ou os Irmãos Grimm, logo adiante há alusões ao futebol, personagens mundanos e divertidos, e fábulas surpreendentes. No eletrodo, o constante toque com a intertextualidade garante novos significados aos pulos. E o coração da crônica volta a pulsar outra vez. Cada vez melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Recomendo vividamente duvidar da morte da crônica, assim como devorar <em>Três perus metafísicos e outras crônicas</em>, de Ataíde Menezes. Até velhos cronistas como eu revivem o pulsar acelerado do primeiro beijo quando esses textos tocam o coração.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Rubem Penz</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Londrina Babilônia em chamas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/londrina-babilonia-em-chamas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Oct 2025 15:16:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em Londrina, na esquina da rua Espírito Santo com a avenida São Paulo, onde ficam as duas barracas de pastel mais famosas da feira central, lemos a pixação: Londrina Babilônia em chamas.</p>
<p style="text-align: right;">We refuse to be
What you wanted us to be
We are what we are
That’s the way it’s going to be</p>
<p style="text-align: right;">
Bob Marley, “Babylon”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O olhar perspicaz e silencioso de Mariana Bittencourt Moraes mapeia a cidade coletando histórias escondidas nas frestas do cotidiano. Como uma<em> flâneuse</em>, caminha pelas ruas com seus passos delicados anotando em um caderno pautado todos os detalhes de uma cidade que arde. São muitos os que habitam o universo de <em>Londrina Babilônia em chamas</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">As personagens marcam presença com seus nomes próprios. Aos poucos, desvelam-se, mostrando a verdadeira face. Mariana nos guia por entre os contos revelando histórias que oscilam entre a delicadeza — muitas vezes, aparente — e a violência, que nos suspende a respiração.</p>
<p style="text-align: justify;">Um universo violento e intolerante arquitetado com maestria pela escrita de Mariana Bittencourt Moraes em que os detalhes, sutis, às vezes, escancaram uma realidade em chamas que se quer calar, que a cidade cotidiana encobre sob um alvo véu de pureza. Assim, nesta babilônia, o patriarcado, e todas as suas investidas, se espraia como praga sistêmica na vida de Ana, Gilberto, Janaína, Luísa, Tânia, Barbie, entre tantos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contos de <em>Londrina Babilônia em chamas</em> são marcados por uma escrita fluida, que nos captura logo nas primeiras páginas. Para escrever sobre a dor da violência — física, psicológica ou emocional —, sobre o amor, sobre as neuroses, sobre os horrores, sobre os mistérios que pairam na cidade, Mariana também se apropria do humor, elegante e sutil, por vezes, cínico, que nos provoca um sorriso de canto de boca.</p>
<p style="text-align: justify;">Na construção da narrativa, destaca-se o ritmo que os diálogos, bem-construídos e pertinentes, imprimem ao texto. Muito evidente, por exemplo, no conto intitulado “Ana e Luísa”, em que a tensão mediante um provável ato de violência, que aparentemente não acontece, é marcada pelos diálogos rápidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre o sadismo e o amor, entre o medo e o afago, entre o bizarro e o que se supõe uma normalidade imposta por uma sociedade da aparência, surge, enfim, uma “dama do fogo”, com o singelo nome de Barbie, que nos surpreende e liberta num ato final. Assim, é inevitável ouvir, lá do fundo do inconsciente, uma antiga balada de <em>rock and roll</em> nos acalentando enquanto lemos o livro.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><strong>Karen Debértolis</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Grupo de apoio para mulheres que trabalham na dramaturgia, televisão e ficção</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 16:20:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Infelizmente, para algumas mulheres a marca imposta por seus criadores tem consequências indeléveis. Do grupo, foi contra Medeia que o destino foi mais penoso. Não conseguido se recuperar totalmente do trauma e do estigma de ser uma filicida, não encontrou a si em sociedade de forma plena e caiu de novo no sistema. Infringiu a condicional.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Conto nos dedos os autores que me tiram do lugar, como o fizeram Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus e Caio Fernando Abreu. Arrisco-me a dizer que incluo neste seleto grupo Marcella Sarubi, que engendra com o peso da pena de muitos escritores, mas se arrisca como poucos. Ela tem a coragem de misturar Capitu, Geni, Helena, Emília, Pagu, Bertoleza, Iracema, Medeia, Barbie e Ismália em uma única narrativa.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto trata da trajetória das mulheres reunidas no grupo, que busca o empoderamento por meio da troca, ao longo de oito encontros.</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor vai se deliciar com as músicas que compõem a <em>playlist</em> que toca para embalar as conversas, a partir do segundo encontro. Há de tudo ali, de ‘Beautiful’, da Christina Aguilera, até ‘Você não manda em mim’, com Maiara e Maraisa e Marília Mendonça. Além da trilha sonora, chamam a atenção as características das personagens, cuja construção revela conhecimento acerca de um significativo conjunto de obras da dramaturgia, televisão e/ou ficção, consulta a registros históricos e apurado senso de criatividade. A inventividade na criação da personalidade das personagens, das parcerias, bem como do desfecho, é um dos pontos altos da narrativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Marcella não é de poucas palavras, a exemplo do título deste livro <em>Grupo de apoio para mulheres que trabalham da dramaturgia, televisão e/ou ficção: uma novela</em> ou de sua obra de estreia <em>Contos de amor, desamor, drama e tragédia no Rio de Janeiro</em>, publicada pela Editora Urutau, em 2024. Embora a novela seja relativamente curta para esse gênero literário, a objeção ao patriarcado é longa, pano de fundo que na história se evidencia pelos traumas causados pelos criadores, autores, biógrafos e colegas de profissão das personagens.”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Do posfácio de Fabiana Grieco</strong></p>
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		<title>O ventre da medusa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 16:11:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma obra intensa que explora o feminino sob a ótica da opressão e do julgamento. Inspirada na figura mitológica da Medusa, a autora constrói narrativas que ora desafiam ora provocam. Com histórias lacerantes, o livro é um manifesto literário que homenageia a dor, a força e a reconstrução das mulheres ao longo do tempo. A obra propõe reflexão, além de ecoar uma verdade universal: ser mulher é um ato de coragem. “algumas lembranças eram como detritos nos esgotos de periferia: eles surgiam ousados, impávidos, atrevidos, como que desafiando-a a agir”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Um frasco de veneno</strong></p>
<p style="text-align: justify;">“A mulher tem na face dois brilhantes/ Condutores fiéis do seu destino/ Quem não ama o sorriso feminino/ Desconhece a poesia de Cervantes”. Nos belos versos de uma de suas músicas mais emblemáticas, Zé Ramalho professa sobre as consequências poéticas para aqueles que (por descuido ou por intuito) não ousam mergulhar nas águas da natureza feminina.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>O ventre da Medusa</em>, livro de contos vencedor do Prêmio da União Brasileira de Escritores 2024, Denise Veras entrega ao leitor um verdadeiro “cardápio” de facetas da mulher (e das cobras, claro). De “Santa profana” à<em> “</em>Porta amarela”<em>, </em>a autora piauiense apresenta, em um livro onde nada sobra e nada falta, um leque de opções de entradas e saídas desse labirinto indecifrável, à semelhança dos desvarios quixotescos, que é a essência da mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Medusa, uma figura da mitologia grega, era uma das chamadas três Górgonas; quem quer que olhasse diretamente para ela seria transformado em pedra. Como se não bastasse, ela não gozava do privilégio de ser imortal. Foi decapitada por outra figura mítica: Perseu.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos contos de Denise, não há o medo do olho no olho, como bem preconiza a história dessa forte figura mitológica. Ao contrário: encara-se a íris e o ventre, não da condenação da mulher de cabelos belos, agora transformados em serpentes, mas da realidade na qual se encontra (nua e crua) a figura feminina em toda a história da humanidade, aqui retratada neste livro, nos meandros complexos da contemporaneidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de livro para ser lido com os olhos fixos na ondulação dos medos e traumas que se propagam desde as mais antigas antepassadas até as avós, mães, tias, irmãs, primas e netas de hoje e que são levados como uma filha mais nova. Um pequeno (e necessário) livro repleto de doses de resistência como um grande desafio, ainda que se tenha veneno de fio a pavio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Nathan Sousa</em></strong></p>
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		<title>Bromélias imaginárias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 15:59:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">E Eleanor cresceu como floresce uma roseira sem poda. É por isso que Eleanor é assim, pra dentro. Teve pouco amor. A morte a alcançou cedo e, desde então, lhe puxa os cabelos lisos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em Bromélias imaginárias, Maylson Honorato tece contos que, como as flores mais raras, florescem nos mais inesperados lugares. Um cavalo doente revela a complexidade do adeus, um reencontro sob chuva torrencial expõe segredos. Das fugas para Paris aos fantasmas à beira-mar de Maceió, esta obra é um espelho fragmentado de verdades incômodas. Não espere apenas o beijo, mas a mordida. Uma companhia para sentir o que importa, mesmo que arda. Cresce aqui um jardim de traumas, com humor sombrio, fantasmas familiares e uma fé inventada na força das palavras.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Por que os pavões gritam</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 15:24:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os moradores de um bairro são surpreendidos com a chegada de um casal de pavões. Em meio aos embates interpessoais de cada história, as reações à presença desses novos vizinhos variam entre fascinação e desprezo, escancarando as complexidades do olhar humano. Os 23 contos, atravessados pela presença marcante dessas aves de cauda exuberante e gritos agudos, exploram os sentimentos que tentamos reprimir, mas que permanecem à espreita, prontos para emergir. É uma exploração visceral dos conflitos que nos cercam — sejam eles instintivos ou moldados pelas dinâmicas sociais que permeiam nossas vidas.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um pavão é forçado a abandonar a mata onde vivia e parte em busca de um novo território. Uma pavoa o acompanha nesta jornada, que está longe de ser simples — a caminhada é árdua, o alimento é escasso. O casal chega em um bairro novo e desperta sentimentos diversos nos moradores, que podem ser de fascinação diante da cauda colorida e exuberante ou de irritação e desprezo pelos gritos agudos a qualquer horário do dia ou da noite.</p>
<p style="text-align: justify;">Os pavões atravessam as histórias, passeando pelas vidas dos habitantes, e os dramas vão se revelando — da vendedora negra que trabalha em uma loja de grife, da única mulher que estuda em um curso puramente masculino, da professora idosa que se percebe invisível nos ambientes em que frequenta. Disputas de classe, raça e gênero ganham forma nas narrativas breves que exploram sentimentos que tentamos reprimir, mas permanecem à espreita, prontos para emergir. Gestos, olhares e silêncios são pistas do que os personagens pensam de fato sobre aquele que é “diferente” ou que julgam como inferior. As situações são apresentadas de modo a deixar o leitor se questionando o que realmente está acontecendo naquele contexto ou qual o verdadeiro caráter dos protagonistas, que podem ser oprimidos pelas situações vivenciadas. Ou os opressores. Ou ambos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os temas abordados nas narrativas fazem/fizeram parte do universo pessoal e profissional da autora. Como diretora-adjunta do rh Central de uma universidade pública, arbitrou situações de machismo, racismo e misoginia; colaborou com as lutas travadas por professores e alunos com deficiência pela inclusão e permanência na universidade. Como mulher negra, passou por situações de discriminação racial. Sofreu ao observar as dificuldades dos pais idosos para aceitar as limitações impostas pelo avanço da idade. Os conflitos vividos e presenciados despertaram na autora a urgência de apresentá-los ao mundo em forma de ficção.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contos têm como fio condutor os embates silenciosos e ferozes que revelam preconceitos cotidianos — de gênero, raça, idade e outros. Será que, de algum modo, também nos enxergamos nesses conflitos? Até que ponto esses sentimentos estão ocultos dentro de nós?</p>
<p style="text-align: justify;">“Por que os pavões gritam” é, antes de tudo, uma exploração visceral dos conflitos que nos cercam — sejam eles instintivos ou profundamente moldados pelas dinâmicas sociais que permeiam nossas vidas.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Este velho mundo louco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 15:06:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ali os homens se enxergavam pelo que eram: um coletivo de caquinhos de vidro colocados de volta com muita cola e fita adesiva, mas sempre trincados e com alguns centímetros fora da posição original. Nada passaria à vista de um observador desatento. Mas a eles próprios, amálgamas de identidades quebradas e restauradas, qualquer risco era gritante. Esse era o pacto inquebrável, segredo inenarrável, entre homem e espelho.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Este velho mundo louco</em>, Leonardo Carrara explora as frestas da História e os labirintos da imaginação. Seus contos partem de uma pesquisa minuciosa — dos gramados enlameados de Woodstock às ladeiras coloniais de Salvador, das masmorras sombrias da Paris napoleônica às margens da África ancestral — mas não buscam retratar o passado com fidelidade. Ao contrário: deformam-no, transfiguram-no. Não há nada de mágico ou fantástico nessa metamorfose: trata-se de realismo absurdo.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro segue abrindo caminhos: pelas ruínas da Grécia estoica, pelos mercados do Cairo antigo, pelas chamas que devoram a Amazônia ou pelo sopro longínquo do Paleolítico, onde mito e sobrevivência ainda eram inseparáveis. O que parece reconstrução histórica se revela, na verdade, um espelho estilhaçado, em que cada fragmento devolve ao leitor uma versão insólita do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Seus personagens são sempre estrangeiros em sua própria terra, deslocados de si mesmos e do tempo em que habitam. Entre o lirismo e o desencanto, percorrem a fina linha que separa a lucidez da vertigem. E, em cada passagem, a ironia do autor percorre a narrativa como um fio subterrâneo — não para aliviar a tragédia, mas para expor suas contradições mais íntimas.</p>
<p style="text-align: justify;">Com prosa imagética e lírica, humor ácido e imaginação singular, Carrara apresenta um livro que nos convida a atravessar séculos e geografias, descobrindo que, onde quer que se esteja, o mundo continua velho, absurdo — e, acima de tudo, louco.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Pequenos contos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 12:49:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em Pequenos contos, Bruno Lima Barros conduz o leitor por narrativas que oscilam entre o singelo e o brutal, o íntimo e o fantástico. Cada conto abre uma fresta para o humano em sua forma mais crua: a dor, o desejo, a memória, a fé e a violência se entrelaçam em fragmentos de realidade e imaginação. Uma coletânea que convida à reflexão e à surpresa, revelando a força da literatura em pequenas doses de intensidade.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Escrevo na condição de amigo — e com o privilégio de ter lido, antes de todos, muitos dos contos que agora o leitor terá em mãos. Acompanhei de perto a evolução de Bruno Lima Barros, personalidade insigne e rara; um conto que inventa o próprio autor.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui se encontram histórias que bebem do sertão — um sertão alvoroçado, tecido de uma realidade fantasiosa e de uma fantasia árida. São narrativas que carregam a poeira do Velho Oeste, mesmo quando não há cavalos nem revólveres, e que trazem nos diálogos ligeiros a cadência de emboladas afiadas, dos grandes repentistas desse sertão que nos é comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Há também reflexos das fantasias <em>pulp</em> mais sombrias, labirintos de suspense e perigo; e outras histórias que parecem ter sido construídas com a ingenuidade esclarecida de uma criança arteira.  Em poucas páginas, o leitor caminhará por ruas familiares e, logo adiante, se verá lançado a paragens noturnas e caminhos medonhos. Sentirá medo e alegria, reconhecerá as angústias antigas que endurecem o peito dos homens rústicos, mas também a candura transparente de pensamentos infantis.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro é um convite à travessia. Ao abri-lo, prepare-se para entrar na criação e na descida; saborear bolinhos de arroz; descobrir o que há do lado de dentro e atender a uma ligação noturna; encontrar o velho eu, o pardo alagoano, e visitar até os lugares onde as rezas não têm vez. Conhecerá heróis improváveis, exemplos de protagonistas e personagens que jogam esconde-esconde com o próprio destino.</p>
<p style="text-align: justify;">Bruno nos convida a um eterno mover-se para dentro dessas vivas realidades humanas que compõem a fauna mística de seus personagens — belos, solitários, misteriosos. Tipos humanos sólidos, gente que vive entre as securas da terra e a vastidão do céu. Seus mundos correm entre o concreto da poeira e o etéreo da imaginação, entre a luta diária pela sobrevivência e a inquietude dos sonhos que insistem em nascer.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao acompanhá-los, o leitor atravessa não apenas histórias, mas atmosferas inteiras: o calor denso que se acumula antes da tempestade, o frio cortante das madrugadas de neve, a melancolia que mora no canto de um olhar. E, ainda assim, há sempre um sopro de esperança, uma réstia de luz que se revela no momento exato. Ao fim da leitura, Bruno nos dá a certeza de que o céu é bem ali.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marlos Machado</strong></p>
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		<title>Avestruz pequeno estudo sobre a prontidão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Oct 2025 12:53:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[dois adolescentes embriagados, dia amanhecendo, resolvem pegar a estrada de volta para casa, o carro começa a sair da pista, ambos adormeceram, o carro trepida, a roda chega cada vez mais perto do desfiladeiro, eu acordo meu amigo ao volante, o livro começa.

&#160;
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na minha terra, dizem que aquelas pessoas que comem de tudo (até comida estragada) e que não passam mal têm estômago de avestruz, pois parece que esta, que é a maior ave do mundo, alimenta-se de tudo um pouco: sementes, pedras, pequenos objetos, o que estiver ao redor. Trata-se também de um animal “sempre em prontidão”, veloz e ágil, capaz de correr a 60km/h, e que em muitas culturas africanas, carrega simbolismos ligados à vigilância, ao movimento entre mundos e à justiça. Todas estas características qualificam o avestruz a se tornar uma potente metáfora do que é importante para alguém tornar-se artista e só por isso já agradeço à Diego Garcez por este livro que apresenta de maneira perspicaz o seu processo de tornar-se artista. Sempre digo que esta profissão é talvez das mais insalubres, demandantes e injustas do mundo, pois não oferece garantias, não tem sindicato, não há um plano de salários, cargos e carreiras, e exige coragem para expor o que há de mais íntimo e subjetivo ao escrutínio público.<br />
Desde 2022 acompanho esse percurso de perto. Escrevo esta orelha não como uma leitora externa, mas como quem está implicada, tocada, transformada no processo de e com Diego Garcez. Como quem conhece o avestruz e reconhece os dilemas da gestacão artística, as angústias, as frustrações, as buscas, e também como alguém que nasceu no Recife e foi brincante do Carnaval de Olinda como Diego, reconhecendo um certo sotaque, ritmo e tom de uma trajetória migrante semelhante. Há anos venho cutucando a divisão que existia na produção dele entre pintura e escrita: por que escolher entre uma coisa e outra? O livro aponta para esse entre-lugar como um campo fecundo.<br />
Este é um livro mestiço também por ter algo de tratado, algo de diário e algo de poesia. Nele, o gesto de pintar está entrelaçado ao gesto de escrever. Diego escreve como pinta e pinta como escreve. O texto caminha lado a lado com a construção de uma identidade como artista e como homem. Um homem que observa outros homens: seu pai, seus professores, os artistas e poetas mais velhos. E também observa o filho, Caio. Um artista que se pergunta a que tradição pertence, como se engendra uma genealogia artística e identitária. Sua escrita está comprometida não apenas em refletir sobre as masculinidades, mas em performá-las no cotidiano e, contrariando o que se espera de um homem a partir de uma perspectiva social tradicional, Diego Garcez escancara a sua vulnerabilidade de aprendiz e afirma que não está pronto, mas está em prontidão e é isso que importa na pintura. Ele acaba por nos mostrar em seu relato que isso é também o que importa na vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cristiana Tejo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Decomposição dos pássaros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Oct 2025 14:49:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Quem nos deu a notícia de que Valtinho abocanhou a orelha do irmão foi o Beto, o pequeno mensageiro de oito anos. Paramos o jogo de rouba-bandeira, chutamos ao léu o galho da mangueira que marcava os dois territórios e descemos o morro do Boticão feito um raio em direção ao córrego Lava-pés. Lá chegando, ficamos agachados, espiando a movimentação através dos arcos da ponte de cimento. Jamais perderíamos um escândalo nessa terra morosa. Havia dois carros de polícia e um monte de gente falando alto. Seria bom se os lóbulos das orelhas fossem como os rabos das lagartixas, que se desprendem do corpo nos momentos de perigo e se regeneram naturalmente.

(Tudo o que o mestre mandar, página 19)
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Contista e romancista, ao surgir, em 2007, com Meu nome agora é Jaque, Eltânia André já era escritora madura. De lá para cá, foram mais três coletâneas de contos, Manhãs adiadas, Duelos e Corpos luminosos, e dois romances, Para fugir dos vivos e Terra dividida, além de um livro em colaboração com Ronaldo Cagiano, Diolindas. E, a cada nova publicação, a escritora foi aprofundando seu universo ficcional, particularizando sua assinatura, marcas que caracterizam e diferenciam os bons autores dos medíocres. A consolidação dessa voz própria pode ser conferida neste Decomposição dos pássaros, volume que reúne, em dez histórias, as melhores qualidades da prosa de Eltânia André: o sentido trágico da vida envolvido por uma intensa carga poética.<br />
As personagens de Decomposição dos pássaros são homens e mulheres ordinárias vivendo situações corriqueiras, nas quais nos reconhecemos como seres falhos que aspiram a alguma redenção — pois Eltânia André consegue insuflar dimensão metafísica a seus enredos. É assim com Ellen, magra como o mapa do Chile, que, em “Pluma e osso”, pouco a pouco toma consciência de seu lugar no mundo. A Ellen, cuja trajetória acompanhamos desde a infância, juntam-se as crianças de “Tudo o que mestre mandar”, que retrata, de forma pungente, o encontro com a violência e a morte, algo que perpassa também “Márrio-Riomar: um nome todo água”. A morte preside ainda “A última música: 2 minutos e 35 segundos”, mas como possibilidade de reparação: o narrador reconcilia-se com o pai, para além do último suspiro.<br />
A derrocada, seja pessoal, seja coletiva, seja psicológica, seja financeira, está presente nas narrativas “Céu na boca”, “Construção” e “Sob o som das matracas”: em algum momento, as escolhas no passado emergem como fantasmas para abalar nosso presente. “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira” e “Subindo as montanhas de xisto da Bulgária” fogem um pouco à unidade do livro, sendo o primeiro uma espécie de crônica irônica da vida e morte de uma legítima sibila nacional, e o segundo uma bela homenagem a Campos de Carvalho, autor maldito, mas reverenciado por um grupo de fanáticos admiradores.<br />
Enfim, Eltânia André mostra o firme domínio do ofício, quando, de certa maneira, sintetiza toda a inquietude na fábula “Decomposição dos pássaros”, na qual resgata e destila nossas angústias ancestrais, num texto eivado de poesia, a começar pelo título, que evoca imenso conhecimento de quem da vida participa corpo-a-corpo. Por isso, por tudo isso, que não é pouco, o nome de Eltânia André vem angariando, mais e mais, espaço no sempre seletivo número de escritores fundamentais da literatura contemporânea.</p>
<p><strong>Luiz Ruffato</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Bafo do Mondego</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/bafo-do-mondego</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Oct 2025 09:35:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O rio Mondego não é o Tietê, o Amazonas, o São Francisco, muito menos os córregos enterrados sob o concreto de São Paulo. Mas, nas crônicas deste livro, o Brasil mergulha, se banha, se mistura e se afoga em suas águas, que já não surgem tão claras e doces, como escreveu Camões.
Nos 258 quilômetros que percorre da Serra da Estrela até Figueira da Foz, o Mondego faz muito mais do que só molhar Coimbra. Nestes textos, ele arrasta também as faíscas do encontro entre o português lusitano e a língua brasileira, carrega os tijolos do labirinto onde imigrantes estão presos em Portugal e embala uma série de outros ruídos que fazem tremer as ruas do país — tudo diluído pela correnteza da linguagem, da literatura, da ambiguidade e da poesia.
Pode até não parecer, mas, depois que as águas do Mondego desembocam no Atlântico, elas cruzam o mundo e se tornam ondas nas praias brasileiras. Bafo do Mondego é fruto desse encontro. Uma coletânea em forma de pororoca, sobre dois países cada vez mais distantes e inseparáveis.
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei como você chegou a este texto. Talvez sem querer, de pé, sem tempo, com trabalhos atrasados, leituras incompletas, o celular na mão cheio de notificações pipocantes, apressado ou apressada, desinteressado ou desinteressada demais pra gastar minutos com palavras que não vão ensinar nada de útil. Principalmente estas, sobre Coimbra, cidade fora do mapa. Vou entender se for embora. Talvez eu mesmo devesse ir também. Porque este é um texto sem ganchos, sem plot twist, sem malabarismos, sem final grandiloquente. É só uma crônica solitária, sentada numa mesa, dentro daquela portinha, bem ali, no fim das escadas, ao lado do sapateiro&#8230;</p>
<p>(Como Ti Irene numa noite de inverno, página 24)</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Fratura exposta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 14:08:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">José caminhava naquele dia, cruzava a avenida e fugia para um beco que o tiraria de toda aquela agitação. Na faixa de pedestres, um casal de entorpecidos adolescentes cruzou seu caminho. As risadas fáceis, a garota carregada, o suor brilhando na pele e a excitação lhe invadindo a imaginação.
Ele os ignorou, baixou a visão e sentiu uma das baratas cutucar um lugar que há muito tempo lhe estivera adormecido.
— Não! — ele gemeu para si. — Não!</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Bendito ele entre os textos</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">No decorrer do dia, nos perguntamos o que falta. Acredito que, após a leitura do livro de Gaspar Rocha, iremos nos questionar sobre essas faltas, sobre as ausências, pois, em um jogo de palavras, nos detemos diante de textos que nos mostram, nitidamente — como Narciso olhando o seu reflexo na água — essa ausência exposta. <em>Fratura exposta</em> é uma obra que, graficamente, dilui em líquido sangue o que está guardado, todos os medos e anseios que carregamos de forma geracional, o luto, a ausência paterna e do eu, a constante iminência do ser humano se deparando com um mundo que não oferece nenhum espaço.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a fratura se dá, observamos inicialmente a carne se romper. Após a leitura dos contos me deparei com inúmeros questionamentos, principalmente tocando em assuntos bem íntimos, que atingem da mesma forma que ao Jr., personagem de um dos contos. <em>Fratura exposta</em> é uma obra de catarse, ou melhor, uma obra de jorro; após a leitura, nos deparamos com o corpo do autor atingido, e todos nos colocamos ao seu redor para ler o que sai de sua carne aberta e vemos o osso brilhando, com inúmeros textos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo assim, <em>Fratura exposta</em> é um livro de contemplação, uma resposta para os nossos mundos corriqueiros: muitos de nós paramos de observar que todas as nossas cenas podem ser dignas de prosa. As sentenças que jorram dessa carne sangrenta nos provocam admiração, ou inúmeros sentimentos que podem ser expostos em uma rua, ou até em uma roda de amigos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Felipe Matheus Silva Alencar</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Escritor e professor</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Loriane veio às costas do boto tucuxi.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Sep 2025 10:31:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<em>Loriane veio às costas do boto tucuxi.</em> é uma obra que explora o limite e a tensão entre os sentidos e as invenções da própria vida. Uma existência nua e vivida ao acaso de paisagens tropicais e paradisíacas. Mas será tudo só paraíso?
Nestes contos, transparece o gume incisivo de uma respiração poética herbertiana, a inquietude existencial de Camus e o estupor dorido de Lispector. Porém, a grande mestra é a realidade. As histórias pertencem ao povo caboclo, aos ribeirinhos do Tapajós e do Arapiuns.
Quem conta a história passa em fala branca mas periférica, caboclando as vozes de Dona Martinha de Suruacá, do Sô Hipólito de Muratuba, do Senhor Joaquim de Maguari… E Loriane, existiu ela? Existe?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Mirar Loriane às costas do boto é lançar-se num movimento de rotação que exige fôlego — especialmente quando atravessados por um mundo às avessas. Este livro, escrito há vinte anos, quando o mundo ainda era mais mundo, repousou sob os igarapés, imerso numa suave sedimentação. Agora, desperta com a força de um boto que se atira aos céus — numa dança mais livre e delirante.<br />
A sua poética desconcertante e provocadora nasce da vastidão da floresta Amazônica e das vivências transatlânticas que o autor se atreveu a sentir em corpo e febre, entre 2004 e 2005, junto aos ribeirinhos do Tapajós e do Arapiuns. No gigante dos trópicos, Júlio do Carmo Gomes desafia-se a construir uma cartografia pessoal, fixando as vibrações da travessia com coragem e transgressão. Décadas depois, essas memórias ressurgem como visões distorcidas no espelho da escrita: o delírio e a lucidez, o sonho e a matéria bruta. Se a Amazônia profunda foi um transe luminoso, vivido na presença dos lugares e do povo caboclo, estas histórias são o seu negativo: sombras projetadas na memória, vislumbres de um universo onde o real e o fantástico se confundem. Um território onde a realidade se dissolve na vertigem, e o homem se descobre, de repente, estrangeiro dentro de si.<br />
Em sete contos ritmados e vigorosos, tão cruéis quanto magníficos, o autor-caçador prende-nos numa rede de inquietações e experiências-limite. Testa-nos diante do emaranhado de dilemas existenciais, mesclados com cosmologias indígenas, cores technicolor e cheiros da Amazônia. Cada conto é uma chave para as complexidades da vida nos “tristes trópicos”, explorando não apenas a brutal beleza e a vitalidade das terras férteis, mas também os ecos de uma modernidade jamais superada e o giro crítico da colonização.<br />
Com a faca nos dentes e uma pulsão criativa que explode em subversão e desejo, o autor nos arrasta para uma terra em transe, onde a violência estomacal se transmuta em alegoria. Inquieto, entrega-se à premissa de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas: “O real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. É aqui que a escrita de Júlio do Carmo Gomes mais se destaca: na ousadia de captar enigmas e na entrega a um pensamento que abraça obsessivamente, equilibrando razão e poesia. Ele compreende a realidade como uma construção e mergulha na tontura desse percurso. É impossível não se surpreender com esta transa-atlântica, nem permanecer indiferente aos mistérios de Loriane. Com sua fluidez própria, ela expande-se e contagia — enfrentando as dores que as travessias inevitavelmente trazem.</p>
<p><strong>Ângela Berlinde</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A montanha de Albert Camus: a biografia de um biógrafo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Sep 2025 09:44:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um homem que escreve a vida dos outros ignora a sua própria. Tudo o que sabe sobre si está contido num livro que se recusa a ler. Até que, inesperadamente, se apaixona por uma montanha — palco de um trágico acidente com um famoso filósofo. Refugiando-se na sua gruta familiar, fará tudo para conhecer o objeto do seu amor obsessivo. Assim inicia uma viagem solitária em busca do único lugar onde, finalmente, a sua vida poderá começar.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que há de mais humano que o reconhecimento do nonsense da vida? O que há de mais humano que o pensamento em fuga da realidade, o esquecimento recorrente do mundo, o desejo escondido nas palavras e nas coisas, a loucura desenfreada como paranoia perante a morte inevitavelmente iminente? O que há de mais humano que o apetite pelo inumano, como essa utopia do derradeiro desmembramento da existência?<br />
É neste cenário desencantado que Pedro Saavedra realiza o exercício de lucidez perante o absurdo da vida. Um exercício que passa pela afirmação do nada. E porque Pedro Saavedra é também um dramaturgo do fim do teatro, digo, então, num tom encenado: senhores e senhoras, meninos e meninas: eis o grande, o fantástico, o exuberante, o absoluto nada! Niente. Nichts. Rien du rien. Qual profeta do absurdo, Pedro Saavedra delicia-se com um festim do nada!<br />
E é, realmente, de nada que se trata, porque nada há a explicar nestas linhas que escrevo e que antecedem o livro de Pedro Saavedra. Não há mesmo. Não há, porque o livro que se segue não é da ordem da explicação. É, antes, um livro-sensação, um livro que se arroga a liberdade da experimentação do vazio, do deleite de uma existência cheia de nada. É um livro que, sem rodeios, apresenta o nada como seu personagem principal e nos faz mergulhar no abismo mental de um narrador cuja complexidade advém de estar cheio de nada, em coabitação com a ausência de significado do mundo, num estado de permanente vertigem perante a vida.<br />
Não há nenhuma lógica para que algo aconteça em vez de outra coisa. Trata-se apenas de uma coreografia de vazios e pequenos nada, pois a vida, como diz o Sérgio Godinho, é feita de pequenos nadas. E o narrador oferece-nos um percurso pelo seu mundo embrulhado de biografias vazias, episódios de morte e delírio perante o pequeno grande nada que é a vida e o seu sentido.<br />
Homem invisível que vive na ansiedade de se manter sem qualidades, o narrador tem uma obsessão dupla e contraditória pela vida. É um biógrafo que inventa vidas, mas que as consome e elimina a uma velocidade impressionante, movido por um insaciável desejo de nada. Tem com a vida uma relação mortífera. Sôfrego do inorgânico, entra num desenfreado e fatal devir-montanha, mineral, rocha, ressequido na sua “humanidade” que transporta ao peito, tatuada na pele. O personagem principal é uma espécie de Bartleby mineralizado, solitário, serial killer que sabe que nada faz sentido, que já esperou Godot demasiadas vezes, sempre em vão. Um personagem que há muito habita o impossível e sabe que a sua repetição, o eterno retorno do impossível, é tudo o que lhe resta. O juízo final é, sempre, esse quotidiano repetido, onde a esperança é apenas um mapa esbatido, seco, ténue de um labirinto fechado, sem sentido, oco e vazio, da existência. Catadupa de percepções e de pensamentos desligados do corpo que desembocam irremediavelmente em esquecimento no divã de um psicólogo em quem ninguém — a começar pelo próprio narrador — acredita.<br />
Camus, numa recensão à Náusea de Sartre, dizia que “um romance não é senão uma filosofia em imagens”. E é isso mesmo que Pedro Saavedra faz: cria uma série de imagens que remetem para a filosofia e o seu problema eterno do sentido da vida.<br />
Em modo de conclusão, acresco apenas o seguinte: o livro que se segue é uma deliciosa alucinação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Catarina Pombo Nabais</strong></p>
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		<title>Duíno</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Aug 2025 21:42:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um romance que arde como presságio. Fere e fascina. Em uma travessia de fúria e abandono, a caça é implacável e o incompreensível, inimigo. Com uma escrita cortante, feita de feitiço e lâmina, ele nos revela um Brasil de sombras e cicatrizes. Sua prosa bruta e hipnótica nos leva para um território onde o caos e a transição moldam a história e os destinos, e o futuro, por mais distante que pareça, carrega as marcas de um passado que nunca se apaga.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há livros que nascem para perturbar. <em>Duíno</em> é um deles. Sérgio Prado Moura entrega aqui uma narrativa que atravessa o tempo e a pele, impregnando-se na memória como um presságio antigo. Da lama das lagunas alagoanas à penumbra das feiras e becos, ele nos arrasta para uma história de origem e exílio, de homem e bicho, de mito e carne viva.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Duíno</em>, o nascimento é uma sentença e a sobrevivência, um milagre. Há uma criança que cresce entre cães, que mama em tetas de cadela, que ganha corpo e fúria sob a luz da lua. Mas o mundo dos homens não perdoa o que não compreende. E assim, caçado como fera, Duíno é arrancado de sua matilha e atirado ao coração de um lugar onde só a invisibilidade permite continuar vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">A escrita de Sérgio pulsa como a respiração do mangue. Seus parágrafos cheiram a sangue, marisco e brisa lagunar. Há uma musicalidade bruta em sua prosa, uma cadência de ladainha e grito, onde o destino se cumpre entre foices, feitiços e becos povoados de olhos opacos. Ele não entrega concessões: sua literatura é um mergulho sem boias, um rito de passagem no qual os pecados são absolvidos pelo esquecimento ou pelo ferro.</p>
<p style="text-align: justify;">Duíno não é só um personagem — é uma chaga aberta no mundo, um eco de tantas infâncias jogadas ao deus-dará. Neste romance, Sérgio compõe um retrato de sombras e faíscas, conduzindo o leitor pelos tortuosos caminhos da identidade, da exclusão e da violência, num Brasil profundo que ferve, rosna e sangra.</p>
<p style="text-align: justify;">Se há coragem, vá adiante. Mas saiba: <em>Duíno</em> nunca sai do corpo de quem o lê.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p>Fabiana Freitas</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O silêncio não tem asas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Aug 2025 20:34:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(...) Para beber pedimos dois fernets.
Sob a luz da vela na mesa, olhava para a aliança em meu dedo anelar, reluzia tímida na escuridão. Estávamos namorando, namorando… começou a tocar “Libertango”. Os dançarinos nos convidaram para dançar, eu recusei, mas Rachel aceitou dançar. Nunca havia a visto dançar tango, ela já tentara me ensinar, mas nada se comparava com o que eu via, o corpo de Rachel se movia com fluidez nas mãos do dançarino. Ela sorria e se deixava levar, escorregava entre seus dedos (...)</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma cidade pode ser um refúgio ou um labirinto. Entre ruas iluminadas e becos silenciosos, o protagonista desta história caminha pelo espaço incerto entre o Sul e o Sudeste, São Paulo e Pelotas, o encontro e o desencontro, o passado e o presente. <em>O silêncio não tem asas</em> é um romance sobre deslocamento, memória e os rastros invisíveis que deixamos nas cidades e nas pessoas, um livro que questiona o que resta de nós após cada despedida.</p>
<p style="text-align: justify;">Com uma prosa densa e poética, Gilson Fagundes Jr. constrói uma narrativa onde tempo e identidade se dissolvem em reflexões melancólicas. Entre páginas que parecem flutuar no silêncio da madrugada, o autor nos conduz a uma viagem que não tem ponto de chegada, mas que encontra eco em cada leitor que já se sentiu estrangeiro no próprio corpo. Influenciado por Wong Kar-Wai, Haruki Murakami, Yi-Sang e Julio Cortázar, sua escrita carrega a nostalgia dos encontros que poderiam ter sido diferentes, das palavras que nunca foram ditas e dos instantes que escapam entre os dedos.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro, as cidades não são apenas cenários, mas espelhos que refletem ausências. Pelotas, com suas madrugadas geladas e ventos que varrem as ruas desertas, carrega o peso das memórias que insistem em permanecer. São Paulo, metrópole em movimento constante, abriga os fantasmas das vidas que mudam de direção sem aviso. Entre idas e vindas, presenças e ausências, <em>O silêncio não tem asas</em> é um livro que transita pelos vazios e silêncios que compõem nossa existência.</p>
<p style="text-align: justify;">O que nos torna quem somos? Será que somos definidos pelos lugares que percorremos ou pelas pessoas que nos atravessam? Há algo que nos ancora ao mundo ou estamos sempre à beira da próxima partida? <em>O silêncio não tem asas</em> não dá respostas, mas nos convida a sentir. A perceber as pequenas ausências, os ecos do que passou, os momentos em que o tempo se dilata e nos encontramos entre um segundo e outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma história para aqueles que já se sentiram entre mundos, para quem compreende que nem sempre os momentos mais marcantes da vida acontecem com barulho — às vezes, eles se desenrolam na quietude do silêncio.</p>
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		<title>Eu te carrego</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Aug 2025 19:56:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Vínhamos por uma calçada estreita, ela na frente, eu atrás. Dona Souzana, com um tamanco feio e descascado, não combinando com o vestido novo, florido, de festa. Quando ela foi desviar de uma poça, dando um pequeno salto além do que sua perna alcançava, torceu o tornozelo e caiu sentada sobre a bolsa. Acudi assustado, e percebi que seus olhos estavam marejados. Eu não sabia que minha mãe chorava, quer dizer, nunca tinha percebido tão claramente os olhos de minha mãe afogados em lágrimas, a parte branca muito vermelha, as pupilas embaçadas como vidro de box com chuveiro quente. É daquelas frações de segundo que te fazem cair de volta na realidade, te puxam de qualquer sonho acordado, uma distração tola com os carros, com os pedestres, com o farol queimado, com a placa torta sem o nome da rua. Sim, minha mãe está chorosa. Está sofrendo muito. Porque meu pai está morrendo, e nesse segundo, precisamente, eu me lembro disso, e a lembrança entra pela barriga como um alfinete gelado e muito comprido.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No contexto sombrio em que o mundo estava no auge da pandemia de covid-19, uma simples ida à padaria ganha um contorno catastrófico e abre um portal que suga o narrador para um não lugar em tempo algum: as próprias lembranças.</p>
<p style="text-align: justify;">Recordações que levam o narrador a visitar a morte inesperada do pai e, partir dela, o autor, com uma escrita que se aproxima de um relato confessional, reconstrói o percurso de uma família que traz em sua ancestralidade raízes muito distintas e distantes — uma mistura genética improvável entre cangaceiros, calabreses e nipônicos. Uma família em cujo seio persiste um segredo, encalacrado na mente de uma avó com Alzheimer que teima em represar suas revelações.</p>
<p style="text-align: justify;">Com capítulos curtos entrecortados por saltos cronológicos, o autor estreia na autoficção tentando encontrar, para além de alguma neurose transgeracional e do costume de colecionar quinquilharias e miudezas sem valor aparente, uma linha condutora entre ele, seu pai e seu avô. Ou pelo menos uma pedra fundamental que justifique seu constante incômodo de existir.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cartago</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Aug 2025 16:30:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um sinal repentino: escapa uma fagulha de desconfiança de uma amizade duradoura; a assustadora casa mal-assombrada desaba com os medos pueris; pela primeira vez, você sente a dor de uma gentileza. Se todas as coisas mudam, como poderia ser diferente? E a cidade da infância, não teria também que mudar? Cartago é uma compilação de contos sobre Porto Alegre e a sua gente, atravessada pelas mudanças e pelas permanências de uma realidade que tenta apaziguar. É uma obra sobre a perda da juventude, a frustração geracional e, no fundo, o pertencimento incompleto. Para onde finalmente vamos quando um lugar acaba?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O lugar é a dimensão da existência que se manifesta através de um cotidiano compartilhado entre pessoas, objetos e instituições. Como tudo que existe, é o resultado de múltiplas determinações, que, à medida que exercem a sua finitude, transformam o lugar. Com o tempo, quem a ele se associava não mais encontra capacidade para articular uma ação, executar um sentimento, acatar as ordens do imediato; e o lugar, aquele lugar, que ao indivíduo pertencia, de súbito, desaparece. Na aparência, a mesma rua, os mesmos prédios, a mesma gente. No espírito, todavia, um sentimento distinto: o de pertencimento incompleto.</p>
<p style="text-align: justify;">Para onde finalmente vamos quando um lugar acaba?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a pergunta fundamental desta obra. O lugar, aqui, é Porto Alegre, mas poderia ser qualquer outro lugar do mundo. Memphis. Liverpool. Hanói. La Paz. Rio de Janeiro. Todos os seus personagens são seres de Porto Alegre, mas participam de uma constelação coletiva de impressões, tributárias do capitalismo tardio e do esfacelamento do otimismo do novo milênio, vitimado por uma crise multidimensional. Sobretudo, participam da comunidade humana, que, rigorosamente, cresce, amadurece e deixa para trás os brinquedos e os otimismos. Dentro e fora da gente, os lugares acabam. Assim tem sido. Desde antes de qualquer pena ranger em qualquer papel.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O azul antes do preto</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-azul-antes-do-preto</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Aug 2025 16:51:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ele abotoa a camisa, penteia o cabelo, se perfuma, tudo ao mesmo tempo, na correria típica de quem está atrasado para o trabalho. E ela de pé no meio da sala, imóvel, os olhos cravados na televisão. Passou por ela uma vez, indo à cozinha pegar a marmita. Depois de novo, voltando da lavanderia com meias secas. E só então:
— Que que cê tá vendo aí?
Sentou-se no sofá para calçar os sapatos.
— Um absurdo, amor. Jesus Cristo.
Ele leu a manchete no telejornal.
— Oitenta tiros?! Como pode uma coisa dessas?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"> “Ao longo da história, as capacidades de homens negros lampejam aqui e ali como estrelas candentes, e às vezes morrerem antes que o mundo tenha de fato reconhecido seu brilho”. É com essa bela e melancólica imagem que o pensador W.E.B. Du Bois simboliza a condição dos homens negros no mundo moderno.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O azul antes do preto, </em>de Vinicius Silva Souza, nos oferece um céu com muitas estrelas cadentes negras que lampejam por meio de uma escrita comprometida em retratar a vida de homens, em sua maioria pobres, que tentam sobreviver. Porém, em seus 16 contos, o racismo é o grande cometa que ofusca o brilho de quem tende a ter sua vida transformada em estatística.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como Marcos, jovem protagonista do conto de abertura “Um tiro”, são homens que tinham “infinitas possibilidades à sua frente”, em que o tempo pretérito do verbo “ter” anuncia, como uma espécie de mau presságio, o destino previsível à espera de cada rapaz negro no Brasil: ser mais um corpo tombado no chão. Porém, é justamente com a literatura que Vinicius ousadamente desafia esse horizonte de morte.</p>
<p style="text-align: justify;">No livro, o tempo ruim não é só uma fase e o sofrimento nem sempre alimenta mais a coragem. Mas está é a força da obra: retratar sem disfarces, mas sem perder a delicadeza, o desencanto, a tristeza, o trauma, o medo, a ansiedade que marcam a vida de homens que vivem na mira de um gatilho e, ainda assim, buscam forjar outras possibilidades de vida, ao mesmo tempo que parecem roubados todos os dias das vivências mais ordinárias.</p>
<p style="text-align: justify;">Num contexto neoliberal que celebra conquistas de pessoas negras como se essas vitórias atenuassem a brutal violência racial, Vinicius constrói com doce ironia e cruel realismo narrativas de homens que não são exemplos de nada, muito menos heróis. Com exceção do menino que descobre que pode ser como o Pantera Negra, eles também não desejam nada disso. Afinal, como desabafa um personagem, “vida de pobre é foda”. O que querem é viver dignamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Revelando um grande domínio técnico do gênero conto, Vinicius enreda quem lê numa atmosfera em que tememos que uma tragédia se abata sobre cada personagem, como um homem que corre em ruas hostis, um jovem que compra uma moto, um militante aguerrido na universidade. Mas, se cada conto funciona como uma denúncia, seu talento maior é nos fazer imaginar que a liberdade negra pode ser azul da cor do mar.</p>
<p><strong>Fernanda Silva e Sousa</strong></p>
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		<title>Combo Clube Insólito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Jul 2025 12:44:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Com o grande crescimento de publicações em nosso catálogo de literatura ficcional,  este clube foca na leitura e debate de nosso selo Teju Jagua.

Os encontros são gratuitos. Não é obrigatória a compra de um exemplar para participar, apesar de ser o recomendado.

<strong><u>O link da videochamada para todos os encontros: https://meet.google.com/hyg-csiz-cnn</u></strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na primeira semana de cada mês, no Instagram da Urutau e do respectivo autor, às 19h, teremos uma live para apresentarmos o livro, autor/autora e o que esperar do encontro do Clube de acordo com o o cronograma.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Combo Clube Onça-magenta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Jul 2025 14:00:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Com o grande crescimento de publicações em nosso catálogo de romances, contos e crônicas, este clube foca na leitura e debate de prosas contemporâneas e suas temáticas.
<p style="text-align: justify;">Os encontros são gratuitos. Não é obrigatória a compra de um exemplar para participar, apesar de ser o recomendado.</p>
<strong><u>O link da videochamada para todos os encontros: https://meet.google.com/vxg-gohe-fcw</u></strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Cronograma: </strong></p>
<p>01 de setembro &#8211; 20h – <a href="https://editoraurutau.com/autor/rafael-sette-camara">Rafael Sette Câmara</a>, &#8220;<a href="https://editoraurutau.com/titulo/dos-que-vao-morrer-aos-mortos">Dos que vão morrer aos mortos</a>&#8221;</p>
<p>30 de setembro &#8211; 19h – <a href="https://editoraurutau.com/autor/jessica-pozzebon">Jéssica Pozzebon</a>, &#8220;<a href="https://editoraurutau.com/titulo/antes-de-ser-pequena">Antes de ser pequena</a>&#8221;</p>
<p>28 de outubro &#8211; 19h – <a href="https://editoraurutau.com/autor/alvaro-filho">Álvaro Filho</a>, &#8220;<a href="https://editoraurutau.com/titulo/o-mau-selvagem">O mau selvagem</a>&#8221;</p>
<p>25 de novembro – 19h – <a href="https://editoraurutau.com/autor/marcela-fassy">Marcela Fass</a>y, &#8220;<a href="https://editoraurutau.com/titulo/as-putas-escrevem">As putas escrevem</a>&#8221;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O perigo das vírgulas malpostas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Jul 2025 09:50:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Mil novecentos e noventa e seis. Eu tinha oito anos e eu costumava dançar na sala. A minha mãe nunca se importava com a música alta e o meu pai quase nunca estava em casa. Eu girava, saltava, inventava coreografias, imitava os meus artistas favoritos, imaginava um microfone e sonhava. O suor era o líquido que transformava o chão da sala em palco. Eu era feliz.
Um dia, o meu pai me viu na sala. Ríspido, disse que a música estava muito alta. Eu diminuí o volume e continuei a dançar. Mas não pareceu suficiente, o meu pai voltou à sala e, ainda mais áspero, desligou o som com a justificativa de que queria ver a tv em paz. Respondi que ia usar o walkman. Eu só queria dançar. Ele saiu de casa visivelmente agitado. Eu dancei.
Mas esse foi só o primeiro dia. Depois houve outro. E outro. O meu pai bebia. Eu só queria dançar. O sofá cheirava sempre a cerveja. Eu confundia com o cheiro do meu pai.
— Homem não dança desse jeito!
...
(<em>O que é ser homem?</em>, pág. 13)

&#160;

&#160;

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O perigo das vírgulas malpostas</em> aventura-se nas profundezas da experiência queer, desafia as normas sociais e explora a complexidade da identidade, defendendo a liberdade de desejar sem obstáculos. Este livro não tem receio de expor as partes mais íntimas do corpo e da alma.<br />
Com uma escrita crua, honesta e que provoca desconforto, o autor convida-nos a testemunhar um processo de transformação no qual a vontade de pertencer e a dor de não ser compreendido coexistem. O desconforto cede lugar à cura e ao empoderamento à medida que o eu se liberta de processos normativos impostos. A diacronia revela uma descoberta contínua da identidade, uma busca não linear.</p>
<p>O corpo e a sua beleza escatológica são explorados sem receio e censura. O balneário é tido como um dos primeiros espaços de maior vulnerabilidade e autenticidade, experiência com a qual me relaciono. Com uma sensibilidade única, Felipe Castro denuncia e celebra a resistência queer.</p>
<p><strong>Filipe Heath</strong><br />
influenciador literário especializado em literatura queer, promovendo em sua conta instagram (@filipeheath) obras que celebrem a diversidade e a cultura lgbtqiap+.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Notícias submarinas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/noticias-submarinas-2</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 05 Jul 2025 17:39:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[muitos aviões têm
caído nessa terra

não é possível construir
moradas de ar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Recebo o primeiro livro de Júlia Gama Fernandes. De saída, me surpreendo e admiro o título e sua tipografia. notícias <em>submarinas.</em> Então, mergulho.</p>
<p style="text-align: justify;">notícias <em>submarinas </em>é um livro que apresenta, em sua estrutura, o rastro por onde Júlia vem fazendo sua formação: os estudos na Faculdade de Artes e Design, a direção do curta “Pivete”<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>, o mestrado em Cinema e Audiovisual, o olhar para a Literatura e o interesse pela psicanálise. É um livro que nos chama para a entrada em um mundo submerso, coberto pelas águas de uma escrita poética, enigmática, visual e própria. Aqui, fazer a experiência de ler, é evitar dar sentido e deixar-se molhar pelas palavras que criam um ato, pontuam o texto nas mudanças de linha, no próprio movimento da escrita sobre o papel. Cabe o nado livre, por um ritmo que acolhe as braçadas. Assim, a leitura nos norteia pela metáfora náutica que propõe a escansão: <em>navegar, aportar, zarpar.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Somos convidados a nos deslocarmos em um atravessamento onde ela <em>Navega </em>entre alusões cinematográficas e experiências vividas, nos conduzindo por entre imagens, cenários, sentimentos, memórias, mares em travessia. <em>Aporta </em>no porto da falta e elabora o roteiro de um percurso subjetivo, contornado com “ataduras”, costurado a “nós de marinheiro” e amarrado com “pontos de tricô”. Desse modo, nomeia seus passos e nos convida a seguir com ela nesse caminho que faz para remendar no corpo as letras do desejo. Júlia deixa-se abraçar pelo poema como instrumento quase real de vida e aceita a coragem: nos furos, a escrita. <em>Zarpa</em> na borda do futuro esboçado e desenhado com os gizes do passado. O olhar em frente, sem medo de <em>trupicar</em> nas pegadas deixadas pela infância da língua. Um flerte com a alegria que conserva o viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Presenciamos o trabalho que faz, sua trajetória e as palavras que colheu para calçar suas rotas. De volta à superfície, resta a vontade de continuarmos mergulhando no oceano que a poesia de Júlia nos oferece, profundamente imersos em seu solfejo de palavras.</p>
<p><strong>Márcia Evaristo</strong></p>
<p><em> </em></p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> Filme de abertura do Festival Primeiro Plano 2022.</p>
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		<title>Contos dos subúrbios</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jul 2025 14:36:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ao reunir os contos desta coletânea — escritos ora com entusiasmo febril, ora com desmotivação errática, tendo sido rasurados, abandonados, retomados e adiados vezes sem conta —, cheguei ao fim, à presente página e coloquei-me a seguinte questão: o que têm em comum estas histórias tão dispersas? Existe neste saco de gatos algum elo, será possível deslindar um meridiano entre, por exemplo, uma história sobre uma pirómana convencida de que nasceu “com o diabo no ventre” e um conto sobre um homem que se fecha no seu apartamento, esmagado pela agorafobia? E a existir, terá esse fio vertebral brotado silencioso do meu subconsciente, visitando-me como um fantasma com a sua mão espetral pousada no meu ombro, sem eu dar conta?
Relendo-os cheguei à conclusão de que sim, existe uma linha de novelo que serpenteia entre estes contos, uma corda de roupa quase invisível na qual todas estas histórias díspares e muito modestas — a versão literária de peúgas, cuecas carcomidas por traças e t-shirts made in China — estão penduradas: a ideia de subúrbio.
É um subúrbio na definição mais lata possível — um espaço, ora físico e geográfico, ora psicológico e mental, fora do centro, à margem, desterrado, longínquo. Algumas das histórias que integram esta coletânea têm lugar, de facto, em subúrbios geográficos de Lisboa, como Almada, Corroios, ou o Barreiro, zonas dormitório onde as classes trabalhadoras são armazenadas e desarmazenadas diariamente no afã de prestarem o seu tributo e sacrifício mecânico — guardarem e limparem escritórios, passarem códigos de barras em caixas de supermercado, servirem cafés a turistas — à reprodução do Capital, esse deus Sumério. Mas outras desenrolam-se em subúrbios sociológicos e mentais, com personagens que, apesar de se situarem geograficamente no centro do centro da capital do antigo império, de viverem em Alvalade ou serem empresários do alojamento local em Campo de Ourique, possuem um qualquer traço marginal — são pessoas racializadas, leram os livros errados sobre os Descobrimentos, vêm de uma “ilha ardente e tropical, com presidentes loucos e sanguinários e árvores de fruto mágicas” — sendo, por conseguinte, colocadas numa situação de alteridade, depositadas à margem na consciência coletiva e perpetuamente afastadas da centralidade sociológica e histórica do país.
Tal como Júlio César disse acerca do seu rival Pompeu, “podemos tirar o homem do Piceno [região considerada atrasada e bárbara], mas nunca tiraremos o Piceno do homem”, muitas das personagens destas histórias carregam consigo essa marginalidade, essa longinquidade, essa “sub-urbanidade” mesmo quando se movem nas ruas do Príncipe Real ou do Chiado. E, outras vezes, noutras histórias, trata-se simplesmente de pessoas da Cova da Piedade a apanhar autocarros dos Transportes Sul do Tejo para irem para outro bairro dormitório de Almada.
Como pessoa que nasceu, cresceu e viveu muitos anos na Margem Sul, talvez eu também traga comigo um pouco dessa suburbanidade pós-industrial, de betão e dos estaleiros navais em corrosão — e, talvez, ela esteja sempre ao meu lado, com a mão pousada no meu ombro, enquanto escrevo.

&#160;

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os que vivem nas margens das grandes malhas urbanas e à margem do que tantas vezes é tido, num mundo em que o cinismo impera, como uma vida plena, têm o papel central em <em>Contos dos subúrbios</em>. Ao levá-los para o âmago dos seus contos, Carim Vali (inconscientemente ou não) retira estes protagonistas do quotidiano da marginalidade multidimensional a que a sociedade, o mundo e até o Olimpo os parece ter sujeitado.<br />
Com uma ironia agridoce, o autor retrata de forma crua os desafios que se apresentam aos que vivem diariamente os preconceitos generalizados da sociedade a par da sensibilidade particular que nasce de tais vivências e que parece dotar as suas personagens de uma sabedoria superior.<br />
Porventura por força desta sabedoria, o conceito de poder desmistifica-se. As correntes materiais e espirituais que habitualmente espartilham os corpos e mentes daqueles que suportam a pirâmide do mundo contemporâneo quebram perante a subtil realização de que mesmo o mais fraco tem, em si, o poder de fazer-se ver.<br />
E, por vezes, fazer-nos ver implica assumir a nossa própria existência com todas as suas limitações, os seus rancores, e darmos um primeiro passo — como o que S. dá quando confrontado com o conteúdo de uma gaveta em “A morte de um bilhete expirado” ou como o que é dado na carruagem de um comboio em “Ser humano é ser deus punido”. Diferentemente, fazer-nos ver pode implicar não darmos passo algum e mantermo-nos imóveis, irredutíveis, como em “Novo Regime do Arrendamento Urbano”.<br />
Contos dos subúrbios apresenta uma componente sensorial que transporta o leitor para o interior das narrativas e potencia a identificação com as personagens. O simbolismo dos contos adensa-se com as referências de Carim Vali às texturas dos tecidos, à arquitetura dos edifícios, à cor dos toldos, dos passeios e aos sons do rebuliço da cidade tão bem personificados, por exemplo, no burburinho de uma conversa de café, regada a medronho e aguardente.<br />
Carim Vali retrata uma Lisboa, um Portugal, em vias de extinção. A Lisboa dos cafés de bairro e das vizinhas que distribuem panfletos, espreitam à janela e tratam dos jardins, que se vê substituída pela Lisboa do brunch e dos turistas que fotografam os habitantes sem ver a sua humanidade.<br />
Com acutilância elegante, somos, durante esta leitura, confrontados com o peso do passado de Portugal — que nos convida a um ato de reflexão e/ou expiação — e com a nostalgia e saudosismo por um presente que ainda não se perdeu totalmente. Um retrato verdadeiro e imperdível da atualidade portuguesa na estreia de Carim Vali.</p>
<p><strong>Ana Jorge Corrêa Cardoso</strong></p>
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		<title>Anã branca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Jul 2025 20:15:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro é o resultado dos primeiros exercícios criativos de uma romancista no gênero do conto. A história Game over é uma metanarrativa que lida com os prazeres e apelos do jogo da leitura — seja a de livros ou de pessoas. Em “A recusa”, temos o desabafo de uma mulher sobre as renúncias que ancoraram sua vida. Em “Borrasca”, acompanhamos dois amigos de infância em momentos de vida diferentes e percebemos que os ventos sopram tanto para os que partem quanto para os que ficam. Em todos os contos, o tempo é espiralado e só se transcende pela cadeia de incontáveis retornares.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O primeiro livro de contos da romancista Débora Rosa é uma composição que se desenvolve por um tênue cruzamento da linha histórica.</p>
<p style="text-align: justify;">A contista demonstra domínio na construção dos diálogos, dos monólogos interiores, dos discursos direto e indireto livre; técnicas que aproximam o leitor das consciências plurais das personagens, principalmente, as femininas.</p>
<p style="text-align: justify;">São elas que constroem as camadas, os níveis de subjetividades que dão corpo às indagações, inquietações atemporais num mundo de puro estranhamento, de mal-estar, de não pertencimento, por isso a ênfase na palavra RECUSA no âmbito semântico de afirmação do sujeito.</p>
<p style="text-align: justify;">O embate no campo díspare dos desejos, traumas e percepções não se resume às relações amorosas entre sexos ou inquietações feministas, alastra-se ressaltando o complexo entrelaçamento intersubjetivo que envolve mulheres, genitores, irmãos, amigos, casais; campo e cidade; passado e presente. A modulação do tempo/espaço das narrativas participa ativamente da complexa formação, no devir a ser das personagens.</p>
<p style="text-align: justify;">Os variados temas como conservadorismo, tabus, narcisismo, hipocrisia, violência, abandono, solidão, angústia e desejo estão dialogicamente confrontados na arena lírica e psicológica dos enredos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em “Borrasca”, o leitor vai se deparar com um dos pontos altos da composição de Débora Rosa. O instigante viés filosófico sobre as intempéries e os valores materiais está presente na imagem: tudo que é sólido desmancha-se na ventania, na metáfora, no açoite irado da borrasca.  A concisão de algumas cenas dialoga com o cinema, em alusão ao personagem cineasta. O retorno do filho pródigo à terra natal e a resposta hostil da mãe natureza à soberba.</p>
<p style="text-align: justify;">O conto “Anã Branca” que dá nome ao livro é belissimamente composto por imagens poéticas vivenciadas pelo tato e pela visão sensível da narradora-personagem em estado epifânico do devir a ser com outro corpo e a natureza, que se abraçam, se confundem e se separam no torvelinho do estranhamento e ausências.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixo aqui algumas iscas para içar a mente e provocar o desejo do prazer do texto que espera por você, leitor!</p>
<p><strong>Isa Corgosinho</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ao largo dos meridianos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Jul 2025 13:39:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Assombrado pela desventura, Adão Bencatel adquire um bar speakeasy chamado Bretão, numa zona remota e de ventos aziagos. Apesar de parca, a clientela do Bretão demonstra-se mágica, exótica e idiossincrática, ao embalo etéreo das bebidas que Adão Bencatel, qual curador, selecciona, prepara e serve. Iniciando-se como conversas de circunstância em tudo banais, os diálogos entre Adão Bencatel e os clientes do Bretão vão adquirindo uma dimensão íntima, revelando a misteriosa interligação entre os seus passados ou futuros. Pela ironia universal, Adão Bencatel vê-se imbuído, à aparente fortuidade, numa visita aos seus fantasmas mais belos e temíveis que deixara, ao esquecimento, no Burundi.
<em>Ao largo dos meridiano</em>s é o coágulo onírico de imagens com as quais, derivando, se depara um pensamento perdido na frescura bravia de um jardim.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Este é o terceiro livro que li do Pedro e, de longe, o mais desafiador. Adão Bencatel tem um bar no meio do nada e por lá passa uma galeria de personagens desconcertante, com histórias de vida mirabolantes e surreais. Os diálogos entre Adão e os clientes são deliciosos, plenos de surrealismo, mas também intimistas, tudo se revela naquele balcão parcamente iluminado, nada ficando por contar. O passado é dissecado e o futuro encarado de peito feito, tudo magistralmente interligado. Também Adão, pelo meio das conversas, se confronta com uma vida que quis deixar para trás, repleta de fantasmas e arrependimentos. Mais do que as histórias em si, este é um soberbo exercício literário, no qual a forma como as histórias nos são contadas e se entrelaçam é o verdadeiro trunfo deste grande livro. Destaco os diálogos, feitos com uma originalidade e mestria ao alcance de poucos. Um enorme festim da palavra, a ser degustado com tempo e calma. Se passou aqui os olhos antes de iniciar a leitura, deixo-lhe um conselho: sente-se confortável e respire fundo. Tem nas mãos um universo mágico, feito de páginas deliciosas. Deixe que estas palavras dancem a sua dança consigo. Como diz um dos personagens:<br />
“Onde estaríamos se as palavras não se afogassem nas bocas?”<br />
<strong>Rui Miguel Almeida</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Reza &#038; Drible</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Jul 2025 13:55:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Presumo, por arrogância ou meninice, que as entidades nesse terreiro somos nós, meninos feitos pra grama. Nunca fui fã de nenhum santo ou orixá dentro de campo, mesmo sabendo que o jogo não era só o jogo.” [...] “Vivia um eterno mal-estar no vestiário, sem saber que vivia assim, o mesmo lugar que trazia comunhão trazia incompreensão também.” [...] “Os anos morando em alojamento tinham forjado um homem, ou o que se pensava disso.”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os meninos de grama que rezam e driblam neste romance carregam em si a força e o desespero que marcam um momento de vida que é tão particular e, ao mesmo tempo não, como Zói, um deles, deixa escapar <em>podia ser um sentimento só meu, mas também podia ser um sentimento comum, ninguém fala disso</em>. Neste livro, se fala disso e também daquilo que é tão característico da subjetivação de meninos e homens no nosso país, que por vezes têm sua história contada sem verdadeiramente levar em conta suas raízes e as pluralidades de narrativas. Aqui, a narrativa gira em torno do futebol, mas o campo, o vestiário, os treinos e as competições são apenas pano de fundo para levantar outras bolas, que nos fazem refletir sobre as <em>trairagens</em> a que as masculinidades estão submetidas, e ainda nos adverte sobre como a parceria entre os meninoshomens — ou homensmeninos — não precisa ser sempre tóxica e cruel, mas sim carregada de generosidade e emoção. Todo esse cenário, escrito com inteligência, humor e intimidade, também nos possibilita a aproximação com essa cidade, Pouca História, que <em>se pá</em> vai conquistar mesmo quem nunca viu de perto esse céu que <em>parece ao alcance das mãos</em>. A divisão do livro em quatro tempos, sendo dois de prorrogação, é tão familiar quanto um clássico do nosso time do coração, mas também é um convite para quem posiciona o futebol às margens da sua própria história. Somos convidados a conhecer não só os 11 jogadores do time infantil do Ceilândia Esporte Clube, mas os profissionais que os treinam e (res)guardam, as suas famílias e… os seus futuros? Algumas frases sem ponto final, diversas expressões de quem é e de quem veio parar na <em>Pouca História</em>, algumas Palavras escritas em caixa alta nos lembram ainda como o português é bem brasileiro e como, independente do gênero, a gente acaba tendo também um pouco de Tusempai, de Gago, de Brioche e de Boca dentro da gente. Que essa leitura possa inspirar os meninos a pedirem afago, e que esse colo seja dado, e esse movimento cada vez mais discutido e problematizado pela nossa sociedade: é a minha aposta e desejo para <em>Reza &amp; Drible</em>.</p>
<p><strong>Amanda Said</strong>, psicóloga e doutora em Masculinidades pela UnB</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Meio amargo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Jul 2025 12:50:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Leila perde os pais num intervalo de quinze dias e se vê obrigada a mexer nas coisas deles, à procura de documentos, por questões burocráticas. Nessa busca, ela encontra uma caixa, com o que foi seu objeto de desejo por anos — cadernos de receitas da mãe, Germana. Dentro deles, cartas que ela enviou e recebeu durante toda a vida. A partir da leitura dessas correspondências, Leila descobre uma outra Germana e muitas histórias, desconhecidas até então.
Tudo se desenrola com o leitor descobrindo isso junto com a protagonista, entremeado pelas reações, memórias e sentimentos dela ao se deparar com aquele novo universo.
Uma história sobre as nuances das relações, as inevitáveis surpresas da vida, a complexidade de ser humano.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Meio Amargo” é mais do que um livro. É um convite a habitar novamente os cheiros que saíam das bocas dos fogões nos rincões da nossa infância ou o gosto do que nos alimentava quando uma dor profunda nos dilacerava. Uma história sensível, que fala sobre a necessidade de provocar fissuras para crescer, de rompimento com os nossos maiores afetos como única forma de existência e até de sobrevivência.</p>
<p style="text-align: justify;">Na linguagem de quem sabe manejar facas e faz da memória seu principal ingrediente, é assim que Sílvia Sibalde nos arrebata. Ela nos apresenta a sua Leila, que encontra numa caixa de documentos o caderno de receitas da mãe, Germana, após sua morte. Aos poucos, o leitor descobre que, dentro de uma relação complexa, a paixão pela cozinha fosse talvez o único elo que as unisse. Só que são as cartas encontradas neste mesmo lugar que revela um passado sobre sua família que ela não conhecia.</p>
<p style="text-align: justify;">A autora não nos poupa e nos conduz para territórios conhecidos e desconfortáveis, das idiossincrasias da nossa própria origem que, sem saída, nos constituem. Assim, ela abre as tampas de suas panelas daquilo que nem sempre queremos experimentar, do que herdamos inconscientemente sem nenhuma permissão. Se a pancada for forte, uma comida é oferecida ao final. Não há angústia que não termine com conforto.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma narrativa escrita por mãos que dominam a arte da escrita e da cozinha. Como faz toda grande jornalista, o deleite do passeio é garantido, como Nina Horta, em “Não é Sopa”, ou “Afrodite”, de Isabel Allende. Uma obra construída para expandir os sentidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sílvia é uma cronista do seu tempo. Em seu romance de estreia, encontramos um jogo entre passado e presente construído em prosa, cartas e receitas, temperos de uma novela instigante, daquelas que não queremos que acabe, recheadas de segredos, traições, traumas, tabus e perdas. O preço da misoginia e os conflitos entre gerações.</p>
<p style="text-align: justify;">A maestria da obra está inclusive na quantidade, da dose certa, como sugere o título. Nada sobra nem falta. O texto nunca desanda, tão profundo, sofisticado e preciso quanto o olhar de grandes <em>chefs</em>, como ela também é.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se assuste se sentir o impulso de preparar um arroz de bacalhau ou uma torta de maçã numa tarde chuvosa qualquer. Apenas obedeça. São elas, Sílvia, Leila e Germana, que estão no comando.</p>
<p style="text-align: justify;">Boa leitura.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Renata Bortoleto</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Escritora e jornalista</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Números ímpares</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Jun 2025 10:56:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[— Essa merda vai matar-te.
Perdi a conta às vezes que lho disse. Conhecia-a desde sempre, não havia momento da minha vida em que não me lembrasse dela lá, a irradiar positividade e a desconsiderar as pedras no caminho, como se não existissem, não pesassem e não fossem capazes de nos esmagar. Não quero parecer mal-agradecida, reconheço-lhe a coragem louca e imparável que tantas vezes me deu a mão, resgatando-me da espiral embriagada e destrutiva parida pela ausência de autoestima com a típica venda de banha da cobra, “o Van Gogh só foi reconhecido depois de morto” ou “também disseram ao García Marquez para se dedicar a outra coisa”, mas há limites para tudo. A gravidade puxa-nos para baixo, não é por acaso que nos dizem para ter os pés assentes na terra, voar é uma metáfora bonita, tirar o brevet também, mas sonha-se melhor deitado numa cama feita de lavado e com uma almofada a guiar-nos o espírito do que estatelado no chão. E ela era das que saltava de chapa na piscina.

(<em>Vício dos astros</em>, página 11)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Com cinco “Delírios e um “Testemunho”, Joana Barata oferece, neste livro, uma oportunidade de nos posicionarmos no lugar de quem olha de fora para dentro. Não se trata apenas de julgar do outro lado do espelho, é uma apropriação das experiências alheias como quem corre ladeira abaixo, na fronteira entre ficção e realidade.<br />
“(…) brincar com a semiótica, a inventar absurdos” e “experimentar uma inconveniência”, são modos de assumir o papel dos múltiplos “eus” — que se cruzam, opõem e distorcem, como os quatro imaginários da fotografia de Roland Barthes: quem se julga ser, quem se pretende que os outros pensem que se é, quem o fotógrafo percebe, e de quem este se serve para expressar a sua arte.<br />
Este livro apresenta-nos seis contos com ecos de relato, temperados com o resgate de mitos, referências literárias, cinematográficas e, porque não?, quotidianas do universo da autora. A voz e o ritmo próprios revelados não se esgotam na estrutura narrativa. Em “Quem?”, a composição visual tece uma relação com o leitor que transcende o decifrar do sentido, envolvendo o corpo, e até o pulsar do sangue, nas variações da leitura de uma palavra.</p>
<p>Números ímpares não são divisíveis em dois números inteiros iguais, não têm par nem igual, são únicos, extraordinários, e jamais poderiam ser (apenas, arrisco acrescentar) múltiplos de dois. Constituem, por isso, um convite ao delírio e ao testemunho da vida destas mulheres — também elas — ímpares e múltiplas.<br />
Para a pergunta “Quanto custa a liberdade, por favor?”, não tenho respostas, mas feitas as contas, ler estes delírios que precisavam ser imaginados e o testemunho que não pode ser calado pode bem ser um acto de resistência.</p>
<p><strong>Isabel Peixeiro</strong></p>
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		<title>Caderno de constrangimentos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jun 2025 10:48:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">a mesa comprida estava atafulhada com os destroços do almoço. pratos sujos sobrepostos, manchas de vinho e migalhas. a sogra trouxe os cafés numa bandeja de plástico florida e encaixou-os nos poucos espaços livres à frente de cada um dos filhos e enteadas, que iam murmurando agradecimentos sem interromper a conversa animada. os homens acenderam cigarros, deitando as cinzas no pires do café. ela também queria um, mas ainda se sentia constrangida a fumar ao pé da família do marido. (...)
(<em>o limão</em>, 9)</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Abrir <em>Caderno de Constrangimentos</em> pela primeira vez é segurar um bilhete para uma exibição da mais canónica experiência feminina, que é o embaraço. Nesta primeira publicação de ficção desde a adolescência, Rebeca Csalog ordena o seu imaginário em histórias que, mais que pequenos contos, se lêem como cenas que se desenrolam no tempo real da leitura. Apresentam-se elaborados dioramas de constrangimentos, reproduções exatas dos lugares mais incómodos da mente. A autora extraiu, construiu e dispôs as encenações iluminadas por focos em corredores escuros; depois sabotou-as, em protesto a si mesma e às vivências colaterais que teimam em se prender na memória —como a omnisciente crueldade da infância; adolescência transpirada de vergonha; ou a família nuclear. A cada leitor/a de Rebeca Csalog oferece-se esta mesma experiência de exposição e sabotagem; a vertigem de se dissolver o vidro protector e de cair para dentro de um diorama que se mostra acolhedor primeiro, perigoso em segundo. Ao longo de cada engolir em seco, os constrangimentos titulares aguentam-se em suspensão, de cena em cena, aguçados como estalactites. Rodeada pelos objectos desses lugares, molhada pela chuva insolente de Portugal, resta ao leitor replicar o acto final da experiência e assumir-se cúmplice da inevitável sabotagem; imbuído da perversidade de voluntariamente trilhar um percurso que anuncia um descarrilamento, ou do penoso prazer de se viver como mulher.</p>
<p><strong>Mariana Tilly</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cartas aos afetos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Jun 2025 22:43:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro é fruto de um intenso processo de autoconhecimento e acolhimento, sendo a paixão por outra mulher responsável pelo início de uma revolução interna. bell hooks diz que o amor é o que o amor faz, este livro foi escrito atravessado por esse sentimento-ação. Ser uma mulher que gosta de mulheres exige constelações de coragem, e como acredito que o amor é sempre uma história que vale a pena ser contada: te envio essas cartas aos afetos, do meu coração para o seu.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">há algo que caminha entre as brechas do mundo, invade toda fresta, encontra toda porta entreaberta, faz correr água no meio das pedras: ninguém escapa. o amor é esse redemoinho que não precisa pedir licença e faz questão de mostrar que é vivo. o amor mora nas minúcias e pode existir onde quiser. o amor nos relembra das grandezas, pede crescimento, dedicação, cumplicidade. é preciso coragem para arriscá-lo, deixar ventar, viver apesar do caos e mergulhar nesse afeto que nos chama pelo nome e anseia o aceite do convite. é preciso queixo erguido para assumir querências, viver os próprios desejos, apostar as fichas no coração continuamente. amar mulheres é dançar as profundezas, olhar a natureza nos olhos, aproximar os continentes de dentro. andar de mãos dadas com outra mulher é soprar: você pode até tentar nos apagar, mas nós carregamos a encantaria da continuidade. mais do que isso, também é preciso entrega. compreensão dos fins. equilíbrio que não perde a capacidade de se emocionar. desobediência. apreço pelos recomeços. amar de novo e de novo, como quem insiste no próprio reflexo diante do espelho. no fundo, ninguém sabe muito bem como mediar o afeto, mas a disposição para aprender carrega a magia dos universos. insistir nesse amor revolucionário é o que nos traz de volta à vida.</p>
<p style="text-align: justify;">este livro nos devolve aquilo que achávamos que havíamos perdido. um livro de proximidades, de cartas que carregam funduras, de despertar vontades. tem bagunça, tem retorno, tem receios, tem movimento, tem pulsação. é de verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">querida Maria Carol, acompanhei o amplificar da sua escrita e nada mais bonito do que saber que você está caminhando livre, amando, sentindo, deixando chover o novo. como diz bell hooks, o amor é uma ação. e uma mulher negra que escreve sobre o amor está chacoalhando todas as estruturas do mundo. e, você, vem?</p>
<p style="text-align: justify;">com axé,</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ryane leão</strong></p>
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		<title>O coelho da páscoa não gosta de bichas pretas e outros contos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-coelho-da-pascoa-nao-gosta-de-bichas-pretas-e-outros-contos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Jun 2025 00:35:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Falaram que eu era mufino. Vivia em rezadeira e benzedeira, quando não em hospital e pronto-socorro. Tomava todo tipo de remédio e garrafada. Sempre imaginei que era porque tive asma durante toda a infância, mas com o tempo fui percebendo que meu quebranto era outro.

Não desconfiava que ser uma bicha preta era um problema, não era um problema pra mim, mas era para os meus pais. Eles pareciam ter muito medo, não de mim, mas das pessoas da rua, do que elas poderiam fazer. Às vezes, minha mãe me impedia de brincar com as outras crianças, dizia que era perigoso, eu nunca quebrei um osso]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os contos de autoficção de Francisco Ricardo Lima Caetano nos levam por um passeio quase que atemporal sobre os ditames do que é viver em diáspora nas Amazônias. Neste território que nos faz e nos decompõe, somos inclinados a desaprender a ser quem somos.</p>
<p>Na delicadeza de uma costura própria, a cada página caminhamos sob os trilhos de um itinerário que permeia a negação e a afirmação do que se constrói como o ser uma bixa preta amazônida.</p>
<p>Nos corredores da memória sentimos a contundente asfixia de cada sílaba, em: “Eu não queria ser a bicha do bairro”.</p>
<p>Explorando o som de uma marcha consistente que ensina crianças negras e LGBTQIAPN+ a temerem suas próprias características, em cada conto a imensidão de dispositivos e formas de controle são nomeados.</p>
<p>São eles a casa, a escola, os bêbados das ruas, a universidade, a venda da esquina e a escola mais uma vez — todos estes lugares-pessoas são tratores imponentes na demolição das narrativas-existências de bixas pretas.</p>
<p>Mas há também as afetuosas resistências presentes aqui nas rezas baixinhas de dona Socorro, na recordação do amor vivido por dois homens pretos no Parque dos Bilhares, nas mãos de uma mãe e na curiosidade de Ismael.</p>
<p>Os parágrafos de Francisco constroem cenas que ativam todos os nossos sentidos. Que visibilizam corpos, histórias, opiniões e lugares ainda pouco anunciados no texto literário.</p>
<p>Não se restrinja a folhear estas páginas. Aprofunde-se nelas. Sinta os sabores e dissabores tão particulares da coragem que é a autoficção inovadora, potente e preta de Francisco Ricardo Lima Caetano.</p>
<p><strong>Raescla Ribeiro</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Pequeno mapa do tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Jun 2025 00:18:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Contrariando as previsões, não choveu naquela manhã, dia claro, úmido.

Pássaros escandalosos, felizes.

Ainda não sabiam do ocorrido. Nenhuma estranheza os fizesse desconfiar, nada de pressentimentos, calafrios. Ninguém cochichando pelos cantos. Manhã comum, domingo de dezembro.

Seu Arlindo ajeita o carvão na churrasqueira. Joana coloca a cerveja numa dupla de copos americanos.

Crianças gritam empinando pipas na rua. Um cachorro late tentando se soltar da coleira. Arroz pronto, vinagrete apimentado, farinha, limão. Rotinas.

Nenhuma suspeita da ameaça à tranquilidade dominical."]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das grandes virtudes de <em>Pequeno mapa do tempo</em>, estreia na literatura de Hellen Sousa, é a forte unidade temática existente, algo pungente que vai se acumulando, conto a conto, durante a leitura, como se cada história se somasse à outra e, ao fim, o leitor saísse sensorial e emocionalmente impactado.</p>
<p>Hellen conta histórias, cria enredos, constrói dores, emoções, conflitos. No entanto, como nos traumas, as fraturas não são necessariamente expostas, há toda uma história pregressa não mostrada, mas que o leitor intui, fareja, pesca. Há muito mais ali do que a autora revela, do que o próprio narrador dá a ver, uma subjetividade profunda dos personagens que emerge nas falas, hesitações, nos traços de personalidade. Uma qualidade para poucos autores estreantes, porque envolve não apenas uma maturidade literária, mas um despojamento do ego, o respeito à inteligência do leitor.</p>
<p>As mulheres (crianças, velhas, jovens adultas ou já maduras) são as personagens privilegiadas destes contos. Meninas, aqui, não vestem rosa. A autora opta pelo conflito das relações familiares, amorosas, ancestrais, hereditárias, por meio do qual tematiza a opressão, a violência, o ressentimento, a melancolia, a culpa: “Não me lembro qual foi a última vez que saí para brincar com meus amigos na rua, nem da última vez que abracei minha avó ou a minha própria mãe”, revela a narradora logo nas primeiras linhas de “A mentirosa sou eu”.</p>
<p>E por mais que o realismo pessimista se imponha na maior parte das histórias, a autora dá ótimos indícios de que domina um repertório variado, seja a vertente ácida com doses de humor corrosivo, de “Bactéria cósmica”, seja o realismo fantástico, no belo e triste “Uma nuvem passageira”.</p>
<p>Nesta coletânea de contos, o leitor vai se deparar com uma autora de estilo próprio e forte, que domina o ritmo e os diálogos e constrói imagens com habilidade extrema. A estreia de Hellen Sousa é em grande estilo. Mais que um livro que deve ser lido, <em>Pequeno mapa do tempo</em> é um livro que merece ser lido.</p>
<p><strong>Tiago Velasco</strong></p>
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		<title>Isto que pinga silenciosamente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Jun 2025 14:35:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Escrever em silêncio para deixar sair tudo que não sei sentir. Sentir em silêncio para, depois, virar palavra tudo que não pode ser expresso. Registrar, folha por folha, linha por linha, isto que dói, que dilacera, que faz sangrar, mas dá garantia que ainda há vida. Deixar doer e pingar do corpo isto que é a vida acontecendo. Escrever para me salvar de mim, e me criar para mim, e me criar para o mundo, e.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A cada linha, uma curva de tudo aquilo que é extremamente humano e banal: sentir. Afetar-se de dor, de amor, de estar e não estar lá/aqui/agora ou de ser a mais completa ausência nisto que chamam de vida, ainda que vivendo dia após dia.</p>
<p style="text-align: justify;">É por meio da narrativa de afetos possíveis, reais, crus e falidos que se fala sobre o amor. Mas não é apenas disso que os dias são vividos, pois há uma infinidade de sentimentos que pingam silenciosamente e molham os pés, encharcam a casa, afogam os corpos. Depois (ou antes, ou no meio) do sentir demais, há também as dores da vida, o medo do fim, o vazio do corpo que um dia foi ocupado de alma. Seja lá o que isso queira dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta união de narrativas se divide entre tudo aquilo que sangra afetos, mas que salva a vida do vazio que o não sentir causa, e tudo aquilo que escancara como o vazio de sentimentos é denso, árduo e pesado. Totalmente humano.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vã tentativa de esvaziar o corpo, a alma, a essência. Uma vã tentativa de ocupar-se disso que é tão matéria, e pele, e vísceras, e unhas, e roupas. Uma falida tentativa de construir a si e se reinventar mais um sem-fim de vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre tatear a pele e o arrepio da ausência, os textos deste livro discorrem sobre sentir muito, demais, de modo extenuante e dilacerador. E colocam isso em palavras, porque contar é mais simples do que sentir, pois morre muito quem não sente, mas morre ainda mais quem não diz, quem não se deixa afogar em tudo aquilo que pinga silenciosamente do próprio corpo e estronda ao atingir o chão.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cinema da terra viva</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Jun 2025 14:03:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O cinema registra, a ficção ressoa. Inspirado por filmes e documentários que retratam os povos indígenas, este livro de contos transforma imagens em palavras, trazendo à tona histórias que ecoam as lutas, os mitos e os dilemas desses povos. Cada conto nasce do diálogo com uma obra cinematográfica, expandindo seus temas e explorando o que se esconde nas entrelinhas: a memória silenciada, o embate entre tradição e modernidade, a resistência e os sonhos. Mais do que um comercial, este livro é uma chamada para ver além da tela, sentir além da imagem e escutar as vozes que a história tenta calar.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O cinema de temática indígena tem se consolidado como uma poderosa ferramenta de narrativa e resistência, ampliando olhares sobre mundos que sempre estiveram aqui, mas foram, portanto tempo, silenciados. Cinema da terra viva é uma coletânea de contos que nasce do encontro entre a literatura e a força desse cinema, recriando, na forja das palavras, paisagens, conflitos e espiritualidades. Cada conto desta obra dialoga com uma produção cinematográfica, mas não como mera adaptação ou resumo. São histórias que se desdobram em novas camadas, ecoando as vozes que atravessaram a tela e criando caminhos literários próprios, com linguagem desafiadora e envolvente, rítmica e imagética. Aqui, o leitor encontrará narrativas que transitam entre o onírico e o político, entre o passado ancestral e as urgências do presente, entre o metafórico e o real, entre o simbólico e o concreto, entre a ironia e a literalidade, entre a dureza da colonização e a beleza da resistência.<br />
Mais do que um tributo ao cinema de temática indígena, Cinema da terra viva é um convite: um chamado para olhar, ouvir e pensar, de forma crítica e sensível, as histórias que ainda precisam ser contadas e recontadas.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quando a tempestade chegar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Jun 2025 13:55:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O enredo traz as reviravoltas na vida dos moradores de uma pequena cidade, onde a tranquilidade local é abalada pela chegada de notícias perturbadoras.
Em meio à possibilidade de serem afetados por uma grande tempestade, surgem comportamentos que demonstram as características que definem a personalidade de cada personagem. A grande tempestade se faz presente com as revelações das artimanhas engendradas por grupos econômicos influentes ao lado dos políticos locais. Apesar do desconforto, as adversidades também se mostram benéficas, por removerem as pessoas de seu marasmo cotidiano.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma história reveladora sobre os segredos que existem por trás da vida pacata da cidade de Amendoeiras. Os abalos surgem com a chegada da notícia de uma tempestade iminente. Por trás dessa informação, aparecem diversas teorias e a verdade vai sendo paulatinamente descoberta. A pequena cidade vive momentos inesperados de tensões e diversos personagens se envolvem no processo de elucidação das suspeitas que vão aparecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do livro, a vida dos personagens é retratada, mostrando suas reações e comportamentos para enfrentar os desafios e riscos que vão surgindo inesperadamente. As histórias pessoais se misturam à trama principal e acrescentam maior significado aos acontecimentos da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">As diversas intrigas políticas e suas ligações com o poder econômico são também descritas, destacando o estado de alienação em que se situa a maioria dos habitantes da cidade. A tranquilidade imperturbável que caracteriza a vida dos moradores se contrapõe ao que realmente ocorre nos meandros políticos. A má-fé e as falcatruas correm soltas por trás das fachadas de integridade e decência.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final do livro, a cidade de Salvínia também entra em foco, em razão da viagem de um dos personagens e das atribulações provocadas pela súbita chegada de um temporal de grandes proporções. Os prejuízos decorrentes desse desastre natural evidenciam o papel da intervenção humana e as consequências dos empreendimentos construídos fora das normas de boa prática. A história destaca que muitas vidas acabam sendo impactadas por essa visão de lucro a qualquer custo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para finalizar, ao propiciar uma imersão na experiência de enfrentar os riscos de uma tempestade, o livro levanta a questão de seus aspectos negativos e positivos. Apesar de seu lado destruidor, as tempestades também são capazes de motivar reavaliações de conceitos e pressupostos, e de impulsionar mudanças benéficas. O seu papel de propulsor de mudanças na vida das pessoas pode ser encarado como um lado positiv,o que irá persistir após a ultrapassagem das turbulências.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Invisível Maria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Jun 2025 12:29:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Vai, Maria, seja forte
Mostre ao mundo seu valor
Não tema sua sorte
Siga espalhando amor]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Maria é um nome comum&#8230; e eu quero falar de uma invisível. Uma Maria que caminhou pelas ruas sem ser notada, que trabalhou dias a fio sem ser lembrada, que sofreu males terríveis sem ser escutada!<br />
Existem Marias em todos os lugares: na fila do mercado contando trocados, no ponto de ônibus, na cozinha de um restaurante, mas quase ninguém as vê! E para mim, essa Maria não é invisível porque desapareceu, mas porque nunca a enxergaram de verdade.<br />
Esse livro é sobre a tal Maria! Mas também sobre muitas Marias que existem e vivem à margem do olhar alheio.<br />
São as tantas que sustentam o mundo com mãos calejadas desde sua infância, que carregam histórias profundas em silêncios forçados e que lutam para existir numa sociedade que resolveu ignorá-las.<br />
Aqui, caro leitor, a Maria ganha voz e talvez ao ouvi-la você descubra que sua invisibilidade não foi uma escolha dela, mas dos outros, e pode ser também a nossa!</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Dado Martins</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Amaurose fugaz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Jun 2025 10:24:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pousou os sacos no chão, aflito. Tinha os dedos das mãos inchados e escurecidos, garrotados pelo peso que carregava. Esfregou-os uns nos outros para facilitar o retorno da circulação sanguínea e fechou a porta. Pegou novamente nos sacos pelas asas e percorreu o corredor, direto à cozinha, sem desviar o olhar para nenhuma das outras divisões da casa.
Tirou a panela grande do armário e atestou-a com dois quilos de batatas por lavar e descascar e um frango defunto, inteiro, que mantinha a cabeça, unhas, penas e os olhos abertos. Cobriu o conteúdo com água, transferiu a panela para o fogão e acendeu o lume. Só depois despiu o casaco e descalçou as botas.

(<em>O quarto do meio</em>, página 7)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Cientista de formação, a escritora encontrou nas palavras um veículo de catarse. O entusiasmo transformou-se em paixão e é, hoje, uma nova forma de vida.<br />
Atenta e empenhada, absorve todos os conhecimentos que lhe passam pelos olhos e põe-nos em prática com rigor e método. Organiza criteriosamente os seus objetivos de escrita e faz das palavras um bordado de personagens entrelaçadas em enredos, cenários e tempos que conheceu ou que (re)inventa. O seu talento aliado ao trabalho trouxe-lhe prémios relevantes. Tem contos e poemas publicados em várias coletâneas, antologias e revistas.<br />
Este é o seu primeiro livro. Um conjunto de folhas que reúne as palavras da autora acerca de vários temas. Um conjunto de folhas onde depositou histórias sobre a condição humana. Atraem-na, sobretudo as sombras, o lado lunar que cada pessoa carrega de forma mais e menos visível.<br />
Embora tenha atribuído ao livro o título de um dos 5 contos que o compõem, todos se refugiam na noite dos pensamentos. Diferentes no espaço, no tempo, nas personagens, no enredo, todos têm em comum almas em conflito, amarguradas e de insustentável peso. Há um pendor para o oculto e o insólito associados a alguma inovação no registo de escrita. No entanto, o grande mérito da autora é a sua capacidade de transformar histórias e personagens que poderiam ser banais em memoráveis leituras. A reviravolta final, em cada conto, é o que distingue a sua mestria.<br />
Este é um livro imperdível. Laura Vasques de Sousa, um nome a registar. Encontrá-la-emos em muitos outros livros que, com toda a certeza, escreverá.</p>
<p><strong>Paula Campos</strong><br />
escritora</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Enquanto elas crescem no escuro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jun 2025 11:03:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Naquela noite, antes que o sono a levasse, o rosto da menina se acendeu no fundo de sua retina, somando-se aos que vira nas fotografias, nas paredes — rostos que seguia reconhecendo, mesmo depois. Respirou fundo. Moveu a pedra. E ali, no centro da escuridão, vislumbrou sua própria imagem. Por um instante, conseguiu brilhar.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma pré-adolescente, em uma tarde comum no clube, começa a entrever novas formas de se perceber. Pressentindo que a filha escapa à sua compreensão, uma jovem mãe tenta manter a aparência de normalidade em sua família. Uma menina se torna espectadora de si mesma ao se deparar com uma violência que se insinua no cotidiano, moldando também sua maneira de estar no mundo. Durante uma viagem angustiante, uma mulher encara alguns de seus temores e busca compreendê-los sob outra perspectiva, em nova proporção. Uma professora encontra na banalidade do dia a dia o ponto de partida para reconhecer a origem de uma raiva antiga — e vislumbrar o que poderia, enfim, fazer com ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Enquanto elas crescem no escuro</em> reúne cinco contos protagonizados por personagens femininas em momentos de inflexão. Em comum, o fato de que essas meninas e mulheres se veem diante de um descompasso entre o que são — ou desejam ser — e aquilo que o mundo parece esperar delas. Entre silêncios e desencontros, os contos traçam um percurso de inquietação, lucidez e transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tensão não vem apenas de conflitos internos: é atravessada por marcas estruturais como gênero, raça, orientação sexual e classe social. Cada personagem, à sua maneira, lida com uma fricção contínua entre o sentir e o que se impõe do lado de fora: os papéis esperados, os limites sociais, os silenciamentos. São histórias em que a experiência do estranhamento aciona deslocamentos, provoca rupturas sutis e desvela zonas de descoberta — por vezes, à custa de dor, desconforto ou perda.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que não haja promessas fáceis de resolução, há um movimento contínuo de enfrentamento e elaboração, mesmo quando tudo ao redor parece conspirar em sentido contrário. Uma vez vislumbrada, ainda que tênue, a luz não se apaga: permanece como um traço, uma lembrança ou possibilidade, capaz de iluminar pequenas escolhas e passos futuros. Resta, então, a essas meninas e mulheres — apesar do peso da incompreensão ou do apagamento — seguir, crescer onde for possível e, pouco a pouco, iluminar.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Estilingue a dois</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jun 2025 10:14:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nos doze contos de Estilingue a dois, Rogério A. Tancredo aborda temas como amizade, violência, loucura e solidão, a partir de cenas da infância – seguindo o rastro de grandes escritores – para reafirmar, por meio da ficção, que o peso da existência não é exclusividade dos adultos, mas um fardo que afeta também crianças, protagonistas dessas histórias. Tudo fere. Ninguém está livre da fúria e da alegria de existir.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os ritos de passagem ou o mundo dos adultos contemplado como um lugar de exílio. A própria infância é evocada como um paraíso perdido, dotada de uma mitologia inconfundível e de um cenário muito concreto (seja no norte ou no sul do Brasil). Rogério constrói um mundo narrativo extraordinariamente convincente, dotado de humor sutil e lirismo seco e intenso. E consegue isso graças a uma qualidade que irradia tanto estilística quanto moralmente: a autenticidade. Que se estabelece em um território intermediário entre uma coleção de contos, crônicas ou um volume de memórias. As cenas da infância e personagens juvenis que já aparecem no seu primeiro livro, “Relato de um paciente desconhecido” (sobretudo em “O rádio de Bento” e a “História de Alice e Ravel”) estão de volta: garotos que trocam impressões e imaginações no pátio da escola ou o enorme filho do borracheiro (condutor de violências corriqueiras) ou o primo iluminado que é abraçado pelas sombras&#8230; Uma relação pai e filha posta à prova ou vidas que se assemelham ao do urso polar (animal mais solitário do planeta) ou a psicopatia de uma jovem que ameaça o sossego de um condomínio&#8230; Seja um irmão caçula que sente o peso da existência ou a morte de uma jovem que muda a vida de um professor numa pequena cidade do sul do país&#8230; As reminiscências de um homem ao voltar ao bairro onde passou a infância ou mesmo lecionar em uma comunidade de alta vulnerabilidade social (“com crianças que iam para a escola com a mesma roupa todos os dias, tomavam mais surras do que banhos durante o mês”) ou o destino da garota mais bonita do bairro ou um incidente com um estilingue&#8230; Tudo é muito nítido, vivo. Algumas narrativas podem lembrar tanto “Os lemmings e outros” do Fabián Casas quanto “Meus documentos” do Alejandro Zambra, mas sempre com o gosto amargo da brasilidade (onde o sonho é sempre sombra). Há também uma oscilação na escrita, uma maneira subversiva de abordar o ponto crucial da história e de desviá-la (a digressão como método, ecos de Bolaño?) que permite que a força seja mantida até o fim. Ou seja: o texto é ativado. Todos os seus atributos estão prontos para detonar. Bum.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Carlos Henrique Schroeder</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Antes de ser pequena</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Jun 2025 12:16:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ler e reler Jéssica Pozzebon me fez acessar qualquer lugar da infância. De qualquer parte que eu buscasse. Havia um sonho. O tronco de um brinquedo. O fruto de uma árvore. Quanta imagem fui buscando aqui dentro! E ela me oferecendo máximas. Mínimos pensamentos se entrecruzando na narrativa. Montando aos poucos o corpo da história. A gente lê um livro porque nossa memória de alguma forma faz parte daquela memória. Ali lida. Um pedaço que seja. Das mãos. Das pernas. Da cabeça decapitada de uma boneca. Entre as mobílias da família uma fala (e muito silêncio) que ainda reverbera. E fica gritando na gente. Desde muito tempo e para sempre.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>A todas as filhas de mães sem filhas. </em>A dedicatória de <em>Antes de ser pequena</em>, o primeiro romance de Jéssica Pozzebon, mostra que nem tudo o que parece, é. O semblante de uma relação — e também o de uma mulher — é sempre diferente do que se espera. Algumas relações não existem, há marcas que persistem e dizeres que forjam existências. Ela dá notícias do que será este livro, cujo título leva a pensar sobre o tempo: o que pode acontecer antes mesmo que uma menina comece a crescer? Que tempos são os de uma infância? O que há de poder no que se viveu muito cedo, em uma família? As vozes e as memórias da menina e da mulher que narram este livro nos contam.</p>
<p style="text-align: justify;">“É no olhar do outro que eu existo.” Assim começa a narração de uma vida marcada desde cedo pela percepção refinada das paixões e das inconsistências do mundo. Um mundo ainda pequeno, composto principalmente por mulheres: ela, a mãe, as avós. Ligadas a ela pelo destino dado ao corpo e pela solidão. A herança recebida da avó e da mãe na forma de semelhanças físicas e ditos é tomada pela menina como um fato incontestável: “a filha da filha da puta”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tal qual uma constelação, cada peça de uma família tem um lugar fixo. Se escapa, muda o céu e corre-se o risco de deixar perdidos, quem delas se serve na Terra.” Assim, sem poder se mover, resta uma menina quase morta, que tenta saídas literais para tentar encontrar respostas para a sua angústia, como abrir a barriga das bonecas e arrancar os olhos das pelúcias. Um “corpo pequeno de menina de poucas vidas e muitos silêncios”.</p>
<p style="text-align: justify;">A adolescência inaugura um tempo de outras saídas, mas também reforça o destino: ainda há um corpo de que o outro goza, ainda há muitas camadas de violência. Mas uma premiação na escola descortina uma outra nomeação: “erudita com as palavras”. Um outro reconhecimento, enfim. A destreza com a escrita, vinda da percepção de que há vida na língua, também uma herança da avó: “o dom das palavras voadoras como lanças ao céu”. A escrita indica um caminho: “as palavras avivam e mortificam. Anestesiam e acordam. As palavras abrem os olhos e os fecham”. Seriam elas uma via de salvação para um corpo até então aprisionado em uma relação mortífera com o gozo materno?</p>
<p style="text-align: justify;">Jéssica Pozzebon constrói um livro fabuloso em que a sensibilidade e a brutalidade coabitam no delicado olhar de uma menina-mulher sobre a vida, a maternidade, o feminino. Um romance em que o dizer atravessa o tempo, porque pequena ou grande, a autora toca uma dimensão que não obedece a passagem dos anos: o tempo de Dentro.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Priscila de Sá Santos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Psicanalista, mestre em estudos literários</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Uma necessidade desesperada de listar coisas impossíveis</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/uma-necessidade-desesperada-de-listar-coisas-impossiveis</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Jun 2025 11:36:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tiago e Rafa nunca se viram antes. Tiago e Rafa nunca se verão depois.
Como pode o amor, “imenso monolito”, nascer em solo tão raso e em tão pouco tempo?
Durante uma corrida de aplicativo, Tiago e Rafa se reconhecem entre o caos e, enquanto estão em lugar nenhum, entrelaçam suas vidas, guiados pela música e pela ilusão de um infinito hoje.
Tiago e Rafa, dois distantes e ainda assim tão perto, buscam responder suas principais aflições e, enquanto o fazem, preenchem-se um do outro (desesperadamente).
O amor dilata o tempo e suas distâncias: Tiago e Rafa estão, e estarão, eternamente aqui.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">talvez o amor seja isso: a orelha de um livro que espera teus olhos e que nasceu só para esse momento, a aguardar a liberdade dos olhos teus.</p>
<p style="text-align: justify;">a orelha de um livro que foi impressa centenas de vezes e que dorme em silêncio, arriscando a falsa eternidade de suas partículas, aguardando te encontrar aqui, nesta linha, neste exato instante da tua vida.</p>
<p style="text-align: justify;">falarei de amor, pensou a orelha do livro. não, mais do que isso — se corrigiu —, <em>cantarei</em> o amor. tens em tuas mãos, continua a orelha, um relato impreciso, absolutamente expressionista, absurdamente poético, do nascimento de improvável amor.</p>
<p style="text-align: justify;">lembro-te, a orelha pondera, que amor são vários. naturalmente plurais. naturalmente humanos. aqui, em meu corpo, amores em movimento destilam poesia e canção, tentando compreender a existência enquanto amam, tentando aceitar a existência e os caminhos que devemos, ou não, seguir.</p>
<p style="text-align: justify;">guardo em meu peito — a orelha sussurra em teus olhos — a história de rafa e tiago, a forma como eles se percebem e, ainda mais importante, a forma com que seus olhos percebem uns aos outros e todos os seus mistérios.</p>
<p style="text-align: justify;">derramando as canções e a poesia que entornas no chão — ao dizer isso, você nota que a orelha do livro dá uma piscadela — tiago e rafa se encontram na encruzilhada de suas vidas: entre o controle e o caos, o cálculo e as estrelas, o asfalto e a rosa, o amor e o amor.</p>
<p style="text-align: justify;">o caminho que seguirão, só descobrirão ao fim das longas horas que passaram juntos, aleatoriamente, naquela curta e longa viagem daquele corriqueiro dia em que rafa aceitou a corrida de tiago para aquele que seria o evento a mudar toda sua vida.</p>
<p style="text-align: justify;">e mais do que isso não falo, censurou-se a orelha, que mais do que isso cabe apenas aos que sonham com o universo nas páginas minhas.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Zuca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Jun 2025 11:29:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“És brasileira? Respondi que sim. Ela emendou outra pergunta: Vieste à nossa terra pra roubar os maridos às portuguesas? E a velha nem me deu tempo de responder que não, de jeito nenhum, já sou casada, e com um brasileiro. A doida chalada agarrou o meu passaporte e avisou: Pois olha bem o que eu faço ao teu documento. Ela tentou rasgar o livrinho ao meio, e só não conseguiu porque reagi a tempo. Eu me debrucei inteira sobre o balcão, com a barriga e com tudo, estiquei os braços em cima da maluca e apanhei de volta o meu documento, todo amassado.”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após um episódio de violência urbana, Bárbara, uma advogada carioca, se muda para Portugal com o marido e o filho pequeno em busca de uma vida mais tranquila. Mas por trás da decisão não está somente o medo de uma bala perdida. Ela foi detida e está sendo processada por crime de racismo depois de ter agredido verbalmente um candidato cotista que “tomou” sua vaga em um concurso público.</p>
<p style="text-align: justify;">De início, Bárbara se encanta com a vida em Lisboa. O patrimônio cultural, os vinhos do porto e a água encanada potável lhe proporcionam o alívio e segurança que procurava. Aos poucos, as nuances da sua nova posição social se impõem. A xenofobia surge na linguagem e nas carrancas dos lisboetas, e logo revela sua face mais cruel.</p>
<p style="text-align: justify;">Bárbara não consegue emprego em Portugal por ser brasileira e seu filho Zeca sofre preconceito na escola. Wagner, seu marido, se adapta melhor, mas vai se tornando insensível às dificuldades do resto da família. Privilegiada no Brasil do qual tenta escapar, ela agora é uma “zuca”, e terá as crenças e a identidade confrontadas pela discriminação. No registro quase diarístico de suas experiências, Bárbara risca os termos brasileiros e os substitui pelos equivalentes do português lusitano, esforço que, paradoxalmente, parece produzir ainda mais distanciamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Com uma prosa firme e lúcida, Fernanda Hamann não entrega ao leitor uma jornada de salvação. Sua protagonista não é uma heroína. Tampouco é completamente vilã. <em>Zuca</em> busca o oposto do maniqueísmo didático, oferecendo uma trama construída com ambiguidades e sutilezas, provocando nossos juízos automáticos de justiça e compaixão. Bárbara não enxerga completamente o racismo que pratica, mas sentirá na pele a xenofobia. Insegura, recorrerá ao álcool e ao tabagismo para suportar o lento colapso da vida íntima e doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;">Até que ponto sairá transformada? O leitor descobrirá. Ou melhor: terá que decidir. Sem respostas definitivas, a pergunta deixa um gosto amargo, mas o romance faz nas entrelinhas uma defesa indubitável da necessidade de diálogo em nossa época de crescente intolerância. Os afetos reacionários, nos sugere Hamann, se alimentam de pulsões destrutivas que só serão contornadas com união e empatia. O caminho é árduo, para os indivíduos e a sociedade. E sem garantias de redenção.</p>
<p><strong>Daniel Galera</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Uma tragédia latino-sertaneja</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/uma-tragedia-latino-sertaneja</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jun 2025 17:02:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">Fim dos anos 1990, no coração empoeirado de Goiás, Miguel, um peão silenciado pelo desejo e pela exclusão, encontra refúgio no bordel Mão Amiga. Mas a chegada de Ernesto, um agrônomo mexicano, abala as fundações de sua existência e expõe as feridas de uma terra marcada por violência, hipocrisia e paixão.
Entre encontros furtivos e embates brutais, os dois são tragados por uma espiral de desejo e destruição, na qual amor e opressão se entrelaçam como raízes retorcidas do cerrado. </span><span class="fontstyle2">Uma tragédia latino-sertaneja </span><span class="fontstyle0">é um romance sobre corpos que carregam a história de afetos que desafiam fronteiras e a busca feroz por dentidade em um mundo que insiste em negá-la.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em lágrimas, concluí a leitura de <em>Uma tragédia latino-sertaneja</em>; já não me lembrava do último livro que tinha me feito chorar. Esta obra, mais do que um membro supurado, mais do que uma angústia marcada em pedra, é a pura poesia dos que sofrem enquanto buscam a mínima dignidade possível: ser quem se é.</p>
<p style="text-align: justify;">Fellipe Fernandes F. Cardoso conta a história de homens que vivem pelas sombras, escapando entre cômodos mal iluminados, fugindo dos holofotes que se dizem masculinos, sertanejos e tradicionais. Conta a história de como é possível encontrar a si mesmo, ser encontrado e, ainda assim, continuar invisível e perdido.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das características mais deslumbrantes de <em>Uma tragédia latino-sertaneja</em> é sua ambientação. Os cenários, a terra levantada pelo vento e a cultura que apresentam com habilidade inegável uma parte do Brasil que pouco tem lugar nas prateleiras da literatura nacional. Por isso também Fellipe é um grande autor, porque faz do terreno esquecido um mundo peculiar habitado pelos personagens mais cativantes, contraditórios e profundos. Com absoluta destreza, o escritor monta e exibe imagens vívidas, quase palpáveis, que se juntam a um vocabulário delicioso, tornando a experiência da leitura uma criação sensível, cheia de texturas e fluidez.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma tragédia latino-sertaneja</em> é um livro sobre solidão, sobretudo a solidão mais pesada que existe: a de não poder compartilhar o que temos de mais significativo. No entanto, é um livro sobre amor, sobre entender o que é essa coisa antes nunca provada, sobre o amor pelo impossível, sobre amar o injustificável.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um livro para todos que desejam experenciar tempestades interiores sob a condução segura de um escritor que sabe mover as palavras. E poucas vezes na vida me senti tão movida por um livro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Jarid Arraes</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Meu nome é meu</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/meu-nome-e-meu</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Jun 2025 23:54:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os 18 contos deste livro não têm urgente ligação entre si, embora as personagens contem histórias em comum, acomodando a tristeza sem que ela ocupe muito espaço. Os contos falam de amor, de não amor, de concretude, de absurdos. Uma mulher é esquecida à sombra de uma jabuticabeira, outra tem um ataque de riso, uma está à procura do marido mágico.
Um homem arrepende-se de rompantes da juventude. Outro se transforma em anjo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Meu nome é meu</em>, título instigante do livro de contos de Natascha Duarte, já oferece ao leitor uma pista do que vai encontrar. O fato é que as narrativas deste livro de estreia surpreendem.</p>
<p style="text-align: justify;">O universo no qual gravitam seus personagens, mormente femininos, apresenta-se familiar como o cotidiano dos subúrbios, das casas da infância. E em alguns contos esse realismo se mantém: “Com a mãe Aninha aprendera a rezar para alcançar um desejo: ‘Feche os olhos e peça com fervor e sem parar’. Assim, ao ver Moisés pela primeira vez, no supermercado, de chinelo e sem camisa, talvez a mesma idade que ela, orou por um mês inteirinho. Cinco vezes ao dia. De manhã, ao acordar: ‘Seja meu namorado’; antes do almoço: ‘Seja meu namorado’; às 3 horas da tarde e depois do jantar que ela comia na sala, em frente à TV; e já deitada para dormir, quando apertava os olhos e também o coração e implorava aos céus: ‘Porrrr favorrrr!’”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem sempre. É certo que o narrador nos ludibria em vários contos: o que começa com uma linha narrativa quase previsível, subitamente quebra-se — instaura-se o fantástico, o absurdo, ou pelo menos o estranho. Ouvem-se ecos de Rubião e de Veiga ao longe, às vezes nem tão distante: “Fundiu-se com ele com a coragem súbita dos que sentem pena de si mesmos. Viraram uma centelha, os dois; um único corpo; uma única boca aberta e cheia de dentes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se o leitor pensa que encontrou a chave do enigma deste livro, o pêndulo entre o realismo e o fantástico, engana-se: daí a pouco os contos adquirem tons intimistas. O fluxo de consciência amalgama a voz do narrador a das personagens e agora o percurso da narrativa é interior, evocando notas clariceanas: “Para muita gente, tudo é quase nada o tempo todo; mas para você, é diferente; para você, é como se bastasse a vida. Para mim, não. Eu não aprendi nada com a vida. Tive vontade de jogar ovos nas pessoas, quebrar janelas, matar, e agora estou aqui todo mexido e perguntante. Estou sentimental. O que passa comigo?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Estreante com sabor de veterana. Com uma prosa espontânea e versátil, Duarte tece histórias que têm frescor de novidade, ao mesmo tempo que remetem a outras histórias do grande texto da literatura nacional. Vale conferir, com certeza!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vivianne Fleury de Faria</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília, mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás, docente de Língua Portuguesa do CEPAE/UFG.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Na tela das pálpebras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Jun 2025 19:16:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Na tela das pálpebras</em> é um passeio por vezes nostálgico, sempre inquietante, pela memória, pela ficção, pelas fabulações íntimas a respeito de si e das pessoas amadas. Temas como luto, identidade, engano e amor compõem esse romance-autópsia, narrativa tecida sob a sombra de Átropos, a sua tesoura afiada e à espreita em cada página.</p>
<p style="text-align: justify;">
(Da orelha de Léo Tavares)</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A estreia de Iko Flores no romance é um estudo sobre a espera e o fim. É com gentileza que o autor nos conduz por <em>Na tela das pálpebras</em>, mas ele não poupa o leitor de uma série de enfrentamentos, e de uma difícil pergunta: nós realmente conhecemos aqueles que amamos? Como que em <em>polaroids</em> esmaecidas, a narrativa é repleta de ponderação melancólica, e avança para uma irremovível amargura, que paira especialmente na relação complexa — e ressentida — entre dois irmãos. O contraste entre eles, seus embates e o que há de irreconciliável nessas personalidades sedimenta a grande cisão que é tema central do livro. Enquanto Jorge é ensimesmado, imerso desde cedo em estudos e leitura, não só valorizando o ato simbólico de adentrar mundos interiores, mas por vezes perdendo-se neles, Carlos é extravasamento da violência, <em>pathos</em> livre, furor. A relação deles, fundamentalmente conflituosa, se complexifica com a chegada de Ana, uma mulher ansiosa por compartilhar com o mundo sua visão artística e política. O pano de fundo é a ditadura militar brasileira, contexto trabalhado em episódios significativos, conduzidos pela ótica desencantada de quem experimentou a juventude em meio à censura e ao recrudescimento do conservadorismo. A sociedade brasileira, convulsionada, é manifestada em suas contradições e cinismo por personagens periféricos que acabam invadindo, ainda que a contragosto, as vidas centrais do romance. A morte da ideologia, ou o arrefecimento dela, é tratada aqui de modo delicado, agridoce, mas também metafórico: nosso olhar divaga entre uma Ana em coma, sob a vigília dos dois irmãos, e uma Ana ávida por experimentar a glória do corpo, alguém que teria o mundo a conquistar e uma sociedade hipócrita a transgredir. <em>Na tela das pálpebras</em> é um passeio por vezes nostálgico, sempre inquietante, pela memória, pela ficção, pelas fabulações íntimas a respeito de si e das pessoas amadas. Temas como luto, identidade, engano e amor compõem esse romance-autópsia, narrativa tecida sob a sombra de Átropos, a sua tesoura afiada e à espreita em cada página.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Léo Tavares</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A ordem inversa da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 12:57:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro retrata a imensa dor e tristeza de mães que perderam seus filhos. São relatos sinceros, emocionantes e repletos de lembranças felizes e dolorosas desde que a alegria se transformou em tristeza. Um simples objeto ou momento podem reviver as memórias e com elas, a dor da perda. Cada história reflete a luta para lidar com a ausência, reviver momentos preciosos e manter viva a memória daqueles que partiram cedo demais. Há algo em comum na opinião de todas as mães: a ferida nunca se cicatriza totalmente.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Imagine a sensação de ler as páginas de uma obra onde os sentimentos se entrelaçam, no qual podemos sentir a história de dor de cada mãe aqui presente. Eu senti isso ao ler minha própria história. <em>A ordem inversa da vida</em> não é um livro como outro qualquer. Ele é um mergulho profundo nas memórias de uma dor imensa: a perda de um filho. Chorei quando reli minha história e as outras reunidas nesta obra, pois são relatos sinceros de mães que enfrentaram a dor da perda.</p>
<p style="text-align: justify;">Relembrar minha história trouxe uma mistura de alegria e tristeza. Alegria ao relembrar cada momento que passamos juntos. Tristeza ao lembrar que não o veria mais aqui nesse mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suas linhas, encontramos histórias de mães como eu, que viveram a agonia de perder seus filhos. A dor não é apenas descrita; é sentida cada vez que uma página é virada, convidando-nos a mergulhar em um mar infinito de emoções. Cada capítulo é uma viagem ao lado mais sombrio da alma, trazendo à tona uma mistura de aceitação e não aceitação.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro dessas narrativas, somos chamados a refletir sobre nossas próprias vidas, sobre os momentos em que a dor parecia insuportável e a aceitação inalcançável. O livro nos lembra que a entrega não é fraqueza, mas sim uma forma de encontrar força nas nossas vulnerabilidades. Cada história é um convite para ver a vida através de uma lente que desafia as convenções e nos obriga a abraçar o imprevisível. A dor das mães toca fundo a nossa alma, oferecendo conforto e, ao mesmo tempo, uma estranha sensação de companhia na dor.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda essa mistura de sentimentos proposta em <em>A ordem inversa da vida</em> faz com que o leitor se torne parte da trama. Ela não é uma obra onde o leitor apenas lê:  ele sente, sofre, interage e faz emergir a empatia tantas vezes escondida na alma e que, infelizmente, o ser humano a tem usado tão pouco ultimamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você procura uma obra que te leve além do superficial e mergulhe fundo nas profundezas da alma e da natureza humana, <em>A ordem inversa da vida</em> é um chamado impossível de ignorar. Ele é a prova de que, mesmo na ausência de presença física, os filhos continuam a viver por meio das lembranças de seus pais. Cada página nos mostra que relembrar a dor é também uma maneira de homenagear a vida e a alegria que os filhos trouxeram, transformando momentos de tristeza em eternas memórias de amor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Luciana</strong>, nome fictício de uma mãe que preferiu não se identificar.</p>
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		<title>O menino que não veio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 12:50:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O menino que não veio é uma narrativa introspectiva e poética sobre luto, memória e aceitação. O narrador, um pai que escreve uma carta para a filha, compartilha memórias sobre um filho que nunca chegou a nascer por causa de uma gestação frustrada. Pouco depois do nascimento da filha, o pai começa a ver o menino e a tentar se comunicar com ele. Ao longo de suas reflexões, ele explora a dor e as perguntas que ficaram sem resposta, ao mesmo tempo em que encontra na música e na escrita uma forma de lidar com a ausência. Enquanto revela à filha esperanças, lembranças e o amor por ela e pela esposa, o narrador aprende a conviver com o passado e a encontrar paz no presente.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando Alexandre me convidou para escrever a orelha deste novo livro, fiquei muito honrado, evidentemente, mas também muito apreensivo.</p>
<p style="text-align: justify;">“Quem sou eu para escrever qualquer coisa a respeito de um livro do Alexandre?”, não pude deixar de pensar. Eu, que toda a vida tentei expressar minha admiração a ele, fui formalmente intimado a escrever a orelha de seu terceiro livro publicado — o primeiro em prosa.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O menino que não veio</em> talvez seja a escrita mais fluída e leve do Alexandre — algo que, o conhecendo, custou muito, muito caro. Quase dá para ver cada palavra sendo cuidadosamente forjada. Natural para um trabalhador da palavra como ele, mas dolorido.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, quase dá para dizer que foi escrito de uma vez só. Parece que <em>O menino que não veio</em> chegou de supetão e que o autor do livro teve uma verborragia.</p>
<p style="text-align: justify;">A despeito de tal leveza e fluidez, não há absolutamente nada de superficial nesta obra. Existe, aqui, um cotidiano, uma banalidade profundamente humana. Como alguém que entendeu um pouco do que é a vida — e que as coisas são mais complexas do que parecem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um passeio de Alexandre sobre as miudezas da vida, mas, sobretudo, precisamente sobre as grandezas dessas banalidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma família e uma perda, o chão vermelho de Brasília e a época de chuva, os silêncios e as músicas de Milton Nascimento, os sumiços e os acenos, o humano e o éter.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida, a morte e tudo aquilo de cinza e de colorido que há no meio.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo em um espaço-tempo que parece não ir muito além de uma entrequadra — ao mesmo tempo que chega a Aparecida de Minas, triângulo mineiro, e ao nosso íntimo.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste terceiro livro de Alexandre, parece haver um tensionamento ainda mais evidente, algo que estressa ainda mais a corda entre realidade e ficção, discussão que me parece superada por ele já em outros momentos, mas em definitivo aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Se é real, o que importa? Se é ficção, importaria mais, ou menos?</p>
<p style="text-align: justify;">Real ou não, ficcional ou não, ao longo de todo o livro, busco desenhar visualmente a existência desse menino que não veio. E é quase como se o visse em alguns momentos. Algo que me incomoda, por vezes, e acalma em outros — como se estivesse aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">E não está?</p>
<p style="text-align: justify;">De todo modo, vejo muito do Alexandre nesta obra e essa talvez seja a maior característica e qualidade deste livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem querer jogar pobremente com palavras — ou cometer trocadilhos infames, com o narrador do livro —, mas, de alguma forma, Alexandre é, paradoxalmente e simultaneamente, o menino que veio e o que não veio.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitas vezes, dolorido. Outras tantas, bonito. Em ambas, singular. Para ler em um fôlego só. Um fôlego dolorido e bonito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><br />
Mateus Vidigal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">jornalista e fotógrafo</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Antes de enlouquecer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 12:43:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sentada embaixo da árvore e emocionada com toda aquela vida florindo diante dos meus olhos, lembrei de quando eu mesma comecei a dar flores ali: o final de um lento desabrochar chamado Adolescência. Na universidade, eu cresci, aprendi, me desesperei. Achei que fosse enlouquecer, inúmeras vezes. Outras vezes, enlouqueci mesmo. Em outras quis morrer, mas ainda estou aqui. Chorei copiosamente no ônibus e nos banheiros de diversos centros acadêmicos. Na universidade, me senti tantas vezes uma menina-mulher inteligente e inúmeras vezes me senti a pessoa mais burra do mundo. Senti o não pertencimento, mas também sei que algumas vezes me senti acolhida, pois lá era tudo o que eu tinha: era minha primeira casa.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu esbarro constantemente em mim e me desfaço pelo impacto dessa colisão intensa.<br />
Este é um livro sobre o desespero de estar vivo. As 15 pequenas histórias aqui presentes discorrem sobre conflitos existenciais e a necessidade de fuga da realidade diante de um mundo cada vez mais problemático, onde os incríveis avanços tecnológicos que deveriam facilitar nossas vidas muitas vezes acabam por contribuir para uma sociedade mentalmente adoecida. É um livro sobre vazios, sobre a dificuldade em tentar explicá-los e o desespero de senti-los.<br />
Nele, as coisas do dia a dia são tratadas como coisas da vida-a-vida — [&#8230;] mais um dia em que não sabia quem era<br />
além do que fazia.<br />
É também um livro sobre dor, majoritariamente, infelizmente. Sobre como lidar com a dor, ou como não lidartambém, sobre como é estar perdido ao ponto de não se saber nem pra onde ir. Mas, principalmente e acima de tudo, este é um livro sobre acreditar na arte como salvação, como se a mesma fosse o último ato são das personagens — todas femininas e sem nome —, diante da absurda loucura que é a vida em si mesma.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Yone</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 12:05:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Fevereiro, sul do país. As relações da chanfradeira de couro Yone se tencionam em um fim de semana repleto de lembranças, acasos, dilemas e esperança. São três dias no interior, em uma cidade de chão batido lá pelos anos 1970, onde ela imagina que sua vida vai mudar em um estalar de dedos por um americano. Nos dias na fábrica de calçado até um domingo chuvoso, ela só consegue pensar e mal pode esperar por um segundo que a foi prometido.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É fevereiro no Sul e Yone não tem a vida que sonha: é mãe, é chanfradeira em uma fábrica de sapato, é a primogênita de um casal de primos que foram obrigados a casar pelo fato da gravidez de sua mãe, Idalina, o que gerou uma infelicidade completa por parte do pai, Aldo. Ainda por cima, tem uma relação conflituosa com a irmã, Aria, que chega a momentos extremos. Coube à Yone a destruição do próprio lar desde sua concepção. E são os anos 1970, época em que a indústria calçadista brasileira era símbolo de nação.</p>
<p style="text-align: justify;">São três dias na vida dessa mulher: sexta, sábado e domingo. A cada dia, Yone vê sua angústia tomar conta, esperando pelo convite do americano que conheceu na fabriqueta e que promete a ela uma vida no subúrbio estadunidense. Ou, pelo menos, é isso que ela entende que foi prometido. Mas ela espera, vive na expectativa da ida para um lugar em que ela mais ouve falar do que realmente conhece e de um homem que viu poucas vezes, mas que aposta todas as suas fichas.</p>
<p style="text-align: justify;">Engravidou solteira, vive com o filho, Fabrício, em uma casinha que fica nos fundos do terreno dos pais; tem uma niqueleira praticamente sempre vazia, compra fiado, mas adora vitrines. Gasta sempre que pode o que não tem em butiques da cidade, maldiz os parentes e ama português. Uma personagem que coleta o que vê, recortando das revistas aquilo que chama atenção e menospreza o que realmente orbita sua realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma história sobre aquilo que se repete, aquilo que se deixa acontecer e aquilo que é provável que não aconteça. Dos sonhos, Yone só conhece o delírio. Sonhava em ser aeromoça, sonhava com as estrelas de Hollywood, sonhava que o trem que passava no bairro a levasse para a lua, sonha agora que um americano a salve dos seus problemas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um livro sobre uma operária que sobrevive no Brasil profundo, vivendo as aparências e comprando ilusões de soluções fáceis. Em primeira pessoa, a narrativa leva o leitor a mergulhar no universo feminino de uma mulher que sabe que sobreviver tem mais a ver com projetar um futuro do que encarar o presente encardido de sofrimento.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O rosto no chão</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-rosto-no-chao</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 11:58:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Portas se abrem e fecham incessantemente. Não há paz no desengano. De hora em hora, alguém me checa, alguém vem fiscalizar meus sinais vitais, eu vejo os vultos que entram e saem. São fantasmas que vêm checar meus sinais vitais. Eu quero olhar nos olhos deles e ver o exato momento, eu tenho o direito inalienável de ser o primeiro a ouvi-los dizer, olhando fundo nos meus olhos, e eu nos deles: você não tem mais sinais vitais.
Mas o fato é que jamais se pronunciou essa frase em leito de morte algum, eu nunca vi nem ouvi. E já estive por perto de alguns leitos de morte, além do meu próprio.”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Você já sabe/ apreendeu que do chão não passa.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A morte. O desaparecimento. O vestido que não cabe. O corpo duplo, a separação. O corpo petrificado que insiste em nascer.</p>
<p style="text-align: justify;">São múltiplas as vozes, os narradores, os rostos e as identidades que se alternam e se transformam no belo livro de estreia da escritora carioca Fernanda Rosado. O livro surpreende por apresentar uma escrita madura, certeira, por vezes mordaz, ainda que terna e amorosa.</p>
<p style="text-align: justify;">O volume é composto por seis contos, cada um narrado de uma forma e de um ponto de vista diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro, <em>Leito</em>, é narrado em primeira pessoa: a voz de um homem hospitalizado à beira da morte. Em <em>O rosto no chão</em>, Dalva, faxineira de uma repartição, vê o amigo, colega de profissão, misteriosamente desaparecer. Em <em>Provador</em>, uma adolescente tenta acomodar seu corpo num vestido que não cabe. <em>Liana</em> traz uma narrativa mais fragmentada, em que uma adolescente vive a dor do desaparecimento da melhor amiga. Já em <em>Carta à irmã,</em> o tema do duplo, das gêmeas desgarradas, reunidas, tempos depois, por uma carta. No conto final, <em>Leito II,</em> um nascimento, apesar do medo, da dor, das histórias estranhamente guardadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O rosto no chão</em> flerta com o realismo fantástico, num tom ao mesmo tempo melancólico, ao acompanhar os espaços e a visibilidade desses corpos. O desaparecimento de corpos que não se notam, que não se sabem, que ainda não se foram, que ainda não são.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre crueza e crueldade, há a leveza da relação possível. O estranho da vida guardada em vidro: um feto petrificado. Como dizia a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Mas por mais bela que seja cada coisa </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tem um monstro em si suspenso.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O que se depura das histórias narradas por Fernanda são as relações, que vão se tecendo também nos detalhes e no que eles guardam: o vestido, o uniforme, o feto no vidro, a pele mordida.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucia Berlin (1936-2004), grande contista, em um estilo diferente do que se verá aqui, cria personagens sempre atrapalhadas, que vão tropeçando em suas fraquezas. Não as ridiculariza, nem dramatiza suas desgraças ou tem pena delas. Costumava dizer aos seus alunos: “Diante de uma princesa e uma servente, Tchekhov trata as duas exatamente da mesma forma”. Podemos dizer o mesmo das histórias aqui narradas por Fernanda.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os corpos que desaparecem cruelmente na repetição de um destino não há redenção nas histórias de <em>O rosto</em> <em>no chão</em>. A vida insiste, contudo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Você já sabe/ apreendeu que do chão não passa.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Maíra Matos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Reza &#038; Drible</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 11:45:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Presumo, por arrogância ou meninice, que as entidades nesse terreiro somos nós, meninos feitos pra grama. Nunca fui fã de nenhum santo ou orixá dentro de campo, mesmo sabendo que o jogo não era só o jogo.”
[...] “Vivia um eterno mal-estar no vestiário, sem saber que vivia assim, o mesmo lugar que trazia comunhão trazia incompreensão também.” [...] “Os anos morando em alojamento tinham forjado um homem, ou o que se pensava disso.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os meninos de grama que rezam e driblam neste romance carregam em si a força e o desespero que marcam um momento de vida que é tão particular e, ao mesmo tempo não, como Zói, um deles, deixa escapar <em>podia ser um sentimento só meu, mas também podia ser um sentimento comum, ninguém fala disso</em>. Neste livro, se fala disso e também daquilo que é tão característico da subjetivação de meninos e homens no nosso país, que por vezes têm sua história contada sem verdadeiramente levar em conta suas raízes e as pluralidades de narrativas. Aqui, a narrativa gira em torno do futebol, mas o campo, o vestiário, os treinos e as competições são apenas pano de fundo para levantar outras bolas, que nos fazem refletir sobre as <em>trairagens</em> a que as masculinidades estão submetidas, e ainda nos adverte sobre como a parceria entre os meninoshomens — ou homensmeninos — não precisa ser sempre tóxica e cruel, mas sim carregada de generosidade e emoção. Todo esse cenário, escrito com inteligência, humor e intimidade, também nos possibilita a aproximação com essa cidade, Pouca História, que <em>se pá</em> vai conquistar mesmo quem nunca viu de perto esse céu que <em>parece ao alcance das mãos</em>. A divisão do livro em quatro tempos, sendo dois de prorrogação, é tão familiar quanto um clássico do nosso time do coração, mas também é um convite para quem posiciona o futebol às margens da sua própria história. Somos convidados a conhecer não só os 11 jogadores do time infantil do Ceilândia Esporte Clube, mas os profissionais que os treinam e (res)guardam, as suas famílias e… os seus futuros? Algumas frases sem ponto final, diversas expressões de quem é e de quem veio parar na <em>Pouca História</em>, algumas Palavras escritas em caixa alta nos lembram ainda como o português é bem brasileiro e como, independente do gênero, a gente acaba tendo também um pouco de Tusempai, de Gago, de Brioche e de Boca dentro da gente. Que essa leitura possa inspirar os meninos a pedirem afago, e que esse colo seja dado, e esse movimento cada vez mais discutido e problematizado pela nossa sociedade: é a minha aposta e desejo para <em>Reza &amp; Drible</em>.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Minha nave amarrada numa goiabeira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 10:47:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Luiz Felipe Rezende tem como desafio adotar a leveza e o aspecto poético da crônica para falar de Ciência. Trabalhando desde 2002 com pesquisa em Ciência do Sistema Terrestre, da ionosfera à vegetação, do espaço à planta, ele relata histórias de experiências de campo, congressos, palestras e bastidores. Ele mostra que às vezes uma grande decisão científica pode ser pautada puramente pela intuição, e não pelo senso estritamente técnico, como seria de se esperar. Suas crônicas procuram mostrar o lado humano dos cientistas, acrescentando contrapontos com a Literatura, a Música e a Filosofia.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Luiz Felipe Rezende adota a crônica como uma forma de divulgação científica menos fria, mais lúdica e utiliza a ficção quando a situação permite, mas também adota a precisão quando é necessária.  Fazendo pesquisa desde 2002, trabalhou da ionosfera (camada da atmosfera que fica entre 60 e 1000 km de altitude) até à planta e sua fotossíntese e modelos computacionais de vegetação. Nesta trajetória fez o caminho inverso: do espaço à terra; e publicou artigos científicos sobre cintilação ionosférica, tempestades magnéticas, clima espacial, mudanças climáticas, modelos de vegetação e sobre os biomas brasileiros. Para fazer a divulgação, criou um projeto pessoal que deu o nome de <strong><em>Scientia et Ars</em></strong> <strong><em>(da fotossíntese à ionosfera) </em></strong>que tem como desafio adotar a leveza e um pouco do aspecto poético da crônica para falar de Ciência. E através de crônicas relata histórias as experiências em trabalhos de campo, congressos, palestras e nos bastidores da Ciência. Histórias que procuram mostrar o lado humano da Ciência, que é uma atividade feita por pessoas. Nesse tempo houve a oportunidade e o privilégio de conhecer cientistas mundialmente renomados, e muitos outros, não renomados, mas também brilhantes. Por sua convivência, ele mostra que às vezes uma grande decisão científica pode ser pautada puramente pela intuição, e não pelo senso estritamente técnico. O autor que também atua no campo da Literatura e da Música, complementa as crônicas com referências culturais que se intercruzam com questões científicas. A Ciência não está isolada, e nos questionamentos do Universo e da Natureza, sempre há a integração e a participação da Arte e da Filosofia. Os cientistas antigos também eram artistas assim como Leonardo Da Vinci.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Do riso ao soro: reflexões de uma palhaça no hospital e a incrível jornada dos afetos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 09:58:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">... “a vida não é certa. Não há garantia. Aproveita. Deixa o afeto te afetar. Esquece a fórmula, rompe a carapaça que protege teu coração e vive. Experimenta o fluxo da existência que se derrama e não aquele que se programa. Brinca, enquanto pode. Vive, enquanto é tempo”. Neste livro emocionante, Tereza Gontijo, palhaça de hospital, compartilha com profundidade, afeto e senso de humor sua experiência profissional na Doutores da Alegria. Seus relatos carregados de humanidade são como chamados para a urgência de vivermos nossa existência de forma mais rica e significativa.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A partir de sua experiência de 16 anos como palhaça em pediatrias hospitalares pela Associação Doutores da Alegria de São Paulo, Tereza Gontijo, a palhaça Guadalupe, oferece aqui um relato facinante sobre a potência do encontro. Do encontro entre a palhaça, os pacientes, os familiares e a equipe hospitalar. Do encontro entre olhares, subjetividades, afetos, riso e cumplicidade. E, para além da arte da palhaçaria, que é descrita com maestria por essa artista experiente, este livro traz um diálogo sobre a vida e a morte e, sobretudo, sobre o tempo. Tereza, ou melhor, a palhaça Guadalupe nos faz lembrar em seus escritos que o <em>agora </em>pode ser uma grande ocasião.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a sensibilidade poética que captura beleza até mesmo de ocasiões dolorosas, a obra relata casos emocionantes vividos em enfermarias pediátricas. Guadalupe e Tereza nos levam de mãos dadas para visitar esse ambiente de vulnerabilidade que é o hospital e presenciar a potência transformadora que o riso, a graça e a afetividade têm sobre a saúde humana. Podemos, como convidados, espiar pela fresta da porta do quarto o que acontece quando o leito se transforma em um picadeiro e a criança reacende a pulsão criativa, a partir do encontro com os palhaços. E o texto se torna ainda mais cativante porque Tereza, para além de artista, nos abre as portas de sua intimidade, revelando suas questões como mãe de dois filhos e mulher. Por trás da ribalta a vida continua e essas reverberações são trazidas ao leitor, enchendo a narrativa de camadas e humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Do riso ao soro </em>é um convite para o público em geral e não apenas para os amantes e estudiosos da palhaçaria. Sua escrita nos conduz para um lugar de calor e aconchego onde se para para ler (e escutar) devagar, dando vazão ao pensamento&#8230; talvez à beira de um fogão de lenha, em Minas Gerais, terra natal que exala de Tereza. Uma prosa com sotaque, ritmo, fluidez, que nos fisga e faz pensar. Que espaço, nesse tempo acelerado e nessa era virtualizada, temos dado para nossos afetos? Quanto estamos de fato abertos para os encontros? O que temos feito do nosso agora? A vida não traz garantias, portanto viver é urgente.</p>
<p><strong>Lud Benquerer</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Anomia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 09:50:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Perdido na vida, em pensamentos e em meio a uma viagem à Itália para participar de um festival de arte urbana, o atormentado grafiteiro Shorei, chora suas pitangas. Descontente com a compreensão que as pessoas têm sobre seu trabalho, o artista vai perdendo a fé no futuro. Enquanto perambula pelo país europeu, busca uma solução aparentemente simples para acabar com seus tormentos. Mas como dar fim a si mesmo sem machucar os que ficam? Essa e outras indagações acompanham o pintor, até se deparar com algo que muda o sentido de sua vida.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>ser ou não ser, eis a questão </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Depressão, o desejo de morrer, tentativas de suicídio, roleta-russa, procura de formas de morrer, um simulacro tem o número de registro raspado? Morrer longe de casa, com um ritmo alucinante, Paulo Ito cria Shorei, um grafiteiro com aparência de marroquino que não se sente inserido no mundo em que vive, e nem mesmo no da namorada, como fuga, viaja pra Itália, onde realizará painéis de grafite. O autor, que também é grafiteiro, nos entrega uma história brutal e, ao mesmo tempo, terna neste livro extremamente imagético, um <em>road movie</em>, seus personagens parecem <em>cartoons</em> e grafites que acabaram de ganhar vida e transeuntam por entre nós. Temas perturbadores como a contratação de um assassino, fascismo e nazismo são encontrados nas páginas deste romance.</p>
<p style="text-align: justify;">A literatura do Paulo Ito é mais impura que cocaína batizada, ainda bem, as páginas deste livro, mesmo que você não veja, estão manchadas de sangue, dor, preconceitos, e tudo que amamos odiar. O autor nos entrega um dos mais imagéticos livros que você terá a oportunidade de ler na sua vida, colocando seu personagem fugindo de si mesmo e dos que o rodeiam, Paulo Ito no leva aos mais diversos paraísos, Itália, Marrocos, Túnis, Cartago e arredores — mas alguns nem tão paradisíacos assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como em <em>Grande Sertão: Veredas</em> de Guimarães Rosa e <em>Dom Quixote</em> de Miguel de Cervantes, a aventura está presente, a solidão e as dores também.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma pancada nevrálgica.</p>
<p style="text-align: justify;">Explosões, formigueiros, uma Taurus com uma única bala no tambor, fascistas incendiados, cueca no rego, assalto na porta do banheiro do McDonald’s, cerveja, haxixe, grafites apagados e muito mais, num ritmo brutal e tão alucinante que parecem saídos de uma junção de inúmeros hqs.</p>
<p style="text-align: justify;">ao ler este livro, você se sentirá diante de uma tela de Basquiat, tal a quantidade de informações.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir de imagens fortes e ousadas, Paulo Ito grafita na nossa imaginação as mais absurdas cenas que um romance pode ter, e ainda consegue nos colocar dentro delas, com todos os detalhes e emoções que é possível vivenciar.</p>
<p style="text-align: justify;">Já no meio do romance, ficamos torcendo para que a motivação da personagem central mude, e que ele tenha uma história feliz com Liz, a namorada que é deixada no Brasil, mas o autor, ainda reserva surpresas que você só vai descobrir lendo <em>Anomia</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>aramyz</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cerapió</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/cerapio</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 09:00:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">A cidade lembra a banda de uma cuia de cabaça, um recôncavo, que por pulsão de aprofundar-se acentuou a gruta onde se estabelece. Cerapió busca o oco de existir sem pesos. Escolhe sempre o caminho de manter o percurso, a geografia, as tradições e a sua língua. Seu povo é a extensão de seu território, fusão de matérias, o seu manifesto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">
Manter-se em Cerapió é uma escolha política, manter Cerapió exatamente como é, é existir em retidão.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Cerapió, território fictício inventado pela escritora Flávia Bin, é um espaço íntimo para nós, brasileiros: ele traz consigo a vegetação, o clima e principalmente, a gente, negada durante tempos de figurar na literatura brasileira. Neste romance, pisamos no solo que conhecemos, e decidimos ficar, porque suas personagens nos ensinam sobre a poética das pessoas que ficam no chão em que nasceram.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa terra em que um fenômeno surpreendente acontece com as pessoas que sabem demais, fazendo com que elas emudeçam, nós conhecemos a vida e os afetos de Odara, uma mulher que desde menina questiona e se contrapõe ao que se determinou caber no conceito de ser mulher. Entretanto, a maternidade, que faz com que as mulheres se assemelhem à árvore da barriguda, torna-se para ela e para todas as mulheres desse livro a grande viagem para dentro delas mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa cidade, os homens costumam ir embora, e mesmo com a promessa de regresso eles nunca retornam, fazendo com que Cerapió seja uma comunidade primordialmente feminina. E são essas mulheres que investigam o solo, a profundidade dos rios, as águas do seu corpo, os segredos de carregar uma criança no ventre, o emudecimento de quem sabe demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Romance narrado por meio de múltiplas vozes, com o domínio de quem conhece a boca e o fluxo de bons personagens, Flávia nos entrega uma prosa viva, com uma linguagem própria, com a geografia do Brasil de dentro, aquele que precisa povoar a ficção brasileira contemporânea, e nos presenteia com personagens inesquecíveis, prontas para entrelaçar os dedos nas suas mãos e te levar por esse solo de Cerapió num trajeto poético e encantador, nas linhas de uma literatura que aponta para o melhor que produzimos.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><strong>Euler Lopes</strong></p>
<p>Escritora</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Lugar nenhum</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 08:53:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">“Depois que enviou a mensagem, ligou o computador e assistiu a episódios de um seriado até pegar no sono, sonhou com Sol, sonhou com Rodrigo, sonhou com Gabriel, e essa foi a sua noite mais longa naquela cidade"</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Seja bem-vindo à Lugar Nenhum</em> trata de uma cidade em que, à primeira vista, não há nada de mais, mas que, desde o começo, já aponta sinais de que existe algo de estranho. Quando Carol por impulso decide se mudar e abandonar tudo para não perder uma oportunidade de emprego que ela considera perfeita, sua mente está tão cega por esse sentimento de êxtase, que é possível notar como ela mergulha de cabeça, se tornando um alvo fácil para qualquer tipo de armadilha.</p>
<p style="text-align: justify;">Lugar Nenhum vai para além do nome da cidade, simboliza os sentimentos de alguém que quer se encontrar, sobre alguém que almeja amar, alguém que almeja o poder e alguém que almeja salvação, porque, apesar de ter todo um mistério em volta sobre a cidade, o principal é o que acontece com as pessoas que estão naquele lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma que Carol se envolve com os personagens é o que conecta os pontos para solucionar o que está escondido. Conhecemos Gabriel, o dono do jornal no qual ela vai trabalhar e com quem consegue ter um bom relacionamento; Rodrigo, o artista excêntrico que deseja de formas diferentes e às vezes atrapalhadas entrar na vida de Carol; e a ex-namorada de Carol, que tenta a convencer de retornar para casa.</p>
<p style="text-align: justify;">O que mais posso dizer sobre Lugar Nenhum é que, algumas perguntas vão ser respondidas e outras não, assim como na vida, e que uma explosão de sentimentos está reservada para o fim, com grandes reviravoltas.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O externo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-externo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 May 2025 17:32:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">Fechei o livro nem tinha aberto direito. Como se uma obrigação estivesse concluída. Abortei a leitura — pela que vez? — como quem coloca talheres no escorredor. Tantas vezes desisti desse livro que se tornou mais natural largá-lo por ali no banheiro ou do lado da cama, como se eu estivesse realmente avançando, quando na verdade estava na mesma página — ou talvez nem na mesma página, duas para frente ou três para trás, viradas pelo vento — havia meses, quatro ou cinco. Essa mesma página, fico carregando ela pela casa sem saber o que diz, sujando de comida, fiapos de papel higiênico, cílios e cinzas. <span style="color: #ffffff;">Matheus Loner</span></span></p>
&#160;
<p style="text-align: justify;"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>O externo</em> é uma novela curta sobre amizade, saúde mental e ofuscamento. Narrada em primeira pessoa, explora a procrastinação, a covardia e as criativas maneiras com que o protagonista justifica a própria falta de responsabilidade. As críticas dele ao capitalismo tardio, à cultura pós-moderna na era da informação, ao cinismo, apatia e autoironia não deixam de ser críticas a si mesmo, e isso não lhe escapa. Mas algo urge, e alguém com tantas respostas, em tão privilegiada situação, seguramente sabe o que fazer… Se souber o que urge.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Urban</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/urban</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 May 2025 16:17:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Urban recarrega sua pistola, gosta de estar preparado, apesar de usar mais metralhadora e fuzil. Pensa na família de civis que acabou de matar e sente o estômago, não se habitua ao massacre diário, nunca pensou em matar alguém e agora o faz no automático, trabalhador na linha de montagem."</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Urban é um personagem poliforme, adere a diferentes classes, gêneros, nacionalidades. Incorpora um bilionário que passeia impune sob o sol grego, descansa no corpo de um artesão com vida simples, se agita em uma educadora autoritária, um soldado israelense que posta stories ou num figurante de Fellini que despreza o cinema italiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Urban somos todos nós. No país da miséria, do meme, do fundamentalismo religioso, das sucessivas crises éticas e estéticas. Contudo, por vezes, o narrador procura o nosso melhor. Inspira-se na crônica de Clarice ou na anticrônica de Victor Heringer, rememora o melhor do cinema mundial, Fellini, Jim Jarmusch, Kaurismäki.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura é convidativa, acompanha-se com prazer o seu fluxo, ao mesmo tempo desconstrói a ideia que a crônica sempre trata de temas leves, prosaicos. O gênero é breve, versátil, também pode apreender do cotidiano aspectos grotescos, avassaladores.</p>
<p style="text-align: justify;">Urban não gosta da palavra esperança, mas quem escreve espera, deseja a recriação do seu texto em cada futuro leitor. Encontre Urban, depois de duas horas de leitura serás outro, bom, canalha, justo, feliz ou inconformado. Afaste-se um pouco das redes e caminhe, reflita. Ignore o relógio do fim do mundo, temos algum tempo, a arte é nossa potência.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Ainda não é tarde</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/ainda-nao-e-tarde</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 May 2025 15:58:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Léo, um fotógrafo de 58 anos, nunca viveu relacionamentos amorosos, e o início de sua velhice parece consolidar esse destino. Ao reencontrar Niko, rapaz que conheceu brevemente alguns meses antes, Léo se surpreende com suas constantes insinuações. A beleza de Niko fascina tanto quanto aterroriza Léo, que se sente atraído, mas muito desconfortável: ele é jovem demais. A visão madura de Léo tenta refrear seu desejo, enquanto a ousadia de Niko busca o oposto. O envolvimento se mostra inevitável. Kris, pai de Niko, ciente disso, tem uma reação inesperada, fazendo a Léo uma proposta impensável.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Abordando um tema sensível, Wagner Campelo, numa linguagem simples e direta, conduz o leitor pela jornada de Léo, fotógrafo quase sexagenário mas inexperiente em questões sentimentais, diante de um dilema moral, com<br />
as investidas do belo e jovem Niko. Quais os limites do desejo? Quais os desafios de viver uma paixão na maturidade quando este sentimento esbarra num tabu? As barreiras interiores são, de fato, os maiores inimigos a serem superados? A despeito da culpa que o consome, Léo se entrega a uma busca por si mesmo, enfrentando medos, limitações e expectativas, confrontando-se com as surpresas da vida e os mistérios do coração, descobrindo facetas de sua personalidade que ele ignorava completamente.<br />
Num cenário a princípio favorável, Léo se vê num embate com suas próprias verdades, diante de algo que pode ser mais complexo e transformador do que ele imagina. Com seu texto objetivo, narrado em primeira pessoa pelo protagonista, o autor nos oferece uma história envolvente, rica em reflexões, mostrando que nem sempre é demasiado tarde para viver o inesperado, para se permitir sentir e, quem sabe, encontrar o verdadeiro amor onde menos se espera.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Partida ao cais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2025 10:40:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Beth, uma mulher que prefere ser sereia, quer um passado novo. Não basta reescrever o conto de Ariel, é urgente reeditar sua própria história. Ela não quer mais ser a moça assassinada, a Black Dahlia, aquela que chamou tanta atenção nos jornais dos EUA no início do século XX. Beth quer seu passado de volta, sua morte também.
Cabe à narradora desta novela, uma escritora radicada em Veneza e escondida no centenário Café Florian, aceitar esta ordem no meio de um luto, uma inundação e uma pausa no casamento. Ninguém pode dizer não a uma sereia gótica com apenas um seio, do outro lado uma cicatriz, no rosto uma tristeza sólida e macilenta. Juntas, numa costura artística de cicatrizes, as duas seguem em busca da transformação, da metamorfose, do maravilhamento. Partida ao cais é uma jornada surrealista, uma viagem feita numa Veneza inundada, Veneza-pântano, onde o corpo da mulher pode ser o que a dona deste corpo bem quiser e não o que artistas surrealistas como Max Ernst e André Breton desejavam, obcecados com a figura da femme-enfant.

&#160;

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Você já sabe como se escreve a raiva?</p>
<p>Escrever sobre a mãe morta é procurar por problema. Quando uma mãe morre, começa uma transformação no corpo da filha. Um legado insuportável e pesado como fardo que nos faz repuxar a perna, doer os nervos, pesar as ancas como se afundássemos, criar fungos nos pulmões.<br />
Carla Mühlhaus e sua escrita embriagada de ricos sentidos como se fosse uma ode à sinestesia, nos colocam em contorno com o delírio da dor, do ressentimento e do espanto de uma mulher sem uma mãe, essa personagem sempre inacreditavelmente desconhecida de uma filha. Contorna a narrativa uma asma, uma dificuldade da mais natural capacidade de um corpo, a respiração, porque respirar não é tão simples quanto faz parecer o ar onírico de uma Veneza quase surrealista, acostumada a afundar e que nos intoxica com as referências molhadas de uma memória mofada, banhada a cicatrizes. Uma leitura que exige do leitor a atenção irrestrita, não só pela complexidade narrativa que dá ao texto uma estética deslumbrante e rara, mas pelas referências nunca gratuitas pontilhadas como cristais que, além de iluminar, fazem cortar. Elementos que se fincam, estacas venezianas profundamente mergulhadas que sustentam, mas que, como quem narra a morte, também apodrecem, deixando à mostra a beleza daquilo que desaba.</p>
<p><strong>Nara Vidal</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>O silêncio que se fez</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-silencio-que-se-fez</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Apr 2025 17:18:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Hoje completo dezoito anos. Trocaram-me de mundos sempre conforme a vontade deles. Mainha, meu padrasto, as instituições. Nesses meus dezoito anos eu fui filha, mãe, esposa e um número no sistema.
Quando perdeu seu irmão, o silêncio começou a lhe fazer companhia. Quando percebeu que “mainha esqueceu como sorrir”, foi se isolando cada vez mais em seu universo particular. Com a convivência com o padrasto, afundou-se ainda mais em um mundo que era só seu. Na instituição para menores, abandonou o som.
E foi assim que o silêncio se fez!</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ana Baldo se apresenta, enquanto escritora, como um farol que, por meio de seus livros, ilumina e esclarece o obscurantismo que persiste em nossa sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua primeira obra, <em>Tem que fazer uma cruz pra ela</em>, expõe os campos de concentração para retirantes da seca no Ceará, em 1932. Esta obra explora de forma intensa um capítulo obscuro e convenientemente apagado da nossa história.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua segunda obra, <em>Sim senhora, dona Beth</em>, é baseada em uma vivência real. O texto retrata as dificuldades de uma mulher que enfrenta a desigualdade social em suas diferentes esferas: econômica, de gênero e nas relações de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O silêncio que se fez</em>: impacto! Essa é a primeira definição para essa obra, que é um retrato brutal de dor. No desenvolvimento da obra, é evidenciada a saga de sobrevivência de uma família composta por mãe e filhos, que lutam com recursos escassos, tanto materiais quanto emocionais. Sobrevivem da melhor forma possível, criando uma fantasia de que o que possuem é, de certa forma, o necessário.</p>
<p style="text-align: justify;">Percebe-se um baixo padrão de exigência material, pois estão acostumados com — quase — nada. No campo emocional, as demandas e necessidades beiram o nada: não se tocam, não se amam, não sorriem, não recebem nem pedem afeto. A vida já lhes retirou tudo. Interessante é perceber que a filha, protagonista, passa a vida sofrendo todo tipo de violência — material, social, sexual, educacional, alimentar e física — e que, em muitos momentos, sua fuga é o silêncio (mutismo seletivo) como forma de defesa. No silêncio da personagem principal percebe-se um grito de socorro, um pedido de auxílio. Contudo, as histórias se repetem dia após dia, sem que a dura realidade mude.</p>
<p style="text-align: justify;">A autora cria uma atmosfera densa, que repercute de forma intensa e permanente. Ela tenta fazer o leitor perceber a realidade de milhões de crianças abandonadas e negligenciadas em uma sociedade na qual o silêncio e a invisibilidade são os principais recursos de sobrevivência. Ao produzir mais essa obra literária, Ana demonstra uma escrita afiada, com uma linha profundamente humana. Os conflitos retratados são desmembrados na tentativa de compreensão do que leva determinados indivíduos ou grupos ao total descaso e abandono da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejo Ana Baldo, em mais esta obra, como uma fênix que ressurge, muitas vezes, de suas próprias lutas. Com força demonstra a necessidade de mudança e transformação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Luis Fernando Cielo</strong></p>
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		<title>Até de olhos fechados se vê a noite</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Apr 2025 17:36:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Até de olhos fechados se vê a noite é um livro de contos que se inscreve na linha da literatura fantástica. As narrativas contam histórias de personagens masculinas que, ao fecharem as portas de seus apartamentos, se encontram com a dor da solidão. Sozinhas com seus medos, taras, vícios, vergonhas, elas vão sendo devoradas por uma espécie de força sobrenatural que faz com que seus apartamentos ganhem vida, incorporando-as à materialidade das paredes e cômodos. Não há rota de escape, elas estão condenadas a perecer isoladas com seus fantasmas.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que pode acontecer em um apartamento quando fechamos a porta? Quem nunca cogitou olhar pela fresta da janela ou encostar o ouvido à parede na esperança de interpretar os ruídos que emergem do outro lado?</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Até de olhos fechados se vê a noite</em> o leitor é convidado a adentrar a intimidade de personagens que só se conhecem socialmente no cruzar pelos corredores de um condomínio. Cada uma delas guarda um segredo, um medo, uma tara, um vício inconfessável que ganham forma quando as portas de seus apartamentos se fecham.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contos trazem ligações com a literatura fantástica. Nada é normal, o real não é suficiente e a realidade uma ilusão. Situações insólitas emergem de cada narrativa, levando o leitor a um mundo de mistério, no ambiente quase claustrofóbico em que se convertem os apartamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro da trata da solidão na vida contemporânea. As pessoas estão cada vez mais sozinhas e sofrem caladas em seus quartos, nos seus escritórios ou em suas mentes, afetadas por doenças como o Alzheimer. No fundo, cada um enfrenta a solidão com as armas que possui. À noite, os fantasmas ganham forma, os medos se amplificam e o horror toma conta de cada personagem, que já não sabe distinguir o que é real e o que é ilusão.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contos exploram as formas do insólito, do horror e do fantástico. No mundo moderno, onde estamos conectados o tempo todo, descobrir-se sozinho pode ser uma experiência aterrorizante. É a este mundo dos silêncios, da escuridão da noite, que o leitor é convidado a explorar em cada narrativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A unidade do livro está no fato de que as narrativas ocorrem todas dentro de um condomínio. Aparentemente, as pessoas estão seguras em suas ilhas urbanas, fechando-se em edifícios com portarias e cercas elétricas. No entanto, os contos têm a pretensão de mostrar que nunca estamos seguros, que há seres fantásticos trancafiados nos armários, debaixo das camas, nos retratos que decoram as salas, dando ao ambiente um clima familiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não nos esqueçamos, também, que do ambiente doméstico brotam as maiores violências de que se tem notícia. Assim, a família não é o lugar seguro que todos idealizam. As narrativas também exploram esse entorno familiar, onde, de portas fechadas, podem emergir os maiores horrores da humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, caro leitor, venha preparado para enfrentar seus fantasmas, seus medos, suas certezas ao acompanhar as vidas das personagens desses contos. Quem sabe, você possa se descobrir só e cercado por terrores noturnos que silenciamos ao apagar as luzes.</p>
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		<title>Cenas que se diluem com o tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Apr 2025 18:22:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A pergunta que ocorre de maneira sutil, a cada despedida: quando novamente? Ela não incomoda, não cobra exigências, mas desponta irrevogavelmente na derradeira noite, na primeira aurora do dia em que partimos. É uma pergunta complexa, não se trata de pensar apenas na tessitura das cores, nos aromas, na magia infinita do lugar, mas principalmente, na subjetividade experimentada, que diz respeito à relação muito particular com o calor humano, com a solidariedade que se mescla aos gestos de amor. Com as palavras que alimentaram a alma, descreveram histórias, formularam os pequenos mistérios revelados na cozinha, nos cafés, nos silêncios cúmplices ao longo das caminhadas sob a neve… Quando novamente?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao todo, temos 56 narrativas sobre os acontecimentos cotidianos, que, na primeira metade da obra, descrevem um conjunto dissonante de expectativas, desejos, gestos harmoniosos, delineados pela condição humana; e, na segunda metade, narram os tons mais sofridos, as angústias e tensões que nos inquietam. Instantes observados, apreendidos, descritos amorosa ou dolorosamente: a rudeza da noite no espaço urbano, um passeio à beira-mar, o sepultamento da avó, a carona na companhia de um líder muçulmano, a complexa relação entre pai, filho e avô, o arrependimento após a contratação de um pistoleiro. Nada que pretenda ir além das convenções silenciosas, ou da mera possibilidade do imaginário. Temos aqui uma sucessão de narrativas que testemunham a presença do ser<br />
humano como protagonista de seus atos.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Entre montanhas e predições</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Apr 2025 14:14:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Entre montanhas e predições</em> é uma jornada que nos leva através das gerações de uma família, desde a sua fundação até a sua descendência. Madalena e Antônio se conheceram ainda jovens. Após o casamento, criaram seu lar em uma pequena cidade aninhada entre as montanhas de Minas Gerais e tiveram seis filhos.</p>
Atormentada por presságios desenhados já em uma marca de nascença, reforçados anos depois pela previsão de uma cartomante, Madalena emerge como uma figura de resiliência e determinação. O destino guarda surpresas para cada um dos seus filhos. Entre as contrariedades comuns da vida, que, muitas vezes, de tão rotineiras, acabam se tornando normalizadas, ela enfrenta as dificuldades da existência em uma pequena e isolada cidade.

Entre o realismo cru e a magia sutil, este livro nos mergulha nas alegrias e tragédias de uma vida ordinária. Recheado de metáforas e tramas que ecoam além do tempo e do espaço, <em>Entre montanhas e predições</em> é uma obra que nos lembra da complexidade e da beleza inerentes à jornada da família humana.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entre as montanhas de Minas Gerais, a vida se desenrola de maneira simples e cotidiana, marcada por desafios, perdas, amores e esperanças. É nesse cenário que Felipe de Caux traça a trajetória de uma família numerosa, como tantas da região, e de uma menina que nasce sob o peso de uma profecia feita por uma tia considerada louca.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;A menina nasceu marcada&#8221; foram as palavras ditas ao seu nascimento e elas ecoariam anos depois, reafirmadas por uma cartomante, traçando um caminho de dificuldades e incertezas. Desde cedo, sua vida parece determinada por forças que escapam ao seu controle, refletindo a condição de muitas pessoas em um mundo regido por normas impostas por homens, pela religião e pelos costumes. No entanto, em vez de se render ao destino, ela desafia as previsões e constrói seu próprio percurso, guiada pela força interior e pela crença na transformação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do romance, Felipe entrelaça realidade e fantasia para explorar temas como misoginia, preconceito, resistência, educação e medicina popular. Em cada personagem, um reflexo das múltiplas camadas da existência. Em cada página, um retrato das lutas e contradições da vida. <em>Entre montanhas e predições</em> é um livro que emociona, provoca e convida à reflexão, capturando as dores e alegrias que atravessam gerações.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Em movimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Apr 2025 09:22:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O instante exato em que, ainda longe da vista de todos, uma bailarina se decide a entrar no palco: é agora.
A possibilidade de andar para trás num vídeo, os gestos tornando-se sobre-humanos quando executados na sequência inversa.
Ao cingir um nó, a tensão dos braços em direção contrária um ao outro, para fora, até serem puxados para o centro pela força do nó que se aperta.
O momento em que alguém que corre olha para baixo, para os seus pés, para as suas pernas, não as sentindo como suas.
A tensão na vara de uma funambulista; aparentemente inerte, mas em tensão forte e delicada, de uma ponta à outra, mantendo o equilíbrio do corpo que a segura.
Os saltos que o barco dá em resposta à passagem de uma onda por baixo da sua quilha. O ímpeto com que as pessoas que o barco transporta se elevam, e depois caem.
O impulso do nosso corpo quando o comboio trava: a inércia forçando o tronco a avançar um pouco mais, ainda que a máquina que nos envolve se estanque.
(<em>Prólogo</em>, página 7)

&#160;

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pousados nas prateleiras das estantes, alinhados por uma ordem caprichosa ou impecavelmente racional (alfabética, cronológica, às vezes secreta e enigmática), os livros podem parecer objetos estáticos. Fixos entre capa, lombada e contracapa, com os cadernos colados ou cosidos, os livros repousam, iguais a si próprios, num silêncio obstinado. Mas basta alguém abri-los e seguir de linha em linha para o tempo surgir, e a passagem das horas, e a transformação de todas as coisas. Nesse instante, percebemos que nada é estático no livro, que nele tudo se move e se muda, e que nós próprios mudamos com ele, graças a ele. Ler é uma experiência do movimento, o movimento é uma experiência da transformação.<br />
Chama-se precisamente Em movimento este belo livro de estreia de Ana Sabino Moura. São vinte e três histórias, quase uma por cada hora do dia, mais um prólogo e um epílogo, como que abrindo, como que fechando. São histórias de seres sozinhos ou acompanhados, corajosos ou assustados, quantas vezes contemplativos ou surpreendidos com os seus próprios gestos. Alguns estão no limiar de uma viagem que ainda mal começou, outros recordam viagens terminadas; todos, todas — se definem por um percurso, que às vezes é desejo e às vezes é memória.<br />
Mas chega a ser enganador colocar a questão nestes termos, como se houvesse, por um lado, a viagem, e, por outro, o viajante; como se existissem corpos separados dos espaços, identidades fixas atravessando o mundo. Este livro ensina a pensar de outro modo, ou seja: que nós somos as próprias viagens que fazemos e os percursos que traçamos. Não se pode separar a viagem do viajante: o nosso nome é apenas a memória de todos os nossos gestos — recuperar um objeto perdido, ganhar uma corrida, conhecer o desconhecido, reencontrar a pessoa amada. Gestos simples, mas essenciais: gestos em que cada personagem aposta a totalidade da sua vida, decidindo assim o sentido dos seus dias.<br />
Como bem sabe uma destas personagens, estamos em movimento perpétuo: o mundo não existe, transforma-se sem descanso na insistência dos nossos passos. Ou no intervalo das folhas, no livro em movimento.</p>
<p><strong>Pedro Eiras</strong></p>
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		<title>Crônicas de amor e outros vírus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Apr 2025 13:36:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tem amores que nos chegam junto com pássaros. Descobri esta verdade há algum tempo e a vi desvendada em duas cenas. Na praça do bairro conhecida como praça do beijo, estava levando o cão para passear, imersa em lembranças. Enquanto ele andava solto, pressenti dois tucanos que se aproximavam e quando olhei para o alto da árvore, em um canto desta praça, eles pousaram no galho grande, em seguida. Pouso que durou o tempo do meu espanto. E partiram, como em outros momentos casais humanos fizeram o mesmo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em seu Crônicas de amor e outros vírus, a escritora dança com as palavras e a dançarina escreve com seu corpo dançante. Tulíola Lima escreve/dança acessando não suas memórias pessoais, o seu passado. Em seu texto auto-biográfico-ficcional ela acessa e transmuta sensações, paladares, toques, gestos, paisagens. Nada é imagem cristalizada no passado. Tudo é vida que se renova e se reinventa.</p>
<p style="text-align: justify;">O modo peculiar em que a cotidianidade é tratada em seus textos lança o gênero crônica em outras searas. Não mais sob a égide de Cronos, dos ponteiros do relógio, das marcações e convenções do calendário. Seu texto está sob influência de Aion, o tempo do acontecimento, do ilimitado. Assim, passado, presente e futuro se misturam, bem como o pessoal e o impessoal, o individual e o coletivo: “Um corpo de cabelo estranho que passa: sozinho enquanto mulher, coletivo enquanto raça”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas suas crônicas afetos tristes e alegres encontram seus antídotos. Morte e vida, despedidas e encontros, violências e paixões povoam o mesmo espaço escritural, alteram a respiração e a tonalidade de quem lê e de quem é lida. Textos altamente estéticos e poéticos, profundamente éticos e realistas. Não que eles representem a realidade. Eles recriam a realidade que se apresenta entre a marca escritural da autora e suas vivências e a leitura desassossegada e impactada dos seus leitores. Eles fazem pensar, fazem sentir. Eles delineiam outras lógicas, outras sensibilidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Para além do bem e do mal, a natureza se apresenta em seu texto. Não o idílico das paisagens, mas os movimentos de baixa e alta maré, os ajustes e desajustes tectónicos, as trombas e cabeças d’águas, os redemoinhos, picadas de serpentes e mordidas de tubarões. As raças se reinventam, os agrupamentos se constituem, as tradicionais filiações se desatam, se esfacelam. Seu texto nos faz olhar para fora para enxergarmos o mais profundo que nos une e que nos aparta. Enfim, na poética de Tulíola Lima tudo é movimento. É dança amorosa que lança nosso corpo sutilmente ou, quem sabe, violentamente à terra, da qual todos viemos e voltaremos. É vírus que prolifera a vida.</p>
<p><strong>Juliano Butz</strong></p>
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		<title>Uma gaivota esmagada no asfalto da avenida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Apr 2025 10:15:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Durante os dias mais frescos vou para a varanda da pousada sentar-me na minha cadeira de bambu. Tenho um quarto só para mim, mas como a vista da minha janela é um dos muros laterais da propriedade, prefiro sempre passar o dia lá fora, na minha cadeira. Às vezes compartilho o espaço com Aldemaro — ele não fala muito, e por conta disso não me importo com sua companhia. Ficamos os dois nos nossos próprios mundos observando o mundo dos outros lá fora, não há muito para fazer além disso. Quer dizer, dentro da pousada há uma sala de jogos de cartas e tabuleiros, onde inclusive acontecem aulas de crochê, pintura e pseudo ginástica durante as terças e quintas-feiras. Também há uma sala para assistir televisão, mas enquanto a velha Dolores estiver viva aquilo vai estar sempre a passar novelas mexicanas ou algum programa estúpido de auditório. Por isso, na maioria das vezes, estou na varanda com Aldemaro. Observamos as pessoas transitando do outro lado do pequeno muro apressadas ao telefone; jovens sorridentes saindo da escola com suas risadas altas que ecoam ultrapassando o som de tudo à nossa volta; vemos também, vez ou outra, alguns velhos da vizinhança arrastando os pés na calçada com seus sapatos de couro de vaca igualmente velhos — é até engraçado como alguns deles tentam não olhar para cá, contam as moedas para o pão, desviam os olhos, viram o pescoço para o outro lado da rua, assobiam a imitar passarinhos, mexem na bolsa à procura de qualquer coisa, etc. etc. Penso que esses velhos malucos sentem receio de que possam ser igualmente estufados aqui dentro a qualquer momento, como se nós fossemos agarrá-los pelos calcanhares e fazê-los de reféns. Por mim, arrancaria-lhes os sapatos e os lançaria na testa até que não os visse mais à minha frente.

(<em>Casa de pouso</em>, página 9)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em Uma gaivota esmagada no asfalto da avenida, Pâmela Pedra transforma o ordinário em espelho da condição humana. Por meio de narrativas que ecoam as angústias e os dilemas das vidas comuns, a autora conduz o leitor a um encontro visceral com a verdade — uma verdade que, muitas vezes, nem sabíamos estar buscando.<br />
Essa verdade se impõe, inevitável e crua, evidenciando as contradições da existência: a solidão como companheira silenciosa, a dor que molda e corrói, e as desilusões que, ao mesmo tempo, destroem e revelam. A cada página, o leitor se descobre e se redescobre, identificando fragmentos de si mesmo nos personagens e nos cenários que, tão próximos, poderiam ser extraídos de suas próprias memórias.<br />
A autora, observadora das miudezas da vida, escancara as mazelas da natureza humana sem condescendência, mas com uma sensibilidade que transforma a leitura em um ato de introspecção e catarse. Este livro é uma jornada que provoca, inquieta e, sobretudo, emociona.<br />
A obra transita pelos limites entre o real e o simbólico, capturando as tensões e os dramas que habitam o cotidiano de cada um de nós, e é marcada por uma escrita que dialoga com a poesia da dor e a brutalidade da existência.<br />
<strong>Layane Almeida</strong></p>
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		<title>E se nos acharem?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Apr 2025 14:02:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">epois de sair da casa da avó, havia passado o dia roubando o supermercado. Pegava uma sacola, levava para os fundos, entrava de novo um pouco diferente: com um boné, com o cabelo nos olhos, com a blusa virada ao avesso. Sentia que seu coração ia sair para fora do peito, mas não podia voltar para casa de mãos vazias. O que diriam se ele não pudesse nem sustentar sua mulher?
No fim, seus disfarces deram certo. Ninguém o seguiu. Ninguém desconfiou. A casa ser levemente fora da cidade ajudava a despistar quaisquer investigadores. A delegacia passar tanto tempo vazia também…
— Dei um trato na casa.
Ele quase cortou um dedo fora ao ouvir a voz dela, pelo que parecia ser a primeira vez.
— Eu… Eu vi. Ficou ótimo. Adorei o copo com os… Ramos?
Na mesa?</p>
(...)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“A maioria das coisas acontecem no barulho. Tiros, brigas, sexo, assaltos, festas. Nada disso me surpreende mais. Eu tenho mais medo do que acontece no silêncio. Isso sim é perigoso.” Duas pessoas caminham por uma estrada vazia. Ela não sabe do que estão fugindo; não necessariamente se importa. Ele, profundo em sua paranoia, sabe que estão atrás deles. Quem? Não sabe ao certo. Mas estão. Alguém tem que estar. Há algo de muito errado acontecendo. Está acontecendo com todo mundo. Menos com Ela e Ele, que seguem suas vidas do jeito que sempre seguiram. Afinal, havia algo de errado há tanto tempo, por que se importariam agora? Como poderiam descobrir a raiz do problema se o problema já havia se tornado uma árvore com raízes tão profundas quanto o centro da terra? Alienados da própria espécie, resolvem abandonar suas vidas antigas e deixar tudo para trás, em<br />
um mundo que sempre foi tão hostil com eles. Isso desencadeia uma série de crimes e paranoias que fará o leitor duvidar da sanidade dos dois personagens e do universo ao seu redor.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Água torta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Apr 2025 13:13:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“A chuva de São Pedro caiu sem pena, encharcando as ruas, transbordando os rios, afundando o asfalto, prendendo todos em casa, acabando com a festa do povo e alagando minha cozinha. O pé d’água derrubou árvores e fez com que o sino da igreja fosse tocado.
Três badaladas. Estremecemos juntos. O sino da igreja tocava apenas às seis da manhã, ao meio-dia, às seis da tarde, quando alguém se casava ou morria. Ainda não eram seis da tarde, e, se fosse para anunciar as horas, mais badaladas deveriam romper o silêncio ensurdecedor da tempestade. Só restava a última opção. Alguém tinha morrido. Senti meus olhos dilatarem e os de Lilibela estavam do mesmo jeito.</p>
<p style="text-align: justify;">— Que Nossa Senhora nos proteja. — Lilibela se livrou de meu abraço e voltou a encarar o dia escurecendo lá fora. — A rasga-mortalha veio mesmo buscar alguém. — Ela se benzeu e o sino voltou a tocar.”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O passado de três amigos de infância é marcado por um segredo e a promessa de nunca revelar o que aconteceu na noite em que o padre da paróquia local foi morto. O assassinato de padre Carlos ganha um novo capítulo — quarenta anos depois do crime, o corpo que foi roubado é encontrado às margens do Rio Água Torta —, voltando a assombrar a vida dos moradores da pequena cidade de Ferreiros. Vicente Laurentino, que atualmente aproveita da calmaria da velhice em Recife, acaba tendo o sono perturbado por ligações anônimas de alguém que afirma saber o que ele e seus amigos fizeram no passado. Desnorteado por tantas memórias antigas e carregado pelo medo, Vicente se depara relendo o diário de seu amigo Pólo, a única prova do crime cometido há quatro décadas. Acompanhamos as lembranças da infância e juventude de Vicente, Pólo e Lilibela no interior pernambucano. Água Torta toma o leitor pelas rédeas da curiosidade sobre o mistério que cerca o passado de três amigos e os envolve nas dores, incertezas e sentimentos conflitantes do crescimento e fases da vida.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Mais perto do céu que da terra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Apr 2025 09:23:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O barco vem todas as terças-feiras. Acho que são terças, não tenho realmente nenhum modo de medir a passagem do tempo além da primitiva contagem dos dias, e mesmo o meu talento para isso agora escasseia, nós não temos calendários ou telemóveis ou raio que o parta, somente o sol, a lua e a fraca memória, mas, quando me trouxe a mim, foi a uma terça-feira e faz sentido que tal se mantenha, o homem é uma criatura de hábitos, se não for de mais nada. Lá se aproxima ele, lentamente, lentamente. Nós esperámos, com os pés enterrados na areia, os braços enrolados à volta do corpo e os olhos postos com dificuldade no horizonte. Já quase consigo distinguir a silhueta dos seus ocupantes recortada contra o nascer do sol, o capitão e a pequena figura que carrega. Então, o barco traz nova gente.

&#160;

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A novela retrata um cenário apocalíptico que ilustra os dilemas e inquietações que trazem das gerações mais novas. O texto pretende, sem o fazer explicitamente, abordar questões profundamente relacionadas com o quotidiano de uma geração que cresceu no seio de transformações sociais, económicas e tecnológicas rápidas e intensas.<br />
O protagonista vive num mundo desprovido de esperança, onde os dias se arrastam numa rotina monótona e apática. Sonho e realidade misturam-se, criando uma atmosfera de confusão e resignação. Essa tensão entre a dificuldade de enfrentar a realidade e o desejo por algo melhor traduz a experiência de muitos jovens adultos. Criados sob a promessa de que poderiam conquistar qualquer coisa, enfrentam um mercado de trabalho precário, crises económicas, uma pandemia global e conflitos incessantes, tudo contribuindo para uma sensação coletiva de incerteza e desalento. Comparativamente, na presente narrativa, as memórias enganam, desfazendo a noção de tempo e espaço, os traumas passados, pouco nítidos, obscurecidos por uma memória entristecida, afetam o protagonista de forma incapacitante. Num mundo digital, onde fotos, vídeos e publicações revivem continuamente memórias antigas, cria-se a ilusão de que o passado está sempre presente. No entanto, essa constante revisitação muitas vezes leva a uma sensação de estagnação e saudade de momentos que não foram vividos plenamente — ou que talvez nunca tenham existido.<br />
A batalha desoladora descrita na novela, em que a natureza se torna um adversário implacável, faz eco dos desafios ambientais enfrentados atualmente. O impacto das mudanças climáticas, a insegurança em relação ao futuro económico e social molda vidas e escolhas. Simultaneamente, essas mesmas escolhas parecem não ecoar para o futuro, cingindo-se apenas ao espaço e ao tempo em que foram tomadas, tornando-se, as pessoas e as personagens, conscientes do seu próprio escasso peso.<br />
Ainda assim, esta geração é marcada pela sua capacidade em encontrar propósito na adversidade e força na incerteza, o que também podemos verificar na narrativa, ainda que tal não seja claro para o protagonista, o que também espelha o atual panorama de dúvida e a insegurança em que estas são mais comuns que o oposto. Esta busca por significado não é isenta de obstáculos, a incerteza e o medo do fracasso são companheiros constantes nesta jornada, porém, não obstante essa verdade de todos sentidos, a novela deixa claro que os verdadeiros companheiros de viagem são as pessoas que nos rodeiam, que connosco caminham. É por meio das conexões que formamos com aqueles que nos são mais próximos que logramos encontrar maior conforto. O protagonista debruça-se sobre relações passadas enquanto, no presente, se confronta com a aparente dificuldade na partilha e vulnerabilidade. É precisamente essa vulnerabilidade, superficialmente desconfortável, mas pessoal e necessária, que permite a partilha, a comunhão e o amor com e pelos demais, que torna a vida merecedora de ser vivida, não obstante os obstáculos. A novela, por vezes confusa devido a uma narrativa tão emocional, termina deixando um travo de nostalgia pelas nossas próprias relações passadas, presentes e futuras. É uma história para quem procura o seu caminho.</p>
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		<title>Pirilampos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Apr 2025 10:41:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Na zona industrial, a noite aproxima-se com uma brisa morna, as nuvens são fiapos cor-de-rosa no horizonte. Ouves as gaivotas. Queres pôr-te na alheta. Mais vale ir para a zona dos restaurantes, onde passa gente. Mas vês um carro, ao longe, e atravessas a rua a esbracejar.
O carro para enviesado ao pé dos contentores do lixo, com uma das rodas por cima do passeio. Sai um homem de fato, que segura uma maleta de couro vermelho. Fecha a porta com um estrondo. Com cara de poucos amigos, faz que não te vê. Mas tu gostas de dar a volta a estes finórios. Em tudo na vida é preciso dar show, é preciso lábia. Não é só chegar e pedir. É chegar e deslumbrar, ensinou-te a tua mãe, antes de fugir para o Brasil com o namorado.
(<em>Dado da sorte</em>, página 9)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Pirilampos</em> será, espero, um livro muito lido. Sandra Castiço é uma contista extraordinária que, criando um universo absolutamente próprio, recorda-me Katherine Mansfield, Edgar Allan Poe, Anton Tchekhov, Lucia Berlin. Dificilmente se diria que é uma primeira obra, tamanha é a maturidade narrativa. Afirmo-o despudoradamente, com a segurança de quem tem acompanhado desde há algum tempo a sua escrita e, em cada momento onde tal acontece, observado com espanto o fulgor de cada uma das suas criações literárias. Fulgor peculiar, acompanhado de um certo estranhamento, até desconforto, que ainda assim convoca à adição — não conseguir parar de ler até atingir a última página. Aquilo que, parece-me, é caraterística de todo o grande conto. O conto, esse género de tão difícil definição, tão esquivo nos seus múltiplos e antagónicos aspectos, e, em última análise, tão secreto e voltado para si mesmo, caracol da linguagem, irmão misterioso da poesia em outra dimensão do tempo literário, como descreve tão bem Julio Cortázar em <em>Valise de Cronópio</em>. Sandra Castiço fá-lo com uma mestria e naturalidade que sidera. Esta palavra, “naturalidade”, serve-me para caracterizar um pouco do universo que referi acima. Debruçando-se sobre o banal, sobre a vida diária, a autora impele-nos a mergulhar no detalhe, no neurótico, até no sórdido, sem nunca perder o que, entre o mais difícil do humano na sua relação com o outro, é comovente e vulnerável. Como se despisse o texto de todas as palavras que seriam apenas decorativas e as personagens de todos os acessórios desnecessários para as trazer até nosso lado e até nosso reflexo — afinal, somos todos um pouco do mais difícil do humano, não é?</p>
<p>As autorias que referi inicialmente estão entre as que mais admiro no género e não as mencionei por acaso. Quando refiro Poe, faço-o para ilustrar a tensão que estes contos mantêm como constante desde o corte das primeiras frases e a sua proximidade com a estética que permeia o gótico. Menciono Tchekhov pelo realismo, Berlin pela atmosfera de dias difíceis entre personagens obsessivas que algures parecem ter perdido o rumo mas teimam em viver, a ambos pela proximidade com o quotidiano. Finalmente, Mansfield pela capacidade de, em apenas uma página, estabelecer o essencial da narrativa, o suficiente para as personagens e o seu contexto, até subtexto, se fazerem nossas e, por tal, termos necessidade de as acompanhar e saber o que lhes vai acontecer. Pirilampos oferece uma atmosfera de cinema, a sucessão de imagens vivas, uma coleção de instantâneos capturados por um ângulo tão original quanto inesperado.</p>
<p><strong>Judite Canha Fernandes</strong></p>
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		<title>Inventário de menores &#8211; contos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Apr 2025 13:53:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[E o mês de setembro era decerto o que mais eu aproveitava. Não é que os demais não fossem deliciosos. Mas não possuíam aquela calma, aquela penumbra já a anunciar a queda das doiradas folhas das árvores no mês seguinte. Um anúncio que só por si era uma latência confortante.
Até setembro, era a praia. Como que em preparação, a minha avó, sobretudo, a que vivia connosco (ou melhor: nós vivíamos com ela, porque ela era a grande matriarca — uma matriarca moderna, mas ainda assim...), pegava em mim e nos meus irmãos e levava-nos no seu rubro Citroën Dyane (apinhado) para a praia do Homem do Leme ou do Molhe, ou ainda Emília Barbosa, ou principalmente Allen, ali na Foz. Dependia dos anos e das vagas nas barracas que arrendava, embora (sobranceiros então ao rigor do léxico jurídico) sempre disséssemos “alugava”. Nem era longe de casa. Mas ela não tinha assim tantos pretextos para conduzir. E gostava. Como aliás de fumar e de usar calças compridas, por vezes mesmo com botas à cavaleira. Era uma mulher emancipada. Alguns seriam levados a dizer “para o tempo”. Mas tudo é localizado num tempo, e fazer confusões e décalages cronológicas só cria descompassos. Eu não acrescentaria nada a essa consideração. Emancipada. Ponto.
(<em>Pecado original</em>, página 18)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os relatos de Paulo Cunha neste livro são um desafio à ideia tradicional de incapacidade das crianças e um elogio à sua inteligência e sensibilidade. Merece ser lido!<br />
<strong>Maria Clara Sottomayor</strong></p>
<p>Este livro realiza, de modo saboroso e brilhante, o ideal da melhor literatura: a genial concretude de detalhes desses contos, com a viveza e a verdade de seus personagens, tem o poder de contagiar o leitor e despertar nele o tesouro de suas próprias lembranças: de infância e juventude — vividas em outro tempo e lugar, distinto contexto familiar etc., mas afinal: De te fabula narratur&#8230; Não nos ensina nada de novo, mas nos brinda o que importa: a memória de nosso passado, a raiz de nossa identidade.<br />
<strong>Jean Lauand</strong></p>
<p>Tinha razão Montesquieu ao recomendar um par de horas de leitura para dominar os males da mente, do espírito e até do coração. Ao lermos o Inventário de menores de Paulo Ferreira da Cunha, podemos confirmar a justeza deste conselho e desta afirmação. De facto, ao tomar contacto com memórias próximas ou distantes, compreendemos a força da palavra, do livro e da leitura. Através deles podemos conviver ao mesmo tempo com quem está próximo de nós e com quem estando longe no tempo torna-se extremamente próximo. A memória permite contarmos com o testemunho da eternidade. E a palavra escrita permite reunirmos num mesmo tempo gerações distantes que se tornam próximas. Como disse Umberto Eco, quem não lê vive apenas a fugacidade do momento, enquanto quem lê pode viver o tempo longo das civilizações que chegam até nós, nas suas diferenças e complementaridades. Quem canta seus males espanta? Mais do que isso! Quem lê revive tempos e vidas que nos levam a aprender a sermos melhores, porque somos pessoas que dialogam e se completam, ao longo dos tempos.<br />
<strong>Guilherme d’Oliveira Martins</strong></p>
<p>Façamos o “inventário” das nossas menoridades. A aleturgia do conto é uma forma de dizer a verdade de si aberta à verdade do outro. A hetero-autoveridicção dos dez contos não tem fronteira. Neste livro não está escrito “fim”, “conclusão”. A obra funciona como estímulo ambíguo que provoca e acolhe as projeções imaginárias e experienciais dos leitores. Que haja mais 10, 100, 1000… “inventários de menores” para que possamos dizer com Terêncio “homo sum et nihil humani a me alienum puto”. Sou homem e nada do que é humano me é estranho.<br />
<strong>Cândido da Agra</strong></p>
<p>Dez Contos. Em cada um, um “menor” no papel de personagem principal. Cada qual com seu nome. (&#8230;)<br />
À medida que lemos, o ritmo da escrita e o encanto sentido na leitura fazem-nos passar, quase de corrida, de conto para conto e, pouco a pouco, aqueles nomes vão-se diluindo e, em vez deles, desenha-se apenas um outro, sempre do mesmo menino. E apetece-nos pedir-lhe que nos deixe usá-lo, também por nós. E apetece-nos aplaudi-lo, com o gozo próprio do aplauso. E apetece-nos, por fim, chamar por ele, assim:<br />
— Paulo!<br />
<strong>Álvaro Laborinho Lúcio</strong></p>
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		<title>o que tem no fundo do rio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Mar 2025 13:47:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[encher a cabeça de sonhos como se ainda fosse possível realizá-los e olhar, longo, longuíssimo tempo, os quadros da parede.
tomar um ar de esperança e despedir-se do cachorro.
segurar a mala, soltar a mala, achar que está esquecendo alguma coisa muito importante e conferir mil vezes os documentos.
despedir-se da filha, segurar seus cabelos, passar as mãos pelo seu rosto, abraçá-la tão forte como se fosse possível misturá-la em meu corpo, grudá-la em meu peito e levá-la comigo.
sair de casa e não levar as chaves.

...
(mudar de país, página 9)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Crônicas fora de casa, o caminho entre o prazer e o repúdio<br />
Neste novo trabalho, Adriana Sydor nos leva para o outro lado do Atlântico, para dentro do cotidiano de uma curitibana na Terra do Pessoa, dos doces, vinhos e fados.<br />
E toda viagem da autora tem sempre excesso de bagagem, ela adora recolher coisas, impressões, imagens&#8230;<br />
Autoexilada numa cidade do interior, se mete em todo tipo de tarefas enquanto tenta, sem sucesso, manter a saudade distante.<br />
“estou entulhada de ausências.<br />
cada uma delas tem nome. algumas, sobrenome. o meu. outras quase têm o meu sobrenome.”<br />
Curitibaníssima feito personagem de Dalton Trevisan, ela vive as inquietudes tão comuns em Fernando Pessoa: quem sou, o que faço aqui, de quem devo me lembrar, isso tem algum sentido?<br />
“eu precisava saber do fundo do rio com a mesma intensidade com que o fundo do rio não precisa saber de nada.<br />
éramos, fundo do rio e eu, dois silêncios de correntezas, duas securas de águas transbordantes, duas possibilidades esgotadas.<br />
éramos, eu e fundo do rio, a rotina do lodo, da lama e de uma beleza encravada no avesso, que ninguém nunca não vê.”<br />
Bichos, plantas, bordados e calendários.<br />
Amores, saudade, prazeres e desejos.<br />
Usando tudo que pode do vocabulário (muito), a escritora trata as palavras com intimidade, faz moderna literatura que também funciona como diário de viagem, viagem do tipo interna.<br />
“todo o meu corpo se retraiu e eu soube que as águas transbordam só para esconder o fundo do rio, que é mistério feito de silêncios.<br />
eu vou navegar.”<br />
Parece até que o Caeiro do Pessoa leu o O que tem no fundo rio e depois escreveu algo assim:<br />
“O Tejo é mais belo que os rios que correm em Curitiba.<br />
E daí, o Tejo não é o Belém, o Atuba, o Barigui&#8230;”.</p>
<p><strong>Fernando Rodrigues</strong></p>
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		<title>Imagens do sertão pós-moderno</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Mar 2025 12:39:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A obra reúne contos que buscam capturar as imagens de um sertão contemporâneo que tem sido transformado de infinitas maneiras. Desde os aspectos mais intrinsecamente fundantes da existência humana, como a morte, tratada em “Morte Severina”, até o reconhecimento de uma vida nova, em “Universitário pródigo”, o livro tenta traçar um perfil contemporâneo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“[&#8230;] Mas, quando Maurício entrou no ônibus, e a estrada foi se abrindo para as bandas, ele viu pela janela lateral o mundo aberto, o seu coração esvaziou-se do peso que amassava o espírito. Uma das cordas que puxavam o coração havia sido cortada para sempre. Ele não poderia mais desistir. Entregou ao ônibus e à estrada o decurso do seu destino. Os seus medos? Ah! Eram grandes, maiores que o mundo. Mas, quando se descobre o mundo, descobre-se também a coisa pequena que é o medo.”</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Imagens do sertão pós-moderno </em>é um grande convite para uma viagem em direção ao interior do Brasil. Trata-se de uma obra repleta de contradições, estéticas e sentimentos que existem apenas no sertão. Neste livro, o autor traz heróis deste lugar esquecido da terra, que enfrentam individual e coletivamente as suas batalhas, como João Caçarola em sua morte breve, Marlene na lida das intempéries e Maurício em seu mundo expandido.<em> Imagens do sertão pós-moderno </em>é uma grande crítica contemporânea costurada por sentimentos.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Macarrão e muita coisa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Mar 2025 11:50:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Gatos com hábitos peculiares, pessoas enganadas pelo sistema, diferentes versões do Papai Noel, sites que insistem em oferecer cookies e macarronadas caprichadas. Os contos que compõem este livro começam assim, com coisas simples e cotidianas. Mas Macarrão e muita coisa é um tributo à aleatoriedade. Os rumos tomados são imprevisíveis e os resultados, catastróficos (ou não). São histórias para lhe deixar com a dúvida: mas o que acontece depois? Ou, como são histórias curtas, você pode terminá-las antes que lhe aborreçam e esquecê-las logo em seguida.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— Macarrotudo seria um nome muito melhor.<br />
Essa me pegou desprevenido. Todas as ideias “geniais” devem surgir assim. Aposto que foi dessa forma que os russos lançaram Laika no espaço. “E se a gente mandasse uma cachorra para a lua?&#8230;” e daí a corrida espacial.</p>
<p style="text-align: justify;">— Macarrotudo?<br />
— Sim! — ela responde, agora incentivada. — Tipo, não faz sentido ser macarroNADA se a gente bota tanta coisa.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Dentro de mim mora a sombra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Mar 2025 13:21:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O horror de Castelo não é convencional. Em vez do susto fácil, ele prefere o arrepio sutil, o medo que se infiltra aos poucos, que perturba e provoca reflexão. Seja na estranha fazenda de "Eles Sabem", na inquietação litorânea de "A Sexta Garota", no cotidiano doméstico assustador de "O Churrasco" ou no encontro aterrorizante com o mítico Capelobo, o escritor entrelaça o grotesco ao poético, o sobrenatural ao existencial.</p>
<p style="text-align: justify;">"Dentro de Mim Mora a Sombra" traz histórias que poderiam ser sussurradas em uma noite escura. A diferença é que agora o contador dessas histórias quis demonstrar que fazer rir e amedrontar são sentimentos não tão distantes assim.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Edgar Allan Poe dizia que o terror não vem da Alemanha, vem da alma. A literatura brasileira de terror pode brotar em qualquer hora e a qualquer lugar, como vemos nos contos de <em>Dentro de mim mora a sombra</em>, de Carlos Castelo. Pouco importa se estes terrores brotam em fazendas (“Eles sabem”, “A volta do ‘Noturno’”, “O boneco de pano” etc.) ou na metrópole moderna das conveniências digitais (“LukyBear”, “Carro de aplicativo”, “Julia saiu da sala” etc.).  A fagulha do medo brota no instante em que o sobrenatural se infiltra. E ele parece se deslocar ao longo de uma dimensão onde não pode ser acessado pela tecnologia, mas pode interferir nela se lhe convém.</p>
<p style="text-align: justify;">“Foi então que estranhos eventos começaram a acontecer” (“Cadeira vazia”). É neste momento de ruptura que a literatura de gênero arrasta para seu território aquelas ações humanas que, na narrativa <em>mainstream</em>, são regidas apenas pela psicologia convencional e pela reprodução mimética da realidade. Os eventos estranhos são tudo que não cabe no vocabulário de expressões que explicam a vida. Fatos intraduzíveis, como palavras que não têm equivalentes do lado de cá.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes eventos são ambíguos, contraditórios. Há sempre duas explicações: a do real e a do impossível. Daí que o terror precise lidar tantas vezes com cisões psíquicas, eu-dividido, o duplo, o reflexo que é diferente do rosto, a sombra que não obedece ao gesto da mão. Em “Coisa-feita”, “Dentro de mim mora a sombra”, “Julia saiu da sala”, vemos esse desabrochar do outro-ser numa pessoa comum: “Não sei quando me tornei o que sou” (“Coisa-feita”).</p>
<p style="text-align: justify;">Daí também que esse universo do estranho precise da imposição de algum tipo de ordem, e que isto ocorra tantas vezes por meio do que chamamos de <em>ritual</em>. É o ritual (que os protagonistas executam movidos pela força primal da crença coletiva) o motor principal da ação em “O boneco de pano”, “A peeira”, “Pedra fria” etc.</p>
<p style="text-align: justify;">O ritual que às vezes nos causa medo foi criado para exorcizar o medo de gente que viveu há milênios. É o resíduo cristalizado do Passado, de algo que sumiu do mundo, mas não sumiu da alma. A fidelidade às sub-rotinas do ritual acaba conferindo a elas um conteúdo emocional e estético, um cunho de inevitabilidade e prazer, como o que perpassa histórias como “O churrasco” e “Capelobo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos contos de Carlos Castelo, o terror é esse ritual que, em “Última história”, confunde realidade e ficção. Como se escrever histórias de terror fosse assumir o controle de tudo que nos amedronta.</p>
<p><strong>Braulio Tavares</strong>, escritor e compositor</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Mar 2025 13:49:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Toda família guarda um segredo. Menos aquela cuja história Sem narra. O livro forma um mosaico do passado e dos esforços familiares para sobreviver à pobreza e à violência. As lembranças sobre esse cotidiano são um pêndulo entre o afeto e a brutalidade. Nesse trajeto, a rua, a escola, a família e a própria casa são transformados em espaços nostálgicos pelos bons momentos, sem deixarem de ser traumáticos. Sem é um convite a rememorarmos nossas infâncias, a repensarmos o convívio familiar diante da sensibilidade dos filhos e a quebrarmos ciclos de violência.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Mergulhar neste livro implica adentrar a vida de uma criança que sofre violência doméstica nas mãos do pai, embora ambos compartilhem do mesmo trauma. Pai e filho têm suas infâncias maculadas pelas frustrações, temores e crueldade paternos, porém cada um encontra uma saída diferente para o mesmo problema.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sem</em> é o relato fragmentado de uma família de seis pessoas que durante dezessete anos conviveram com o silêncio, a instabilidade e os lapsos de violência de um homem adoentado por não saber — ou não querer — lidar com as mágoas e feridas do próprio passado.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante da violência, do convívio instável e da pobreza, o filho descobre seu refúgio nos livros e no reino imaginário do qual toda criança é rei e rainha.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro intercala cenas de completo absurdo com momentos breves e espontâneos de graça, nos quais o riso é possível para o filho e os irmãos diante do Colosso paterno. O autor ressalta e aprofunda o significado da narrativa ao torná-la plural por meio do “nós”. Esse plural que resume e retrata aquilo que foi testemunhado pelos quatro irmãos, ainda que cada um deles tenha agido e reagido à sua maneira diante do contraditório paterno.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sem</em> carrega ainda a sutileza dos vilões amados. Esses personagens que nos provocam, despertam nossa ira, mas que terminam por suscitar a nossa compaixão, empatia e lamento, diante de figuras frágeis e em agonia, como a do pai dessa história.</p>
<p style="text-align: justify;">A história revela a desproporção, o desprovimento e o lugar onde o afeto e a segurança são de difícil encontro. <em>Sem</em> é esse não ter tendo, assim como seu título. Ele principia e encerra, ainda, pela ausência imposta pelo luto que, diante do inferno que um lar pode se tornar, foi a única fuga possível para essa família, como tantas outras, ontem e hoje, na luta pela sobrevivência. <span style="color: #ffffff;">Vinícius Gontijo Vinicius </span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Amolando o fio da alma</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Mar 2025 12:28:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ramon tinha a fala quebrada e sua identidade estava fragmentada. Quando garoto, tinha o costume de rezar para o seu anjo da guarda, que o visitara dos oito aos catorze anos. Mas, após um crime que envolvia essa divindade, mudou seu rumo, tentando fugir do passado. Já na vida adulta, um amigo falecido o aconselhara: “Meu caro, você precisa amolar sua alma”. Na terapia, não conseguia se desvencilhar de algumas questões, tampouco sua terapeuta decifrava o que tanto atormentava seu paciente, que vivia fugindo desse passado, numa desenfreada busca estoica pelo seu equilíbrio.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Amolando o fio da alma</em> é um livro sobre fugas, Houdini, <em>master mind</em>, a grande escapada, <em>the great divide</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Por onde começa a fantasia agourenta de pesadelos vívidos de uma vida emprestada? Nas lembranças de traumas vividos, mas nunca lembrados? Nas reminiscências de segredos enterrados sobre toneladas de vícios, enganos, pavores individuais e medos coletivos; o receio eterno de não ter, não estar, não ser e não amar? Ou amar a qualquer preço mesmo que seu pagador seja o outro e não nós mesmos?</p>
<p style="text-align: justify;">Como podar um desejo germinado nos gametas? Como fazer das tripas coração para depois moer lentamente no pântano da desgraça humana? Há ou é possível haver perdão ou redenção e, se existem, quem pode dar e quem pode receber? Ou a vida roubou até isso de nós com o intuito de nos tornar mais pedra e menos Pedro, Ramon, Miguel, Jonas, Fátima, Guilherme?</p>
<p style="text-align: justify;">Com quantos Jonas se faz um Ramon? Com quantas Fátimas se resolve um Ramon? Com quantos Ramons se faz alguém que vive, morre, pulsa e vomita todo santo dia um quinhão de realidade viscosa e dele tenta fazer um bolo ou torta doce de gosto amargo que adoçamos na língua com o amor/sexo de outros em modo quase perpétuo, perpétua dor do prazer dos desenganados, o único prazer factível e viável por ser prazer e não engodo, o prazer engana, é seu álibi e mister, feito para nos ludibriar não por mal, mas apenas porque o prazer precisa estar certo nas linhas de todos os corpos e membros tortos que vivemos.</p>
<p style="text-align: justify;">Respostas? Não as busque aqui. Encontrará apenas indícios, pistas, algumas direções. A carne afiada, a carne que afia a alma, a carne e a alma estão sempre afiadas, uma amola a outra com o passar do tempo e o tempo passa de forma muito distinta para cada um nós, sejamos visitados por anjos, demônios ou ambos, pois são faces da mesma moeda. Anjos nem sempre fazem o bem, demônios nem sempre fazem o mal; o bem e o mal são conceitos vagos em tempos de mentiras e verdades adaptáveis. Mas quem ama sabe muito bem como distinguir um do outro e quem ama “errado” tem doutorado e mestrado nesse quesito. Somos filhos do erro, somos erros que deram certo, e ainda assim, queremos respostas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não. Sem respostas aqui, dúvidas apenas e uma única certeza ao final do livro: ninguém vive e sai incólume&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Alexandre Willer Melo</strong></p>
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		<title>Sobre o abismo de nossas perdas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Mar 2025 11:48:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">“Como estão seus filhos e seu marido?”, pergunto, após nos cumprimentarmos — não nos víamos desde 2016, ela havia conseguido meu contato com um amigo em comum. “As crianças estão bem, cresceram. Eu e o Mário nos separamos”, comenta. “E você”, diz ela, “casou e teve filhos?”. “Não, nem um, nem outro”, digo. Ela pergunta do trabalho, dos colegas em comum que saíram ou ainda estão na universidade. Não conheceu Estela, e nem mencionei seu nome, pois não queria levar a conversa para o lado das lamentações. </span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Rio de janeiro, últimos dias de junho de 2019. Henrique é professor de comunicação social de uma universidade particular localizada na Zona Sul da cidade. Tem quarenta anos, está solteiro e não tem filhos. Frente ao vazio do seu apartamento, vê refletida a ausência de Estela, uma ex-namorada que se mudou, no começo do ano, para Portugal. Junto de Beto e Carlos, seus dois grandes amigos de infância que, como ele, cresceram em São Paulo e foram morar no Rio, busca encontrar sentido em um presente marcado por perdas afetivas, políticas e na forma de viver. Na mesa de um bar, olhando o celular, saindo da sala de aula ou andando pelas ruas da cidade que tanto ama, a saudade de Estela se mistura com a de momentos em que se sentia mais completo. Entre goles de cerveja, vídeos aleatórios, a apatia do trabalho e encontros casuais com outras mulheres, Estela informa a Henrique que chegará sábado no Rio. Passado e presente vão se alternando ao longo de uma semana da vida de Henrique que, como as demais pessoas ao seu redor, procura se encontrar em um mundo em ruínas.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Retratos de mulher</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Mar 2025 11:20:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que significa ser mulher? Quantas faces se ocultam no semblante de uma mãe, uma esposa, uma filha, uma amante? Qual desses rostos é o verdadeiro? Em <em>Retratos de mulher</em> essa é a inquietação que gera o fio condutor dos textos. Alguns contos trazem tons mais introspectivos, outros beiram o fantástico, mas todos nos fazem percorrer o labirinto de (in)definições que perfazem a identidade feminina.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">“Jeanine sabe criar imagens bonitas e fortes, dessas que seguem ecoando na memória do leitor.”</p>
<p style="text-align: justify;">– GIOVANA MADALOSSO, autora de <em>Suíte Tóquio</em></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Retratos de mulher</em> é o segundo livro de contos da Jeanine Geraldo. O primeiro, de 2020, foi <em>As folhas vermelhas do outono</em> — estreia ousada, feliz! E de permeio às narrativas, o surpreendente (delicioso!) livro de poemas <em>Alcateia</em>, em 2022. Com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Estadual de Ponta Grossa; doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal do Paraná; professora de Literatura no Instituto Federal do Paraná; e tendo publicado ensaios diversos sobre narrativas — a jovem escritora entende <em>mesmo </em>do riscado: <em>se vira </em>pelo anverso e reverso da tessitura literária, qual a Penélope de Homero, em versão moderna de astuciosa tecelagem.</p>
<p style="text-align: justify;">E o que são tais <em>Retratos de mulher</em>? Bem, <em>orelhas </em>de livro <em>falam&#8230; </em>cochicham sobre certas peculiaridades da obra — mexerico? Que seja, então! Você começa com a história de uma garotinha de 8 anos cujo inusitado presente de aniversário vai levá-la a uma noturna aventura fantasmagórica, revisitada pela voz, agora adulta, da narradora. Um pequeno <em>thriller</em>: começa despretensioso, ardilosamente inocente, e passo a passo, entre falas e reticências, vai-se suscitando a excitação imaginativa, o suspense e, por fim, a fantasiosa revelação. Pudera! Com esse título antecipador — “A enforcada” — açodando a bisbilhotice de quem lê&#8230; Ainda dentro do mesmo gênero, meio à Agatha Christie, a trepidante narrativa de “O caderno” — intuições sobre um crime? e uma criminosa? Há mais algumas dessas tramas no livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas as narrativas são variadas em seus enredos e surpresas, flagrando diferentes vivências protagonizadas e contadas (com apenas uma insólita exceção) por mulheres de distintas idades e condições. <em>Insights </em>e epifanias (ah! Clarice Lispector) — não é mesmo pura iluminação o conto “Dezembro de 1995”? Tensões e perplexidades, buscas e angústias, (in)certezas e questionamentos, dores e amores e revoltas — num clima variável de humor (uma entidade fluida por natureza, não é?), com acenos para o lírico, o doloroso, o irônico, o corrosivo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Guimarães Rosa confessava numa entrevista que seus textos valiam metade pelo enredo, e a outra metade pela linguagem que o constituía. Seguindo essa <em>experta </em>lição, Jeanine tanto consegue inventar e tramar enredos, como sabe cerzi-los engenhosamente com os fios e lançadeiras da linguagem artística — léxico, construções sintáticas, pontuações, diálogos&#8230; Habilidosa conjugação de componentes que torna seus contos verdadeiras <em>obras de arte narrativa</em>!</p>
<p><strong>Ubirajara Araujo Moreira</strong></p>
<p>Doutor em Literatura Brasileira pela USP</p>
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		<title>Delirium Telúrico Tremens</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Mar 2025 12:51:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este é o relato de um escritor que abandona a vida agitada da cidade, repleta de bebedeiras e excessos, e se muda para uma cabana isolada na floresta, em busca de tranquilidade e um propósito para a vida. Contudo, sem experiência prévia, se depara com as dificuldades do trabalho árduo e da solidão. Ao longo da história, ele sucumbe ao isolamento e também se apaixona por uma camponesa local, um amor que o leva à loucura por conta do ciúme e do seu estado constante de embriaguez. A narrativa é rápida e confusa, um rompante de frenesi refletindo uma mente imersa em desespero e insanidade ébria.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Delirium tel</em><em>ú</em><em>rico tremens</em> é a obra mais íntima do autor, embora se categorize como autoficção, uma mescla de fantasia e realidade que deve ser apreciada sob essa perspectiva. Redigida durante um período de isolamento em uma propriedade rural no sul do Brasil, onde o escritor se dedicou à agricultura e à escrita, a novela retrata a transição de uma vida urbana agitada para a solidão do campo. Inicialmente, o narrador se sente fascinado e encantado pela nova realidade simples e austera que o cerca: neblinas, cerrações, pinheiros, montanhas, solidão, bucolismo, aprendizado e, sobretudo, uma reconexão com a natureza, que se torna seu principal objetivo ao buscar um novo significado para a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, esse sonho idílico se transforma em um pesadelo angustiante à medida que seus planos e aspirações desmoronam, levando-o a enfrentar novamente seus antigos vícios, como o alcoolismo e a luxúria. Para complicar ainda mais sua situação, ele se apaixona por uma camponesa local, envolvendo-se em um relacionamento intenso que o desestabiliza emocionalmente. Buscando aliviar seu sofrimento com o corpo da jovem aldeã — representação simbólica da terra fecunda e selvagem — sente-se novamente sozinho e atormentado quando ela o abandona, privando-o dos prazeres de sua companhia.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir desse ponto, sua deterioração moral e psíquica se intensifica, culminando em um estado de loucura aterrorizante, onde ele se vê submerso nos efeitos alucinatórios do álcool e do isolamento. Misturando realidade e ficção, o texto captura sons, texturas, devaneios e delírios. Em essência, a narrativa se desdobra em uma história de névoas, florestas, isolamento, relacionamento tumultuado, êxtase, desatino, mas, acima de tudo, de autodescoberta, revelando uma personalidade aterrorizada e confusa.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Gene</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Mar 2025 13:05:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“As palavras libertam ou aprisionam? Quando falamos tornamos algo verdade, mas se não falássemos seria mesmo como se nada tivesse existido? Não, falar é dar contorno, não falar não faz não existir. Eu nomeio <em>Gene</em> não para que ela exista, mas porque ela existe e precisa conversar. Não se pode conversar com quem não tem nome.”</p>
*****
<p style="text-align: justify;">“É muito interessante enxergar a despersonalização por meio de Gene. Hannah traz uma proposta peculiar, algo que realmente apresenta novidade, que não vi antes.”</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Jarid Arraes</strong></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No número XXV Hannah escreve: <em>Acordei com um rumor hormonal misturado aos meus sonhos.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Sonhos como raios telepáticos, hormônios que carregam uma espécie de linguagem que se pode escutar, vísceras transmitindo um mapa de sentimentos em voz alta — toda essa mistura molhada faz a leitura de <em>Gene</em> uma experiência absolutamente palpável. Um livro cheio de textura, na voz de uma narradora que parece estar em um futuro constante.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui há uma espécie de dissociação de um “eu” que aponta para um buraco negro dentro dos ossos, dentro da alma, um buraco sem fim que precisa ser endereçado, nomeado, às vezes gritado mesmo, porque dali salta uma espécie de segunda voz, um duplo, livre e totalmente assustador. Como nomear um encontro tão fundo com isso tudo que se tem dentro? E é evidente que toda tentativa de nomear produz angústia, e aqui milhões de paisagens tentam traduzir a experiência que é atravessar um dia depois do outro, uma noite depois da outra, um pé depois do outro, uma palavra depois da outra: isso que chamamos de <em>viver.</em> E no meio da torrente de imagens, um segredo silencioso, uma via-crúcis que indica que a dissociação também é sintoma da paixão. E a paixão não deixa de ser angústia.</p>
<p style="text-align: justify;">Hannah não tenta amenizar a própria angústia na febre da sua escrita, muito pelo contrário, sua angústia é o que vai transformando a linguagem dentro do próprio livro, fazendo de <em>Gene</em> algo muito mais profundo do que um livro de autoficção ou uma espécie de diário confessional focado em uma única temática. <em>Gene</em> é anti-tema. Aqui a palavra não é refúgio. É aventura, excitação da novidade, é dar gosto à dor que se sente debaixo da pele, é a autópsia de um tipo de sentimento que não tem forma. O livro aparece como uma ruminação de todas as palavras que um corpo pode conter ao longo de um punhado de anos. Nem sempre é óbvio sentir que se tem um corpo. Existimos, e existem estrelas, existem placas de ferro, existem canaviais, livros de poesia, garrafas pet, entulho, tudo existindo ao mesmo tempo, participando da mesma espera, da mesma imensidão.</p>
<p><strong>carolina bianchi</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Não me chame de mãe</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Mar 2025 11:35:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Enquanto uma pandemia se alastra pelo país, a mãe de uma menina é deixada pelo companheiro. Em meio a dificuldades financeiras, um diagnóstico inesperado de Transtorno do Espectro Autista e o isolamento social, essa mulher é obrigada a conhecer a própria força e tomar decisões difíceis, que vão repercutir pelas várias vidas que estão interligadas à sua.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Não me chame de mãe acerta em nos apresentar temas relevantes e nos desperta a empatia profunda que apenas uma escrita sensível possui. Uma história sobre a solidão de ser mulher”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Jarid Arraes</strong><br />
Escritora</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>**********</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Não me chame de mãe é o romance de estreia de Adriana Moro. Um livro que nos coloca diante de cenas que fogem do óbvio, porque assim é a vida e assim somos nós. Ele se passa durante a trágica e inesperada pandemia do Covid-19, quando uma jovem se vê abandonada pelo companheiro e adoecida mentalmente pela solidão, com uma criança pequena para cuidar. Sem renda, sem ninguém em quem se apoiar, se depara com um diagnóstico inesperado de Transtorno do Espectro Autista da filha. O livro tem uma característica de trazer um choque de realidade, deixando documentada uma rotina de cuidados que aconteceram na pandemia, mas que muitos só viram pelos jornais. Por mais que a experiência humana pareça uma sucessão de consequências óbvias em que o passado explica e forja o futuro, não é assim que as coisas são na realidade.<br />
É impossível terminar essa leitura sem se sentir transformado, especialmente na forma leviana que temos de julgar e compreender as histórias que não são as nossas próprias.</p>
<p style="text-align: justify;">“Além de uma reflexão poderosa sobre o impacto das escolhas e o peso da maternidade, <em>Não me chame de mãe</em> é um comovente relato sobre as diversas formas de abandono e como sobrevivemos a eles”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fabiane Guimarães</strong><br />
Escritora</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os olhos de Capitu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Feb 2025 14:07:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os Olhos de Capitu é visão de águia, telescópica em céu sem nuvens, por perscrutar mulheres e homens, sobretudo aquelas, que se situam em diferentes perspectivas da existência humana. A narradora do conto homônimo ao livro — a própria Capitu — levanta-se do mundo das palavras para inferir seu ponto de vista desde 1899 quando de sua criação; não para desdizer/questionar seu criador — Machado —, mas avaliar sua condição de mulher no tempo outroragora e a de tantas outras que estão contidas no interior de seus olhos.
Ela, entre outras questões cruciais, nos pergunta “Você sabe, homem-leitor, o que é ser uma mulher?”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Um vento alegre na floresta</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Quem conhece a trajetória poética de Flávio Adriano Nantes sabe que ela é uma estrada aberta com bisturi fino em floresta fechada. Sua poesia não é para os facões. Neste <em>Os olhos de Capitu</em>, estamos no meio de uma das clareiras que ele carpiu com sua lâmina delicada. Para dentro dela, o autor trouxe personagens alienadas dos padrões, confinadas às margens, recusadas todos os dias. Estamos agora todos juntos em círculo, no meio da mata, seu silêncio e umidade, e vamos nos olhar nos olhos: o autor, seus personagens e nós, leitores. Vamos olhar com os nossos olhos e com os olhos de Capitu, a musa condenada pela dúvida (Machado é outro tipo de bisturi) e julgada, ainda hoje, todos os dias. Agora, cada uma das personagens vai contar sua história. Flávio, professor, poeta, ensaísta, é quem conduz essa cerimônia que acabo de inventar.</p>
<p style="text-align: justify;">A poesia está incrustada nos contos mais memorialistas, nos mais cinematográficos, e nos que arriscam outro olhar, o ressacado, da crônica. A poesia está nas epígrafes, nos intertextos, nas dedicatórias. A poesia ensaística de Flávio Adriano Nantes — os nomes triplos nos convocam à sigla, e a de Flávio, fan, evoca em inglês o vento, com o som da alegria, <em>fun</em>: Flávio, o vento com som de alegria — cria imagens sublimes.</p>
<p style="text-align: justify;">Como a dos peixes que tentam equilibrar uma mãe com fome, uma sequência vibrante de “Os peixes e a bicicleta”. Ou como a da faxineira que, sem ter nada seu, inventa outro nome para si, só para ter mais coisas suas, em “Na praça santa”. No conto “Mme. Susete”, uma marafona envelhecida desabafa toda a dor do mundo contida em sua alcova: “Fui o que pude ser, amei como foi possível”. No conto “Sonhos”, uma estudante que queria porque queria comer o bombom Sonho de Valsa — o que custaria muito trabalho extra da mãe, costureira — tem seu desejo justificado no delírio miúdo: “A melodia não estava na dança-valsa, mas no ruído da embalagem”. Nos olhamos todos, na clareira da floresta, enternecidos. No conto “O Império do Congo”, a travesti Xica Manicongo grita: “Em minha terra eu era alegre como as árvores, também isso sequestraram de mim”.</p>
<p style="text-align: justify;">Num dos contos mais dilacerantes, “A liturgia do corpo”, como sói às despedidas, um suicida só tem suas palavras para deixar em testamento: “Estou me retirando como sempre o fiz, de forma discreta e imperceptível. [&#8230;] Às vezes a morte é só uma delicadeza”.</p>
<p style="text-align: justify;">A delicadeza de Flávio Adriano Nantes nesta obra, no entanto, é sempre vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong><strong>Mariana Filgueiras</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Jornalista, doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense e autora de <em>O avesso do bordado</em> (Companhia das Letras, 2023)</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O amor absoluto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Feb 2025 16:36:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após a morte inesperada do marido, a senhora M. passa a ser confrontada por um intenso despertar sexual — em um processo que parece querer dar lugar a uma ausência total de sentimento de luto. Refletindo sobre a própria vida e ressignificando sua relação com o prazer, acompanhamos a personagem por cenas do seu cotidiano em uma narrativa de forte fundo autobiográfico, na qual se nublam as fronteiras entre o conto de fadas e a literatura erótica. Em <em>O amor absoluto</em>, Higor Brunieri investiga o papel da fantasia e seus desdobramentos no pleno exercício da vida — da infância à vida dita “adulta”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma obscena senhora M. desperta e sai de casa. Vestida de preto, vaga por multidões — delirando com gozo e carnificina, como uma Dalloway maldita — que nem imaginam como desejou o amado até matá-lo na noite anterior. O amor e o luto lhe preenchem as entranhas, empreitando uma transformação lenta, mas bruta de humano em animal, Tudo em Nada, corpo em miragem. O livro segue o ritmo, como se escrito por dentro de suas próprias entranhas, cada letra e quebra de prosa em poesia, visão em plágio, espírito em carne um pedaço minúsculo de pele criando escama, centímetro por centímetro, até a metamorfose final. O que é o amor? É “aceitar a abjeção”, “preferir a merda à bile”, é “abrupto abençoado abscôndito amplexo amálgama”. É um coração destruído por ferro derretido. É um duelo entre uma travesti loira<em> bombshell</em> e uma travesti Vênus negra à tarde na praça. É um sacrifício de orifício a Baco no castelo de um marquês do século xviii. É couro, veludo e látex. É uma pérola num buraco. Nesse sonho febril de Higor Brunieri é uma força-motriz de fábrica em serviço literário, compondo um mosaico bataillano de penumbra e encanto raramente visto antes nas letras nacionais. Mesclando influências de decadentismo ornado com um espírito anárquico, punk de experimentação, o efeito final é estupefante. Uma viúva negra é uma sereia é uma menininha hesitante de Creta é horror dionisíaco é o próprio amor do título, encorpado num símbolo feminino que se multiplica e fragmenta em vários, insatisfeito com qualquer significado ou face que limite sua jornada infernal rumo às profundezas da carne. “Descer, ir abaixo. Deitar pro mundo. Sucumbir, ou seja, se render.” Que os mortos enterrem os mortos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Pedro Minet</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>A fábrica de craques</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Feb 2025 14:01:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Todo jogador tem uma história e foi criado em algum lugar. Uns estão no mapa apenas por revelar um talento. Apesar de considerada a maior fábrica, em potencial, de craques da história do futebol, com seus curiosos campinhos, há quem nunca tenha ouvido falar de um único jogador criado na Vila do Sol. O destino fez algo com os promissores atletas? Entre um caso e outro, absurdos até, é hora de descobrir que nem tudo era golaço naquela época. <em>A Fábrica de Craques</em> não justificou seu título. A Vila do Sol era muito mais que apenas futebol nos anos 90, e a molecada descobriu isso da pior forma.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Essa coisa de sucesso é meio injusta. Nem todos valorizam obstáculos enfrentados até o alcance de objetivos. As pessoas veem o vencedor, mas muitas vezes nem imaginam a energia que precisou empreender em sua caminhada até o pódio. Levantar um troféu é um momento de glória, mas pode esconder toda uma vida de esforço, luta e, muitas das vezes, sofrimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem, por exemplo, imaginaria que Quinha, o Sobrinho do Vento, em sua infância precisava atuar de gandula, atrás do golzinho da parte mais baixa da ladeira no Campinho da Rua de Cima? E Cabeção, quem poderia sugerir que era dele a ideia de se equilibrar, sem apoio algum, sobre um muro de mais de três metros de altura, apenas para jogar na Quadra da Escola? Riva, na sua adolescência, precisava se dividir entre as obrigações, de proteger o império de grandes empreendedores do tráfico de entorpecentes de sua família, e o desejo ardente de bater uma bola no domingo pela manhã. Poucos conseguem se privar dos prazeres para tratar das obrigações.</p>
<p style="text-align: justify;">A infância na Vila do Sol nos anos 90 não foi fácil para ninguém. Muita coisa aconteceu. Cada um teve sua dose de complicação para enfrentar, em menor ou maior grau de intensidade. Porém, uma coisa era comum. A vontade de se tornar um craque da pelota, de fazer sucesso como jogador de futebol.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso eles driblavam os percalços e seguiam firmes em seus propósitos, mesmo que tivessem que esperar meses até que a prefeitura tirasse o mato para poder jogar no Ranca-Rabo, ainda que no Campo do Pasto enfiassem metade da perna em um monte generoso de esterco. Nem as ameaças que sofreram na lendária partida na Jaula da Cúpula do Trovão poderiam parar aqueles obstinados. Aquilo sim, era resiliência de verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora que jogam nos times mais poderosos do mundo, com salários astronômicos, desfilando sua habilidade nos gramados mais famosos do futebol, poucos param para perceber como superaram as adversidades que encontravam nos campinhos da Vila do Sol.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo bem. Talvez não estejam jogando em times poderosos, recebendo salários astronômicos ou jogando em campos famosos. Sinceramente, a maioria deles nem pode mais jogar bola, por motivos óbvios. É muito provável que a Vila do Sol tenha oferecido bem mais adversidades que oportunidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Bom, é um motivo mais que justo para separar uns instantes e conhecer sua história. Entender o que destruiu seus sonhos é homenagear a trajetória daquela molecada. Em alguns casos, homenagear sua memória.</p>
<p style="text-align: justify;">A história da Vila do Sol precisa ser conhecida.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O homem sem sombra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Feb 2025 09:22:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O tempo passa. Já não há carros na rua. As luzes somem sem que a insônia as perceba. Do jardim escapa o cri cri cri das cigarras. Rivaliza com o ronco do marido. Em algum momento, até as cigarras param. O ronco, este, continuará noite adentro.
Como uma jiboia, arrasta o rabo nos lençóis, desce, enrola-se no criado-mudo. Ocupa cada canto do quarto. Nada pode com ele. Melhor esperar o dia. Luzes, cigarras, roncos, nada disso existiria. Toda a chateação passaria, não fossem as palavras. Lindaura quase escutava, antes e depois dos grilos, dos roncos e das luzes, a todo momento.
“João Cajueiro voltou”.
Apenas o tempo da distração e vinha, de novo, a frase doida.
Mas afinal, como é que volta um defunto?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A linguagem nômade de Corisco Moura</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A imaginação de ficcionista do escritor brasileiro Corisco Moura tem uma navegação nômade. <em>O homem sem sombra</em> desembarca com suas criaturas (que se volatilizam) nestas águas (que flutuam) muito ao sabor do vento. A ficção de Corisco namora a crônica, a poesia, o senso romanesco, o rigor formal em algum momento, o desabusado desarrumado em outros. Sua sintaxe e suas figuras linguísticas fazem variações onde o leitor tem de estar preparado para uma viagem entre cenários e palavras que tanto se aproximam quanto se afastam. É como se estivéssemos em uma vila estranha e incógnita da qual precisamos retirar as cortinas no pórtico.</p>
<p style="text-align: justify;">“Os dias nasciam e morriam. Pessoas conversavam, arrastavam-se à procura de qualquer coisa. Esse barulho chegara aos seus ouvidos. João, porém, não escutava. Dormia um sono de eras. De dia ou de noite, as pálpebras, sempre fechadas, esperavam um milagre.”</p>
<p style="text-align: justify;">Como João Cajueiro, o leitor é um estranho redivivo na vila criada pela imaginação de Corisco a partir de seus dados de realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Autor de uma obra literária ainda incipiente, com a novela inicial <em>A última aldeia</em> (2017) e dois romances, <em>Dois levados numa jangada</em> (2022) e <em>A correnteza</em> (2023), este talvez seu livro mais bem acabado, pode-se dizer que com <em>O homem sem sombra</em> Corisco faz o que, a certa altura se diz no texto, se põe como uma caracterização da oscilação de consciência — desde sua linguagem flutuante, em busca dos abismos do homem sem sombra.</p>
<p style="text-align: justify;">Eron Duarte Fagundes</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>145 O disque amizade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Feb 2025 16:20:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Sobre uma cadeira de madeira, de estilo indecifrável, bem ao lado da cama, estava a estrela da noite: o telefone! Vermelho! As teclas na parte superior do aparelho pareciam reluzir, seduzindo Henrique para fazer logo o que deveria ser feito, para trilhar o luminoso caminho dos tijolos amarelos. O garoto de dezessete anos descobriu um universo paralelo, um mundo novo, onde ao menos por alguns instantes podia ser ele, onde havia semelhantes, pessoas com os mesmos desejos, um país das maravilhas das putarias auditivas. O 145, para Henrique, naquele momento, era vida!</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sabe aquela sensação de uma bomba prestes a explodir? Aquele segredo que, se revelado, mudará a vida de muita gente? Aquela tensão erótica que se você piscar, te beijam?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a sensação que nos acompanha do início ao fim de <em>145: O Disque Amizade</em>, de César Amorim. Esse romance que mistura suspense policial com tensão (ou seria tesão?) sexual, nos faz torcer pelo adolescente Henrique, que na década de 1990, numa Natal repleta de novidades e preconceitos (será que mudou?), descobre o Disque Amizade, o famigerado 145, serviço telefônico criado nessa mesma Natal, que “cruzava” chamadas telefônicas de forma anônima para homens e mulheres se conhecerem.</p>
<p style="text-align: justify;">No auge dos seus 17 anos, sendo o garanhão da escola, Henrique esconde a todo custo o seu desejo por outros homens. Ele encontra na chamada anônima do 145 a coragem de manter uma conversa íntima com um “entendido”, que era o eufemismo usado à época para mascarar o preconceito. Esses encontros telemáticos precisavam acontecer nas madrugadas porque se Ernesto, o pai de Henrique, ou Jussara, a mãe do rapaz, imaginassem que o filho único, sonhado pelos pais para ser médico, era “entendido”, a casa cairia. E se, junto a isso, os pais descobrissem que, na verdade, o sonho do primogênito era fazer teatro e não medicina, aí a maldição estaria selada.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, esse não era o maior dos perigos no caminho de descoberta da sexualidade de Henrique. Nessa aparente pacata Natal, um assassino de homossexuais estava à solta, matando suas vítimas de forma cruel. E adivinha onde o <em>serial killer</em> encontrava as suas vítimas?</p>
<p style="text-align: justify;">“145 &#8211; O Disque Amizade” é tensão/tesão do capítulo 1 ao epílogo. Uma leitura que te provoca a descobrir o assassino e a forma como Henrique vai dar conta de seu segredo. E você não precisa ter sido um Henrique, com 17 anos na década de 1990, em Natal, ligando para o 145, para se descobrir gay, como eu fui, para ser cativado por essa história. O romance de César Amorim, além de ser um delicioso thriller, com final surpreendente, é também um mergulho na intimidade de tantos homens que, ainda em 2024, escondem seus desejos e não conseguem viver sua sexualidade abertamente à luz do dia. Homens que buscam refúgio e um pouquinho de amor em aplicativos de relacionamento (o nosso “disque amizade” de hoje) e, muitas vezes, se arriscam em encontros secretos.</p>
<p><strong>Henrique Fontes</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sangue no olho d&#8217;água</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Feb 2025 13:13:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&#160;
<p style="text-align: justify;">Sangue no Olho D’agua segue os designíos da terra, das águas, dos duelos, das secas e o arrebatamento das precipitações. É cidade e sertão. Tudo é pretexto para falar da vida, do medo e das descobertas. “Maria se perde que é para a gente ver, que é para a gente enxergar onde ela está”, diz a mãe, alter ego da autora. Pudera, são muitas. A do Rio, a de Russas, de Fortaleza, todas a cumprir a mesma sina: viver para contar.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Onde aflora no corpo o desejo de uma escrita? A menina Maria cedo conhece os mistérios das águas e das palavras: nascida de uma promessa a Iemanjá, tem os olhos recém-chegados ao mundo permeados pelo farto azul do mar de Copacabana. Mas cedo também é arrastada desse mesmo mar para ter diante dos olhos as enigmáticas matas do sertão cearense. Esse sertão, no entanto, nunca lhe foi secura: chuvas de narrativas, rios de tantas gentes, respingos de casos e causos, foram deixando na atenta menina águas subterrâneas, aparentemente veladas. O que fazer, Maria, para deixar nascer de si um olho d’água?</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">A autora Glória Diógenes consubstancia gêneros em torno dos rastros da memória – bebe da crônica, do conto, do romance –  para nos conduzir à fluidez rítmica das narrativas que relatam e reinventam histórias da criança que foi, histórias das famílias Diógenes e Dos Santos, do mar e do sertão. Certamente, olhar o relógio herdado do bisavô (ou mesmo da vida) por incontáveis horas foi tarefa primorosa de Glória, que ora adiantou, ora fez tornar os ponteiros, conseguindo, assim, revolver o tempo, remontá-lo na palavra. A escrita de Glória sabe de Pound a lição: “só a emoção perdura”.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">No mais: <em>“Coragem é escavação</em>”, artesiana Maria.</p>
<p style="text-align: justify;">E escrever, escavar: sangue no olho d’água.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sara Síntique</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Rebelião</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jan 2025 18:53:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O homem é a natureza adquirindo
consciência de si própria.
<em>Élisée Reclus</em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma paixão labiríntica entrega Thomas à nudez, disputa sua atenção ante um plano melindroso e obscuro de insurreição contra um governo totalitário. O desastre ambiental conduz a civilização à barbárie, e qualquer chance de sublimação da realidade é válida para um grupo de jovens ao qual somente restou a violência e a conspiração.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">História do amanhã iminente, presságio deslumbrado de um porvir tolhido. <em>Rebelião</em> é um manifesto, uma profecia, romance do fim dos tempos. Antes de tudo, uma metáfora, olhar inconformado sobre a sordidez da catástrofe que fere a geração nascida do buraco na camada de ozônio.</p>
<p>O percurso é presunçoso, com toda razão: os espíritos perturbados, assombrosa severidade do cenário, personagens alvoroçados na heroica ingenuidade orgulhosa, cegos de certeza e dever, são prova documental da perplexidade existencial a que nos empurram mais e mais as mudanças climáticas e a letargia política.</p>
<p>Retrato de uma era, a próxima e também a nossa, marcada pelo gasto do vazio, pelo ostracismo, pela insuficiência do modelo econômico global em responder à demanda da dignidade humana. A despeito da escala, <em>Rebelião</em> é uma narrativa mais do que atual, resvalada pela ânsia de viver e a insurgência da indignação. Escrito para incomodar, este livro acontece e seguirá acontecendo enquanto no coração da Terra arder a chama da revolta.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sapucay</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jan 2025 12:43:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os contos desta obra buscam apresentar novas facetas da identidade gaúcha, partindo de estruturas narrativas que contemplam a tradição do contador de causo e da oralidade, típicas da região dos Pampas. Seguindo a tradição das narrativas curtas latino-americanas, a presença do fantástico e do insólito invadem as frestas do cotidiano. As histórias mesclam o fantástico e a tradição com a globalização e o mundo moderno, fazendo uso do humor e do horror para projetar diferentes interpretações do real e do imaginário.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Sapucay</em>, livro de Giuseppe Memoli, é provocação. Chamamento para briga, contenda, peleja, luta, disputa. Embate que tem tantos nomes quanto o Diabo (Tinhoso, Capeta, o Ó), que instiga, favorece uma das partes e até cumpre justiça — às avessas, é claro — em um dos contos aqui recolhidos. E, quem sabe, esteja escondido nos detalhes de cada uma destas narrativas, porque os conflitos nunca faltam, apenas mudam os atores e o tom. Algumas vezes altivo, outras vezes, patético, um passado para o outro, a depender daqueles que se apresentam para o duelo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sapucay</em> é saber navegar no breu, especialmente quando se sabe que tem algo errado com a água. Aqui, o narrador perde o seu lugar. Não que ele esteja ausente. Pelo contrário. O que falta é o lugar onde ele está ou por onde passou. Se ele informa que o acidente aconteceu na “paliçada de Colibrina”, em seguida acrescenta que essa cidade já não existe. Pode ser no Rio Grande do Sul, em qualquer lugar do estado e, conforme o causo avança, no mundo como um todo. Neste hostil quinhão, que se estende por onde quer que vá, o narrador continua seguindo em frente, buscando arrebatamentos, perdendo o seu chão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sapucay</em> é música, acompanhado de acordeão ou rabeca. Por isso, único lugar definido para o contador de histórias é a sua própria história. Ele habita o seu contar, o seu canto, sua forma específica — mas nunca pura — de narrar. É de prosódia a prosódia que viaja a rapsódia das várias histórias deste livro.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sapucay</em> é pássaro desconhecido, de canto longo mas nunca visto, que voa apenas na imaginação daqueles que dele não se esquecem.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sapucay</em> é grito. Grito de alegria, choro, desafogo. Surge com os Mbay-Guarani, ecoa pela Missões, pelos <em>gauchos</em>, é verdade, mas ninguém sabe dizer de onde vem. Talvez de Yase Yateré, cujo nome significa “pedaço da lua”, guardião da erva-mate e protetor das sestas. As narrativas aqui apresentadas não se esquecem dessa história ou do esquecimento dessa história (diferente de alguns frequentadores de Centros de Tradições Gaúchas, os ctgs), especialmente quando contam a vingança dos Charrua ou os planos de Yamandú, personagem criador e guia da peça de encerramento do livro, amigo dos cavalos, um tanto desgostoso com Adão e seus comparsas, que se desinteressam por seus causos e lembranças.</p>
<p style="text-align: justify;">E é esse mesmo Yamandú, o velho, que agora devemos ouvir, já que nos convoca: “Vamos. Já passou da hora de tocarmos”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tiago Guilherme Pinheiro</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sociedade da vida eterna</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jan 2025 13:27:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">E se você ainda pudesse assistir a um show de Freddie Mercury, Rita Lee ou David Bowie? E se a arquitetura guardasse o segredo mais desejado pela humanidade? Ao mudar seu estilo de vida, Ernesto começa a experimentar o rejuvenescimento. Dessa forma tem início sua busca pelos conhecimentos que o levarão à vida eterna. Através de uma prática milenar há muito esquecida, ele é capaz de alcançar seu desejo e, assim, é convidado a ingressar em uma sociedade paralela que vive sem prestar contas ao resto do mundo.
Um romance que traz Ayurveda e Vedanta para o ambiente da ficção. Para os amantes do estilo de vida saudável. E para os adeptos dos excessos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Deus-Narrativa regozija ante o nascimento de mais uma história, a força do campo gravitacional se incrementa. Este é um romance fantástico, profundo e divertido sobre a obsessão de um homem pela juventude e as peripécias que levaram ao desdobramento de sua consciência.</p>
<p style="text-align: justify;">O que significa viver bem? Alimentar-se corretamente, fazer exercícios? Ernesto, um superempata e médico ayurvédico, ao seguir ensinamentos milenares, depara-se com o segredo da eterna juventude na forma de um Kuti, uma construção de tipo especial que faz renascerem aqueles que conseguem cumprir seu tempo de sacrifício, dando à luz uma nova versão de si mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">Determinado a compartilhar sua descoberta com o resto da humanidade, Ernesto é dissuadido por Rabanera, um chileno que surge primeiramente para alertá-lo. Diante de circunstâncias trágicas, Ernesto é introduzido a uma sociedade de semideuses, eternamente jovens, que se escondem completamente às vistas da humanidade. Em pleno solo mineiro, viceja a chamada Soviete, Sociedade da Vida Eterna, operando sob premissas comunais.</p>
<p style="text-align: justify;">Maya Lydia, pesquisadora de geometrias associadas a outras dimensões, passa as noites tentando explorá-las pessoalmente durante os sonhos — parecem querer se comunicar com ela através deles. Seu encontro com Ernesto irá impulsionar suas vidas de formas inesperadas, onde cada um terá a chance de se aprofundar em seu próprio caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre citações bíblicas e mitológicas e divagações sobre a finitude e os valores humanos, <em>Sociedade da vida eterna</em> se desenrola de maneira surpreendente, em um ritmo crescente que vai desaguar em um dilúvio. Este livro tem como temas de fundo a consciência e a capacidade de transformação humana, o medo do fim e a inesgotável busca pela felicidade.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Escorpião</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/escorpiao</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jan 2025 14:10:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Pode uma carta de amor ser, ao mesmo tempo, uma carta marcello de despedida? Escorpião parece indicar que sim, pois é a carta que um homem, prestes a tirar a própria vida, decide escrever quando lembra da pessoa que mais amou na vida e percebe que, se ela vier a saber de seu ato, talvez não consiga compreender suas razões. Angustiado, antes de partir, ele lhe escreve. Para se explicar. Mas também para se entender, para entender como sua vida foi acontecendo até que ele chegasse a essa situação-limite.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Caro(a) leitor(a),</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Escorpião</em> é uma longa carta. Nela, J. escreve a Lara anos depois de ter sido abandonado: “embora a gente tenha sido feliz e se amado muito, eu fui foi uma espécie de agonia para você. Tanto que você não aguentou e partiu, sem aviso nem nada. E não precisava. Eu sabia. Rói por dentro conviver com gente como eu.”</p>
<p style="text-align: justify;">Quem é J.? Só posso te adiantar que ele é médico. Exímio cirurgião. E que, ao longo da vida, tornou-se não exatamente um homem pessimista, mas melancólico, sensível às frustrações, dificuldades, violências e abusos relatados por suas pacientes.</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li>não consegue esquecer, mesmo já tendo se passado tanto tempo. Será que essa carta vai ser lida? Por que escrevê-la, então?</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Para Philippe Lejeune, a carta, por definição, é uma partilha. Ao se dirigir a Lara, sua interlocutora, ele também passa a se ouvir. Ao partilhar sua voz, J. rompe o silêncio e narra seus dias, procurando dar um sentido à vida, mesmo que ilusório; procurando justificativas diante das máscaras que inventou para si ou tentando entender como suas escolhas, conscientes ou não, como os traumas que o marcaram foram determinantes para suas ações e sua percepção de mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como expressar tudo isso? A linguagem da carta é também uma linguagem-corpo, em que as palavras vão sendo impressas, ocupando e marcando nossa pele, imprimindo sentidos. Um corpo que, ainda que fale de si, carrega um endereçamento, um tu — outro corpo, outra pele, outra letra. Há um monólogo que se quer diálogo — fissura e desejo —; uma voz que se quer polifônica —, tentando acertar ritmo e compasso.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre a frieza do corte preciso e a incerteza do destino, o personagem hesita, questiona-se, reflete. Rasga e sutura a memória impiedosamente, procurando talvez um elo perdido, a medida de todas as coisas, o momento em que há uma reviravolta e que um novo destino se desenha, ainda mais incerto, mais angustiante.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal como um escorpião — conhecido por viver intensamente suas emoções (ainda que sombrias) e por buscar significados em tudo o que faz —, J. destila seu próprio veneno, num processo de limpeza e reinvenção de si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, esta carta-orelha é o meu processo de interpretação do <em>Escorpião</em>: texto rico, profundo e instigante.</p>
<p style="text-align: justify;">Te desejo uma ótima leitura!</p>
<p style="text-align: justify;">Atenciosamente,</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Claudia Chigres</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Fim da tinta, Cambuá vazia</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/fim-da-tinta-cambua-vazia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jan 2025 08:09:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[“As menores partes que nos formam são exatamente iguais às grandes coisas fora de nós.”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“O seu medo era composto de retalhos de pequenos medos diferentes. Um pequeno e vermelho medo, meio furado e desgastado, era o medo do que vinha depois do morrer. A iminência do depois era um lugar? Um outro tempo? Mas Cambuá não se atentava muito a esse medo, ela sabia como as coisas funcionavam e a resposta era: uma nova matéria feita de outras tantas matérias velhas, um outro nome…”</p>
<p style="text-align: justify;">Cambuá vive em ciclos de vida e morte sempre voltando como ela mesma, coletando segredos tropicais em troca de sua tinta mágica, mas os ciclos chegaram ao fim, e, vazia de tinta, Cambuá é impedida de renascer.</p>
<p style="text-align: justify;">O que nos faz sermos nós mesmos? Somos o nosso corpo ou existe algo além da matéria?</p>
<p style="text-align: justify;">Deparada com a iminência de morte permanente, Cambuá embarca em uma jornada pela floresta para tentar encontrar respostas.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Confissões de um cadáver adiado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jan 2025 23:02:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lucas Portugal, 55 anos, é diagnosticado com câncer no estômago. Submete-se à cirurgia, lhe são retirados o tumor e parte do órgão, é considerado curado. Seis meses depois, a surpresa: recidiva da neoplasia, novos tumores no baço e no pâncreas. Tempo previsto de vida: entre seis meses e dois anos. Sentença de morte. Resignado, Lucas faz uma retrospectiva, expõe a relação conflituosa com o pai, a cumplicidade com a mãe, amorosa, mas subserviente e cativa do patriarcado. De personalidade tímida e sensível, relembra os sofridos tempos da infância e da adolescência, relata a luta para superar a doença, comprova que há vida após o câncer — mesmo os considerados letais.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Confissões de um cadáver adiado</em>, seu décimo livro, o escritor gaúcho Luiz Carlos Freitas mescla ficção e realidade para conceber um romance autobiográfico em que mergulha fundo na alma humana, expondo nossos medos mais secretos, as idiossincrasias e as fragilidades, e explorando temas comuns a todos — vida e morte, fé e ceticismo, amor e ódio, egoísmo e generosidade. Freitas parte da experiência pessoal com a luta contra cânceres sucessivos para compor um painel humano devastador, cruel, revelador, mas sem perder a ternura e a esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">A história é narrada em primeira pessoa pelo <em>alter ego </em>do autor, o escritor e jornalista Lucas Portugal, diagnosticado com câncer no estômago, no baço e no pâncreas. É a confirmação do que ele sempre soube que aconteceria: ser acometido da enfermidade que matou seu pai há 38 anos. Irônico e sutil, direto e objetivo, em paralelo ao relato do cotidiano de doente terminal duelando com a morte, ele disseca o passado, recupera traumas ocultos no subconsciente, se rende a verdades até então camufladas, e se liberta de amarras imemoriais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que uma obra ficcional baseada na realidade, Lucas protagoniza uma história plena de verdade e coragem, tornando-se exemplo de superação e de amor à arte, especialmente à literatura. Escancara a luta pela sobrevivência, os sonhos interrompidos, a ironia de se ver à morte quando estava na iminência de mudar de vida, então insossa, apartada dos contextos familiar e social. A narrativa de Lucas recupera memórias, desnuda convivências familiares tóxicas em meio a um mundo caótico e em reconfiguração ao longo dos últimos sessenta anos, enuncia um caráter introvertido, sinuoso, enigmático, e evidencia suas diferenças com o pai, morto aos 43 anos. É um acerto de contas do autor consigo, com o passado e o presente, em meio ao embate contra um algoz geralmente mortal. A jornada do autor-narrador-personagem é um mistério a ser decifrado, porquanto guarda um milagre, embora ele credite sua salvação à Medicina, à força mental, ao apoio da família e ao apego à vida.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O voo do pardal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jan 2025 22:54:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tiana é uma jovem detalhista que trabalha na Interajuda produzindo roteiros da vida cotidiana para ajudar clientes a lidar com o trato social. Um dia, ela recebe de fonte anônima roteiros sobre sua própria vida, capazes de prever ou criar o futuro. Os efeitos desses roteiros abalam o vínculo de Tiana com o pai Rubem — com quem
tem uma relação difícil e cuja doença se agrava — e com a namorada Lorena, de quem esconde a existência do pai. Entre o namoro ameaçado, a iminente morte do pai e uma viagem ao Peru para reencontrar a mãe, Tiana deve tomar uma posição sobre quem vai escrever seu futuro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Existe algo de melancólico no texto que você está prestes a ler — o voo do pardal é um voo solitário. Esses pequenos pássaros urbanos, quase considerados pragas, abundam nas cidades com seus pulos despretensiosos.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe algo de melancólico em toda cidade: o cinza dos muros decadentes; o cinza das paredes protegidas por cercas elétricas; o cinza dos postes com seus poleiros emaranhados; a ação do tempo num espaço que vive ao mesmo tempo em tantos tempos. No caso de Porto Alegre, a ironia está na promessa de seu nome.</p>
<p style="text-align: justify;">Tiana é uma jovem detalhista e reservada que trabalha na Interajuda, uma companhia para clientes com dificuldades intersociais, produzindo roteiros da vida real para auxiliá-los a lidar com diferentes situações cotidianas. Um dia, Tiana começa a receber de uma fonte anônima roteiros sobre sua própria vida, que parecem capazes de prever ou produzir o futuro. As alterações propostas por esses roteiros têm impacto na relação de Tiana com seu pai, Rubem — com quem tem uma relação difícil e cuja doença começa a se agravar — e com Lorena, sua namorada, de quem esconde o fato de seu pai ainda estar vivo. Entre o relacionamento amoroso ameaçado, a iminente morte do pai e uma viagem ao Peru para reencontrar a mãe, Tiana precisa tomar uma posição sobre quem vai escrever seu futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">A melancolia transposta para <em>O Voo do Pardal</em> bebeu do narrador de Daniel Alarcón em seu livro <em>À noite andamos em círculos</em>, no qual acompanhamos as personagens por um país sem nome numa encruzilhada teatral quase surrealista; do filme <em>Her</em>, de Spike Jonze, e sua magistral representação de como a tecnologia pode auxiliar na terceirização de nossas relações sociais; e mais estranhamente do anime <em>Steins;Gate</em>, de Masahiro Yokotani, cujos aspectos de ficção científica e viagem no tempo ajudaram a moldar certa esquisitice da história.</p>
<p style="text-align: justify;">Este roteiro de longa-metragem, escrito em 2018, foi semifinalista do Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre em 2020. Seja na tela ou no papel, <em>O Voo do Pardal</em> se alçou com um destino já bem definido: contar uma boa história para mais de um tempo.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">Giovana Oliveira</span></p>
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		<title>Notas de Anita</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jan 2025 22:26:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu me sentei no chão da sala, em cima de um tapete peludo. Estava encostada no sofá para assistir à televisão e
vi o sapato quadrado de napa amassando o tapete, uma brisa vinda da barra da calça vincada, o cheiro de talco amargo se aproximando. Ele sem pedir licença sentou-se no sofá, colocou uma perna de cada lado e me deixou no meio delas. Fiquei encaixada ali, presa.
Novamente suas mãos começaram a massagear os meus peitos de menina, por cima da minha cacharréu cor de ocre. Eu senti meu corpo amolecer, fiquei prestando atenção no ritmo das suas mãos, percebi meu corpo ficando quente, não conseguia me mexer, nem queria. Nunca mais esqueci do calor das suas mãos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As notas de Anita — ou melhor, de Branca Lescher — me visitaram à noite, já perto do sono. De modo que não pude mais dormir. Foi necessário conhecer Anita até o fim: devorá-la.</p>
<p style="text-align: justify;">Anita é uma narradora encantadora de serpentes. Tão sacana quanto as personagens com que se encontra. No entanto, nada em Anita me soa mesquinho. Sacaneia para dar uma rasteira na sacanagem; se defende como pode. Sem um pingo de hipocrisia ou autocomiseração. Uma filha proscrita de Alice Munro com Philip Roth, que vive dentro da própria cabeça ao mesmo tempo, em que sabe ser corpo, em que sabe ser pele. Em Anita, tudo é espontâneo e pensado: vive solta, mas parece ter vivido para poder contar, o que fica claro no capítulo sobre a morte do ginecologista e confidente. Afinal, o que pode restar de um narrador sem falsos pudores, (auto)irônico e arguto, sem a presença de um ouvinte à sua altura?</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o caso é que Anita não é feita só de alfinetadas. Com suas agulhas, também soube bordar sobre si um manto de memórias finas. No trecho em que ela revisita sua coleção de objetos — a matéria viva do que restou —, Anita dialoga com a memória dos pais e de tudo que, tendo se dissipado, serviu para parir uma nova Anita, lúcida e — por que não dizer? — ainda mais livre.</p>
<p style="text-align: justify;">Do vivido, contudo, parece ter sido guardada uma voz severa, direta, cortante, em que não se medeiam os subterfúgios. E foi conservada com o propósito de urdir a linguagem deste relato em primeira pessoa, na certeza de que o único pecadilho de Anita foi — e continua a ser — a inescapável franqueza consigo mesma, numa absoluta impossibilidade de refrear o desejo. Como disse Geni Nuñez, não há que se pedir perdão quando nunca se concordou com a noção de pecado.</p>
<p><strong>Paula Novais Ferreira </strong></p>
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		<title>Antípodas da fábula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jan 2025 21:47:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antípodas foram outrora aqueles em oposição à Europa. Séculos depois, somos a periferia do capitalismo — “antípodas da fábula”. Este livro, Antípodas da fábula, homônimo à alcunha citada, é um resgate da São Paulo de 1972 por meio de seus personagens-antípodas, memórias paulistanas que nos lembram a persistência de muitas desigualdades. A cidade perdeu cinemas de rua, circos, praças... sem perder em opressões. Imigração árabe, história negra do bairro da Liberdade, torturas no doi, lixões públicos, prostituição, os guarani do Jaraguá, Reformatório Krenak e a longínqua Marsilac são alguns dos temas dos sete contos urbanos que compõe o livro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os contos deste segundo livro de Vinicius pouco e pouco vão montando um panorama dos anos 1970 em São Paulo, e impressiona que esse panorama seja detalhado e envolva uma pesquisa que, de pronto, o torne muito convincente e interessante ao leitor.</p>
<p style="text-align: justify;">Feita essa pequena descrição, importa dizer que não se trata de mera antologia de contos acerca de uma mesma época e reunidos em volume, mas de um conjunto de narrativas em que se encaixam personagens em cujos retratos sempre aparece, curiosamente, a expressão “antípodas da fábula”, ou, na origem, dos que eram fabulosamente os antípodas.</p>
<p style="text-align: justify;">A expressão, no entanto, ganha um novo sentido aqui, e cabe ao leitor desvendá-lo, como atributo de seus personagens, à medida que os vai conhecendo. Assim também é que se compõe o verbete de um dicionário, ou se compreende a extensão de um vocábulo. Lemos suas ocorrências, buscamos delimitar os sentidos, traçar um círculo que o defina, para depois novamente compreendê-lo, dentro de sua amplitude, em cada uma das ocorrências. Este é mais um atrativo do livro, que faz de sua leitura um exercício de compreensão, um quebra-cabeça semântico.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao iniciar a leitura do primeiro conto, de imediato nos lembramos de que Vinicius publicou antes um livro de poemas: é muito evidente o cuidado na escolha das palavras, que, além de obedecerem a um andamento melódico da frase, preocupação de alguém que tem um ouvido atento e limado pela escrita poética, são mais que o veículo transparente de um enredo; por sua origem e por estarem na boca de determinadas figuras, retratam seus caracteres, sua classe social, seus costumes, de modo mais efetivo que uma descrição detalhada o faria.</p>
<p style="text-align: justify;">Não bastasse o cuidado que desde o início percebemos, o estilo dos contos nem por isso será o mesmo no decorrer do livro. Lemos textos que passeiam por referências diferentes. Ora vem à mente um poeta na claridade deserta de sua lâmpada, ora o modo singelo de quem falou o sertão de Minas, ou de quem trouxe um lado marginal de São Paulo para a literatura, em contos como “Maria de Jesus de Souza (Perfume de Gardênia)”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, seus contos se assemelham na estrutura da narrativa. Neste ponto, pensamos logo em <em>Dublinenses</em>, cujos desfechos de cada texto trazem sempre um elemento inesperado e surpreendente para o leitor — aqui, dentro da causalidade possível, Vinicius escolhe a maneira mais crua de, com um desfecho particular, evidenciar a realidade que cerca seus personagens. Essas são referências ou diálogos que estes contos oferecem ao leitor, ora bem servido e, seguramente, muito afortunado pela leitura que tem em mãos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Aristóteles Angheben Predebon</strong></p>
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		<title>Uma rosa para Jack</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jan 2025 00:24:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Jack é um homem amargurado que perdeu tudo e se afastou de todos depois de descobrir um câncer no cérebro. Após desistir de tudo, resolve arriscar uma cura milagrosa oferecida a ele por um estranho em uma floricultura, algo bom demais para ser verdade e que faz com que as pessoas ao redor duvidem da realidade que Jack tem vivido. Será que Jack conseguirá fazer as pazes com a vida e ajudar as pessoas ao redor no tempo que lhe resta? Uma rosa para Jack é um convite à reflexão sobre o valor da vida quando ela perde a qualidade e uma ode a todos aqueles que sofrem por algum motivo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Mais do que contar histórias, a literatura é um instrumento de reflexão que serve para levar mensagens e transformar vidas. Ela conecta as pessoas em qualquer lugar e tempo, oferecendo novas perspectivas, resoluções e compreensões do mundo; e esse livro não é diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Uma rosa para Jack, acompanhamos um homem com câncer que acaba ferindo as pessoas ao seu redor por causa de seu sofrimento até afastá-las de sua vida. E se já é difícil imaginar a sensação de finitude iminente, tente a de uma dor excruciante que nunca passa. É nesse cenário que Jack conhece um floricultor que lhe oferece uma solução miraculosa: uma rosa, <em>sua</em> rosa. E, a cada pétala arrancada, sua dor vai embora temporariamente, o que dá tempo para que Jack se recomponha e tente fazer as pazes com a própria vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Influenciado por autores como Fiodor Dostoievski e Oscar Wilde, esse livro é um convite à reflexão sobre temas como o sofrimento, a solidão, a perda da identidade e o valor da existência quando já não se tem mais qualidade de vida. Mais do que contar uma história, é uma ode a todas as pessoas que sofrem por qualquer motivo.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Aponto meu lápis com faca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jan 2025 11:36:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sou uma escritora que vive em Morada Velha, cidade diminuta, solitária, cheia de esquinas conflitantes, que me ignora. Vivo cercada de gente estranha que não sabe o valor que as histórias inventadas têm. Não fosse essa vida paralela que vivo há muitos anos já teria enlouquecido nesta cidade com ares de abandono fincada ao pé da serra. Não vivo aqui a maior parte do tempo, escapo pelas entrelinhas das páginas amareladas de papel de pão que guardo para assentar minha voz. Aponto meu lápis com faca, quero conservá-lo sempre afiado para laçar as palavras que saltam das vozes que escuto atrás das portas e na praça principal quando caminho em círculos à procura do nada.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Muitas coisas me diz uma nódoa; tantas e tão peculiares que posso, liberto da marcação do relógio, confabular com meus pensamentos intranquilos a respeito dela, por um tempo alongado. O que vi em minhas andanças no encalço daquelas pessoas, capturadas pela escritora habitante de Morada Velha, foram nódoas indeléveis. Cada uma dessas criaturas — predominantemente mulheres — têm corpo e alma marcados como se fossem, estes, meros tecidos, estampas à mercê de um desenho intruso, que se intromete na cor do pano, infecta sua feitura, infiltra-se em seus fios e passa inexoravelmente a fazer parte da estrutura daquela veste. Mimetiza-se, incorpora a nódoa. A compulsão pela roupa quarada, esfregada, lavada; o afã de enterrar a cabeça pescoço adentro, sepultando-a sob o peso de incontáveis latas d’água; ter de aguar flores e frutos; obrigar-se na umidificação da vida que persevera seca (tudo) agrupa-as num estigma. Ceifadas por tão cruel gestual, entontecidas por turvos pensamentos, velarão o próprio corpo murcho, desfiarão todas as contas do rosário na intenção de um espírito exangue e, ocupadas, nem se dão conta de que o castigo foi aceito por elas; cumprem-no como se Sísifos fossem, empurram sua pedra penitencial montanha acima, apenas para vê-la rolar montanha abaixo, condenadas que foram à execução de um trabalho extenuante e improfícuo. Mas Sísifo cresce, volta a ser Sísifo, a ter sede de si mesmo, dentro dos acanhados minutos em que desce para tornar a subir, Sísifo, senhor desse tempo ínfimo, pensa; diz-nos Camus. Essas mulheres daqui negam-se ao próprio pensar, desperdiçam esses pingos de tempo, em favor da pedra, pela pedra. Dão-se à secura indizível e constroem uma solidão inimiga. Derrotar lonjuras, no entanto, ainda é preciso, aqui e acolá, vencendo-as, abrindo caminhos propícios aos grãos desabitados de gorgulhos, por certo seu homem e sua prole apreciarão. Chegará o tempo imponderável, aquele, do respeito, da devoção à perenidade da nódoa; será providencial que ela, a nódoa, persista, desta forma, à medida que for cautelosamente esfregada, poderá dizer-lhes onde, de que fato, em que esconderijo nasceu. É bom tocar a pedra ladeira acima, ainda mais ocupar-se no rolar da pedra ladeira abaixo; garantir a excelência do cumprimento do castigo. Daí, mesmo quando acontecer de partirem, não partirão deveras, essas nossas mulheres. Lá fora, carregarão Morada Velha às costas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Rejane Gonçalves</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Transpirar anzóis em vastos desertos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jan 2025 11:18:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao misturar ficção e fragmentos autobiográficos em seu primeiro texto em prosa, marcado também pela influência do pensamento pós-colonial na literatura, a autora de Transpirar anzóis em vastos desertos, uma mulher lésbica e professora, faz um convite imersivo à vida e intimidade de personagens dissidentes que, além de rasurarem a norma, encontram no amor entre iguais o apoio necessário para afastar a lâmina que parece ferir todas as manhãs. Resvalando em temas como infância, sexualidade, pobreza, educação e ruptura, é dada ao leitor a possibilidade, através da alternância de vozes narrativas e de um lirismo decantado, de conhecer o jovem Antônio e sua “mãe por escolha”, bem como o que liga um ao outro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Todas as histórias já foram mesmo contadas? Essa pergunta-questionamento presente em um dos textos de <em>O mundo desdobrável</em>, de Carola Saavedra, acompanhou boa parte do meu movimento de leitura por entre as páginas deste <em>Transpirar anzóis em vastos desertos</em>, primeira publicação em prosa da escritora Maria Clara Aquino. Escolho começar com essa questão porque acredito que ela aponta para alguns dos motivos que fizeram com que esse livro me atravessasse profundamente e eles dizem respeito tanto à escolha da matéria narrativa quanto à maneira como ela é cerzida.</p>
<p style="text-align: justify;">Um livro que nos aproxima de personagens com vivências de gênero e sexualidade imersas na complexidade de estarem situadas socialmente à margem em um contexto interiorano, com as quais refletimos sobre as diversas violências, visíveis ou não, que ferem feito lâmina as nossas existências e também sobre os respiros possíveis, como o afeto e a identificação que amparam e oferecem oportunidades para vislumbrarmos outras formas de viver e estar junto. A narrativa ainda toca em temas como a desigualdade social, o desemparo, as perdas e a morte, mas também celebra a alegria dos encontros e a preservação da memória das pessoas que amamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesclando diferentes modos de narrar e vozes narrativas, passando pelo formato epistolar, pelo fluxo de pensamento, ao mesmo tempo em que explora ou esgarça os limites entre ficção e biografia, <em>Transpirar anzóis em vastos desertos </em>é escrito com uma linguagem poética através da qual são construídas belas imagens que por vezes sobrepõem temporalidades, sentimentos e lugares, afinal <em>é sempre ontem, esse tempo anzol. Habitado não só por mim, por você ou pelos peixes, mas por todos os camelos. Há tudo de mar no deserto e tudo de deserto no mar que não se diz.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Nele, mar e deserto, afeto e raiva podem ser <em>moldura e reflexo de um mesmo espelho</em>, não como algo que seja equivalente entre si, mas como lugares onde novos movimentos podem ser inventados, seja através do gesto da fuga, dos <em>laços de afeto </em>que podem ser tramados e cultivados ou daquilo que pode ser feito e dito apesar do silenciamento e das violências da norma e como podemos então desde aí reinscrever com/entre essas palavras a nossa própria história. Talvez seja precisamente <em>por isso que ainda montamos nos lombos dos camelos e transpiramos anzóis, meu querido, para que cedo não morramos.</em></p>
<p><strong>Mariana Paim</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>As abelhas suicidas foram à praia e ainda não voltaram</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/as-abelhas-suicidas-foram-a-praia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jan 2025 12:37:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">meu pai morreu. a casa de nina, onde havia passado tantas noites, ainda tinha o mesmo cheiro: o cheiro só dela, um cheiro que não se esquece, que não se encontra em qualquer lugar e nina serviu um chá e uma dose de vodca e me conta o que aconteceu, safira. câncer, a urna chegou hoje mais cedo, ele mandou um bilhete também, dizendo pra eu jogar as cinzas dele em qualquer lugar de brasília, ele só quer voltar pra casa e eu não sei o que fazer, quer dizer, eu sei, mas eu não sei se vou fazer e nina abraçou safira, que explodiu em lágrimas, agarrando-se à proteção que o abraço de nina trazia. eventualmente, mais noite, menos noite adentro, as mãos de safira desciam a calcinha de nina, que suspirava e raspava as costas no colchão descoberto, os corpos colados, pequenas pocinhas de suor na cama, cheiros, gostos, sensações, safira sentia como se nina fosse algoz e salvação, o próprio mar que bate contra o casco do navio e a luz do farol que chega em hora oportuna e gozou, gozou na boca da mulher que amava, amava? deveria amar, poderia amar, poderia se acostumar a amar, se acostumaria a amar...</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8220;Por que eu tenho a sensação de que é a primeira vez que você conta essas histórias inteiras?” é uma pergunta feita por Nina para Safira, e que ecoa nos ouvidos do leitor ao longo de todo o livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Há obras que contam uma história, enquanto <em>as abelhas suicidas foram à praia e ainda não voltaram </em>faz algo muito além. São histórias <em>inteiras</em>. São almas dilaceradas e transformadas em palavras no papel. Não há nada pela metade. Conhecemos os personagens de maneira tão profunda que é possível sentir as diferentes dores, angústias, prazeres, desejos, medos, aflições e arrependimentos na própria pele.</p>
<p style="text-align: justify;">Do prazer da sexualidade a tragédias familiares (por vezes, os dois ao mesmo tempo), Liara Oliveira nos envolve em uma narrativa que é esteticamente surpreendente e literariamente intensa. As frases são curtas e marcantes, expondo muito bem a psicologia humana e tudo aquilo que é socialmente considerado como feio, proibido. E é justamente esse feio, esse proibido que é transformado em palavras muito bem encaixadas que nos fazem ansiar pela próxima página.</p>
<p style="text-align: justify;">A maneira com que os capítulos são construídos, com até mesmo o espaço em branco sendo carregado de significados, encanta o leitor e expõe a genialidade artística e criatividade da autora (algo que, na verdade, pode ser notado já no título!). Nada aqui é clichê, ao mesmo tempo em que tudo é. São temas que impactam nossas vidas há muito, muito tempo, e não há como não se identificar em um aspecto ou outro. Cada linha acrescenta camadas e texturas para a composição do livro como um todo, ao mesmo tempo em que cada página poderia ser uma única obra de igual valor, tamanha é a profundidade das palavras contidas aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há nada preto e branco, mas sim uma explosão de cores e sentimentos tão profundos e complexos quanto é naturalmente a existência humana. É fascinante acompanhar parágrafos que tiram o fôlego com personagens apresentados de maneira tão honesta e visceral.</p>
<p><strong>Ariel F. Hitz</strong></p>
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		<title>Papel de parede</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jan 2025 07:02:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por meio de recortes delicados, Maricia Ciscato costura, nesta obra, uma poética do cotidiano. Ao acompanhar Camila e Péricles, o leitor conseguirá vislumbrar como as relações de poder, a democracia, o feminismo e o luto acontecem fora do discurso, na pele e no pulso dos personagens, num átimo, nos detalhes.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Anita Deak</strong></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Gosto do limite tênue, da fronteira <em>inespecífica</em>, entre o singular e o comum, entre o particular e o geral, o único e o conjunto, o tempo presente e todos os outros tempos”, lemos em determinado trecho deste “pequeno romance”, como Maricia Ciscato o descreveu para mim. <em>Papel de parede </em>é de fato um livro curto, mas suas páginas se multiplicam e ganham densidade à medida que nos embrenhamos nas histórias de seus personagens — Camila, “símbolo feminista incongruente”, e Péricles, o namorado escritor.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa une o cotidiano no Rio de Janeiro durante o turbulento segundo turno de 2022, com recortes de uma infância em Curitiba e histórias de família vividas no interior do Paraná. Com habilidade, a autora consegue dar um contorno e agregar personagens díspares e momentos da nossa história política, criando um enredo envolvente que traz à tona, entre os meandros de relacionamentos afetivos, temas como fascismo, democracia e luto.</p>
<p style="text-align: justify;">“A vida tem muitas formas. Uma delas é feita da experiência dos instantes. Dispensa romances e histórias épicas”. Na invenção deste mito familiar, acompanhamos a captura de instantes perdidos no tempo entremeados por, sim, algo de épico, em uma construção íntima e ao mesmo tempo coletiva. A própria Camila anuncia: “Agora sou eu que preciso te contar uma história. Mesmo que seja tudo mentira, pouco importa. Às vezes, para tocar o real, precisamos da ficção.”</p>
<p style="text-align: justify;">Para tocar o real, Maricia se vale de muitos fios e instantes, dos mais triviais aos mais complexos, e surpreende ao resgatar o surgimento do movimento fascista na cidade interiorana durante o século passado. Como um contraponto à violência urbana e ascensão da extrema direita, a autora se vale ainda de cenas eróticas muito bem construídas, explorando as múltiplas facetas da personagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Camila, na contracorrente da história, segue mergulhando em mares desconhecidos, em busca de algo ainda não nomeado. Somos convidados a suspender nossas certezas e a penetrar nesses mares.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Patricia Dias</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Olhos contados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Jan 2025 12:44:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Da infância à velhice, Olhos Contados mostra situações de sufocamento e de libertação ao longo da vida. Há quem prefira manter a inércia e há quem prefira chegar ao extremo para tentar ser ouvida e respeitada. Em meio a uma turbulência de emoções, os conflitos se amplificam, causando consequências nem sempre fáceis de lidar.
Com nuances e sentimentos dos mais diversos, independente das condições, o que se espera é, ao menos, ter fôlego para sobreviver.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por vezes, frutos suculentos escondem larvas, texturas indesejáveis ou um amargor esquisito por dentro, que se espalha pela boca quando já é tarde demais. Tal característica, que une o irresistível ao invasivo, também parece se aplicar a <em>Olhos Contados</em>, estreia de Silvia Argenta na prosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo de 19 contos, a autora nos apresenta situações que, em sua superfície, são singelas e quase banais, e na medida em que a trama avança, amplificam uma atmosfera pouco acolhedora, que delineia com sutileza o que se esconde de estranho e aterrador nas situações abordadas, efeito este maximizado por uma escrita sóbria e econômica. Esta dialoga com a crônica em alguns momentos, alimentando no leitor o gosto pelos pequenos sadismos do cotidiano. O resultado disso é o entrelaçamento entre espanto e humor, como bem vemos nos contos “Vacilo de polaca” ou “Eclipse no Bloco Bicharada”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao delinear situações nas quais os incômodos crescem gradualmente, Silvia Argenta atiça uma curiosidade mórbida no leitor e brinca com suas expectativas. Em <em>Olhos Contados</em>, é aparente que os núcleos de suas narrativas — a família, os melhores amigos, as vizinhanças — apresentam rachaduras silenciosas que, antes de implodir suas estruturas, desgastam-nas sem pressa. A imagem do véu de noiva que vai “virando uma gosma de tecido” ao contato com a chuva em “A lenda da noiva fantasma” é, nesse sentido, emblemática para descrever essa característica do livro: ele é repleto de dinâmicas que tendem à desintegração, seja quando pende ao realismo ou ao absurdo, como bem vemos na relação entre a avó curandeira e a neta acamada em “Olhos de guaraná” ou entre a mãe rígida e a filha irrequieta em “Métrica”.</p>
<p style="text-align: justify;">Há também contos que pincelam possibilidades de resolução pelo extremo. Temos isso no desfecho insólito de “Chuva de cuspes” e em detalhes como a mágoa expressa por uma dentista em meio ao ensurdecedor som das brocas enquanto atende a melhor amiga em “A modelo do scarpin”. A excitação pelo pior se coloca como ponto forte dessas narrativas, e através disso, ameaçando a todo momento revelar mais sobre o próprio leitor do que ele supunha, efeito esse amplificado pelo contraste com narrativas tocantes como a de “A garagem que não guardava carro”.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado dessa mistura entre o mórbido e o banal, o extremo e o delicado é um livro cuja unidade é difícil de definir, mas também de resistir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Susy Freitas</strong></p>
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		<title>Notas suicidas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Dec 2024 00:22:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">... Quanto a pedir esmolas, é mais seguro pedir do que tomar, mas é bem mais digno tomar do que pedir. Não: um homem pobre que seja ingrato, perdulário, insatisfeito e rebelde possui decerto uma personalidade plena e verdadeira. Foi Oscar Wilde que me tornou ladrão. Não o Armando. Eu precisava apenas de um meio, algo para colocar em prática. De certo modo, eu já era um criminoso. Meu pai me disse, certa vez, que a maior riqueza de um homem é ter seu nome limpo. Não me lembro de ter comprado nada só com meu nome, meu sobrenome, ou meu sorriso.</p>
<p style="text-align: justify;">Relato do paciente
Francisco Eriberto</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Desde a primeira leitura da prosa de William Eloi​, através dos livros de contos <em>A vertigem seguida da náusea</em> e <em>A calçada</em>, percebi que ali se encontrava​ um escritor superlativo, que leva seu ofício a sério, como diria Hemingway. Neste romance, as qualidades literárias do autor subiram de patamar e ele entrega uma obra complexa, visceral e instigante. E também perturbadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Através do prólogo, um depoimento de um psiquiatra que recebe um manuscrito, recurso engenhoso usado na literatura francesa do século XIX, somos apresentados a Francisco Eriberto, que em primeira pessoa narra de forma alucinada sua vida em meio a um casamento frio, um emprego burocrático e ocasionais saídas com amigos e colegas de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém o aparente marasmo é só uma casca, pois tanto a alma como a própria vida de Eriberto estão repletas de amargura, traumas e propensão à autodestruição e suicídio (como o próprio título do romance nos dá o <em>spoiler</em>), o que leva nosso anti-herói a uma jornada <em>joyceana,</em> cheia de sexo, farras, traições, drogas e álcool, em uma Natal decadente e hostil.</p>
<p style="text-align: justify;">Eriberto desce, como Orfeu, ao inferno da cidade e de seus (des)encantos e também ao Hades de sua própria alma, relembrando feridas emocionais não cicatrizadas, como um abuso que sofreu na infância, a morte dolorosa do seu cão (quando constatou que Deus não existe), as primeiras (e desastradas) experiências sexuais, o relacionamento difícil com o pai e o irmão. Enfim, um prato cheio para Freud, Jung, Lacan e Foucault.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas aqui não se trata de psicanálise, e sim de — excelente — literatura. É através dela que William Eloi se faz impor com seu protagonista e que nos convida a descer aos infernos com ele. E em meio a tanta dor, solidão e hedonismo, fica claro que — para autor e personagem — a literatura, como investigação profunda de um mundo complexo, e também como ferramenta para autodescoberta, pode ser salvação e redenção.</p>
<p><strong>Cefas Carvalho</strong></p>
<p><strong>Jornalista e escritor</strong></p>
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		<title>Univitelinos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Dec 2024 19:05:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma família de descendentes de colonos alemães nos anos 1970, cujos ancestrais migraram para o Brasil no final dos anos 1800; o Tratado de Madri e a Guerra Guaranítica que dizimou os índios guaranis em meados do século XVIII — um romance que trata desse presente atribulado por três séculos de História mal resolvida e um futuro comprometido por essa dívida transgeracional.</p>
<p style="text-align: justify;">
“Esta terra tem dono!” Será mesmo?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um romance que trata da interconexão de fatos ocorridos durante três séculos: o Tratado de Madri e a Guerra Guaranítica (meados do século XVIII), com forte impacto sobre os povos originários que habitavam a região sul do Brasil; a emigração de mão-de-obra europeia para “branqueamento da população brasileira” (final do século XIX) e a vida corriqueira de uma família de colonos descendentes de alemães, suas lutas e percalços, nas últimas décadas do século XX.</p>
<p style="text-align: justify;">Laços familiares conturbados, infâncias negadas pela exploração do trabalho infantil, relações interesseiras, fome de dinheiro, racismo, xenofobia, o papel da mulher, epilepsia, a disputa pela propriedade da terra — gêmeos univitelinos e a primeira fase de suas vidas permeada por esse tipo de experiências, interpretadas sob óticas divergentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, são univitelinos (ou monozigóticos), originam-se de um único óvulo, que foi fecundado pelo espermatozoide e só então se dividiu em dois. Possuem, assim, exatamente a mesma coleção de genes, mas as semelhanças acabam por aí. Ah, e há a irmã mais velha — quase trigêmea. E um índio-herói-santo a acompanhar essa história.</p>
<p style="text-align: justify;">O passado nem sempre é pretérito, tempo que não volta mais&#8230;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Vai, Catarina, seja</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Dec 2024 13:38:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro é a maturação, muito imatura, de uma jovem preenchendo a sua bagagem. Na história, o leitor encontra infantilidades, déficits, drama e vivências de uma adolescência conflitante. Ela fala de amor, paixão, euforia, transtornos, sentimentalismo e ansiedade, na fusão violenta de sentimentos experienciados pela primeira vez. Os textos expressam o que há de grave e honesto no íntimo de qualquer pessoa, trabalha sem pena com emoções fortes, mas legitimamente válidas. Há reflexões sobre os medos contemporâneos que residem no nosso tempo crescendo, nas dificuldades encontradas e na obrigatória convivência com estes distúrbios, do modo mais cabível que for possível. E, por fim, também fala do que não se consegue resolver, mas aceitando a condição insatisfatória que habita aí: tudo bem não entender tudo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Vai, Catarina, seja</em> é um mergulho profundo na emotiva maturação de uma jovem no último ano do Ensino Médio. Catarina, uma adolescente sensível e expressiva, enfrenta uma série de desafios que incluem paixões intensas, conflitos familiares, pressões acadêmicas e crises emocionais. Narrado pela própria Catarina, alguns anos mais velha, o livro oferece uma perspectiva reflexiva sobre os eventos que moldaram sua juventude. No decorrer de doze meses, Catarina lida com a pressão de entrar na universidade, a ansiedade do ENEM, e as expectativas esmagadoras que ela mesma cria. Ela se encontra dividida entre a rotina de estudos e as emoções dramáticas de um amor imaturo por Igor, um amigo que compartilha de sua complexidade emocional. A relação com Igor, cheia de altos e baixos, é apenas um dos muitos aspectos de sua vida que a jovem precisa equilibrar. Catarina recorre à terapia para lidar com suas crises, encontrando na escrita um meio de expressar seus pensamentos e sentimentos mais profundos. Através de sessões terapêuticas, festas impulsivas, e diálogos intensos com amigos e familiares, a protagonista navega por um mar de incertezas e descobertas, refletindo sobre seus medos, inseguranças e ansiedades. O livro aborda temas contemporâneos como redes sociais, sexualidade e saúde mental. Este livro é destinado a jovens adultos que se reconhecerão nas experiências de Catarina, especialmente aqueles que estão enfrentando os desafios do fim da adolescência. É um convite à reflexão sobre a importância de cuidar da saúde mental e entender que, muitas vezes, é normal não ter todas as respostas.</p>
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		<title>Mauristaad</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Dec 2024 13:48:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Mas em termos de cultura”, continuou Wagner, “somos todos cristãos. Não concordo com sua premissa e não posso aceitar que possamos ser gregos inseridos numa cultura como a nossa. Todos nós celebramos o Natal... e você também”. Chico pediu outra dose de vodka assim que o garçom trouxe-nos outra cerveja.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Mauristaad</em> é um romance camusiano que acompanha Gabriel Villa-Lobos após este receber a notícia da morte de seu pai. A filosofia existencial de Albert Camus — e suas principais obras — norteiam a construção de sentido que Gabriel busca erigir após o reconhecimento de que ele era, na verdade, um Édipo invertido do amor paterno: “O amor de meu pai, que mendiguei a vida toda, estava lá fora, morto, estupidamente morto”. Esse percurso é emoldurado pelo Recife Holandês de Maurício de Nassau, que serve como fundamento ao sentido histórico do tempo presente. O primeiro capítulo — “Anotações em uma tarde devastada” — é regido não pela aceitação, mas pela recusa à indiferença existencial camusiana da obra <em>O Estrangeiro</em>, pois a dor de um amor nunca realizado coloca Gabriel diante de suas limitações e vazios. A Morte Feliz emoldura o desfecho dessa busca por sentido, pela construção do mundo a partir da celebração da amizade — uma vez que os amigos são uma constante na celebração da vida mesmo no sofrimento — funcionando como um refrigério diante do absurdo. J. C. Marçal compõe uma filosofia moral lastreada na Grécia Antiga dialogando — a partir das angústias de Gabriel — com as questões de nosso tempo, o que nos permite compreender os meandros da pós-modernidade a partir do pensamento da morte. O Carnaval recifense, os botecos, a sexualidade, a moral cristã, nossa finitude radical e a amizade adornam esse romance de viés filosófico que reconhece o Mito de Sísifo como um fato incontornável, mas necessário para que possamos, a partir de nós mesmos, de nossa cultura e de nossa ancestralidade, saltar sobre o abismo da falta de sentido na vida e recompor o mundo. Assim, Gabriel pode afirmar: “Sê fiel a ti mesma, a morte diz. Sê a mais ampla luz daquilo que habita e se torna concreto, daquilo que vale a pena ser visitado. Eis o limite que se esconde no próprio limite. Os gregos tinham uma palavra para isso: <em>tò auto</em>, o mesmo. Ser e pensar, viver e vibrar é a maior tragédia e a maior recompensa. Não me interessavam mais os projetos do amor, da memória, da reconciliação. Eu já estava reconciliado”. <em>Mauristaad</em> é a celebração da reconciliação consigo mesmo.</p>
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		<title>O neto caçula da minha avó paterna</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-neto-cacuca-da-minha-avo-paterna</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Dec 2024 13:25:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">A vida dos irmãos Carlos e Eduardo seguia suas trajetórias corriqueiras: o trabalho nem sempre gostoso de ser realizado, os amores nem sempre correspondidos, a família nem sempre sincronizada, os amigos nem sempre em equilíbri e o quadro político num cenário desastroso. A OMS declara pandemia por conta do vírus corona e ambos, naturalmente, retornam à íntima fraternidade.
Em meio às incertezas quanto ao futuro de toda a esfera humana, ao ódio e aos conflitos de interesse, este romance intenta valorizar o amor e o afeto necessários à sobrevivência.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O título deste romance de Renato Pugliese já deixa algumas pistas sobre o que o leitor encontrará pela frente: um tratado sobre o egoísmo e sobre a solidão decorrente desse impulso.</p>
<p style="text-align: justify;">Até quando há companheirismo, afeto, amizade, há egoísmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Dois irmãos, Júnior e Eduardo, enraizados na segurança da classe média, nas reuniões em bares, em bandos, com as discussões pequeno-burguesas de praxe, o veganismo, o ativismo de internet, o bloco de carnaval, a saúde mental, os relacionamentos, os grupos de WhatsApp da família, a luta possível contra as pautas conservadoras todas; encontramos aqui um relato impiedoso de uma geração deslumbrada com suas próprias dores, formatando um mundo cor-de-rosa que se lixa para as concepções egocêntricas de uma bolha que, paradoxalmente, é a salvaguarda para essa turma.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a um desterro a dois e à inevitável separação, Eduardo, o mais novo, acompanha, com espanto, um vírus misterioso espalhar a incerteza pelo capitalismo, uma doença inédita agitando os alicerces frágeis do conforto assalariado.</p>
<p style="text-align: justify;">Inicialmente a sociedade compra essa ideia de gripezinha, esse projeto, e, ao reconhecer o perigo, se divide e aguça, esgarça essa segmentação até patamares inimagináveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Os irmãos podem se isolar, podem iniciar sem maiores traumas a quarentena de anos, tornam-se experts em gráficos, em planilhas, em indicadores, enquanto uma outra parcela, antes com alguns pontos de convergência e agora completamente separada, descobre a eficácia das <em>fake news</em>, a barbaridade dos <em>deep fakes</em>, engatinhando na era pré-inteligência-artificial.</p>
<p style="text-align: justify;">Os irmãos assistem, alarmados e impotentes, a um ambiente inteiro pronto, arrematado, surgir no horizonte de seus celulares e se recolhem ainda mais, horrorizados. É a grande charada desvendada neste livro: foram eles que optaram por se afastar da realidade, foram eles que expulsaram as teorias da conspiração da ordem do dia, foram eles que, do alto de seu direito ao <em>home office, </em>da garantia de que a plutocracia encontraria uma guarida para o darwinismo social reconfigurado, foram eles que abandonaram o jogo.</p>
<p style="text-align: justify;">E o jogo estava fácil de ser vencido: bastava a empatia, bastava o diálogo, bastava a paciência, mas o encastelamento é mais eficiente: nossas utopias nunca nos confrontarão.</p>
<p style="text-align: justify;">Eduardo e Júnior sabem muito bem disto.</p>
<p><strong>Whisner Fraga</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Corpo estrada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Nov 2024 15:33:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Corpo Estrada</em> é uma coletânea de contos que habitam desde mundos conhecidos — como o Brasil histórico e contemporâneo e o Olimpo — até mundos desconhecidos — como as cordilheiras vulcânicas de Ashuran ou campinas onde andarilhos ressoam suas flautas para falar com os elementos. Os contos são atravessados pelas corporeidades de humanos, deuses, lugares, animais, coisas e guardiões ancestrais em transformação. O corpo traça um caminho, mas um que não existe isoladamente. É uma estrada de passos ritmados pelas palavras que endossam as mais variadas formas de relação, sem as quais novos mundos não podem florescer.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em meio ao agreste paraibano, Dona Catirina abre a estrada para uma liberdade clandestina contra um passado obscuro. Do alto da morada dos deuses, no Monte Olimpo, Hera se confronta com seus anos na sombra do rei dos olimpianos. Em florestas e campinas marcadas por guerras passadas, os andarilhos dos ramos e dos ventos, ao mesmo tempo xamãs e músicos, ressoam suas flautas para conversar com os elementos e enfrentar ameaças antigas. Nas Cordilheiras de Ashuran, um local tão desafiador quanto vasto, com montanhas retorcidas em ângulos antinaturais, nuvens de cinzas e rios de lava, apenas a solidariedade, os sonhos e as histórias ancestrais garantem a sobrevivência de um distinto povo fauno e serão cruciais para dois irmãos enfrentarem o luto por suas perdas e a marca daquilo que é irreparável neles. Esses são só alguns dos personagens e cenários presentes em Corpo Estrada, uma coletânea de contos que abre as portas para mundos nada distantes da cultura popular brasileira, com releituras habitadas por criaturas como o Boitatá, Naiá, Mani, entre tantos outros, repletas de aventura, mistério, suspense e reflexão.</p>
<p style="text-align: justify;">Com uma escrita perspicaz, leve e cuidadosa, o livro passeia por cenários mitológicos, cosmogônicos, históricos, contemporâneos e até mesmo por mundos inéditos, da fantasia ao realismo fantástico, para acompanhar os passos e sentidos do corpo, que é flor do espírito, e da alma, fruto do corpo, que não andam separados aqui. Passos esses de diversas corporeidades de criaturas animais, povos, objetos, lugares, deuses e guardiões ancestrais necessariamente marcados pelas relações que implicam as palavras e pelas relações humanas que marcam os corpos e são o cerne de toda literatura, e que aqui criam estradas para o enfrentamento da perda, das relações de dominação e de abuso, para que se possa desvelar, numa lenta e desafiadora abertura aos outros e a estranheza que isso implica, o desabrochar de novos mundos.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cabanos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 14:18:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Cabanos</em> narra a epopeia de Guaraci das Águas e Vigimundo, dois inocentes mateiros, na luta contra os imperialistas durante a Revolta da Cabanagem na Província do Grão-Pará, na primeira metade do século IXX. O romance trata das provações vividas pelos dois na selva amazônica, com suas águas traiçoeiras, animais ferozes, malária, feitiçaria, além dos legalistas apoiados por portugueses e ingleses. A violência contra os cabanos tem como saldo a morte de trinta mil pessoas, em sua maioria, caboclos. A mais sanguinária revolta sucedida no Brasil urge de ser contada.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Imagens fortíssimas se desenrolaram diante de meus olhos quando li <em>Cabanos</em>. A narrativa envolvente e sensível de Ronaldo Fialho nos leva à Amazônia do início do século xix, a fim de passar a limpo um momento da nossa história pouco conhecido e bastante atual. <em>Cabanos</em> é um encanto de leitura, excepcionalmente imagético, com uma galeria de personagens densos. Fialho se apresenta neste novo livro como um escritor maduro, pronto para brilhar no cenário literário brasileiro. Torço para que a obra seja transposta o mais breve possível para o audiovisual, de modo que a narrativa alcance um público mais amplo. Potencial para isso, certamente o livro tem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Emília Duncan</strong> é figurinista de teatro, cinema e televisão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cabanos</em> é um romance literário que, a partir de uma fascinante narrativa poética, expõe as feridas do Brasil Colônia. Li o original como se estivesse vendo um filme, de tão bem construídas as imagens. Ronaldo Fialho extrapola os limites do romance regional, embora retrate de maneira primorosa os costumes, o folclore e, principalmente, a fala dos caboclos no Norte do país. É uma história arrebatadora!</p>
<p><strong>Moacir Chaves</strong> é diretor e professor de teatro.</p>
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		<title>Dona das Dores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 14:04:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle1">Neste romance conhecemos Maria das Dores, uma mulher que nasceu no interior do Piauí e na juventude se mudou para o Rio de Janeiro. O que à primeira vista parece a oportunidade perfeita para realizar seus sonhos revela-se uma luta diária contra a solidão e os preconceitos que dificultam sua vida na cidade grande. Já idosa, ela descobre que está doente e poderá se esquecer de grande parte do que viveu. Antes que isso aconteça, decide deixar um legado: um caderno contendo não apenas a história de sua vida, mas também a revelação de seu grande segredo.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Mulher negra, nordestina, pobre, cheia de sonhos e de pouca audácia, Maria encontra na escrita um divã capaz de suportar o peso da culpa que sente.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato de a personagem narrar sua própria trajetória é o que torna tudo mais intrigante. Mas a quem interessa a história de uma mulher negra, ainda mais quando ela mesma se anuncia quase como alguém sem importância, que vive em um “[&#8230;] abismo intransponível entre o sonho e o possível”? Uma cidadã de segunda classe — como poderia dizer Buchi Emecheta ou Françoise Ega?</p>
<p style="text-align: justify;">Maria, dona de dores, desejos, sonhos e desilusões. Uma vida comum, quase banal, que se faz única pela capacidade de registrar de forma habilidosa suas experiências, com simplicidade e crueza em um texto direto, com urgência, detalhes e emoções que a colocam, uma personagem inventada, ao lado de personalidades notáveis como Maria Firmina dos Reis, que abriu picada no mato para que Carolina Maria de Jesus e tantas outras pudessem pisar e construir uma estrada pavimentada, a qual certamente levou Márcia Silveira a criar, em pensamento e palavras, Dona das Dores.</p>
<p style="text-align: justify;">A personagem tem tanto sentimento que tive dúvidas, por mais de uma vez, se Márcia Silveira a teria inventado. Fiquei na esperança de que ela fosse real. Quase me convenci de sua existência ao ler o bem elaborado epílogo, que traz um desfecho necessário.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro romance de Márcia Silveira, vencedor do Prêmio Carolina Maria de Jesus de Literatura (2023), se insere numa avalanche de histórias sobre mulheres brasileiras, personagens reais e inventadas que precisam existir e se comunicar com o mundo atual, de modo que futuros mais prósperos possam ser sonhados, prospectados e, de fato, criados e desfrutados por todas as pessoas deste planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">__</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho da apresentação de <strong>Rachel Quintiliano</strong>, jornalista e escritora.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A verdade é vagabunda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 13:58:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">Vítima de um sequestro, Adriana é mantida em cativeiro dentro da própria casa, agora convertida em destroços. Um único sequestrador a vigia, mas suas intenções não são claras, e ele se mostra cada vez mais ansioso, à espera de algo ou alguém. Impelida a agir, Adriana oferece ao sequestrador seu maior patrimônio: um caderno. Nele, codificadas entre poemas, anotações, pedaços de cartas e rasuras, estão as informações que vão mudar os destinos dos dois.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>A verdade é vagabunda</em> é um thriller psicológico enxuto, que costura diferentes tempos e formatos literários para criar uma trama marcada por suspense e surpresas. O livro oferece, por um lado, um texto apurado, muitas vezes poético, que faz uso inovador de elementos de linguagem para revelar uma autora madura e com voz narrativa própria. Por outro lado, e quiçá principalmente, a obra apresenta uma história envolvente e cheia de reviravoltas, do tipo que a gente não quer parar de ler.</p>
<p style="text-align: justify;">Como pano de fundo, o livro aborda temas que estão em ebulição na sociedade — entre eles, violência contra a mulher e saúde mental — e reverbera uma das bandeiras mais explícitas da produção cultural do Brasil de hoje: a importância de dar às vozes menos favorecidas o poder sobre suas próprias narrativas. Assim, com seu perturbador <em>A verdade é vagabunda</em>, Lina Borbi estreia na ficção brasileira contemporânea de forma promissora, advogando o poder (e a poesia) das palavras em estado bruto.</p>
<p><strong>Diolinda Hubner<br />
</strong>Escritora</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O barulho da chuva caindo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Nov 2024 14:52:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Urdidos com uma elegância clássica rara nos dias de hoje, os primeiros contos de Rafael de Souza se destacam não apenas pela singeleza e profundidade, mas também pelo modo como tocam os leitores, remetendo-os a momentos de descoberta em todas as fases da vida. É como se ecoasse, nestas páginas, uma voz de sensibilidade aguçada, que transforma fatos triviais em instantes de absoluto deslumbre.
Desde o drama de Helena até as peripécias de Joaquim Quatro-Ventas, a certeza que nos resta é estarmos diante de um dos mais notáveis escritores brasileiros desta nova geração.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>O barulho da chuva caindo</em>&#8230; Para um homem nascido e crescido no campo, entre secas, sempre esperançoso, quando há chuva a alegria é maior. É a tradução da beleza na alma de quem nasce no campo. Só pelo título já podemos entender a chuva que cairá em nossas “lavouras”, alimentando a terra para que floresça e dê frutos. A escrita de Rafael é limpa, sem rasuras, e envolvente. Desde o começo das histórias, a partir de “Espirradeiras”, até o final, em “Uma lembrança esquecida”, o leitor verá a perenidade nos enredos, as costuras belamente feitas, técnica e emocionalmente. Trama corrente. Uma renda cosida com os enredos da vida; entrelaçadas pelas mãos de um mestre, já temperadas na poesia. Agora a correr com harmonia pelos campos da prosa com total conhecimento do chão por onde anda. Mente forjada na terra, com seus cheiros e sabores. Em cada canto do livro, uma joia exposta à visitação. Portas abertas a cantos/contos aconchegantes. De dentro — das histórias — é que é possível ouvir o barulho da chuva caindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo ocorre como se as rendas — as tramas — fossem feitas sem o auxílio das mãos: apenas mente e coração direto no papel. Só um artista que tem a circulação literária natural nas veias, como sangue — e é —, os batimentos cardíacos no ritmo da criação, é capaz de construir textos densos e leves ao mesmo tempo, na mesma trama. Os contos são narrados com galhardia, passeio de paisagens deslumbrantes, com natural espanto, como se a tomar um copo d’água. Tal é a força na literatura de Rafael: a fonte da qual bebe produz beleza.</p>
<p style="text-align: justify;">Se não houvesse um nome a identificar o autor, seria perfeitamente possível enxergar as estradas de Graciliano, Adélia&#8230; É Rafael de Souza. Com todo o seu talento a desfilar por suas estradas, jardins, planícies, rios, matas. Cachoeiras de emoção — sem perder o tino — a cobrir os olhos nos solavancos e descansos das páginas. Tempo vivo no coração do leitor.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, portanto, de um livro de certezas: técnica irretocável, dosagem de emoção absolutamente equilibrada, liberdade sem medida&#8230; Eis que grande livro chegou às mãos dos leitores. Por certo aproveitará cada palavra que compõe o enredo dessas histórias com fome: e será saciado, por certo. Claro que ficará o desejo da repetição.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O barulho da chuva caindo</em> tem cheiro, sabor&#8230; vida corrente. Viva!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Inaldo Tenório de Moura Cavalcanti</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Anatomia de um destroço</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Nov 2024 14:14:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">essa nota vazia que acabei de deletar do meu “deisinconstante” bloco de notas — desculpa, não consigo parar de criar palavras de duplo sentido com meu nome, ou sei lá como se chama isso (dei google... é trocadilho) — me deixou encucada para desperder o que já tava perdido em minha inconstância de ser: nada, além desse amontoado de traumas. me acalmei com o tormento de minhas falsas esperanças contidas em outra nota, que dessa vez não estava vazia e tinha um título “todo dia”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A potência de vida que há na anatomia de um destroço</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma axiomática peculiar em <em>Anatomia de um destroço</em>: Deisiana Damarat coloca a substância do sentido na sintaxe de suas palavras, que alcançam da calma ao arrepio, do sensível ao ardente, do limbo das ideias que rabisca para a sobrevivência das suas palavras. A autora aprofunda na pele a análise da conjuntura contemporânea da poesia e da prosa, do livro aberto e difuso, construindo uma literatura não-hermética e de estreia. Deixa espalhar os ângulos e virtudes da composição da sua escrita — visceral, com a função de espírito de materialidade de escuta — a escrita dos pensamentos desanatômicos que se transformam em linhas desdobráveis para o autoconhecimento, autoentendimento e autocompreensão da potência do ser humano. Deisiana escreve com um aprofundamento libertador-terapêutico que encanta e comove. Sua tipologia analítica e crítica é admirável. Ler sua obra é uma experiência do espírito: ver para reparar, ler para amparar. Leiam Deisiana Damarat: ela é capaz de elevar sua escrita literária para altos patamares de planos e concepções, com um repertório rico e sensível. <em>Anatomia de um destroço</em> é, afinal, uma produção sólida de uma competente escritora no mercado editorial.</p>
<p><strong>Marianne Freire</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Molduras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Nov 2024 10:04:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A maior praga que Deus pôs na Terra foi o trabalho, e, desde cedo, aprendi a ser indolente. Sob a tutela de sábios mestres, aprendi a evitar esforço. Venho de uma família habituada a sombra e água fresquíssima. Devido às oscilações da Bolsa, perdi parte da herança antes que o meu pai sucumbisse a uma enfermidade fatal que sugou os nossos recursos. Meti-me em aventuras, pirâmides menos sólidas do que as egípcias e me viro no velho apartamento oceânico. Subo e desço pelo antigo elevador com uma porta de ferro que me exige abri-la e fechá-la para que a máquina ande e reclamo dela assim como me queixo das mulheres que esperam de mim prazer enquanto concentro a energia para o meu deleite corporal. Passo meses em abstinência sexual. Para me tirarem da cama, é como arrancar a raiz de uma árvore de 1601, prefiro descansar à moda de Oblomov, personagem literário que tanto admiro. Oblomov dos Trópicos, sou eu, disso me orgulho sem disfarçar. Não vejo necessidade para disfarces. Sou firme. Estou certo da minha indolência e da desmedida displicência que a acompanha. Sigo o andar da carruagem fantasmagórica que percorre a aleia das palmeiras no jardim botânico que visito em dias quando posso desperdiçar forças físicas numa caminhada singela.

(<em>Sangue tinto</em>, página 20)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Há autores e autores. Dito de outro modo, uma cultura saudável, que é como quem diz, orgânica, pressupõe ao lado de autores consagrados a existência de escritores e poetas menores. Nada de anormal nisso. Dir-se-ia ser até ser essa a ordem natural das coisas. Mas depois há outro tipo de autores: aqueles que o grande público não conhece, cuja carreira é discreta, seja por que razão for, e que, no entanto, revelam fulgor literário capaz de empalidecer o virtuosismo narrativo ou lírico de autores consensualmente canonizados. São autores raros, porque detentores de uma extrema originalidade, como se reinventassem a linguagem. Sempre que me deparo com um, momento bem raro e irradiante, sinto-me como um garimpeiro que dos confins de uma caverna obscura descobre de súbito a luz incandescente de uma preciosa pepita dourada. É seguramente o caso de Kátia Bandeira de Mello, escritora, poeta, artista visual de origem brasileira e há muito radicada nos EUA. Lê-la é penetrar na singularidade de algo verdadeiramente novo. Não vou aqui, por razões de espaço, avançar mais sobre a obra estupenda desta autora e sobre a qual um dia gostaria de escrever demoradamente (essa é também, e talvez sobretudo, a grande função do crítico). Até para manter a curiosidade de quem a quiser descobrir. Por favor, leiam-na. Verão que não exagero e que as minhas palavras não são ociosas.<br />
<strong>Sérgio Guimarães de Sousa</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Kátia Bandeira de Mello é signatária de uma arte heterodoxa, instância em que palavra, imagem e plasticidade se metamorfoseiam em densa e intensa polifonia. E é com o cinzel afiadíssimo que realiza as incisões para revelar os multifacéticos contornos de uma escrita visceralmente ligada aos signos da linguagem. Seu estilete não economiza energia estética para burilar e revelar camadas semióticas, para, sob essa praxis, subverter e rebatizar o significante Molduras. Não há limite, fronteira ou litoral para o alcance caleidoscópico de seu olhar sátiro-crítico-reflexivo; dele brotam os desdobramentos, experimentações, remixagens e paradoxos ante a articulação com o verbo que se transforma em tecido de sofisticada textura. Com ousadia, ela vem ao longo de sua carreira revelando uma performance invulgar.<br />
<strong>Eltânia André</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>No tempo dos super-heróis</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/no-tempo-dos-super-herois</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Nov 2024 12:12:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Olhou o espelho de barbear do pai partido ao meio. Deu um passinho em frente para ver a sua imagem por inteiro num dos lados, pois a quebradura fragmentava-a em duas e distorcia-lhe as proporções. Queria medir com precisão a barriga. De silhueta em frente ao espelho, esfregou o ventre. A protuberância, não tardaria, dava de si ao mundo. Só pensar nisso atemorizava-a. Subia-lhe um frio pela espinha que lhe arrepiava os cabelos da nuca. Interrogava-se se haveria um mundo onde a culpa fosse perdoada, um lugar para lá da bola redonda onde o desvario, o descuido não desse origem à maledicência. Tais suposições transformavam-se e esvaneciam-se no espírito em segundos, pois os dedos parrudos, de tanto lavrarem, reproduziam a forma arredondada do ventre, dedilhavam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda todos os cantos do seu abdómen. Esse gesto alargava-lhe os horizontes do imaginário e permitia-lhe ver para lá da pele, indagar sobre o bichinho que se formava em sussurros que só ela entendia. (...)

(<em>Encontra-me nas nuvens</em>, página 19)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>“O conjunto de doze contos perpassa sob uma teia, viva e transparente, que vai sendo urdida entre a realidade e a história, em período esparso, que decorrerá sensivelmente entre os primórdios do século XX e a actualidade. Uma teia que sempre esteve cá…<br />
Irrompem, por vezes ferozes, muitas vezes, muitas vozes, apenas de uma imagem, de um cenário, de uma ação, ou, sobretudo, de uma personagem incontornável. (…) Este conjunto de contos revela-nos através das personagens, em geografias passadas ou presentes, em protagonistas inventados ou recriados, por um lado, os anseios e os seus temores, mas, também, os desejos e as esperanças, do íntimo das personagens — do mais profundo e arreigado íntimo da autora?<br />
(…)<br />
Poder-se-á, talvez, afirmar que a sua escrita, nesta obra em concreto, revela através da dicotomia espacial e temporal o ensaio de um modo de narração não linear que condensa o tempo (nomeadamente o seu, que se espalhará por três gerações). E procura fazê-lo, constantemente, através de uma articulação apoiada no sopro do sensível e do inteligível, para que possamos (possa ela também) ter uma melhor percepção e/ou entendimento do mundo, da humanidade, do verbo.<br />
Mais do que uma escrita feminista, julgo estarmos perante uma escrita feminina, comprometida com a contenda por uma sociedade mais justa. Uma escrita em que os valores de humanidade que a voraz e trituradora sociedade contemporânea vai estilhaçando, esmagando e corroendo e onde a palavra, a literatura, a arte em geral, são um palco, mesmo que exíguo, frágil, de obrigatória intervenção (…).<br />
Além disso, o caráter universal dos sentimentos das personagens, gerados por questões que continuam a ser “bem reais”, os conflitos de gerações ou de géneros (ainda hoje, a dualidade que subalterniza a mulher em relação ao homem nas sociedades contemporâneas é gritante e inadmissível), as ruturas familiares ou de amizade, a emigração (para fora do país, ou mesmo para dentro do próprio país, tão díspar ainda hoje, em ensejos e utopias) em busca da sobrevivência e da decência, a cruel e inaceitável rejeição daquele que “é diferente” (qualquer que seja a errónea ideia de diferença, mas, que perturbe e incomode os ignorantes) (…).<br />
E, claro, de forma mais explícita ou não, a condição feminina, a eterna condição de ser mulher, ontem, hoje e no futuro, são tópicos fundamentais nesta interpelação da autora que, de forma plena e objectiva, pretende inquietar e fazer reagir não só o leitor, mas, creio, particularmente, a própria progenitora destes contos, deste verbo.”</p>
<p><strong>João Rasteiro</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cisne de vidro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Nov 2024 13:14:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O nome desaparece. Num percurso entre lembranças e especulações, o narrador de Cisne de vidro enfrenta as surpresas de uma viagem para redescobrir o nome do irmão, o que revela as dobras inconsistentes de uma história carregada de silêncios. “Eu me esqueci do seu nome. E essa foi a coisa mais angustiante que experimentei nos últimos anos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Cisne de vidro</em>, Claudinei Sevegnani nos conduz por uma narrativa da falta. Um irmão deixa de existir, levando junto de si os contornos da memória e as definições das coisas do mundo. Isso acontece em algum lugar do tempo, não importa se no passado, no presente ou no futuro, porque a falta aqui narrada atravessa os calendários e torna-se a falta de si mesmo. Torna-se a falta de um nome.</p>
<p style="text-align: justify;">Sair em viagem na busca de um nome é o que resta. O narrador atravessa desertos e litorais e atraca em uma ilha de encontros inusitados: uma pessoa de perucas, um cavalo que faz lembrar da vida inteira, uma pergunta improvável, capaz de contorcer as próprias questões.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um mistério que se avoluma pelas páginas deste livro, um mistério que nos guia como se estivéssemos no dorso de um cavalo, adentrando uma floresta cheia de segredos e nenhuma visibilidade. E no fim é a ficção que encontramos, nos lembrando que a memória é terreno de vazios e invenções.</p>
<p style="text-align: justify;">Sevegnani nos oferece um romance que também versa sobre a reorganização da própria linguagem no momento em que perdemos as palavras capazes de definir certas fendas da vida. Escrito em combinações de imagens que o autor reorganiza em sua paisagem literária, <em>Cisne de vidro</em> torna-se um romance sedutor pelos inesperados que provoca.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marina Monteiro</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>As dores delas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/as-dores-delas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Nov 2024 12:58:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O pai conviveu com a primeira família e manteve a segunda em segredo. As irmãs de Laura passaram grande parte da vida sem saberem de sua existência. A partir de uma intensa análise do relacionamento com o pai, ela descobre que a convivência desejada com as irmãs jamais coincidirá com a realidade. As dores delas aborda as relações familiares, no qual o homem (o pai) é o maestro que conduz a vida das sete mulheres (cinco filhas e duas esposas), potencializando a dificuldade de aceitar o que não é tido como tradicional, a solidão nos relacionamentos, a invisibilidade e o silenciamento imposto.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quem transita em dois mundos, em duas vidas que não se tocam é metade ou inteiro? É sob essa premissa que se organiza o drama familiar e humano de <em>As dores delas</em>, romance de estreia da escritora paranaense radicada em Brasília, Ana Raja. No mundo construído pela autora temos uma história habitual: um homem de vida dupla, que se desdobra entre duas casas, duas mulheres e as filhas dessas uniões. Se essa paisagem emocional é comum, história partilhada em muitos lares em todos os tempos e lugares do mundo, é o tratamento sensível dado ao tema e à trama que torna essa narrativa não apenas comovente, mas especialmente densa. Ana Raja, que vem despontando no panorama da literatura contemporânea com um olhar aguçado sobre o cotidiano, por cronista que é, apresenta um mapa vivo, tenso e afetivo das relações construídas sob o signo da mentira e dos desencontros.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem narra essa história é Laura, filha da segunda família, que, de criança exilada de uma vida da qual ela deseja participar, acaba por tomar as rédeas da própria existência, se colocando em um protagonismo que é, simultaneamente desafiante e libertador. Annie Ernaux, vencedora do prêmio Nobel, ao falar sobre seu livro <em>O acontecimento</em>, diz que traz à tona uma memória terrível para salvá-la para o futuro. Diz ainda que “a realidade sempre nos escapa. Mas é preciso tentar mesmo assim nomeá-la”. E é essa a operação que a narradora faz, ao procurar o lugar da própria vida atravessada por escolhas que, de partida, não foram suas: nomear a experiência, salvar para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Ernaux é aqui convocada por ser essa autora responsável por um certo realce nos debates em torno da autoficção nos últimos anos, e porque é da vida vivida que Raja vai retirar o material de sua fabulação. Observe-se, porém, que Raja não escreve autoficção, mas vai, na própria história, nas memórias e na reconstituição do vivido procurar o fio que dá luz às suas personagens, o que torna esta uma operação complexa, especialmente na construção dos personagens que transitam nessa narrativa, com destaque para o pai e Ana, uma das irmãs. Nesse sentido, um pequeno spoiler: a autora consegue dotar a todos os personagens de dramaticidade, peso, construindo-os como seres da ficção. Isso não é pouco.</p>
<p style="text-align: justify;">Saúdo esse livro, essa estreia. Fiquem atentos a Ana Raja.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Micheliny Verunschk</strong> é escritora</p>
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		<title>Derivações</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Oct 2024 09:00:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Abriu os olhos sem realmente tê-los aberto. Era peculiar a sensação de enxergar, sem que aquela luz viesse lhe machucar a retina. Abriu os olhos, assim, já em pé, como se ali mesmo houvesse se materializado, parado naquele gramado, próximo à sombra de uma árvore frutífera, cujos frutos não podia reconhecer.
Abriu os olhos e viu um sol a meio termo, um sol-quatro-da-tarde, que aquecia a pele sem queimar, que iluminava sem ofuscar a vista, que alegrava os corações mais melancólicos. A cor daquele céu parecia uma canção do Bob Dylan. E viu o rio que corria manso, refletindo esse sol benevolente, como fizesse um poema otimista sobre o amor. De frente para o rio, separada por uns vinte metros, uma casa simples de alvenaria, com uma chaminé que espalhava uma tímida fumaça branca. Um banco de madeira, à frente da casa, dava aconchego a um violão com cordas de nylon. Próximos ao calmo rio, dentes-de-leão tremulavam levemente ante a confortável brisa passageira. Suas sementes pairavam pelo ar, viajando em busca de outras paragens. No rio, ao longe, via uma figura indistinguível, mas certamente era humana. Não sabia se estava em pé na outra margem do rio ou nas próprias águas. Pela janela da casa, via um rosto conhecido, um rosto feminino. Era Suzanne.
(<em>Alucinação</em>, página 31)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Derivações</em> pode ser lido como um livro de contos sobre busca; busca pelos que não estão mais lá, por respostas a perguntas há muito reprimidas, pela redenção de impulsos que não conseguiríamos conter, pela possibilidade de fazer as pazes com o luto ou dar risada da pior desgraça.<br />
Pode também ser lido como uma coleção de contingências, em que a curiosidade e o imprevisível atravessam pessoas, nacionalidades e períodos históricos, sejam esses reais ou imaginários. Em um sutil jogo de luz e sombra, é difícil saber quando se ri ou se chora.<br />
Sentar-se com o Derivações é preparar-se para uma partida de pinball: diferentes partes do nosso córtex irão se acender, e emoções diversas vão apitar por reflexo antes que possamos ordená-las. Mudam as quebras de linha, mudam os tempos, mudam os registros e os estilos de pontuação. Muda o peso dos personagens, que vão desde uma mosca da fruta pesando um mero miligrama aos quatrocentos e dez quilos de um boi-almiscarado e exausto.<br />
Exaustos também estão muitos dos seus homens e mulheres, que se tensionam e se contrastam, incautos, com o frescor dos jovens e da descoberta. Compassivos, entorpecidos, esperançosos ou derrotados, todos os seus personagens parecem carregar em si o poder de se virar a qualquer momento e olhar para dentro de nós.<br />
O leitor de Anderson Antonangelo é convidado a passear pelas suas inquietudes, sua curiosidade e o seu olhar atento ao singelo, ao vulnerável, ao mundano, que nos conduz a ver humor na tragédia e beleza num filete de suor ou na fumaça de um cigarro. Ele nos leva a prestar tributo não à vida ou à morte, mas à própria transitoriedade que habita entre esses dois parênteses.</p>
<p><strong>Paula Groff</strong></p>
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		<title>Hodie mihi, cras tibi</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 19 Oct 2024 15:15:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Hodie Mihi Cras Tibi reúne três contos que, de diferentes maneiras, se organizam diante da mesma temática, a morte. Seja tratando do aspecto da finitude ou dos arrependimentos ante ao fim inevitável, Dan de Lima aborda de maneira metafórica a morte como um ciclo, uma espécie de eterno retorno que só amplia o sofrimento. Afinal, quando nem mesmo aquilo que é determinado como o fim é de fato um fim, o que nos resta enquanto humanos? Quais os limites de nossa sanidade? É disso que se trata o livro, uma metáfora psicológica que aborda a morte como gatilho para uma reflexão sobre a própria vida.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; line-height: 150%;"><i><span style="color: black;">Hodie Mihi, Cras Tibi </span></i><span style="color: black;">é uma expressão latina comumente traduzida como “<i>Hoje a mim, amanhã a ti</i>” ou “<i>O que hoje me sucede, suceder-te-á amanhã</i>”. Comumente gravada em entradas de cemitérios ou inscrições de tumbas, simboliza o inevitável destino reservado a todos e, mais ainda, dá voz ao próprio morto, como se ele mesmo estivesse alertando ao vivo que aquele lugar um dia será ocupado por ele. É justamente em torno dessa ideia de vidas que, apesar de seguirem trajetos diferentes, caminham para o mesmo lugar que este livro, que foi batizado com a expressão latina acima explicada, se desenvolve em três contos que abordam a morte de maneiras diferentes.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; line-height: 150%;"><span style="color: black;">Dan de Lima é o que podemos chamar de escritor de ciclos. Quando criança escrevia histórias fantásticas baseadas nos filmes e livros que consumia; em sua adolescência e no início da vida adulta, passou a se embrenhar nas histórias de terror e horror, mas só de fato se encontrou como escritor após assistir à série televisa <i>Lost</i> e se apaixonar totalmente pela construção do roteiro. A partir daí, influenciado também pelos quadrinhos de <i>The Walking Dead</i>, de Robert Kirkman, jogou tudo em um liquidificador e transformou em uma marca própria: histórias fantásticas, viscerais e ao mesmo tempo extremamente humanas. Juntou o <i>gore</i> das histórias clássicas de zumbis com reflexões filosóficas sobre o que é de fato a vida e a morte.</span></p>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; text-align: justify; text-justify: inter-ideograph; line-height: 150%;"><span style="color: black;">O livro que você tem em mãos é diferente de muita coisa que você já viu, começando por este texto de orelha, escrito não por um amigo ou familiar, mas por um personagem de um dos mundos criados por Dan. Não apenas um simples personagem, um personagem morto apresentando um livro sobre a morte. Parafraseio Brás Cubas ao deixar aqui não minhas memórias, mas uma transfiguração da mente de quem me criou. Nada melhor do que isso para lhe mostrar que esta obra é, antes de tudo, humana, mas dramática e tensa. Um condensado de tudo o que sentimos diante do luto e provavelmente de tudo o que sentiremos diante de nosso próprio fim.</span></p>
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		<title>Sete saias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 19 Oct 2024 13:59:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">O punhal é erguido no ar e desce lentamente contra o pescoço do menino, que segue olhando firme na direção do coronel. A ponta da arma pressiona a pele até que um pequeno fio de sangue escorre e mancha o tecido da camisa. O contratado Jeremias continua com o braço erguido, o menino preso pelos cabelos, respirando forte. Então, diante do movimento congelado, o silêncio dos homens em redor da cena, o menino se volta para olhar nos olhos do algoz e diz, com voz engasgada:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">
— Se vai matar, mata logo, moço.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Garimpando os fragmentos históricos que compõem o imaginário do cangaço, Edmar Monteiro Filho constrói uma narrativa envolvente que, com delicadeza, flerta com dramas universais. Nela, muitas vozes se misturam, se enfrentam e se contradizem, implicando o leitor na decifração do destino das personagens e, também, na compreensão da alma humana no emaranhado das relações sociais. A polifonia do mundo é expressa em capítulos construídos por testemunhos dos fatos: o discurso das autoridades, a “voz” dos autos criminais, a expressão dissonante do cangaceiro aprisionado e a palavra do autor — que convida o leitor à lucidez da verdade em meio ao espinheiro de enganos que constitui a matéria da vida cotidiana. Porque, diante das inverdades da vida — que toleramos e nas quais, frequentemente, nos apoiamos —, apenas a verdade da arte tem consistência. Improvável como a terra que enfrenta a secura do tempo, a verdade segue sua existência muda resistindo ao viço dos boatos, à obliquidade dos registros, à maquinação dos pensamentos íntimos, às omissões, distorções, infidelidades, delações, escaramuças, adulações, encenações e desonestidades de todo tipo. Mas, como mostra o autor por meio do belo e curioso preâmbulo — deixado ao prazer da descoberta do leitor —, a distância, esse mundo sombrio sob o drama do sol escaldante é apenas o pequeno palco onde as misérias humanas aguardam por uma benção que fale mais alto aos fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vivendo quase sem escolha em um cenário violento e rude, os personagens simples expressam a profundidade da tragédia humana. É o que temos na história de desejo, violência e ódio entre Mariano e Marianita e, em cantos menores, como a verdade aguda encarnada na existência do menino Zico. É na inverdade que movimenta o círculo vicioso de desigualdade, desconfiança e violência que o autor identifica o mecanismo que mantém ativo esse universo sem redenção. Desse modo, no reconhecimento da impostura, o leitor é conduzido à verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Confissão de fé, <em>Sete saias</em> nos lembra que a verdade não é uma coisa que cabe na mão humana. É um caminho que se escolhe e atravessa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Neri de Barros Almeida</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O ponto de vista do hamster</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Oct 2024 10:59:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao fim da semana cinco de término, Férula sequestrou o hamster do ex-namorado. Me bateu vontade de inventar que o nome dele é Saladinha. E por que não invento? Essa história aconteceu de verdade, mas ninguém vai acreditar. Assim sendo, o que me impede de produzir detalhes?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se o crime não compensa, por que a honestidade causa embaraço aos honestos? Excesso de violência nos meios de comunicação influencia o comportamento dos idosos? Faz sentido romper relações com parentes por causa de eleições presidenciais? Por que não existe replay fora das telas? Quem sente saudade do ex-presidente Gonzalo Rose de Gutenberg? Em qual partido Deus vota? O que passa pela cabeça de um hamster sequestrado? Quantos sentimentos possui um chatbot? Por que alguns amores não acabam nem depois que terminam?</p>
<p style="text-align: justify;">Todas essas perguntas (e tantas outras, que ainda não me ocorreram) se oferecem ao leitor dos contos de <em>O ponto de vista do hamster</em>, mas pouca ou nenhuma atenção receberam do autor.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de alguma resistência inicial, o Senhor Daniel Knight parece ter engolido o argumento de gente muito mais francesa e mais premiada do que ele: em uma terra onde cada cidadão fabrica os próprios fatos, em um período histórico no qual teoremas matemáticos dependem de crença e de boa-fé, escrever algo que não corresponda a uma verdade inabalável configura risco à segurança pública. Não se esqueça que, a partir da Revolução Cristiana, todo escritor tem os direitos autorais das múltiplas interpretações de seus leitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem imaginação que as filtre, realidades se engastalham umas nas outras. Qual delas defenderemos? A nossa, é claro. Dom Casmurro não pode resmungar sua dor de corno no mesmo mundo iniciado pelo Big Bang há bilhões de anos. Brás Cubas não pode escrever, direto do além-túmulo, no mesmo universo em que Moisés abriu o Mar Vermelho. Daí, concluímos que as principais falhas literárias de Machado de Assis foram não ter inventado o Big Bang e não ter escrito a Bíblia.</p>
<p style="text-align: justify;">O Senhor Daniel Knight, conforme desenvolve seu projeto criativo, elaborado a partir de 2008, pretende continuar de onde o Bruxo do Cosme Velho parou, exatos cem anos antes. As histórias com agá minúsculo se exauriram; resta aos escritores dominar a com agá maiúsculo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, em seus dois romances de estreia, nosso escritor antirrealista inventou uma metrópole multicultural chamada São Paulo, cortada pelo Trópico de Câncer, agora, neste livro de contos, começa a esboçar um país que abrangerá sua cidade garoenta. Aposto que se chamará Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Lucífero Passarini</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A menina que carrega oceano na cabeça</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-menina-que-carrega-oceano-na-cabeca</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Sep 2024 12:43:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">— </span><span class="fontstyle2">O que é isso?
</span><span class="fontstyle0">— Não sei. Alguma coisa que vem antes e é meio assim sem cabeça e sem pé, meio de ponta cabeça.
Lançar ao vento, formar um furacão e trazer a Menina – essa mesma aí do oceano na cabeça. Essa que conta histórias, que cata histórias, que mata histórias.
Catavento.
Ventilador.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>— Já sei, já sei o que vai dizer: como assim ter a própria voz? Se minha voz sai de baixo d’água, como vão entender? Te digo: não sei. Não sei como vão entender. E na verdade, te pergunto: e quando você falava por mim, será que entenderam? Tantos fragmentos, tantos pensamentos soltos, tantos sentimentos vagando no oceano. Será que entenderam?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se, por um lado, escuto, fragmentadamente, as várias vozes d’<em>A menina que carrega oceano na cabeça</em>, e as vozes daquelas que se cruzam com ela, por outro Filomena faz com que eu imagine visualmente cada uma delas (uma protagonista com dores justificadas e necessárias de pescoço, Manoel [de Barros], um ventilador ou uma bicicleta) circulando num universo tão particularmente terno quanto dialético. São, de facto, os diálogos ou a conversa gigante que a menina tem com ela mesma que motivam e marcam os segmentos <em>verbais</em> desta odisseia individual.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrever é preciso, viajar não é preciso.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Não é sobre travessias ou travessuras que a Menina está a pensar.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Pensa nos modos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Nos modos que as letras, as frases e os pensamentos movimentam.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A travessia, de quem se endireita permanentemente sob as dificuldades de suportar o oceano sobre os ombros, materializa-se, portanto, na palavra; e a diversidade polifónica d’<em>A menina </em>corresponde, de modo inequívoco, à hibridez formal que se desenvolve invariavelmente entre géneros: microconto, prosa poética, poema, carta?</p>
<p style="text-align: justify;">Não há como definir <em>A menina que carrega oceano na cabeça</em>. E é precisamente da liberdade da indefinição que Filomena está falando.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>— Não sei se entenderam. Sei que contei suas histórias da forma que me chegavam. Se você estava confusa, talvez eu não tenha conseguido desfazer a confusão. Respeitei o que dizia, não quis interferir e nem criar nada. Se calhar estava errado. Talvez fosse melhor se tivesse inventado umas coisinhas ali e aqui.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Patrícia Lino</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Pausa, perda, desencontro &#8211; prólogos do fim</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/pausa-perda-desencontro-prologos-do-fim</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Jul 2024 15:05:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(...) Ao compartilhar minhas suspeitas com Roberto, ele riu e disse que eu estava sendo preconceituosa, depois completo sua fala de forma literal:
— Putas não cozinham para seus clientes!
A frase proferida por Roberto atingiu-me como um soco no estômago. Eu o encarei, sem acreditar no que acabara de ouvir.
— Quem está sendo preconceituoso agora é você — respondi, tentando controlar a raiva em minha voz. — De onde você tirou essa afirmação de que putas não cozinham para seus parceiros? Isso é um pouco estereotipado, não acha?</p>
(...)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Naquele dia eu já tinha começado a escrever este conto, sentada no banheiro, escutando meus irmãos que brigavam por uma barra de chocolate ou uma lata de leite condensado, eu escrevia, e, quando a gente escreve, ou pensa em escrever, é como se falar não fosse necessário ou até mesmo não fosse permitido. Às vezes pensar em escrever é não falar, e essa sensação estava comigo desde sempre, desde o berço vermelho-sangue em Curitiba. Eu não queria e não sentia necessidade de lutar contra aquilo.<br />
(&#8230;)<br />
Quem pensa em escrever pode não falar, mas escuta e escuta bem. No entanto, coincidência ou não, só depois das palavras de David, lancei meu primeiro livro. Para quem pensa em escrever, aprender a falar é aprender a publicar?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Carola Ponto</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Divina</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/divina</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Jul 2024 11:55:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quem e o que escolhemos esquecer? Clara se faz essa pergunta quando descobre que Divina, sua bisavó, a única parente negra de uma família branca, está enterrada num túmulo sem lápide. Enquanto ela tenta retomar a história da bisa, outra voz surge na narrativa. É a própria Divina, que narra sua trajetória como dona de um bordel em Goiânia no início do século XX, bem como a relação conflituosa com Natã, seu filho e futuro avô de Clara. Do jogo entre essas duas vozes, da bisa e da bisneta, cria-se um panorama de uma mulher dona de uma existência que insiste em pulsar ao longo do tempo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este romance, o primeiro de Gabriel Jubé, é uma pequena joia literária.</p>
<p style="text-align: justify;">A protagonista, Divina, tem o dom dos grandes personagens: linguagem, força, beleza. Sua história é contada por ela mesma e pela bisneta que, movida pelo desejo de desvendar quem foi a bisavó que a família desconhece ou esconde, torna-se a narradora dessa jornada. As duas vozes se complementam lindamente e fluem sem obstáculos, dando a Divina a primazia de uma linguagem que sobressai pelo lirismo, contundência, veracidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A trama consistente e original prende nossa atenção, comove. Com sutilezas e suspenses, vai desenrolando seus fios perturbadores: os bastidores de uma casa de prostituição, casa que Divina construiu quase do nada e manteve enfatizando seu lado de acolhimento e solidariedade; o mundo escondido das crianças protegidas por todos que viviam ali; a complexidade dos sentimentos entre Divina e o filho; os amores que, entre conflitos e contradições, surgem com a potência de destruir barreiras e se impor ao tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os personagens que gravitam em torno da figura de Divina adquirem carne e alma por meio de seus atos e comportamento. Natã, Hercília e Jamila nos mostram, com muita sensibilidade, que a vida nunca foi só de flores, tampouco só de amores.</p>
<p style="text-align: justify;">Há vida que pulsa. Há abandonos. Há emoção que nos envolve. Há uma mangueira e um caroço de manga. Há água do córrego que corre lavando pés. Há frêmitos e paixão. Como em toda ficção nas mãos de um escritor digno do nome, há verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Saímos dessa leitura sabendo que não esqueceremos Divina, tampouco sua vida de temores, perseguição, dilaceramentos e alegrias.  A Casa de Didi, a casa que ela construiu, merecia uma história assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> Maria José Silveira</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Volta para tua terra: não há abril sem imigrantes</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/volta-para-tua-terra-nao-ha-abril-sem-imigrantes</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jul 2024 14:54:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[alexandra lopes da cunha &#124; ana paula vulcão &#124; atija assane &#124; corina lozovan &#124; danielle baracho &#124; diego garcez &#124; duda las casas &#124; fernanda drummond &#124; florencia guzzetti &#124; gabriela rodrigues de oliveira barbosa &#124; gustavo freitas &#124; isabella faustino &#124; jean sartief &#124; lana ruff &#124; lucelina rosa &#124; luciana soares &#124; marcelo freitas gaspar &#124; márcia c. brito &#124; maria clara lima pinheiro &#124; marina campanatti &#124; marta fanti &#124; ozias filho &#124; shahd wadi &#124; tatiana betz &#124; taynnã santos &#124; tomásio costa &#124; alessandro allori &#124; betina juglair &#124; bruno molinero &#124; carla muhlhaus &#124; cia cruz &#124; dai rodrigues &#124; flávia six &#124; freda paranhos &#124; giovana chiconelli &#124; hannah bastos &#124; hilda de paulo &#124; javiera espinosa pizarro &#124; juliana garbayo &#124; naiana padial &#124; daniela lima &#124; jamila pereira &#124; raí ângelo

[organização]
manuella bezerra de melo &#38; wladimir vaz mourão

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Este é o nosso terceiro volume, que batizamos de Volta para tua terra: Não há abril sem imigrantes. Para ele, foram aprovados 43 autores distribuídos nos géneros poesia, prosa e ensaio, escritores naturais de 11 países diferentes. Entretanto, temos muito orgulho em dizer que, ao todo, a Volta para tua terra em seus três volumes alcançou 128 textos publicados de autoria de 105 escritores estrangeiros residentes em Portugal com origem em 15 países: São Tomé e Príncipe, Argentina, Palestina, Cabo Verde, Moçambique, Moldávia, Angola, Chile, Guiné-Bissau, Itália, Brasil, Guadalupe, Colômbia, Espanha e Israel.<br />
Seguimos neste labirinto que é a imigração, as divisões se entrecruzam, tentam nos confundir, sabemos que há um país por trás de todo esse concreto seco; ou encontraremos a saída ou agora, juntos, temos a força necessária para derrubar os muros. O que nós esperamos com isso? Disputar a memória, ocupar o campo simbólico, produzir outras subjetividades, lembrar ao futuro que estávamos aqui, que éramos homens, mulheres, pessoas trans ou não-binárias, gays e lésbicas, bissexuais ou assexuais, negros e negras, árabes e orientais, brancos, pardos ou indígenas, jovens ou velhos; trabalhadores das fábricas, da restauração, das obras, da cultura, das artes, e que estamos nas ruas, nas escolas, nas universidades, nos parques. Queremos alcançar o horizonte, queremos ver Portugal e queremos também que Portugal veja Portugal.</p>
<p><strong>Manuella Bezerra de Melo</strong></p>
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		<title>O canto de um lugar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jul 2024 22:18:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tecidas a partir de uma verticalidade poética, as narrativas remetem ao canto como análogo à ação construtiva de subjetividades femininas em constantes diálogos com elementos mnemônicos, temporais, afetivos. A voz aparece como elemento primeiro, de modo a guiar a forma como as personagens delineiam suas próprias experiências, ainda que o silêncio permeie o dito. Composto por contos que prefiguram o imaginário paraibano contemporâneo, O canto de um lugar entoa cantares de ensinamentos ancestrais, num bordado narrativo que anuncia a suavidade da palavra em estado de encontro e de encanto.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“O canto de um lugar” ecoa palavras de um começo de tempo. Nos contos de Carolinne Taveira os silêncios e as vozes anunciam, como em presságio, o surgimento de uma das escritas mais profundas e sinestésicas da literatura contemporânea brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;">A Paraíba, estado de origem da autora, ambienta e perpassa os tempos das personagens, que tecem enredos que tocam-perfuram as leitoras e leitores mais do que corte de faca. Vozes, que não se permitem calar, revelam a potência de uma jovem autora que carrega consigo as lembranças das suas ancestrais. No conto “A mercearia”, a narradora (nos) questiona: “<em>os teus olhos estão enxutos?”</em>. A essa altura, a leitura já foi muito embaçada-nublada pelas lágrimas de quem acompanha histórias que atravessam os tempos e as lembranças de personagens marcadas pela saudade dos seus. É impossível não se emocionar com as narrativas desta coletânea.</p>
<p style="text-align: justify;">Enredos nos quais até o próprio silêncio grita, espalhando ao vento os sonhos e o cheiro de memórias, à semelhança de um pote de água que esborrota, conforme remetem os termos típicos da cultura nordestina presentes nos contos. Nesta orelha, as narrativas nos sussurram que é preciso ter coragem nessa vida e nos orientam a afastar o medo e deixar as alegrias voarem, amenizando as dores, ainda que um dos contos ressalte: “<em>A gente finge que se acostuma com a falta, mas a saudade só aumenta de tamanho”</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A clareza da palavra desnuda, conforme cita a personagem Tereza &#8211; do conto “O encontro de Tereza”, entorpece os leitores que, como pássaros, voam para tempos distantes ao encontro dos que lhes são caros e fundem-se às personagens das narrativas. Destarte, ao mergulhar na leitura desses contos, leitoras e leitores percebem, à maneira da narrativa que nomeia a presente obra, que o lugar que estamos à procura é aquele que está em nós e é vivamente atiçado pelas palavras lançadas nessa poética produção de Carolinne Taveira.</p>
<p><strong>Roberta Tibúrcio Barbosa</strong></p>
<p>Mestra e doutoranda em Literatura e Interculturalidade (PPGLI/UEPB)</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O tempo amarela a carne</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Jul 2024 22:32:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Maria acha um absurdo o envelhecimento. No entanto, depois do diagnóstico do Alzheimer, ela se torna obcecada por tentar agarrar os fiapos de lembranças e retardar o avanço da doença, enquanto recebe carinho do filho mais novo, Pedro, e tenta se conectar com o mais velho, Miguel. Antes de desaparecer de si mesma, pede para fazer uma última viagem em direção à roça onde morava na infância e onde enfrentou seus primeiros demônios. Em uma trama poética e envolvente, que reflete sobre o envelhecimento, Patrick Martins tece uma narrativa singular sobre família, memória, o início e o fim do amor.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sozinha, Maria, uma senhora já idosa, observa o cair da chuva pela janela de casa em uma cidade periférica do Distrito Federal. Enquanto elucubra a respeito do significado da velhice para si e para os outros, põe uma panela com água no fogo para preparar o almoço. O que o ocorre em seguida acarretará marcas com as quais ela e seus filhos irão conviver até o fim de seus dias.</p>
<p style="text-align: justify;">Maria nasceu no interior de Minas Gerais e foi vendida pelo pai para trabalhar como doméstica na casa de uma família em Brasília. Não por acaso a narrativa é tecida a partir do viés do esquecimento: a história dessa “candanga” (por falta de palavra melhor), uma mulher que veio parar em Brasília sem nenhum ente familiar — tendo que morar na casa de estranhos que eram também seus patrões —, não é somente a história de Maria, mãe de Pedro e Miguel. É também a de muitas mulheres, seja do interior de Minas, do Maranhão ou do Piauí. Essas mulheres, apesar de esquecidas quando se conta sobre a criação de Brasília, desempenharam um papel importantíssimo, sem o qual o conforto de algumas famílias estaria em risco, e a existência de outras — as suas próprias — não teria lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos grandes trunfos desta obra — longe de ser o único — é justamente a recuperação dessa história invisibilizada, e muitas vezes traumática, das migrantes que hoje compõem a população da capital, deixando um legado para filhos e netos. Somos ainda presenteados com uma trama mais complexa, conduzida com maestria e lirismo pelo autor. A narrativa, atravessada por várias vozes, nos sensibiliza com reflexões ligadas ao envelhecimento, ao Alzheimer, à solidão, ao abandono, à bissexualidade, à fotografia, às relações familiares e ao amor. Por fim, durante esse mergulho em uma densa atmosfera em tons de sépia, somos tocados pelo amor, que, nas palavras do autor: “(&#8230;) não nasce da embriaguez do toque, mas começa com o sentimento de ter capturado um fragmento, uma tira singular recortada de um sonho ou do tecido infinito do universo [&#8230;]. O amor é aquilo que permanece, dia após dia, dourado pela memória”.</p>
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		<title>Veja com meus próprios olhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jul 2024 15:49:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Colérica por tentar dizer o já conhecido de uma forma diferente, sentiu pingar uma gota de sangue do polegar na
folha de papel em branco.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A escrita de Lilian tem a força da batida do martelo na bigorna do ferreiro. Impactante, a sensualidade emana de seus contos, como o corpo da amante à espera do amado. A narrativa toca a alma, à semelhança do som do tambor do selvagem primitivo. Não é permitido sonhar. Quem mergulha no mar profundo das palavras volta renascido, sobrevivente da experiência avassaladora. Somos um mar de histórias, tão profundo quanto desconhecido, habitado por seres nunca imaginados. Diz quem somos, mostra o que não vemos. Como espelho, revela o que queremos ver, a alma externa, palpável. A outra, não conhecemos. Machado de Assis ensina que temos duas almas: “Uma que olha de fora para dentro e outra que olha de dentro para fora”. As duas se completam, como lâmina do punhal. A ferida atravessa criaturas que acreditam na morte ou duvidam. Para Lilian, a fé garante o amor, sustenta a saudade, consola a ilusão do encontro, receber um carrinho cheio de iguarias catadas no lixão. “Despedida e Partida”, faces da mesma moeda, de igual dor. “O coração em espera” bate descompassado, incerto quanto à alegria da chegada. Necessário ver, colocar “Bolas de gude” nos olhos e acreditar. Investigativos, atravessam a escrita, delineando um saber constituído das aparências. Renascem emoções adormecidas pelo tempo de espera, no baú da memória. O título demanda um olhar psicodramático: olhe com meus olhos, e te olharei com os teus. A essência da vida reside nesse olhar sincrônico. Fio condutor da narrativa, tal qual a Ariadne mítica, guia o leitor no labirinto dos contos. Voltamos renovados da leitura, enxergando com novo olhar. Escrita forte, contundente, questionadora. Se a dúvida faz crescer, os textos exigem isso. Nada gratuito, é preciso “ver para crer”, ler para ver. A autora desenha o ser humano, em aparência e essência. O que se vê e o que está na sombra, outro lado do espelho. Fundamental quebrar o vidro da palavra, encontrar o reverso. A força da narrativa rompe o gelo da hipocrisia, da mesmice. A autora lança sementes que germinam na alma sedenta do saber. Sob a sombra da frondosa árvore, florescem contos, mandrágoras germinativas. A palavra faz sangrar até à última dor. Todos nós temos uma história para contar, as que nos contaram, as que vivenciamos. Trabalho admirável de consciência crítica, Lilian sugere reflexões sobre nosso mundo interno, provoca espanto, negando a possibilidade de não ser feliz. Tudo é “Passagem”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Rosa Corumba</strong></p>
<p><strong>Psicóloga e contadora de histórias</strong></p>
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		<title>Ventre do sertão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jul 2024 14:00:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tantas mulheres estavam dentro dela e a compunham. Nunca se era uma pessoa só. Para além dela mesma e da mulher que um dia iria existir no corpo da bebê em seu ventre, estavam tantas outras, em uma perpetuação infinita.
Naquela avalanche mental, os pés já pareciam tocar o chão de um jeito estranho. Acabou se tornando fácil distrair Reza Forte. Sua imagem barriguda e atordoada tomou o tempo daquele amigo que se entretinha tentando acudi-la. Bibelô não falava coisa com coisa. Reza a via variando das ideias. A gravidez e o cangaço a estavam enlouquecendo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ventre, substantivo masculino que traz o feminino em si. Fertilidade. Perpetuação e abrigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ventre, interior profundo de onde se sai, feito para ser rompido.</p>
<p style="text-align: justify;">Nascer é sempre espantoso, o primeiro grande trauma de alguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixar o casulo e sair pela vida. É preciso coragem e um tanto de loucura, só assim é que se sai.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um livro de loucuras, de mulheres que ousaram sair. Este é um livro de ventres.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro das irmãs Rocha Brandão. Livro de Açucena e Catarina no ano de 1931.</p>
<p style="text-align: justify;">Ano em que se perceberam no ventre do mundo. Ano em que o romperam.</p>
<p style="text-align: justify;">Filhas de um coronel, vivenciam o final da adolescência no Crato, interior do Ceará. Quando Brígida, a irmã mais velha, tem seu casamento marcado com o turco Onur, temem que aquele destino também seja o delas.</p>
<p style="text-align: justify;">Decidem, então, romper o ventre onde estavam para nascerem em outro lugar. Esse lugar seria o Rio de Janeiro, paisagem estampada no postal deixado por Tio Antero, tio que também havia ousado sair pelo mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Partiram já com um rumo certo, como um rio que corre sempre para o mar.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns rios, no entanto, se deparam com veredas em seus cursos.</p>
<p style="text-align: justify;">Cerca de 2.000 km separam o Crato do Rio de Janeiro, e no meio do caminho muitos desvios podem surgir. Com um imprevisto, no entanto, elas não poderiam contar: a separação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao serem separadas, os pés tiveram que traçar novas rotas, contadas nas páginas deste livro.</p>
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		<title>Escuro como leite</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jul 2024 23:19:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um redemoinho, qual é a diferença entre o sonho e a realidade? Antônio é um leiteiro do interior do Rio Grande do Sul, que nunca se permitiu sonhar. Sebá, músico, é um idealista cuja realidade o fez ajoelhar. Por vezes, o real é tão real que parece um devaneio. Este romance conta a história de vidas cotidianas, de mulheres e homens em busca de identidade e de crianças sem infância. Brasil, 1954 — o ano que mudou os rumos desses seres sem voz.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O escritor israelense Amós Oz disse, certa vez, que os romancistas são pessoas que vivem com a cabeça voltada para trás. Oz não quis dizer que escritores são nostálgicos ou ultrapassados, apenas entendem que o passado tem muito a nos ensinar sobre o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">            Em <em>Escuro como leite</em>, Marcelo Coelho da Silva constrói a sua narrativa nos tempos de Getúlio Vargas, levando a história ao seu ápice quando do suicídio do presidente. Assim, acompanhamos a vida do músico Sebá e de Antônio, seu amigo, separados pelo mesmo destino que os uniu. A história de Porto Alegre e da revolta popular sucedida após o suicídio de Getúlio abre as páginas para a segunda parte deste romance sobre amizade, coragem e injustiça. Marcelo não pode refazer o passado; mas, inflando-o com o sopro da sua ficção, nos oferece um passeio pelo tempo, um mergulho nos porões do tenebroso Cadeião, uma viagem que consegue ser pungente, delicada e triste ao mesmo tempo.</p>
<p><strong>Leticia Wierzchowski</strong> (escritora e roteirista)</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ascensão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jul 2024 22:54:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(...) Eu desisto. Tudo aponta para a minha insanidade. Todos me chamam de louco. Não quero mais saber se a minha mente está certa ou não. Se ela inventou tudo ou não. Que eles me tranquem. Ou que me dopem. Que façam o que quiserem. Eu não vou mais lutar. Estou cansado. Passei a vida tentando convencer o mundo da minha sanidade. Tentando convencer minha família que eu não era possuído. Eu não consegui. Nem conseguirei. Eu desisto. Ficarei com o que restou de Darla na minha memória. Isso bastará.</p>
<p style="text-align: justify;">— Dr. Evandro, faz a carta de confissão que você quiser. Você escreve, o delegado escreve, tanto faz. Eu nem quero nem saber o que vão escrever. Eu assino se vocês me trancarem num hospício para sempre. Eu não consigo saber se eu fiz o que vocês estão falando. Nem me importo mais. Só não quero correr o risco de machucar mais ninguém.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Posso aproveitar o título da obra, certeiramente dado pelo Bruno, para dizer que ele é um escritor em ‘Ascensão’. Desses raros que aparecem por aí.”</p>
<p style="text-align: justify;">Marcelino Freire, vencedor do Prêmio Jabuti</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em> </em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>A</em></strong><strong><em>scensão</em></strong> é um thriller ficcional que nasceu de um convite do premiado autor Marcelino Freire. Ele ofereceu a ideia e seu acompanhamento em toda a escrita do livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Miguel é um médium desacreditado, prestes a ser despejado. Quando não espera por mais nada da vida, recebe uma missão: guiar o espírito de Darla Abranches, uma adolescente suicida, em sua ascensão.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não quer aceitar. Não está a fim de ajudar ninguém. Nem vivo, nem morto. Só que é sempre fácil arrancar uns trocados da família de um defunto. Com sorte, em uma tarde, consegue descolar dinheiro para inteirar o aluguel.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nada é simples na sua vida. Darla, além de uma criatura mimada e teimosa, não se lembra do seu último dia de vida. Ela não vai embora até provar que não se matou. Enquanto isso, está decidida a atormentar a vida do guia até o seu último dia sobre a terra.</p>
<p style="text-align: justify;">Miguel, gostando ou não dessa investigação sem sentido, vai ajudar. E, no florescimento de uma amizade improvável, eles se jogam de cabeça na remota possibilidade de uma morte acidental.</p>
<p style="text-align: justify;">Queiram os dois ou não, o prazo está correndo. Darla tem apenas cinco dias para ascender. Ou ficará presa para sempre.</p>
<p>Bruno Crispim</p>
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		<title>Coisa nenhuma</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/coisa-nenhuma</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jul 2024 14:20:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Coisa Nenhuma é um livro de contos sobre perdas: perda de vergonha, perda de paciência, perda de confiança, perda de consciência; perda de alguém. Apesar ou por conta disso, é sobre uma vontade depois da perda. Qual vontade? A premiada autora pernambucana Micheliny Verunschk resume assim: “Coisa Nenhuma entrega a aventura de estar vivo”. E estar vivo é o desejo que vem depois da falta que a perda faz. Estar vivo é apenas estar, não precisa ter sentido nenhum, pode ser todas as coisas, assim como é coisa nenhuma.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Este é o labirinto de Creta</em>. Tomo de empréstimo os dois primeiros versos do poema de Jorge Luis Borges para falar de <em>Coisa Nenhuma</em>, primeiro livro de contos de Rodrigo Silveira. Ou, antes, para falar desse labirinto construído como armadilha e jogo no qual o leitor é emaranhado. E se se emaranha é porque também é fio, novelo, novela. Isso para dizer que, sob a pretensa forma da narrativa curta, é outra coisa que o Minotauro constrói. Ou, melhor dizendo, o autor. Corrigindo: a voz narrativa. Ou, antes, as múltiplas vozes que atravessam essas paredes, esses contos, esse organismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Há em <em>Coisa Nenhuma</em> uma proliferação sebaldiana de caminhos e sentidos e, talvez, por isso, hesito em definir este livro como um livro de contos pura e simplesmente. Porque, se por um lado me parece sê-lo, por outro extrapola os limites do gênero ao operar em uma lógica e (po)ética muito próprias, aquele fio de Ariadne que se estende em um caminho rizomático não apenas se apoderando de todos os espaços, mas também criando um espaço-outro, uma “terceira margem”. Como se cada narrativa fosse o eco da vizinha, e em um movimento de dobra e desdobra (um movimento desdobrável) vozes, paisagens, situações, percepções, personagens, peripécias, formassem um único corpo sonoro e vivo que, por sua vez, se permite também fragmentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis a beleza disso tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob o pretexto do livro de contos, <em>Coisa Nenhuma </em>entrega a aventura de estar vivo, e estar vivo é o zumbido contínuo que atravessa os pavilhões do ouvido, são as fotografias em seu embate pela melhor versão da verdade, a memória e suas armadilhas. E, em assim sendo, é preciso dizer também que este é um livro sobre a linguagem, sobre a costura aparente e o avesso dela. Nesse sentido (mais um), “Menor significado” é exemplar. O conto é um artefato: um personagem dentro de uma caixa de música, dentro de um sonho, dentro de uma máquina que joga xadrez. Um artefato construído para a linguagem e seus mecanismos, suas falhas e êxitos, para deixar à mostra os tendões e nervos do texto e de sua construção: o narrador que escolhe os lances, que manipula as peças e leva o leitor para onde quer, que se mistura à plateia tão logo faça um novo ajuste de lente, de foco. Um manual de escrita no qual os músicos correm para ocupar seus lugares mal se abre a tampa da caixa de música, muito embora a bailarina não saia do seu eixo.</p>
<p style="text-align: justify;">Poderia ao revés do que ensinam as regras para o bom texto qualificar aqui, com vários adjetivos, este <em>Coisa Nenhuma</em>, e cada um deles seria um chamariz, um letreiro luminoso na porta de um hotelzinho suspeito no meio do nada, o caleidoscópio formado pela luz que atravessa um copo de cerveja. Mas não farei isso. Ao contrário, direi apenas que a porta está aberta. <em>Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p><strong>Micheliny Verunschk </strong>é escritora.</p>
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		<title>Manual de sobrevivência na maternidade</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/manual-de-sobrevivencia-na-maternidade</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jul 2024 12:00:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[vida para além da maternidade
nossos filhos nos precisam
vivas e não perfeitas
<p style="text-align: justify;">Se falta tempo, falta energia, falta apoio, falta dinheiro, falta condições de raciocínio e autorregulação, se falta estrutura, por onde começar?</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">vida para além da maternidade<br />
nossos filhos nos precisam<br />
vivas e não perfeitas</p>
<p style="text-align: justify;">Se falta tempo, falta energia, falta apoio, falta dinheiro, falta condições de raciocínio e autorregulação, se falta estrutura, por onde começar?</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Uma proposta possível para se libertar do peso da culpa e construir<br />
uma vida para além da maternidade.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">O Manual traz instruções com ferramentas práticas para auxiliar na construção de uma vida para além da maternidade, sem o peso da culpa, além de um Manifesto da Mãe Possível, do Código de Ética da Mãe Possível, dentre outros materiais</p>
<p style="text-align: justify;">
Como identificar a romantização da maternidade? Como selecionar as culpas? Como organizar as falhas? Como repensar os afetos? O que fazer com as falhas que não te pertencem e sobre as quais você não tem nem estrutura, nem condições de agir? “Precisamos falhar com estratégia, criei o &#8220;Manual de Sobrevivência na Maternidade&#8221; para responder a essas perguntas, são cinco instruções com ferramentas práticas para auxiliar na construção de uma vida para além da maternidade, uma vida sem o peso da culpa.” Carolina Damião</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O mau selvagem</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-mau-selvagem</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Jun 2024 14:51:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A partir da teoria de Jean-Jacques Rousseau sobre o mito do bom selvagem, esta é a história de um imigrante brasileiro aspirante a escritor que trabalha numa livraria em Lisboa, onde passa a ouvir os relatos sobre os feitos de um antigo funcionário, conhecido apenas por Mau Selvagem. Uma misteriosa personalidade que se recusou a cumprir o cordial papel destinado ao imigrante de “bom selvagem”, sempre grato pelo “privilégio” em usufruir da companhia do antigo colonizador, e se transformou no Mau Selvagem redentor das humilhações sofridas pelos brasileiros da livraria, antes de desaparecer sem deixar vestígios. Obcecado em saber mais sobre o destino do personagem ideal para o romance que pretende escrever, o livreiro parte numa investigação do paradeiro do antigo funcionário, nos moldes dos livros policiais da seção onde trabalha, na jornada de um exilado de um Brasil constantemente assediado pela escuridão e o atraso, um estrangeiro num país nem sempre receptivo a pensamentos e sotaques diferentes, forçado a refletir sobre as tensões cada vez mais crescente entre os imigrantes e os locais. Um bom selvagem que, página a página, começa a se questionar se o Mau Selvagem não tinha lá as suas razões.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Cruzei-me com Álvaro Filho no espaço de entusiasmo pelos livros e pela escrita e reconheci nele essa atenção, essa escuta – atenção e escuta que são indispensáveis para quem quer escrever. É no ouvido e no zoom da observação que reside a potência de qualquer literatura e Álvaro Filho tem essa atenção e escuta indispensáveis para quem escreve e que Álvaro tem de forma evidente. Autor de cinco romances, Álvaro Filho circula como escritor entre o Brasil e Portugal com a mesma língua, uma circulação visível não apenas no seu trajeto na literatura e nos vários prémios literários, mas também, de modo ostensivo, neste novo livro, colocando a expectativa do leitor em movimento sobre a relação entre portugueses e brasileiros em Portugal, que muito se escreve nos jornais, mas não só: também na fraternidade que por vezes existe, mas também, por demasiadas vezes, conhece incompreensões e tensões. A leitura de O Mau Selvagem é, nestes tempos conturbados onde a questão da migração torna a ser central, sem dúvida, não apenas atual, mas indispensável.</p>
<p><strong>Gonçalo M. Tavares</strong></p>
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		<title>Os crânios de Júpiter</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jun 2024 14:15:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">José Pedro Carmacedo ou Carmaceno teve o infortúnio de ter os dedos das mãos amputados por necrose de extremidades quando no ápice da sua nova juventude, por volta dos duzentos e vinte e cinco anos. Vivia pelos picos e montanhas tibetanas, praticando seu novo hobby de escalador e de ficar drogado por hormônios e fluidos psicossomáticos. Nos anos em que habitou a Ásia, criava ovelhas, iaque e vendia chá de manteiga. Os seus queijos eram elogiados pelos locais que o receberam muito bem em todos esses anos de nova vida. Nesse momento, José Pedro Carmacedo ou Carmaceno já tinha passado pelos processos de nova juventude do Projeto Sêneca. Profeticamente, Sêneca escreveu: “Os elementos terrestres se dissolverão tudo será destruído para que tudo seja criado novamente em sua primeira inocência.”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A sociedade cria suas fábulas, ficcionais, inventa histórias, conflitos, mundos inteiros. O ponto de partida para o direito à literatura, segundo Antonio Candido (1918-2017), é a necessidade universal experimentada em todas as sociedades, das primitivas às mais avançadas. Na necessidade do homem de fabular. Assim, os contos presentes nos <em>Crânios de Júpiter</em>, prosa de Rob Ashtoffen, assumem um complemento da vida. O imaginário de uma cidade, de um bairro, de um planeta. De crânios com desejos. Um universo, de urbano e rural, repleto de jeitos e gestos, de linguagem, de misticismo, superstição, de semântica, sintática e sentido. Nos textos é ainda possível “gravar num disco voador” e lançar no espaço sideral, mas um tanto diferente da canção de Caetano Veloso, eternizada na voz de Gal Costa, a obra de Ashtoffen é um objeto identificado: literatura. Real e imagética. Fincada no seu tempo e espaço. Um mundo, muitas vezes, absurdo e misterioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais mundos podem ter pontes, prédios, estantes de memórias e carnes com jeito de animal e de gente. Em <em>Crânios de Júpiter</em> é assim. E também são criadas por cabeças, transformadas em personagens, que no futuro serão crânios, que é uma espécie de caixa preta óssea, protetora do encéfalo e morada dos órgãos da sensibilidade: visão, audição, olfato e a gustação [itens], para além dos vasos e nervos. Júpiter, o planeta, é observável a olho nu da terra, como é a nossa imaginação. Nesse sentido, deslocando a prosa em seu próprio eixo, poderia estar presente na obra de Rob Ashtoffen, como narrador, o singular Galileu Galilei, que, no início do século xvii, viu satélites naturais nunca antes possíveis. E perplexo, inclinou o dorso em seu telescópio e contou vinte e dois ossos, que caberiam nos corpos de conterrâneos, fornecendo passagens ao ar, oxigenando melodias, passos, imagens, movimentos, o paladar e a líbido. Deliciosos estados da alma. Geradores de impulsos [nervosos].</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Agudo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jun 2024 14:06:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando Branca Escobar se coloca em exercício de escrita, encontra mulheres que se contam, se querem mostrar de forma densa e íntima. Branca não sabe se são reais. Afinal, quem responde o que é real? Seria realidade a experiência do sensível? Tais mulheres não possuem corpo, mas possuem pedaços de pensamento, trazem paisagens, memórias próprias. Moram todas dentro de Branca? Ou a visitam? Ou Branca observa e discorre?

</p>
<p style="text-align: justify;">A autora entrega a cada uma um nome e um corpo tênue, fino, de papel, linhas de horizonte, alfabetos, mínimos signos. O corpo da escrita.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma mulher que observa mulheres. Uma mulher que escreve não apenas sobre elas, mas estando tão perto delas que muitas vezes sentimos que a escrita se dá no movimento, no fluxo permeável entre o dentro e o fora. Entre ser a pessoa sobre quem se conta e contar sobre quem não se é. Esse é o campo de sensibilidade, risco e coragem da narradora que nos traz um corpo de baile feminino e seus agudos, ora sussurrados ao pé do ouvido como um segredo íntimo revelado; ora como som estridente que estilhaça de uma vez tudo ao seu redor.</p>
<p style="text-align: justify;">Branca Escobar desafia a si mesma instalando sua escrita na zona de desconforto e nos conduz para dentro dela de forma tentadora. No silêncio de cada mulher &#8211; ou de cada personagem &#8211; existe um perigo alcançado por suas palavras que cortam. Recomendo a leitura desse caleidoscópio onde nos encontramos refletidas em muitos fragmentos de seus espelhos. E onde, ainda que com outros nomes, encontramos também a nós mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bianca Ramoneda</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Valsa com o diabo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jun 2024 12:48:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um livro de contos do assombro e do desequilíbrio. De pessoas que, por conta dos passos dados na vida, acabaram por chegar perto demais do abismo e se acostumaram a ele. De crianças traumatizadas a idosos perdidos em sua própria mente, cada trama encara uma angústia pessoal pela ótica subjetiva do aflito, perdendo-se nas garras ocultas do que se esconde dentro de todos e buscando alívio na própria tristeza.
São cinco contos que levam o divã da terapia para dentro do caos, encarando melhor como aquilo que causa a agonia se assenta sobre cada dissabor, até tomar conta de todo um indivíduo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As artes são um porto àqueles que sofrem na vastidão do mar de traumas e desesperos. A ela recorrem os loucos, os vadios, os sábios, as crianças, os pagãos, os ritualísticos. E dela saem frutos que, muitas vezes, servem de muletas e escape, para as dores de quem produz, ou reflexo e bálsamo, para quem se vê representado. <em>Valsa com o diabo</em> é para todos aqueles que sentiram cada abalo vivido se solidificando numa monstruosidade maior do que uma só pessoa pudesse suportar, que foram largando sua face real a fim de ajustar-se aos rostos ao redor ou que acabaram por adoecer depois de tanto caminhar junto à escuridão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Valsa com o diabo</em> foi escrito em meio a muitas crises depressivas e ansiosas entre os 21 e 24 anos do autor, depois engavetado para ver a luz do dia somente quando ele estava prestes a completar 30 anos de idade. Passado esse tempo, os textos tristes e desassossegados, como escritos por um velho, acabaram por ressaltar o limbo em que o ser humano pode chegar quando erra um passo na direção do abismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quem seria capaz de julgar o louco quando, ao olhar o próprio reflexo por um espelho distorcido, também enxerga de volta a figura recalcada que assombra seus passos, misturada às sombras e guardada num pote hermético na tentativa de, um dia, poder esquecê-la?</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Valsa com o diabo</em> é isso, como todo, reflexos de tormentos que emergiram da forma que puderam, cordas de segurança na tentativa de escapar do fosso e não mais buscar acostumar-se com o caos. É para todos aqueles que também passam ao lado do vale escuro, temendo cair e não poder mais se levantar, mas com medo de mudar de direção por crer que sua vida se perderia se, porventura, um dia a tormenta fosse embora, já que ela sempre esteve ali.</p>
<p style="text-align: justify;">São contos breves de pessoas envolvidas pelo temor da dúvida e pela constante presença do fim. Partindo de idosos envoltos com o anuviamento da própria história — em “Helena”, a criança que se adaptou à constância da morte, apesar de seus poucos dias passados nesta Terra — como em “A origem dos monstros”. O livro é um passeio pelo fundo da alma, onde se assenta o barro molde dos pesadelos, que tanto tentamos esquecer, mas que, vez ou outra, acaba por formar novas criações.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturando todas as suas vertentes artísticas em suas produções, Guilherme Massau é professor de Artes, quadrinista, artista visual, músico e escritor, ou está na intenção disso tudo, em meio às próprias danças com suas quimeras mentais.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Microtremores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jun 2024 12:39:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O temor é uma coisa assim silenciosa, quase sempre nascida de incertezas ridículas de tão imperceptíveis. Como o tumor, seu parente fonético, é de sua natureza crescer e se espalhar, arranhar e corroer, irradiar rachaduras sob a superfície até enfim se revelar terremoto, tsunami, erupção. Ele começa com uma dúvida que ecoa no mais íntimo dos mistérios empoeirados, das lembranças repassadas, das expectativas inquietas. Uma antiga culpa, a sensação de ser seguido, a a suspeita sobre o que se esconde para além das cercas.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Desde o primeiro momento em que lemos qualquer obra de Gabriel Yared, podemos perceber uma forte identidade e clareza no que está posto. Há um universo recheado de ideias, fusões, idealismo e utopia que partem dessa supermente.</p>
<p style="text-align: justify;">Gabriel, além de um exímio escritor, é também um autor que escreve com verdade, sem medo e sem pré-julgamentos. <em>Microtremores</em>, além de ser instigante, curioso, reflexivo e até mesmo divertido, nos transporta a um universo que é único, que tem identidade, originalidade e territorialidade.</p>
<p style="text-align: justify;"> Tem-se a revolta, o ódio, o medo, a tristeza, o desejo, o egoísmo, a excitação e a surpresa ao se ler cada desfecho dos contos. Há algumas histórias “leves”, para “descontrair”, mas que não são nada convencionais. Há também os contos mais densos, que nos deixam com frio na barriga e ansiosos para entender o que realmente aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Microtremores</em> fala de exploração e abusos, mas de forma suave, sem tom militante, com pontos bem alinhavados e que nos fazem refletir. Gabriel Yared foge do óbvio, ou até mesmo do que seria apenas um simples microtremor genérico que no dia seguinte esqueceríamos.</p>
<p style="text-align: justify;">É um livro para termos na estante e presentear os amigos, familiares e leitores de histórias originais de terror/suspense. É um <em>neo-noir. </em>São essas características, junto da convincente personalidade de cada personagem, que nos levam para uma viagem <em>entremomentos</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um livro decidido e que entrega tremores das mais diversas formas por todo o nosso corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><strong>Natanael dObaluae</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Conversa com leões</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 May 2024 19:13:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Todos morreram. É preciso disso tudo porque não deveríamos continuar, dar o passo no escuro. Pular no imprevisível que, obviamente, também já foi santificado pelos corajosos com mil olhos. Mas alguém, às vezes, precisa cometer o crime.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após mais de dez anos de seu lançamento, a republicação — e a remixagem — de <em>Conversa com leões</em> celebra a trajetória de um dos escritores mais prolíficos de sua geração, enveredada com igual ímpeto na poesia e na prosa de ficção, na melhor tradição bolañesca. Este volume de contos que marcou a estreia, em 2012, de Leonardo Marona na prosa, que já então contava com dois livros de poemas publicados, se reapresenta agora em versão <em>remix</em>: muitos cortes e três contos escritos ao longo da década incluídos.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto livro de estreia na narrativa e revisitado na perspectiva de um percurso que já soma mais de dez livros publicados, deparamos, nestas <em>conversas</em>, com a vertiginosa viagem iniciática do escritor. São conversas com uma tradição visionária, romântica, boêmia e rebelde, mas também conversas com o imaginário das grandes metrópoles brasileiras, seus afluentes de miséria humana e insuspeitada beleza, desaguando em bares, sarjetas e covis solitários.</p>
<p style="text-align: justify;">Nestes contos, somos frequentemente solicitados por uma voz e um olhar dos quais não podemos mais desviar, como o de alguém que nos segura firme sobre o cotovelo e, com uma mirada angustiada, mas também solene, nos pede a bebida que não negaremos e se prepara para confessar um crime. É talvez nas narrativas em primeira pessoa nas quais seja mais evidente a capacidade do autor de criar uma linguagem poética específica para essas vozes em situações insólitas ou desesperadas. Um tom específico para cada visão e cada loucura.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o melhor da poesia de Marona fulgura também em sua narrativa, numa liberdade imaginativa diferente da dos poemas. O leitor de ouvido sensível destacará com frequência frases de uma pungência familiar a dos versos, mas que derivam para outros registros, descobrindo um frasista notável.</p>
<p style="text-align: justify;">Além da aventura de iniciação e da polifonia poética, <em>Conversa com leões</em> também nos traz um testemunho, numa talvez insuspeitada potência de arquivo. A abordagem da desilusão e frenesi urbanos passa, nos contos, por algumas capitais brasileiras e nos traz a inevitável sensação de que <em>isto poderia acontecer em qualquer grande cidade</em>. E, no entanto, não em qualquer época. São os estranhos anos 2000 que dali nos encaram, com sua loucura e desesperada beleza. A última melancolia ainda livre do domínio de redes e dispositivos, cada vez mais singular à medida que nos distanciamos, rápidos, como quem lança um último olhar a um rosto curioso numa estação enquanto o metrô arranca. Imagens que, sem a literatura, permanecem apenas fantasmas entrevistos em lampejos fugazes e em seguida esquecidos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Aderaldo Souza</strong></p>
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		<title>Câmera escura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 May 2024 13:18:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Câmera escura</em> nos transporta para territórios longínquos e para um tempo que, ao mesmo tempo em que é tempo, é o tempo de agora. A qualquer momento você pode despertar e entender que o agora pode estar sendo um sonho. O sonho de quem passou e navegou por aqueles mares e achou que nunca mais sentiria o frescor da brisa, a alma leve o lídimo da vida. <em>Câmera escura</em> nos traz mulheres sonhadoras e atravessadoras de mares e de marés. Narrativa que, além de atravessar e dilacerar, preenche e conforta. “O oceano de nossa aprofundável intimidade compartilha coisas de que as palavras não dão conta”. Permaneci por minutos nessa frase entendendo que é esse corpo-meu que também conta e narra esse corpo que atravessou o tempo. Como podemos ser sonhos e duras realidades no mesmo instante? Marco, o autor, nos presenteia com uma literatura que nos desloca para o mar manso e furioso. Conectando luz, sagrado e sombras. Seguimos com o objetivo de sempre preencher a capacidade de amar, A-mar porque sabemos que Há Mar.</p>
<strong>Tati Villela</strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">De quem é a voz que faz transbordar o coração de Muana? De onde vem o chamado, o sussurrar feminino, tão íntimo e certo, que a compele a deixar para trás suas obrigações e promessas? Se bem que a jovem Muana de Issambu nunca quis passar seus dias moldando o barro ou entalhando a madeira… Não lhe interessava virar paneleira, conhecida por seu ofício na feira de Chioua como sua mãe. Gostava era de ver as pedras dos matagais de Tchizo se diluindo em tintas com que arriscava desenhos. Gostava de se experimentar artista, brincando com cores e sombras. E de espiar o mar, à espera do pai, que lhe traria histórias de pescador, o melhor da região. De pequena, Muana tinha vontade de cortar um pedaço daquele mar para carregar consigo. Seria, então, do mar a voz que ela ouvia? Da divindade-mulher que habita suas águas? Seja como for, é essa voz-guia que levará rumo a seu destino, atravessado pela extrema maldade e crueldade da escravidão. Ler “Câmera Escura” é embarcar numa jornada que cruza a kalunga grande, esse mar que tudo vê, do lugar que se convencionou chamar de Cabinda, na África, às paragens de Nova Orleans, passando pelo Brasil e pelo Haiti. Nessa aventura, não é apenas Muana, tornada Francisca em seu nome morto de batismo português, quem nos revela o fluir da narrativa. Marco Aurélio nos brinda com uma prosa que alterna a primeira e a segunda pessoa, construída com requintes de adaptação ao que cada região e fase da vida da personagem principal exige. E é essa segunda pessoa – a voz, tão essencial, tão próxima – que estabelece um diálogo com Muana sempre que uma profunda mudança está por ocorrer. Fica o mistério de quem seria, para a delícia de quem lê, enquanto o autor contextualiza sua obra com personalidades importantíssimas da história e cultura negras, sem didatismos forçados. Aprendemos: desde o momento em que Muana se vê impedida de tornar-se mulher em sua própria comunidade até os reencontros com prazeres do corpo e da mente, como pessoa escravizada, fugida, embranquecida e, enfim, alforriada. Enquanto isso, vemos discutidos temas como os papeis de gênero, a passabilidade e o testemunho histórico em todos os seus formatos – das oralituras ao registro cinematográfico. “No fim, nossas retinas são nosso melhor dispositivo”, como nos diz Marcos. Fica o convite para desvendar os mistérios das vozes que conversam conosco entre os movimentos corriqueiros do dia a dia…</p>
<p><strong>Sabine Mendes Moura</strong></p>
<p><strong>Escritora, roteirista e diretora da Editora Nua.</strong></p>
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		<item>
		<title>A estátua de Sal de Sodoma</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 May 2024 13:00:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Na superfície, A estátua de sal de Sodoma parece ser um romance sobre a vida de um crítico e professor de teatro, o fim de seu casamento e uma nova paixão. A complexa engenharia literária proposta por Alberto Guzik, contudo, fará o leitor descobrir camadas narrativas profundas em suas entrelinhas.

<span style="color: #ff0000;">**Edição em parceria com o selo Lucias.</span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[Na superfície, A estátua de sal de Sodoma parece ser um romance sobre a vida de um crítico e professor de teatro, o fim de seu casamento e uma nova paixão. A complexa engenharia literária proposta por Alberto Guzik, contudo, fará o leitor descobrir camadas narrativas profundas em suas entrelinhas.

<span style="color: #ff0000;">**Edição em parceria com o selo Lucias.</span>]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Aquarela</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/aquarela</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 May 2024 16:25:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Que cor tem o amor para você?
Eu estou casada. Mas estou sozinha. Estou casada com o homem que escolhi e que me escolheu. A gente se entende. Estou sozinha porque tenho meu tempo, e ele o dele. Respeitamos a individualidade um do outro. Estamos sempre juntos. E estamos sempre separados também. E, mesmo separados, juntos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando você utiliza aquarela para pintar, percebe que as cores se misturam e ganham vida. A água faz com que elas mudem o tempo todo. É difícil saber qual será o resultado. Assim como na vida… Ninguém sabe o que irá acontecer.</p>
<p style="text-align: justify;">O que traz ou retira as cores da nossa história? Tem dias que ficam meio sem brilho ou cinza, outros que são um arco-íris inteirinho.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro <em>Aquarela</em> percorre os diferentes tons dos sentimentos humanos: o amor, o medo, a saudade, a esperança, o pecado e por aí vai.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentes personagens, que estão nos contos do livro, trazem histórias para refletir, se emocionar e se identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Diariamente, tentamos mostrar só cores belas e iluminadas, mas a verdade é que todos temos dentro da gente tantos pigmentos quanto é possível imaginar. E a tintura e beleza da vida é justamente essa. É importante conhecermos os diferentes tons que percorrem nossas veias. Quem realmente somos. Sem disfarce. Somos todos luz e sombra.</p>
<p style="text-align: justify;">“O melhor de mim tornaria você possível hoje, com certeza. Mas será que conseguiria tocar meu pior?”</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Papuã: todos os nossos agoras</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/papua-todos-os-nossos-agoras</link>
					<comments>https://editoraurutau.com/titulo/papua-todos-os-nossos-agoras#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 May 2024 17:30:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Papuã é um lugarejo remoto no Oeste de Santa Catarina, território marcado pelas imigrações europeias, pela transformação do modo de vida rural em nome de um ideal de progresso e pelo silenciamento de suas populações tradicionais, vítimas de um dos conflitos mais violentos e menos conhecidos da História do Brasil, a Guerra do Contestado. Em quinze narrativas, vozes de uma mesma família escavam camadas do tempo e oferecem um prisma de suas personalidades e relações a partir desse ponto geográfico: marcador de sonhos, mistérios, tragédias, destinos e responsabilidades que pertencem a todos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Território e descendência marcam <em>Papuã: todos os nossos agoras</em>, de Janaína Perotto. As narrativas são inspiradas em acontecimentos vividos ou entreouvidos no seio ítalo-brasileiro da família paterna, radicada nas profundezas do Oeste de Santa Catarina. Esse cenário protagoniza a dinâmica de uma comunidade na fala de personagens ligados por parentesco. Suas inquietações, porém, não são ficção, e se fazem vivas, ainda hoje, na região submetida ao apagamento do passado, ao destruidor avanço do agronegócio, à persistente precariedade dos povos originários — herdeiros caboclos vitimados pela presença imposta dos imigrantes de pele branca.</p>
<p style="text-align: justify;">A Guerra do Contestado, findada em 1916 com um saldo de morte de milhares, percorre lembranças de violência e perda, mas segue estrategicamente abafada pelos negociantes do capital. Os rastros desse conflito se espalham por histórias atualizadas aos tempos de hoje: a ambição agrária disputa o pedaço rural dos povoados, e o explora até alcançar a miséria ambiental e social do entorno.</p>
<p style="text-align: justify;">Tocada pela obra de Natalia Ginzburg, escritora italiana celebrada por sua habilidade em unir vivências íntimas e cotidianas à grande dimensão histórica, Janaína tem a versatilidade de poucos, consegue dar a cada voz seu próprio tom; gerações distintas surgem nas páginas desta obra com peculiar maneira de se expressar. As rememorações da escritora, sua vivência na roça dos avós e tios, suas observações enquanto crescia, contribuem com repertório real às narrativas criadas para dar, enfim, visibilidade a uma parte do Brasil escondida sob o estereótipo do progresso e alegria sulistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Como uma conhecedora da contista, sei que, apesar das experiências próprias no Papuã, ela também se valeu de muita pesquisa. O resultado não só é verossímil, como belo, pois a palavra vinda em dialeto e a investigação histórica trazem mais verdade ao texto.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais um grande livro, com tema imprescindível, para nos abastecer de análise crítica, humanidade e encantamento pela escrita.</p>
<p><strong>Dani Costa Russo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Pária amada, Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 May 2024 15:53:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[No concerto das nações, o Brasil é um dos que não tem conserto.

O Brasil nunca foi comunista, mas está há mais tempo no vermelho que a China.

O Brasil não passa de uma ilusão de ética.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>O Brasil não cabe em uma frase. Mas, em 99, ficou nota 100. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Meu nome é Brasil, mas pode me chamar de &#8220;o país do futuro&#8221;. A propósito, o meu futuro acabou de ser adiado para a próxima década, novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou aqui, com meus <strong>8.514.876 km²,</strong> para apresentar este livro que fala sobre mim — e um bocadinho sobre Portugal — através de aforismos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Pária amada, Brasil</em> é uma coleção de observações tão afiadas que poderiam cortar ao meio a cabeça dura de uma tia do <em>zap</em>. Nele, você encontrará verdades que são ditas em voz baixa por aí, mas que agora, enfim, estão impressas para todo mundo ler. E, se não doer, até gargalhar durante a leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro é um espelho que reflete não apenas o que somos, mas também o que poderíamos ser, se não estivéssemos tão ocupados discutindo o futebol e a terminologia correta a ser usada nos banheiros públicos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Pária amada, Brasil</em> sou eu de B a L. Discute desde a política — essa arte performática que praticamos com o entusiasmo de uma micareta fora de época — até os nossos planos econômicos, que são mais furados do que as explicações de por que ainda não sou uma potência mundial.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada ficou de fora destas páginas. Exceto o autor, Carlos Castelo. Por nunca ser chamado para <em>lives</em> ou cursos de escrita criativa, como vingança, acabou adotando uma persona misantropa. Mas, em havendo cachê, Castelo costuma ser mais flexível, chegando mesmo a fazer performances de <em>kuduro </em>em festas de debutantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto importante sobre <em>Pária amada, Brasil</em>. Não se preocupe, não é necessário entender de economia para lê-lo — até porque, se entendêssemos, talvez eu não estivesse nesse miserê todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas vejamos pelo lado bom, pelo menos possuo praias lindíssimas para os brasileiros visitarem enquanto decidem quem será o próximo messias a me salvar das mãos da esquerda, centro ou direita — dependendo do valor do dólar à época da eleição presidencial.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, se você quer rir um pouco da tragicomédia tropical que é viver em minha companhia, ou se simplesmente precisa de algo para ocupar o tempo enquanto me espera pegar no tranco, aqui está a obra perfeita para você. Afinal, arriscando criar um aforismo bem cabotino sobre mim mesmo: &#8220;No Brasil, até o passado é incerto&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Brasil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">é um país da América do Sul, lindo, trigueiro, terra de samba e pandeiro</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A poeta &#038; outros eus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 May 2024 14:53:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Abstêmios de nicotina, punks boêmios, bares pichados, policiais em luto, crianças alopradas, mulheres em relacionamentos abusivos, poetas sem talento e pinturas assombradas são figuras comuns para quem vive o dia a dia na cidade de Curitiba. E são essas figuras que o autor João Alexandre retrata nos contos de seu livro de es
treia. Em um estilo de prosa coloquial e com comentários secos e nada respeitosos narrados em primeira pessoa, as histórias de <em>A Poeta &#38; Outros Eus</em> trazem sentimentos que oscilam entre o riso e o nojo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>HISTÓRIAS PARA LER NA PRIVADA</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu romance <em>A Insustentável Leveza do Ser, </em>Milan Kundera descreve o kitsch (a anti-arte) como “a negação absoluta da merda”. Em <em>A Poeta &amp; Outros Eus,</em> João Alexandre faz a negação absoluta do kitsch.</p>
<p style="text-align: justify;">Escatologia, vícios, impulsos sexuais e o desprezo pelas banalidades humanas são alguns dos temas presentes nos sete contos — todos narrados em primeira pessoa e com a cidade de Curitiba como palco — que compõem este livro.</p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro conto, <em>Algum Boteco do Largo</em>, encontramos o narrador-personagem Pedro Paulo destilando uma crítica raivosa ao que consideramos como poesia contemporânea e que funciona como uma introdução do que o leitor não irá encontrar nas páginas deste livro. Este mesmo personagem retorna no último conto, <em>A Poeta,</em> e traz as mesmas reflexões do começo, mas desta vez a crítica é mais pontual e crua, tratando sobretudo de um poeta à procura do próprio lirismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Ministério da Saúde</em>, o autor faz um (infelizmente nada caricato) retrato de um típico “cidadão de bem” curitibano. A conclusão nos permite lembrar que, na verdade, esses ditos “cidadãos” não passam de uma piada.</p>
<p style="text-align: justify;">Já em <em>Carolzinha </em>nos deparamos com um típico relato de traquinagens infantis, mas que tem como pano de fundo uma época em que as mídias analógicas (principalmente as publicações impressas) determinavam o consumo cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">A prosa em primeira pessoa é muito bem explorada no conto <em>Química, </em>onde a hipocrisia machista do narrador é confessada somente ao leitor, mas cirurgicamente omitida das ações que ele toma para com o seu interesse romântico — romântico não, apenas carnal. Algo semelhante acontece em <em>A Cabo, </em>que mostra um constrangedor diálogo entre um coveiro maconheiro e uma policial militar sobre as consequências da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe destacar aqui também a narrativa misteriosa e sobrenatural de <em>O Retrato de João Gilberto</em>, em que aquilo que a princípio parecia ser um deboche termina como uma ode à vida e ao legado da magia que foi a obra do “pai da bossa-nova, do inventor do violão&#8230;”</p>
<p style="text-align: justify;">A linguagem de baixo calão e 100% politicamente incorreta é diluída em uma prosa direta e cínica, mas dotada de um ritmo tão frenético e envolvente quanto o de um baterista de jazz. Ao se deparar com a primeira frase deste livro, o leitor só conseguirá terminar quando chegar ao ponto final do último conto.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A Poeta &amp; Outros Eus </em>é a negação absoluta do kitsch e, só por isso, já seria argumento suficiente para manter um exemplar na sua biblioteca ou, como o próprio autor sugere, ao lado da sua privada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>J.J. Jaime, jornalista</strong></p>
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		<title>Ação de animais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 May 2024 14:45:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Ação de animais</em> é uma prosa em fragmentos com relatos daquilo que vê e vive um sujeito em deriva e constantes encontros e desencontros em aeroportos, bares, pousadas e festivais. Com amigos e desconhecidos, o protagonista passa por situações banais e experiências infamiliares em lugares como Salvador, Vitória, São Paulo, Lençóis, Montevidéu, uma cidadezinha de fronteira ou uma província chinesa, sempre às voltas com livros, mapas, obras de arte, bichos, máquinas estranhas e gente ameaçadora. Definição possível de <em>Ação de animais</em>: diário de viagens que projeta imagens do absurdo contemporâneo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Ação de animais</em> anota, com um estilo afiado e justo feito um relógio, aquilo que escuridão após escuridão é entregue à percepção quando as cortinas e os olhos se fecham. No entanto, ler precipitados de sonhos alheios, fora de um <em>setting </em>psicanalítico, pode ser uma tarefa ingrata e traiçoeira. O aspecto prosaico do texto esconde palavras empanzinadas de sentido. Assim, buscar em uma sequência de relatos de sonhos apenas o entretenimento da prosa de ficção realista do século xix, que estes relatos de fato são capazes de proporcionar, pode ocasionar alguma frustração; por outro lado, buscar nesta mesma sequência nada mais do que um comentário sobre a conjuntura social e política de seu tempo tampouco é a cura para todos os males. O que fazer então de um livro tão pouco usual como este <em>Ação de animais</em> e, antes de mais nada, por que levá-lo consigo para a vida?</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que sempre haverá alguém para dizer que não, todos queremos saber de nossos semelhantes e diferentes. Ao revelar seus dias filtrados por suas noites — inclusive quando elas irrompem à luz do sol numa sesta vespertina —, como um fotógrafo reencontrando a memória da luz na penumbra do laboratório, Wladimir Cazé nos permite entrar em contato com o íntimo desconhecido, um sujeito que não necessariamente é subjetivo, mas feito aos pedaços, graças aos quais reconheceremos alguns dos fragmentos de nosso próprio espelho-mosaico, até então indiferentes a olho nu. Pois trabalhar sobre os enigmáticos restos e rastros dos dias e noites, que constitui uma das mais ousadas experiências jamais realizadas e aponta para a origem da aventura humana, promete levar longe, para além do princípio da identidade e da não contradição.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, quem estiver disposto a encarar o desconhecido em uma caravana de <em>Animais em ação</em>, ao voltar para casa, poderá encontrar-se com o tesouro que ignorava estar ali em sua própria cama.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Natan Schäfer</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Monstera deliciosa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Apr 2024 17:09:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Escute que isso é importante: o Jardim do Éden, o Paraíso, a Terra sem Males, Yvy Marã Ey, na verdade era ali para cima. Os bíblicos rios Tigre e Eufrates são o Tocantins e o São Francisco. Isso mesmo. Os outros dois: Pison e Gion não estavam na Mesopotâmia como se acreditava, mas aqui mesmo, em Terra Brasilis. E digo mais: Adão era brasileiro e indígena. “Adom” é a palavra para vermelho em hebraico: a cor de sua pele. E Eva não provou uma maçã, descascou uma banana.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Cuidado: aqui o tempo existe com outra espessura. Um poeta romano anuncia: “<em>Sed fugit interea fugit irreparabile tempus</em>” (“Ele foge, irreversivelmente o tempo foge)”.</p>
<p style="text-align: justify;">Felipe Canêdo nos conduz nessa fuga, assimilando bem suas características de peripolância exúruca, atravessada pela plurivetoriedade, pelo imprevisto e pelo improviso.</p>
<p style="text-align: justify;">Bamboleando pelos meses nesta espiralar que de caótica talvez só tenha a afinidade da prosa, desdobra-se organicamente também o território pindorâmico, aqui onde galáxias se misturam. O autor emociona com seu amor despudorado pela terra Brasilis, tecendo também a imagem de paisagens muito mais que descritivas: afetivamente táteis. Sente-se habitante do mundo sem nunca perder a mineiridade que, ainda que lhe pareça não conseguir galgar além das montanhas, faz brotar preciosidades das encruzilhadas. Tudo encadeia movimento, fazendo jus à Boca do Universo.</p>
<p style="text-align: justify;"> “O mundo traça retas enquanto nosso protagonista gira em torno de seu próprio eixo em uma velocidade constante.” Será?</p>
<p style="text-align: justify;">Joba atravessou temporalidades, oscilando sensações a cada escolha, a cada encontro, a cada lembrança. Como tudo aquilo ‘bonito e absurdo’ do qual fala o autor, a jornada do nosso herói de si mantém coerência fiel com a origem de seus passos e o significado de seu nome: Barravento. Convite à dança pelos ares, pedra atirada — palavra em ponto de bala.</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Monstera deliciosa”, </em>o nome da planta e também do livro alinham-se em trocadilho metalinguístico perfeito: o livro é um deleite de se ler. Daqueles causos de aventuras emendadas que rendem horas de prosa com um cafezinho na sala ou um copo na mesa de bar, agita e sereneia em proporções harmônicas, convida quem lê não apenas ao contemplativo, mas também ao movimento. Pede para a gente olhar o mundo a torto e a direito, sentindo, vendo, fazendo. Da escrita ao enredo, cativa pelo anseio do mais puro sentimento — liberdade. A quem caminhar o olhar por estas páginas, além do aviso, a celebração: benditos os ventos que proporcionaram este encontro, e que o resultado cumpra a aposta de alcance do espaço mais alto, a monstruosidade deliciosa do inesperado.</p>
<p><strong>Lara de Paula Passos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cotidiano arde e o resto é silêncio</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/cotidiano-arde-e-o-resto-e-silencio</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Apr 2024 13:35:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Desbunde desnudo, concessão ordinária, quebra-cabeça contraditório, segredo público, confissão libidinosa, pecado capital, salto no acaso, pulo do gato, colcha de retalho, raciocínio fragmentado, estreia de algo, vestido dourado, cabelo cortado, corpo alterado, fantasiosa pureza, desejo ardendo sem fim.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ler Rebeca Ribeiro Lima é ter um bilhete só de ida nas mãos, é perder e achar o amor no curso de um parágrafo, ouvir o cheiro doce das canções tocadas às cinco da tarde, uma saída de emergência para domingos chatos ou caóticos. É também um bilhete de volta para casa, cama macia, moletom velho, cheiro de café passado no coador de pano, a poltrona favorita e o pôr do sol alaranjado na janela. É um bilhete bem dobrado achado em um livro antigo de Clarice, que fala que o tempo não existe (o livro ou o bilhete?), vai ter que ler para descobrir. Se acomode e embarque nas palavras de Rebeca ao som do silêncio e do palito de fósforo que acabou de ser riscado espalhando a fumaça no ar da noite e incendiando o mundo inteiro por dentro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Larissa Brasil</p>
<p>Escritora nas horas cheias</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Enterro das rãs</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Apr 2024 13:38:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Havia passado um dia péssimo. Não pregou o olho na noite anterior e só conseguiu pensar na sua própria morte, na morte de todos os que conhecia, no fim de todas as coisas que existem. Apesar de exausto, não podia evitar, não conseguia controlar. Não se lembrava do que aconteceu na escola, no almoço, na tarde que passou em casa. Era fim de tarde, começo de noite.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Enterro das Rãs</em>, a memória não é a construção do espaço/tempo alicerçados na nostalgia de seus personagens e narradores, mas sim elemento central da constituição de uma jornada de amadurecimento e desencanto.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir de uma tragédia, um atropelamento na Anchieta, acompanhamos dois olhares: o de Murilo, sua relação com os amigos, suas peripécias, seu assombro com a realidade que o rodeia, a tentativa de se localizar dentro de um mundo em que tudo ao redor está prestes a se desmanchar; e o do narrador Filipe, um dos amigos de Murilo, que perambula por uma narrativa em que o próprio tempo se quebra e o mundo perdido encontra-se no espaço um tanto intangível pela memória e pela escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">O que Filipe Bonita nos apresenta, então, é um romance híbrido: ao mesmo tempo em que recupera uma São Bernardo do Campo dos anos 1990 cortada por uma rodovia em que rodas e pneus “empurram o tempo para trás”, estabelece a metalinguagem como reflexão sobre o poder e os limites da ficção.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficção esta que se demonstra consciente do seu tempo, de seus temas e de sua forma, já que perguntas milenares sobre a natureza do real e do literário se fundem com a própria edificação do narrar, ou seja, por mais que o contemporâneo se apresente fragmentado e fugaz, a Literatura aqui é resposta ao efêmero e ao mundo desencantado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se “os anos 1990 pareciam ter sido em outra vida”, é essa outra vida que a ficção de Filipe Bonita tem como foco. E o leitor, portanto, ao se deparar com esta obra, encontrará o que a Literatura faz de melhor: nos transporta para uma outra realidade a fim de potencializarmos nosso olhar sobre a nossa realidade própria.</p>
<p><strong>Reinaldo Melo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A tinta e o tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Apr 2024 13:21:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Meu pai continua, e seu monólogo é agradável, penso na obviedade das coisas que nós negamos, penso que deveria tê-lo escutado mais, tê-lo deixado discursar sem combatê-lo porque tudo isso é a necessidade que tem de ser compreendido e aceito pelo filho que tomou outro rumo, que escolheu outra vida, oposta à sua, talvez essa decisão lhe alfinete sutilmente a alma, e o que tem isso de diferente das minhas réplicas racionais e inteligentes, dos meus argumentos que sustento como se minha existência dependesse deles, como se minha aceitação dependesse da aceitação dos outros quanto à minha inteligência (...)”</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>A tinta e o tempo</em> conhecemos Vidal, jovem advogado aspirante a escritor. É um personagem complexo, sensível, com sentimentos de desilusão, tédio e melancolia que lembram o “mal do século” que assolava jovens autores românticos oitocentistas. Ele vaga entre o hedonismo e o vazio existencial enquanto divaga sobre suas inquietudes com sensações crepusculares que contrastam com a alegria dos bares, shows e praias que frequenta. O que a princípio parece um estado de alma vai ganhando contornos físicos, tomando seu corpo, ocupando sua mente. O senso de urgência esbarra na imobilidade e na inadequação, acentuando as contradições entre o ser e o querer ser. Os personagens deste livro são vívidos, verossímeis. Chegamos a achar que em algum momento de nossas vidas já havíamos conhecido alguém como o vaidoso Renzo, o sensível músico Caco e a solícita Clara, além do protagonista e suas idiossincrasias. Nós nos identificamos com Vidal e sua aflição por não dedicar mais tempo ao que importa na vida. E nos perguntamos, como ele mesmo faria: será que temos controle sobre isso?</p>
<p><strong>André Balaio</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Unicórnio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Apr 2024 14:36:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Começa aqui o Unicórnio.
Em que se conta a história do Unicórnio. Trata de uma Peça com o Número 985, que foi tratar de uma Empresa e dos trabalhos que lá realizou e das Peças que com ela trabalharam. Em que há cinquenta e cinco capítulos.

I.
Era uma vez uma criatura mágica chamada Empresa. E nenhuma outra criatura mágica ousava ser tão especial e majestosa como uma Empresa. Mas nem todas as Empresas eram iguais. Se algumas eram pequenas, outras eram tão grandes que esmagavam tudo por onde passavam.
(...)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma história que poderia ter sido a de qualquer pessoa, diga-se qualquer Peça, ou em qualquer reino, diga-se em qualquer cidade gentrificada. A tragédia cômica dos subempregos contemporâneos numa divertida adaptação formal entre o faz-de-conta e os autos vicentinos.<br />
Se começa com “Era uma vez&#8230;”, é apenas para trocar as voltas às leitoras mais esperançosas que se fiam na possibilidade heroica da Peça 985. Pobre Peça, pobres leitoras. Aliás, importa dizer que, em Unicórnio, a esperança é um recurso plástico — testada ao extremo, confundida, incitada, por vezes até ridicularizada pelo narrador omnipresente que, apesar do seu exímio compromisso com a verdade, vez ou outra deixa escapar lastros de um temperamento peculiar. Apesar disso, nos apresenta uma lista de personagens “devidamente hierarquizadas”, capítulos mais ou menos regulares, entre outras estratégias sádicas para nos convencer de que estamos perante um cenário banal. Mentira.<br />
Formalmente instigante, o livro se desdobra pela escrita inteligente, ritmada pela ironia subtil e estrategicamente presente em apontamentos cómicos. Apesar da verdade, não existem certezas. Mas há encantamento, tensão e, como já foi dito: esperança! De leitura imersiva, com momentos de zoom in/zoom out. Se fosse um quadro, certamente se pareceria muito a um Jardim das Delícias —<br />
onde há muito para ver, desde que se observe com paciência e proximidade.<br />
Um auto da precariedade laboral, com as suas coreografias de vaidade, nuances tóxicas, rotinas de bajulação e desespero e, claro, a melhor parte: os pequenos ímpetos das revoltas subalternas. Dito isso, é sobretudo um livro trágico — daqueles para morrer de rir.</p>
<p>_<br />
Até há pouco tempo Isabeli Santiago, autora deste texto, era uma Pecinha triste e cansada. Atualmente, mais próxima dos dois dígitos, sente-se uma quase-pessoa. Embora um pouco menos triste, está muito mais cansada.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>A camélia ainda não brotou</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Apr 2024 14:40:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As meninas gelaram. A irmã de vocês já foi castigada. Damião mostrou para ela o que acontece com quem se mistura com crioulos. Ele sabe bem dessas coisas. É o crioulo exemplar. A exceção à regra! Olhou para Damião. Damião, velho amigo. Disse se levantando. Eu estou muito cansado. Mostre para Gabriela e Olga o resultado de deixar a irmã se congregar com pretos!</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sempre tentei ser um poeta. Poeta é aquele que escreve poemas. Poemas, na forma padrão, são textos escritos a partir de versos. Poemas têm de ter poesia, se têm a pretensão de possuir qualidade mínima — eu tento, pelo menos. Poesia é um sentimento que eu, criador do texto, tento passar para você, interlocutor. Quase sempre as coisas saem das linhas férreas, e o trem se descabela, e o que para mim era felicidade para você pode soar tristeza. De toda forma, sempre tive preferência pela poesia, deixando de lado os rigores gramaticais de um poema. Talvez por isso sempre estou tentando ser poeta, mas acabo sendo <em>escrevedor </em>de poesia. A poesia está em tudo que é arte. Em um filme que faz chorar, em uma pintura que causa comichão, em um alimento que traz lembranças e cheiros nostálgicos. Não há soneto que chegue aos pés de um prato bem-feito! Este livro, que prefiro chamar de prosa do que de novela, já que é difícil explicar não se tratar de uma novela televisiva, e sim de um gênero literário pouco usual, busca poesia. Através de dois temas: a mineiridade e o amor. Temas que tento tratar de forma bastante. Minas foi construída a partir da exploração da mão de obra africana e da perseguição da população indígena. Os interiores permaneceram intocáveis porque foram segurados firmemente pelas mãos de coronéis opulentos e cruéis. Toda essa mística cria o cenário de florescimento para um amor, entre um homem negro e uma mulher branca. Um relacionamento difícil, que tem de superar barreiras raciais e sociais. Embora o Brasil já tenha passado pela abolição da escravatura, essa camélia que foi plantada pelos abolicionistas ainda não brotou! Este livro fala de tudo isso, e mais um pouco. É uma prosa de poeta, peço desculpas de antemão!</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os meandros do vale</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Apr 2024 13:35:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um cenário marcado pelo passado de dor e servidão, emerge uma história de esperança e busca por liberdade. <em>Os Meandros do Vale</em> narra a jornada de um grupo de negros escravizados que sonha com uma nova vida, um lugar onde possam existir plenamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ireti é quem nos conduz nessa trama, um jovem escravo que anseia por sua libertação. Sua sorte muda numa noite: entre festejos e revoltas lhe surge a oportunidade da fuga. Finalmente vislumbra uma vida para além dos grilhões da escravidão. Embrenhando-se nas voltas e curvas da vida, ele foge em direção ao quilombo do Saracura, um lugar de resistência cravado nos arredores do Vale do Anhangabaú.</p>
<p style="text-align: justify;">O que o destino lhe trará depois das curvas do rio?</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Os Meandros do Vale</em> não pretende ser um relato fidedigno dos muitos eventos que ao fim do século XIX sacudiram o Império. O romance também não pretende recriar em detalhes precisos, como uma pena de artista, a imagem das grandes figuras que povoam os imaginários, heróis que empunham espadas, proferem discursos e gestam os atos mais grandiloquentes e, quase sempre, hediondos. Se a história de outrora reluziu os nobres, dessa vez fazemos outra opção; narramos uma história de vultos, de corpos ausentes que de repente figuram no meio da sala, erguem a voz e somem, como se lá não houvessem estado, e dessa forma não sabemos ao certo o que se passou, e assim em parte dizemos, em parte negamos. Ora, o caminho da negação é também caminho de afirmação, o caminho do oposto — nada mais cabível para uma história sobre os avessos, sobre homens negados, pequenos, habituados às margens e aos meios-fios. Convenhamos, não fosse esse ato rebelde, onde mais seriam vistos? Se a eles sempre foi dado tão somente o apagamento, são os sem nome aos quais o tempo sempre sublimou e sobrescreveu.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhar atento, caro leitor, pois é ao fundo que se depositam os melhores traços e segredos das telas. <em>Os Meandros do Vale</em> é um amontoado de pigmentos vários, noutro tempo difusos, mas hoje reunidos para compor uma imagem, uma história. Ireti é a imagem maior deste romance, herói improvável como os eventos mais certos da vida.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>As putas escrevem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Mar 2024 23:41:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>AS PUTAS ESCREVEM</em></p>
<p style="text-align: justify;">Estava escrito na capa do livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Embaixo, o nome da autora, o meu.</p>
<p style="text-align: justify;">Hesitei muito para publicá-lo, mas eu tinha aquela urgência de reconhecimento. O muro da escola, o e-mail impresso e pendurado no quadrinho de cortiça me pareciam tímidos, insuficientes. Quando você é uma puta é preciso ter garantias, alardear o fato, inscrevê-lo em letras de imprensa na capa de um livro e associado ao seu nome, senão as pessoas podem usar isso contra você. Podem querer te trancar dentro de um grande armário, aquele onde eles colocam as putas e os viados e onde eu até gostava de me esconder quando criança pra minha mãe não me achar. Ficava lá entre os ternos de linho do meu pai, e feliz por caber toda lá dentro, era escuro, era quente, era gostoso, mas uma hora me dava vontade de sair.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As putas de Marcela cometem reincidentemente dois crimes do mais alto risco. O primeiro, amar. O segundo, escrever.</p>
<p style="text-align: justify;">São mulheres que amam muito: amam a visão vertiginosa de uma outra mulher sorvendo um drinque azul à beira da piscina, amam a delicadeza da velhice nos olhos do próprio avô, amam a metafísica das lesmas, amam homens que as odeiam, amam outras mulheres através de suas nucas, amam como se tivessem “nascido com uma tesoura entre os dedos” (assim observa uma das narradoras sobre seu objeto de amor). São mulheres que tomam para si o mundo, seja amando, seja roubando, matando ou escrevendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse amor-tesoura está presente na forma como elas picotam o mundo à sua volta e como o representam nos contos. Através desta observação quase pervertida, as narradoras veem em fragmentos de outros um universo inteiro e se alimentam disso, roubando para si o que viram. Olhar, ou pior, ver é a característica mais importante dos crimes que essas mulheres cometem. E, se a sua visão corta; a escrita, recorta.</p>
<p style="text-align: justify;">São narradoras que ousam desejar e, em alguns dos contos, essa ousadia as faz receber o título de putas, como ocorre com tantas mulheres. O que as conecta, o que as torna putas, não é a alcunha, mas o risco que correm ao quererem conhecer o próprio desejo. Optam pelo arriscadíssimo caminho do pensar livre, pelo menos para uma mulher. “Querer, essa coceira”, diz uma delas.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o escrever, presente no título, é uma ação que aparece em sua dimensão cinética. Numa contração quase espasmódica dos músculos da fala, as personagens de <em>As putas escrevem</em> falam a própria história através da voz que a autora as concede, ou seja, criam sua história ao falá-la. Aqui, portanto, a escrita não é apenas o exercício do escritor diante das letras, mas o jorro do pensamento criativo que responde ao olhar voraz das personagens diante do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Convido leitoras e leitores a penetrarem <em>As putas escrevem</em> como se olhassem escondidos pelo buraco obsceno da fechadura: com a visão, sim, mas com todos os outros sentidos engajados no ato pecaminoso da leitura.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Natália Zuccala</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Contos de amor, desamor, drama e tragédia no Rio de Janeiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Mar 2024 21:09:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após o primeiro dia de aula com Yvone, Sasha chegou em casa e ficou rondando a mãe. Percebendo a atitude de Sasha, Júlia perguntou o que a criança tinha.
— Mãe, você conheceu a tia Yvone, né? Ela é menino ou menina?
— Filho, ela não é um nem outro. Ela é uma pessoa que se identifica como não binária, nem menino, nem menina.
Ela não se identifica com nenhum gênero <em>exatamente</em>.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Desde que comecei a acompanhar a vida da Marcella no Instagram, eu morro de inveja do fato de ela morar no Rio. Fico vendo os chopinhos nos bares, ela perto do Theatro Municipal, pulando Carnaval com a família e os amigos, dando rolê com o filho (super estiloso!) por feiras e ruas e vielas e avenidas. Daí, outro dia, vi que, além de revisar como eu, ela estava escrevendo um livro, e a inveja bateu forte aqui de novo. Inveja boa, que existe, sim, que é o sentimento não de que o outro deixe de ter o que tem, mas de que a gente pudesse ter também.<br />
E não é que o livro dela caiu nas minhas mãos, para eu revisar? Eu sabia que ia ser um trampo fácil, porque revisora escreve bem. Nem todas, claro; principalmente, nem todos. Mas a Marcella escreve bem. Ela te faz rir, te faz pensar, te surpreende, te emociona, com estes contos aqui, que tanto contêm banalidades, como brigar por morangos no supermercado (eu já briguei por Coca Zero, é banal, sim, perdão se o/a leitor/a é da paz), quanto apresentam cenas líricas que fazem a gente ficar pensando por dias (outro dia mesmo me peguei no banho decidindo em que romance eu iria dar rolê como Janaína e Gilmar. Ainda, os contos da Marcella nos fazem repensar o que se sabe a respeito de padrão de relacionamentos amorosos (e lá existe isso?) e talvez rever preconceitos com a Sasha (em ano de Olimpíadas, sempre rola a questão do gênero, “tá na categoria feminina mas é homem”, zzzzzzz, desculpa, dormi aqui de preguiça). Daí o mais legal é que a inspiração para todas essas histórias veio justamente dos passeios da Marcella pelo Rio (tem até um conto com uma pegada A mulher da casa<br />
abandonada em versão carioca, amei!). Nas poucas vezes em que fui ao Rio de Janeiro, eu, paulista medrosa e com um certo preconceito, andei segurando a bolsa e morrendo de medo. Com este livro, a Marcella me levou para passear, e eu não tive medo (só das tias reaça da padaria, e talvez da filantropa do Méier). Tenho certeza de que, com os Contos de amor, desamor, drama e tragédia no Rio de Janeiro, você também quis dar rolês com ela.<br />
Um prazer revisar a Marcella (revisora comete metonímia). Um prazer ler a Marcella. Um prazer fazer parte de alguma forma deste livro mara, escrito por uma mulher mara, sobre mulheres mara (e outras nem tanto…), que defende o direito e o prazer das mulheres de passear e de escrever e de publicar e de contar suas histórias e de levar refri na festa, se quiser. Cá está Marcella Sarubi, trazendo refri e dos melhores. Espero que você saiba saborear.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Juliana Palermo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Papéis amarelos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Mar 2024 19:33:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No dia 14 de Janeiro de 2021, durante a pandemia de covid-19, os médicos e hospitais de Manaus lotam as redes sociais e as mídias jornalísticas anunciando que o estoque de oxigênio havia acabado. No auge das internações por conta da doença, os pacientes começam a ser remanejados para outros estados, os acompanhantes dentro das enfermarias são retirados e o oxigênio começa a ser fechado. O livro <em>Papéis amarelos</em> de Raissa Jambur traz 25 contos entre o testemunho e a ficção, baseados na experiência traumática do acontecimento histórico de 2021.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A narrativa de um trauma coletivo, dentro das intimidades da ferida e que vigia a excursão da exaustão à que foi submetida a população do Norte. É dessa forma que <em>Papéis amarelos</em> de Raissa Jambur aborda a crise do oxigênio em Manaus durante a pandemia de covid-19. Não somente formulando um retrato dentro de contos simétricos, mas sobretudo recortando as sensações da agonia formada pelo cenário de descaso que resultou numa das maiores crises de saúde pública já presenciadas pela região Norte.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contos exploram desde as imagens mais icônicas que foram relacionadas ao desastre, como também dá contorno e voz a dramas mais sutis que costumam ser negligenciados dentro das narrativas oficiais, mas que constroem a tessitura mais complexa do trauma. Somos postos como testemunhas e vigiamos o sono inquieto da sala Rosa, observamos o olhar depressivo dos pacientes que voluntariamente tiravam a máscara de oxigênio, adoecemos com as acompanhantes, a maioria mulheres, que sangravam em enfermarias lotadas com banheiros insalubres.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro organiza o cenário desde o prenúncio da crise e não relata, antes, desenha simbolicamente as curvas do desastre. Somos colocados a sentir a angústia antes de presenciar as cenas, mas as cenas, quando se mostram, são colocadas com a realidade necessária para o testemunho.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui o livro se constrói na missão de desenterrar as consequências que estão sendo ignoradas, mas que permanecem pulsando na vida de toda uma população. O terror afinal não se encerra no auge dos acontecimentos que se deram, ele se encaminha para a vida e o cotidiano das pessoas. Fica preso no olhar de luto dos idosos no parque, no cheiro do alho cozinhando numa cozinha vazia em que as mães foram vítimas da tragédia.</p>
<p style="text-align: justify;">São 25 contos que elaboram uma estética do trauma, que se colocam na missão de não silenciar o que vem ainda sendo processado. Dessa forma somos convidados a encarar memórias que, por mais doloridas que sejam, precisam de um lugar na história, precisam ocupar um lugar sobretudo de responsabilização da história. Afinal, por mais que hoje sigamos, não podemos seguir ignorando, é preciso falar e dar voz ao que ainda dói e que ainda significa, pois a maneira como estamos nos reorganizando é resultado também do que aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Carolina Alves</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A ascensão do Titanic</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Mar 2024 07:48:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu nunca vi ninguém morrer. Mas, naquele dia, inventei que tinha visto uma pessoa ser atropelada para não ir pro trabalho. Na história que contei para meu chefe, a roda de um carro passou por cima da cabeça do motoqueiro, que explodiu pela pressão sobre a caixa craniana, manchando de vermelho e rosa os SUVs brancos ao redor como um tomate pisoteado. O capacete primeiro se entortou sobre si mesmo, depois também explodiu em fragmentos de acrílico e plástico, encorpando a mistura de miolos numa textura de cacos e tripa.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Desde o título, a ficção de Daniel Françoli Yago se propõe a reverter os equívocos do mundo. Em seus contos o Titanic deve emergir de volta à superfície do oceano, que afinal é o seu lugar, e Moby Dick deve estar no céu, voando. E por que não resolver os dilemas da modernidade já no princípio de tudo, deixando que Eva e Lilith se unam para evitar dores e descaminhos futuros na trajetória do homem? Bem, talvez esse substantivo não seja mais útil no universo descortinado em <em>A </em><em>Ascensão do Titanic</em>: o universo do paradoxo. E talvez o Homem Original não passasse de um xerox desvanecido a ser descartado.</p>
<p style="text-align: justify;">A estreia de Yago é marcada pelo arrebatamento da imaginação — hiperreferencial e sinestésica, com acenos efusivos à cultura pop e literária —, em narrativas nas quais o comum se depara com o bizarro: castelos europeus no litoral brasileiro, wünderkammers em escala humana e seitas secretas de adoradores de buracos negros assombram estas páginas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os personagens de <em>A Ascensão do Titanic</em> certamente fugiram do circo de horrores de P.T. Barnum (ou quem sabe de um filme de Tod Browning ou Tim Burton), a fim de se esconderem na realidade. Agora estão numa carta de amor desesperada para o universo gótico dos contos de fada para adultos de Angela Carter, rasgada pelos medos e superstições da era vitoriana. O clima é extemporâneo, como se o passado persistisse estranhamente na consciência de narradores contemporâneos.</p>
<p style="text-align: justify;">E há a forma mestiça, entre o conto e a novela quebrada, atravessada por diversos planos e dimensões complementares. Ou o lirismo de uma canção cantada por Rosie, a tubarão-branco encontrada num parque aquático abandonado e futura embaixatriz do Instituto Luísa Mell.</p>
<p style="text-align: justify;">Sejam bem-vindas e bem-vindos, portanto, ao Gabinete de Curiosidades de Daniel Françoli Yago. Como porteiro deste prédio ficcional, tenho apenas um conselho: não seja tão curiosa, amiga leitora, não faça perguntas demais e lembre-se do que a curiosidade fez ao gato. E uma lembrança, amigo leitor: procure não gritar quando o Sol estiver se apagando.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Joca Reiners Terron</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O sumiço do jardim da terra</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-sumico-do-jardim-da-terra</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Mar 2024 14:16:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em meio ao desaparecimento do jardim da terra, e o início de todos os males que sua ausência trouxe, Inarê parte em uma jornada para descobrir o motivo pelo qual ele desapareceu e como recuperá-lo. Porém, encontrar uma última esperança no mundo à beira do colapso não será uma tarefa simples. Ele terá que enfrentar seus medos, a fome, a sede e, sobretudo, o monstro que se esconde pelos cantos da terra, aguardando o momento de dar sua mordida final.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Num atual contexto em que Marvel e DC envolvem seus heróis em tramas insossas e repetitivas pelas tantas esquinas do multiverso, Bianca Blauth nos apresenta Inarê, o pequeno guerreiro, que se volta para a célula mãe do seu mundo: a natureza, aqui na pele de Tupana.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>O sumiço do Jardim da Terra</em>, a jornada do herói ganha mais substância, uma vez que o protagonista busca sempre, além de superar os próprios limites, por soluções alternativas para devolver a vida ao que o cenário da aventura retrata como um “Alice num país sem maravilhas”.</p>
<p style="text-align: justify;">E, para compor essa paisagem em que a vastidão da natureza tem a sua beleza refém do egoísmo e da agressividade humana, a autora funde a iconografia indígena (com seus tantos personagens, nomes e histórias singulares) às jornadas fantásticas produzidas por Hayao Miyazaki (com ênfase a <em>O castelo animado</em> e <em>A viagem de Chihiro</em>) que se voltam para a redescoberta e valorização da cultura e sua identidade vilipendiada.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora exista espaço para que se trabalhe com mitos, mitologias, seus símbolos e metáforas, a literatura infanto-juvenil exige do autor a sua clareza. O que Bianca e o seu <em>O sumiço do Jardim da Terra</em> consegue gabaritar. Inarê é o nosso guia por esse mundo que a gente vislumbra amedrontado, mas que, mesmo Tupana sendo poderosa como é, só depende da nossa força de vontade e consciência para que não se materialize.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Giuliano Mangueira</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Amparo secreto</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/amparo-secreto</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Mar 2024 13:59:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Pouca sorte nos sobrou depois da pandemia e de tantas desgraças sucessivas. Fato é que as queixas, por uma vida digna, são inerentes à existência humana — os outros animais não têm o dom de crer num porvir favorável, supomos. Não há quem pare de suplicar aos céus, ou a algum deus, por proteção; é a verdade secreta, que muitos escondem. Estamos entregues à ceifa aleatória do destino? Os nossos pedidos estão fadados ao esquecimento e ao limbo de uma conjeturada sublimidade? Não sabemos. Não saberemos. Mas continuamos na peleja por sermos ouvidos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Amparo Secreto </em>é uma coletânea de contos que apresenta, na essência do texto<em>, </em>toda a beleza e a feiura presentes nos comportamentos mais genuínos. Essas linhas que estão por vir têm como principal elemento aquela fé cotidiana — que se pode dizer esperança — que nos acompanha em momentos diversos, impulsionando-nos e ajudando-nos a superar barreiras, a lutar pelo que acreditamos, por nossa sobrevivência, a proteger-nos das intempéries da vida, da má-fé e, por vezes, a proteger-nos de nós mesmos, de nossas próprias escolhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é ainda um livro sobre amor. “Nossa relação sempre foi baseada no bem-querer”, diz Adriano Espíndola Santos no conto “Amparo secreto”. Por diversas vezes, o leitor encontrará nestes contos um olhar atento ao outro, a fina delicadeza que há no zelo despretensioso com doses de ternura, ingenuidade e boa-fé.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, porque onde há o cuidado também há o perigo, encontraremos nestas narrativas um punhado de personagens pilantras e mal-intencionados, desse tipo de encontro que não desejamos ter na vida. Assim como também nos depararemos com a força do acaso, com as ironias presentes nos rumos da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Adriano Espíndola Santos não deixa ponta solta em sua escrita dinâmica e calorosa. O autor tece contos fluidos, contemplando o leitor com um magnetismo fascinante nestas narrativas que transitam por sentimentos intensos, com uma versatilidade admirável, construindo personagens carismáticos que, ao convidarem o leitor a participar de suas histórias, também o conduzem a submergir no universo mais íntimo que há dentro de si.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Amparo Secreto </em>nos reaviva boas doses de esperança. Trata-se de uma obra autêntica e cativante, uma leitura imperdível.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Carolina Hubert</strong>,<br />
Fundadora e editora da revista Vício Velho</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>O tamanho das coisas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-tamanho-das-coisas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Mar 2024 13:49:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">o tempo é feito do que se lembra dele, nada fica e nada se leva. memórias podem e, acredite, vão mudar para sempre porque o passado é uma força em alteração. imagine, então, que a lembrança mais importante da sua vida não seja assim tão confiável. quer dizer, ela é como você se lembra, mas o passado pode não ser. já que “a memória é uma ilha de edição”, é hora de voltar à ilha.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Você é testemunha dos fatos sobre tudo o que vive. Acontece que o que se cria sobre essas histórias é só seu. É possível — e provável — que &#8220;fato&#8221; não seja nem a melhor forma de chamar o que flutua em torno da memória.</p>
<p>Vivemos como se a memória fosse um registro. Ela representa o que aconteceu e, assim, molda e monta tudo o que somos. Mas as lembranças, como tudo na vida, mudam, evoluem e se transformam, alterando a realidade.</p>
<p>Em <em>o tamanho das coisas</em>, estreia de Olavo Ataíde, visitamos a flexibilidade do tempo sob a perspectiva dos momentos que nos tornam quem somos. A história explora a natureza fluida do que é emocional e racional, sendo cada lembrança uma peça questionável e decisiva.</p>
<p>Algo mudaria na sua vida se a cena mais importante de que você se lembra não tivesse acontecido exatamente como você se lembra? O livro conta a história de Inácio e acompanha o que a troca entre a memória e o tempo é capaz de produzir. Um jogo que nas relações familiares, por exemplo, se mantém em constante rearranjo.</p>
<p>Você é testemunha dos fatos enquanto eles acontecem. Agora, no presente, no momento exato em que eles se tornam passado. Essa perspectiva é, no fundo, a única coisa que nos dá a chance de transformar o futuro.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O breviário de um índio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Mar 2024 13:46:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[— Oi, tudo bem? Como é seu nome? — falei.

— Tudo bem, meu nome é Cláudia, você é o índio que vai entrar no seminário?

— Isso, sou eu mesmo.
<p style="text-align: justify;">A Cláudia era muito bonita, e dava gosto ficar olhando. Se eu fosse um poeta naquele momento, ia declamar uma poesia para ela. Um jeito de simplicidade, um sorriso que embeleza qualquer ambiente, e a presença dela fazia aquele lugar mais lindo. Por isso é que os poetas são felizes, porque sempre têm uma mulher linda para inspirá-los. Já pensou se não existissem pessoas assim? Talvez não teríamos poetas para declamar.</p>
— Nossa, já são mais de 22h00, já tinha que ter ido embora! Tchau, índio — disse ela com aquele sorriso lindo. Pena que quando estamos bem acompanhados as horas passam mais rápido, e a gente nem percebe. Mas valeu a pena conhecê-la, sabia que outro dia teria oportunidade de falar outra vez com a Cláudia.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(&#8230;) Saí de lá correndo e fui contar para meu avô que ia viajar com o cacique.</p>
<p style="text-align: justify;">De manhã meu avô me chamou para fazer artesanato, fizemos muitos arcos e chocalhos, porque é mais fácil para vender, parece que é o que os jurua kuery (não índios) mais gostam. Quando vamos para a cidade em Guarulhos, voltamos sem nada, porque vendemos tudo. <span style="color: #ffffff;">olivio jekupe</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Daquilo de que somos feitos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Feb 2024 12:45:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">"Ele tem a arma apontada para mim, para o meu peito, diretamente para o meu coração, e eu sabia que estaria tudo acabado se ele apertasse o gatilho, e eu não sabia o que sentir sabendo que tudo estaria acabado bastando ele apertar o gatilho. [...] Quando eu ouvi o primeiro disparo, ainda pensei desesperado que ele não apertaria o gatilho. Não contra mim."
Um professor obeso e LGBT+ que havia decidido não repetir mais o mesmo dia todos os dias. Uma sala de aula. Um aluno expulso após uma acusação de estupro. Uma arma. "Daquilo de que somos feitos" mostra que o ressentimento está mais presente do que nós imaginávamos e do que gostaríamos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Daquilo de que Somos Feitos </em>nos recorda um passado que ainda não esquecemos porque não apenas é muito recente, como na verdade sequer passou. Com ele, revivemos a experiência de sentir-se estranho no próprio país, de viver num ambiente em estado avançado de decomposição, que foi uma constante para muitos que sobreviveram ao Brasil na última meia década. Revivemos também o mal-estar de perceber o próprio distanciamento crítico frente ao ambiente como parte do problema, sintoma de uma fratura social profunda que faz com que quem se crê mais consciente dela não necessariamente seja, nem se apresente como, aliado natural para quem com ela mais sofre. Somos obrigados, assim, a confrontar as causas sociais e afetivas da decomposição, bem como o fato de que estas não desapareceram da noite por dia apenas porque personagens como o atirador Marcos ou o tio do narrador não estão, por ora, no poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Com sua dupla formação de filósofo e romancista, Ádamo da Veiga sabe tanto analisar quanto narrar os caminhos explosivos que sentimentos de humilhação, abjeção ou injustiça podem tomar. Sobretudo, ele sabe mostrar com clareza o quanto o mundo em que vivemos, com sua terrível maneira de combinar o imperativo da realização individual com condições cada vez menos favoráveis para cada vez mais gente, é uma grande máquina de produzir frustração (com o que efetivamente alcançamos), auto-recriminação (por ficarmos aquém do esperado) e ressentimento (diante de todos cujas vitórias, por menores que sejam, experimentamos como imerecidas, injustificadas, afrontas a nosso próprio esforço e sofrimento). Finalmente, ele nos faz ver como, ao invés de transsubstanciar-se em ímpeto igualitário por justiça e reconhecimento para todos, este coquetel de paixões tristes a menudo redunda em mais individualismo, solidariedade negativa, fantasias de vingança, vigilantismo e <em>acting out</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém é herói em <em>Daquilo de que Somos Feitos</em>; todas as personagens carregam, de diferentes maneiras e com graus diversos de consciência, a sordidez daquilo que o mundo fez delas e daquilo que elas souberam fazer do que o mundo lhes fez. É nesse gesto de recusar o maniqueísmo e abraçar cada indivíduo em sua própria feiura que talvez possamos discernir algo de otimista e até quase utópico no livro: a possibilidade de, nesse desnudamento radical da vulnerabilidade compartilhada, no reconhecimento de que <em>estamos todos sofrendo</em>, encontrar um caminho para escapar à ação implacável dos mecanismos perversos que o romance expõe.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Rodrigo Guimarães Nunes </strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Avarias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Feb 2024 20:06:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Não era mais um imerso na escuridão. Costumava dizer: <em>eu só sei do perigo quando levo um tiro no peito</em>. Diante de uma cidade que afaga, sussurra segredos no ouvido, desliza suavemente a língua, o homem perde a guarda. Pendura a armadura já cansada. À sua frente, numa grande tela, se projeta a dor da primeira queda de bicicleta, do costumeiro riso de sua gulodice escancarada, do usual sarcasmo diante de seus óculos fundo de garrafa amarrados num barbante gasto e frágil. Vê com a extensão da pele. Não há mais jeito de ele ficar longe do que sente, do que se sente.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A primeira coisa que salta à vista, em <em>Avarias</em>, é o manejo sábio do gênero. Aqui, o conto, dentro de sua natureza mais típica, concentra-se no clímax. A atmosfera se cria ao sabor dos ditos populares, dos conjuros; os personagens se apegam a rezas, rituais e estranhezas, com suas vivências ganhando dimensão simbólica. Nada disso vem à toa: a destreza nasce do grande senso de observação de Glória Diógenes, provavelmente conquistado em sua profissão, como pesquisadora e cientista social.</p>
<p style="text-align: justify;">Há muitas marcas de força no livro: muita água, travessias, ímpetos de cavalos selvagens. E este é um livro que exala mormaço, transpira o bafejo contido no palmilhar do sertão — mesmo que também percorra outras paragens.</p>
<p style="text-align: justify;">Em algumas histórias (sobretudo as narradas em primeira pessoa), há uma dicção poética tão intensa, que me senti levada a ler as páginas em voz alta. Elas pediam récita.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Avarias</em> põe a figura feminina em evidência, dá voz a Marílias e Ismálias. É um livro sobre desvarios e irreverências. E, se “a loucura deve dar seus primeiros sinais quando o olhar é amigo da imaginação”, Glória Diógenes cria distopias para que enlouqueçamos juntos — nesta literatura ousada, que explode para que a vida não trinque. Escrever “coisas que não servem para explicar, nem pretendem mudar o mundo” é pura saúde.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda bastante música, versos de poemas, referências a romances que atravessam os relatos — e, daqui, seguimos o rastro para pressentir o tamanho da existência de tantos personagens. O conto, como um flash sobre as criaturas, faz, entretanto, com que elas reverberem e persistam conosco, por muito tempo depois. Talvez seja isso o que o narrador de um dos textos explicita, quando diz: “Cedo aprendi a cavar o silêncio”. O espaço da fissura tem a profundidade ideal para que o(a) leitor(a) mergulhe nos subentendidos e enlaces de <em>Avarias</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tércia Montenegro</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Verdades de papel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Feb 2024 14:30:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Rita de Cássia nasceu na zona rural da Bahia e muito nova teve de partir para Salvador, após vivenciar eventos traumáticos. Já na capital, conseguiu concluir os estudos e tornar-se uma importante doutora em Educação. No entanto, após receber um convite de uma poderosa empresa de celulose para instalar uma escola-modelo no vilarejo em que foi criada, Rita terá de voltar e se confrontar com seu passado, eventos e pessoas que um dia acreditou ter esquecido. Compreenderá seu verdadeiro papel na empresa que a contratou e necessitará fazer escolhas que impactarão muito além da própria vida.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nos habituamos a conhecer o Sul da Bahia pelas lentes de Jorge Amado, o apogeu do cacau, a disputa pela terra, os coronéis, a bonança. Mas o que veio depois constitui hiato literário que pedia para ser preenchido: a vassoura-de-bruxa mofando as lavouras, a bancarrota da elite, a derrubada da mata que então cobria os frutos de ouro e o êxodo das populações vulneráveis.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente no segundo cenário que o enredo de <em>Verdades de Papel</em> se desenrola. Filha de trabalhadores rurais, Rita de Cássia nasce numa fazenda fortemente afetada pela crise do cacau. Enquanto o patrão perdia a lavoura e seu pai temia perder o emprego, a menina alfabetiza-se de uma maneira muito peculiar e, estimulada pela professora, aprende a fazer do mundo dos livros o seu lugar seguro.</p>
<p style="text-align: justify;">Obrigada a sair de sua terra e refugiar-se na periferia de Salvador com uma tia, após vivenciar eventos traumáticos em sua família, Rita concentra toda sua energia nos estudos, tornando-se uma renomada doutora em Educação, distanciando-se do distrito de Mata Escura física e emocionalmente. Todavia, quando convidada por Ramon Munhoz, a mando de uma poderosa empresa de celulose, para instalar uma escola-modelo na região, Rita precisa voltar ao lugar de onde saiu e terá de enfrentar memórias e pessoas que acreditou ter esquecido, ao mesmo tempo em que se vê envolvida numa intricada trama pela expansão das áreas de eucalipto no Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Verdades de Papel</em>, Analu Leite nos convida a percorrer uma estrada de chão que leva ao interior da Bahia e a seguir os passos de Rita numa emocionante jornada de redescoberta do eu. A narrativa traz o frescor das histórias não contadas e coloca em pauta questões que estão na ordem do dia, como a degradação da Mata Atlântica, o lobby corporativo e as muitas forças que atuam sobre a máquina estatal.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mais geleia, Shackleton?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Feb 2024 23:13:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A ponta do sapato
projeta-se adiante antes
de o meu cérebro decretar aos músculos
que movam a perna. E, simultaneamente, a pegada está lá.
Em terra, cercado de certezas, recebo o dom e a maldição
de antecipar os fatos que, empurrados para trás,
nos impulsionam rumo ao conhecido.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um explorador britânico do início do século xx, condecorado como cavaleiro da Ordem Real Vitoriana — que liderou célebres expedições à Antártida, mas se vê em um momento de amargura, agravado pelas dificuldades financeiras e pelo tédio da vida doméstica em terra firme — tenta levantar fundos para sua derradeira viagem. Um explorador de outra ordem, um alto executivo brasileiro, participante voluntário do projeto de aceleração do fim do mundo do capitalismo globalizado do começo do século xxi,— caído em desgraça em seu cargo em uma multinacional, com sua família desfeita e seu patrimônio dilapidado pelo divórcio —, procura uma nova oportunidade para exercer suas questionáveis habilidades. Dois homens de meia-idade, sem dinheiro e em declínio profissional, que desejam sumir do mapa e acabam tendo os destinos unidos por Tuanaki, um lugar que, mesmo depois de sumir, continuou no mapa.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo relatos nunca confirmados, Tuanaki foi uma ilhota no Pacífico Sul que, em algum momento, teria desaparecido no mar. Restaram histórias de marinheiro e depoimentos de supostos sobreviventes que apareceram em Rarotonga, a ilha mais próxima. Em 1844, esse mistério despertou a atenção de missionários britânicos que esperavam exercer poder sobre os polinésios por meio da conversão religiosa. Em 1921, entrou na mira de <em>Sir</em> Ernest Shackleton, que tentava levar adiante as ambições imperialistas da Coroa com seu poderio tecnológico e naval. E, em 2018, uma suposta Nova Tuanaki, governada por uma dinastia que alegava ter raízes na ilha original, surgiu no radar de um capital internacional ávido por recursos naturais para manter em movimento seu maquinário de destruição em escala industrial e transformar dinheiro em… mais dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como em seu romance de estreia, <em>Ouro de Moscou</em> (Urutau, 2021), em <em>Mais geleia, Shackleton?</em>, Roger Rocha mobiliza narradores de diferentes vozes, lugares e épocas — do sinuoso fluxo de consciência do ambicioso explorador Ernest ao cínico discurso do executivo oportunista Ernesto — para compor com seus relatos uma trama mais ampla de espionagem, disputas internacionais, intrigas políticas e fracassos pessoais em meio a reverberações secundárias e invisíveis ocorridas na esteira de eventos de alcance global. Transitando com desenvoltura no território movediço de um mundo prestes a virar geleia, com este novo romance, incomum na forma e peculiaríssimo no conteúdo, o autor se estabelece como um expoente do sempre fértil segmento dos enredos com premissas exóticas e conduzidos com altas doses de engenhosidade e senso de humor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Alexandre Boide</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Desilusão de ótica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Feb 2024 16:27:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A partir da leitura dos nove contos que compõem <em>Desilusão de Ótica</em>, passeamos por paisagens diversas em diferentes tempos, mas a experiência humana do sublime e do assombro está em cada uma das narrativas. Ora de maneira sutil, ora explícita, o toque áspero do incômodo costura estas histórias, provando que não se pode confiar inteiramente nos sentidos, pois nem tudo pode ser explicado.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro é bicho selvagem. As palavras circulam pela escuridão, caminhando inquietas por entre as árvores, em espera salivante, aguardando o momento do bote. Farejam o ar, rosnam para a luz, e então saltam para junto da fogueira, caninos arreganhados, prontos para rasgar. Neste <em>Desilusão de Ótica</em>, Úrsula Antunes nos entrega narrativas que caçam o leitor pela mata, silentes, nem sempre revelando sua natureza brutal, por vezes fantástica. Sua fome é por aqueles que se arriscam no limiar, onde morre a luminosidade das chamas, os leitores transmutados em presa, pois não lhes resta outra opção. Ao darem por si, já, foram arrastados para as trevas.</p>
<p style="text-align: justify;">E as trevas estão lá, espreitando, mesmo quando – principalmente, bem dizer – não são imediatamente visíveis. Escorrem por estes nove contos, por vezes na superfície, mais frequentemente agitando-se ameaçadoras abaixo dela. Essa escuridão rasteja no canto do olho, quando Úrsula nos traz um encontro fortuito com uma figura espectral junto à uma cachoeira, e as coisas, como na maioria das boas histórias, não são exatamente o que parecem. Também quando um trapaceiro urde um plano, repleto de vingança, morte e ilusões, para reaver um amor que crê lhe pertencer por direito&#8230;amor que não é aquele que imaginamos ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes, contudo, o horror deixa as sombras e se apresenta em toda a sua beleza selvagem. É o que acontece quando nos entranhamos na vida privada de uma mulher e seu gato, até o surpreendente e — que bom! — sanguinolento final. Da mesma forma ao conhecermos uma cidade no interior do Brasil, anglicizada e real, onde nem as crianças estão a salvo de algo incompreensível e de fora deste mundo. Por vezes, os contextos são históricos, como em uma clássica narrativa de fantasmas em um Rio de Janeiro oitocentista (e cuidadosamente pesquisado), onde a luxúria cobra um alto preço e os mortos não descansam.</p>
<p style="text-align: justify;">E assim, cercando nossos pensamentos, <em>Desilusão de Ótica</em> abocanha nossa atenção através do insólito, do incômodo, do grotesco, por vezes do rasgadamente romântico, em seus melhores momentos se mostrando em um horror despudorado.</p>
<p style="text-align: justify;">Frederico Toscano,</p>
<p style="text-align: justify;">autor de <em>O Rinoceronte na Parede,</em> <em>Carapaça Escura </em>e <em>Seja Imortal</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Tanque de areia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jan 2024 15:18:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">A irracionalidade que dá potência a visões de uma sociedade ressecada por preconceito, ganância e mesquinhez aparece traduzida em sarcasmo na acidez de </span><span class="fontstyle2">Tanque de areia</span><span class="fontstyle0">. Distopia para alguns, utopia para outros, a novela retrata a busca de parte da população por um “Brasil Livre”, purificado de tudo aquilo que incomoda quem é incapaz de lidar com a alteridade dos próprios recalques. Encontram, é claro, um deserto, onde o desafio é sobreviver à insensatez de seus próprios duplos ideológicos.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os bastidores da literatura me fascinam. Adoro conhecer pormenores da criação de obras, conversar sobre processo com pessoas que escrevem, ouvir entrevistas a respeito do momento em que uma ideia surgiu ou foi considerada digna de ser levada adiante. Além de ser interessante por si só, conhecer as coxias de um livro sempre faz com que eu crie uma relação especial, além-texto, com a história.</p>
<p style="text-align: justify;">Relação esta que tenho com <em>Tanque de areia</em> desde o comecinho, já que a semente para o livro surgiu como um exercício do Clube de Escrita da Mafagafo — um espaço fechado a contribuintes do projeto de financiamento coletivo da revista onde <em>prompts</em> de escrita eram propostos todo mês. Numa determinada live, caímos na gargalhada quando a ideia “um homem carregando uma porta no deserto” virou “um homem carregando uma <em>porca</em> no deserto”, e o Danilo prontamente assumiu a missão de escrever algo com essa premissa no mínimo… inusitada.</p>
<p style="text-align: justify;">No mês seguinte, li o resultado. Para minha surpresa, algo inicialmente cômico e <em>nonsense</em> havia sido associado — embora sem perder a graça — a uma imensa metáfora, apropriadamente amalucada, de tudo que estávamos passando no fim do mandato do inominável, lá pelas idas de 2021 (e que ainda passamos e vamos passar com a extrema direita, mas vamos com calma). Não lembro exatamente o que comentei, mas me recordo claramente de ter dito que uma das únicas certezas que tinha era que aquele texto podia — e devia — ser maior.</p>
<p style="text-align: justify;">Para minha alegria (e sorte de todas as pessoas que estão com este livro em mãos), o Danilo acolheu essa recomendação e expandiu um exercício de três mil palavras em uma noveleta com mais metáforas políticas, reflexões filosóficas, ação e um pouco de humor — porque tem coisa que só rindo mesmo. (Ah, o homem carregando a porca nas costas enquanto perambula pelo deserto ainda está lá — e faz tanto sentido quanto é possível dentro do contexto.)</p>
<p style="text-align: justify;">Ler este livro é embarcar numa viagem quase psicodélica sob o ponto de vista de vários personagens que (espero!) pensam muito diferente de quem está lendo. O que a princípio cria um grande incômodo depois se transforma num recurso muito valioso para rever os últimos quatro anos sob uma ótica mais expandida e generosa (embora nenhum pano seja passado aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">Prepare sua bandana, se besunte de protetor solar e se abra para conhecer por dentro o <em>Tanque de areia</em>.</p>
<p><strong>Jana Bianchi</strong>, autora de <em>Sombras </em>e de <em>Lobo de rua</em> (Amazon, 2016).</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Dinâmica da evaporação de corpos sólidos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/dinamica-da-evaporacao-dos-corpos-solidos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jan 2024 19:50:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Olha, eu não faço essas coisas, não. Não sei o que falaram pra senhora, mas...”
“Que não faz o quê, menino? Pensa que eu não sei? Vem logo! Não quer ganhar seus dez cruzeiro?”
“O quê? Dez conto? Isso aí não vale nem uma punheta!”
“Que punheta o quê, moleque?! Acha que eu vou fazer você gozar e ainda pagar pra ficar na mão? Pra ganhar dinheiro aqui cê vai ter que comer buceta! Bu-ce-ta! Vai ter que foder aqui, ó!”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A idade da pedra de São Paulo na velocidade do fim do mundo. O vício do crack, e tudo o que o cerca, nunca havia sido retratado como nesse <em>Dinâmica da evaporação de corpos sólidos</em>, de Alexandre Boide. Como ex-adicto, não em crack, mas em cocaína, conhecedor da etiqueta e das regras sociais que regulam a vida entre “noias”, me vi muitas vezes tragado pelas páginas que narram o ciclo sem fim do “descolar-e-usar”, da brisa que a “dinâmica da evaporação daqueles pequenos corpos sólidos” oferece pra quem se envolve na esparrela do vício em algum tipo de droga pesada.</p>
<p style="text-align: justify;">Da forma como o autor vai delineando a vida de seus personagens, trata-se de um verdadeiro romance de (de)formação — a vacuidade e o despropósito de uma geração de jovens de classe média que simplesmente se entregam a um ritual que os apresenta a um “eu maiúsculo” que não parecia ser possível na monotonia da vidinha besta e regrada de um grande centro urbano. “A gente achava que não ia morrer nunca. Ou então estava a fim de morrer logo”, é o que diz o protagonista. Pra mim, a adicção sempre esteve nesse fio da navalha de crer inconscientemente numa imortalidade ou de se precipitar rumo ao fim, e o livro é muito hábil em apresentar situações e sensações que dimensionam esses caminhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Como Boide bem coloca: “O passado é matéria maleável, e as falhas na estrutura podem ser preenchidas pelo cimento da invenção. Sem o rigor do arqueólogo, mas com a disposição do coletor de sucata, ele precisa revirar as ruínas de sua própria memória para reconstituir sua vida na idade da pedra”. O cenário da escavação é o bairro do Ipiranga e arredores — um reduto tradicional de classe média de São Paulo, nem tão glamoroso quanto a Zona Oeste dentro do Centro expandido da capital paulista, nem tão entregue ao deus-dará quanto suas periferias, e um tanto apartado da temida cracolândia —, um espaço ainda pouco explorado no universo ficcional e o cenário perfeito pra tratar do crack indo além da caricatura. Inclusive, é impossível não pensar que tudo o que é relatado neste livro poderia servir de argamassa criativa pra outro grande cronista do Ipiranga, o rapper Ogi, muito celebrado por mostrar uma São Paulo que não se limita aos estereótipos.</p>
<p style="text-align: justify;">Preparem-se para o “tuim” dessa viagem…</p>
<p><strong>Arthur Dantas Rocha</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Pai</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Dec 2023 13:15:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<span class="fontstyle0">pois devemos degustá-lo, digo o domingo, como se
fôssemos morrer ao nos deitarmos.
deitar.
e esperar, imóveis, a segunda-feira.
implacável segunda.
isso tudo me fode.</span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não pude ler <em>PAI</em> sem me lembrar do verso de Manuel Bandeira que diz que o poema deve “Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero”.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai sempre está lá, nas histórias de nós, mulheres. A figura do pai herói existe, mas é rara. Desconfio que muitas vezes até inventada para tornar tudo mais suportável. Em geral, o pai é a interdição, a violência que nos assola&#8230; Ou a pura ausência (que não deixa de ser violenta). Isso é um pouco que do <em>PAI</em>, este livro, revela. Porque ele não é sobre um pai. É sobre uma mãe, uma filha, uma neta. É sobre ser atravessada, rasgada e violentada de tantas maneiras, pelos homens, pelo Estado, pela Igreja, por ser&#8230; Mulher. É um texto difícil se apresentar, pois tem muitas camadas, sutilezas, nuances, gritos e sussurros. Desdobramentos de sentido que apenas quem domina a arte da linguagem e faz dela massa de moldar consegue produzir. Quem torce a língua e alcança seus silêncios. Mas para alcançar o que <em>PAI</em> expressa precisa ter além do domínio da linguagem. Precisa conseguir tanger qualquer coisa etérea, precisa ter a sensibilidade para captar dores e belezas camufladas ao redor. No mato que cresce, no cocô do cachorro, nas baratas fugidias. E precisa ter coragem para dizer do que vê e sente: “a mulher que silencia ou vira tempestade ou a engole. ambas as situações podem ser catastróficas”. É por todas nós que Gabriela Guinatti fala neste livro. É por isso que defini-la como uma poeta ou escritora é pouco. Tem qualquer coisa que vai além naquilo que ela escreve. Também por isso é difícil enquadrar seu texto em gêneros literários. <em>PAI</em> é um poema narrativo ou uma prosa poética. Não importa muito. O que importa são os sentidos e as sensações que ele expressa e provoca. Não é confortável, porque não é disso que se trata a arte ou a literatura. Nem tampouco a vida. Citando o poeta novamente: “Sei que a poesia é também orvalho/mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Pamela Zacharias</strong></p>
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		<title>Dos que vão morrer, aos mortos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Dec 2023 14:08:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Aos vinte e quatro anos, um jornalista recebe a notícia de que o corpo de sua mãe foi encontrado numa rodovia. Devastado e com medo de repetir os passos maternos, ele quer entender o que aconteceu: foi assassinato ou suicídio? A história se passa em Belo Horizonte, e as ruas da cidade enraízam o protagonista. Dos que vão morrer, aos mortos é um livro sobre luto e loucura, dores que são como plantas suculentas e se reproduzem infinitamente. Espalhadas pelo sopro mais leve, capazes de brotar até na falha do rejunte dos azulejos e nutridas por uma gota d’água, elas tomam conta do jardim.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Numa cidade de mais de dois milhões de habitantes, uma mãe morre e dilacera uma família inteira. Do outro lado do mundo, em festa, um filho tem que interromper a cavalgada em um avestruz para receber a notícia. Sua mãe está morta.</p>
<p style="text-align: justify;">A cidade é Belo Horizonte; o filho é Rafael, o narrador deste romance avassalador. Rafael é também o nome do autor deste livro, e eu e você não saberemos se é coincidência ou um pouco mais que isso. Rafael, o autor, escolhe com cuidado as suas epígrafes: Laura Aleixo, Pedro Nava, Drummond, Gabriel García Márquez. Os quatro, juntos, nos dão pistas do que vamos encontrar aqui, neste <em>Dos que vão morrer, aos mortos</em>: uma escrita da intimidade, voltas e voltas no cemitério, a morte tão insistente, inevitável, maldita, inadiável. O nosso lugar no mundo, aqui, onde nos morrem os nossos, no meio da nossa cara, uma ferida aberta. Até quando?</p>
<p style="text-align: justify;">Rafael, o autor, dança com a morte como quem dança com um inimigo a quem se deve muito respeito, reverência e mesmo alguma admiração. Um inimigo que está do outro lado por causa das circunstâncias, e só. Rafael, o personagem, talvez ainda não tenha descoberto a mesma força, ou resiliência, mas faz esse caminho, pelas ruas de uma Belo Horizonte que é inconfundível, apaixonante e que testemunha em silêncio a história de uma família que podia ser a minha ou a sua: que se quebra, se esfacela, se reencontra, se reconstrói. E depois outra vez. Uma mãe, uma Laura, que podia ser a sua, a minha, que podia ser eu ou você, que se perde, que se quebra, que se encontra numa igreja também quebrada. Que morre e que com isso move mundos inteiros. Um livro para ser lido imediatamente. E depois outra vez. Se possível, nas ruas da cidade que, por sorte, é a do Rafael autor, a do Rafael personagem e, também, a minha.</p>
<p><em>Marcela Dantés </em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Vingança é um prato que se come com Chandon</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Dec 2023 14:38:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não teve quem não me criticasse, vê se pode, abandonar um marido tão bom, que fazia tudo por mim. De fato, o finado me acompanhava nas consultas, fez a papelada do plano de saúde, me ajudava com a medicação. Mas não dava mais, toda vez que eu olhava pra ele, eu me sentia mais doente e menos gente. E morrendo de tesão, sem poder me aliviar.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A sexualidade feminina se reveste de tabus e estereótipos. Entre a culpa e o prazer, nos colocamos aos olhares da sociedade, duvidosas do nosso desejo. Somos levadas a acreditar que podemos ser apenas uma coisa, que não há espaço para complexidades e dubiedades, que é preciso escolher um lado. Da puta à santa, as mulheres são julgadas e classificadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Vingança é um prato que se come com Chandon</em>, Lícia Mayra subverte a lógica patriarcal para nos mostrar mulheres que não são apenas presas, mas predadoras, vítimas e algozes de si mesmas e de um sistema que ao mesmo tempo as oprime e as torna opressoras umas das outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Com uma escrita ácida e bem-humorada ao mesmo tempo, a autora nos leva a conhecer personagens inesquecíveis. Em alguns momentos, vamos chorar com Amanda, a adolescente vítima de bullying na Internet, ou nos divertir em “Para sempre amada”, conto que tem como protagonista uma parte inusitada do corpo. Na maior parte das vezes, entretanto, ficamos com um gosto agridoce na boca, em estado de humor indefinido, pondo nos lábios um riso torto que soa como um lamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Acima de tudo, é uma obra deliciosa de se ler. A escrita é fluida, inteligente, sagaz. A perspicácia com que a autora enxerga o mundo faz da leitura uma experiência quase que pessoal, tornando impossível não se identificar com alguma personagem. Se de início não as reconhecemos, ao final já as consideramos amigas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o título, este é um livro provocativo. Transitando com facilidade entre o escárnio e a crítica social, sem deixar de lado o drama humano, a escritora Lícia Mayra nos entrega uma obra que, assim como sua autora, se recusa a ser enquadrada em uma caixinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Te convido a adentrar comigo nesta leitura, e não se esqueça de brindar ao final: não é todo dia que presenciamos a estreia de uma voz como a de Lícia.</p>
<p><strong>Carla Guerson</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Se não fosse esse maldito desejo de liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Nov 2023 13:57:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Fernanda escreve obstinadamente. Daquelas pessoas que abrem brecha no tempo e na vida para fazer a palavra surgir. É lindo ver como toda essa intensidade de pensamento acha chão e corpo em textos que revelam poesia no cotidiano.</p>
<p style="text-align: justify;">Liana Ferraz</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O casamento de Ilana e Augusto parece insustentável diante de tantos conflitos e tentativas frustradas de engravidar. Ela vive em um estado de letargia, infeliz em todos os aspectos de sua vida, sentindo-se incapaz de alterar qualquer um deles até o momento em que seu marido lhe faz um pedido que muda tudo. Abre-se para ela um mundo novo que a faz questionar quem é e a veracidade de tudo que viveu. Em meio ao caos que experimenta, ela ainda tem que lidar com as sessões de terapia de casal e tudo que elas despertam, a irmã narcisista, os sogros invasivos e uma relação dual com um superior hierárquico na universidade onde trabalha. <span style="color: #ffffff;">Fernanda França de Oliveira</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A criança que matou a sede na lágrima do anjo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Nov 2023 10:03:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Os cavalos subiram, deixando um cheiro horroroso. O quadro do Jesus branquelo despencou, quebrando no chão e pegando fogo em seguida. O Capeta, sentado nas escadas, ria enquanto virava um outro copo. Agradeceu à Imaculada e foi direto:

— Tua vida, Senhora, é uma mentira. O Inferno é repleto de achismo.

Um redemoinho veio e levou tudo. Menos o pano de prato. Nele, gravada a sincera filosofia e pensamento:

“O Senhor é meu pastor e nada me faltará!”

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Acompanho o trabalho do Antônio desde 2004, quando, fascinada pela sua escrita (e apaixonados por Nelson Rodrigues e seus enredos, no ápice da juventude), grudei ao lado dele pra entender um pouco mais sobre essa mente tão ávida por histórias. Lhe interessava os causos de família, as conversas dos estranhos no transporte público, as ladainhas familiares. Tudo foi e é material, que, com o passar dos anos e sua pesquisa incansável sobre os ritos e crenças da cultura brasileira, foi gradualmente transmutado para o fantástico; o belo nas minúcias sempre foi o forte do seu trabalho literário, seja no teatro, seja na literatura “civil”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nicodemo escreveu para o nosso grupo de teatro, o Teatro da Neura, desde a sua fundação em 2004. Um apaixonado pela arte marginal, descobrimos juntos mais de uma vez o prazer de ver um grupo profissional dar vida aos nossos textos. Ver suas palavras irem desabrochando com o passar dos anos em paralelo com a intensidade de sua investigação: a cultura popular da rua e seus encantados, os festejos religiosos, o carnaval e suas facetas, finalmente trazendo a alegoria para seus escritos. Os textos de Antônio refletem hoje o artista que ele está se tornando (já que a formação do artista é eterna).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro de contos que toma forma ao mundo, todas as figuras que povoam o universo fantástico do escritor estão apresentadas. Muitos leitores terão acesso pela primeira vez a essas personagens, que subvertem e papeiam com o tempo que passa, que cultivam o sagrado em todos os lugares. A memória dos nossos que se foram que está presente na pele e na transmissão cultural, retratada de forma tão delicada e simbólica. É impossível não enxergar nossas avós e bisavós, tias matronas e nossas mães nas mulheres escritas nessas histórias. Eu me vejo nelas, assim como via muitas dos causos familiares nas personagens escritas por ele que tive o prazer de interpretar nesses vinte anos de amizade.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma imensa alegria dividir o talento de Antônio com cada leitor, uma imaginação bela e gigante demais para ser retratada apenas nos duros caminhos da produção teatral. Sua escrita cabe em todos os lugares e em todos os olhares cuidadosos de quem é provocado pelo novo, ao mesmo tempo em que continua apreciando essa poesia fantástica que resiste em meio ao caos da realidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tuane Vieira,</strong><br />
Artista e psicóloga clínica.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Boletim de bordo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Nov 2023 14:56:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Caminhava feito embriagada pelo deck. O balanço da plataforma e a desordem das noites mal dormidas faziam-na perder o equilíbrio. Segurou-se no guarda-corpo e, com a mesma mão, tentou afastar o sono dos olhos. Percebeu que, com esse gesto descuidado, poderia ter acabado de se contaminar com o coronavírus, que se espalhava pela plataforma. A essa altura, ele já poderia estar aderido a todas as superfícies do navio. Olhou para as palmas de suas mãos. Pareciam limpas, estavam molhadas de chuva. Pensou se já não era ela a infectada que transmitia a morte onde tocava. Respirou fundo, mas o ar salgado e úmido parecia rarefeito, não saciava. A visão do mar revolto era nauseante, assim como a onipresença do vírus e o odor do assassino que a sondava. Ela não conseguia mais ter nem um resíduo da esperança com que, em meio a um azul inebriante, descera do helicóptero poucos dias antes.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O início da pandemia de coronavírus, uma plataforma de extração de petróleo e uma morte misteriosa compõem a cena deste thriller psicológico que o leitor tem em mãos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Boletim de Bordo</em>, acompanhamos Doralice, uma fiscal de plataforma designada para investigar um acidente de trabalho. O que se anunciava como uma oportunidade profissional acaba ganhando contornos de pesadelo.</p>
<p style="text-align: justify;">Que será mais aterrorizante? Um vírus mortal ou o machismo institucionalizado?</p>
<p style="text-align: justify;">Utilizando-se de metáforas sofisticadas, riqueza de detalhes e com preciso controle da tensão, Guida Carvalho constrói uma história poderosa sobre confinamento e paranoia, com um pano de fundo que, pouco a pouco, revela nuances não só de suas personagens, mas também do Brasil contemporâneo.</p>
<p><strong> </strong><strong>Aline Aimée</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Meu personagem no divã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 12:49:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Só que eu não sou um sábio, não sou alguém especial. Não sei o que fazer. Sinto muito, mas não vejo motivos para fazer muita coisa na vida, sabe? Qual decisão eu deveria tomar? Será que o destino responderia a qualquer iniciativa minha, por menor que fosse? Bastava que eu fizesse qualquer coisa? Se eu esquecesse de aguar as plantas, se eu não atendesse mais o telefone, ou mudasse o armário de lugar... Isso era uma decisão?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Rafael Senra é um verdadeiro complexo fazedor-pensador de muitas coisas&#8230; É músico, quadrinista, inventor audiovisual, professor universitário e, claro, escritor. Além de multidisciplinado é, também, indisciplinado e disciplinado, nos melhores sentidos que essas palavras podem nos oferecer. Quando Rafael me presenteou com uma cópia ainda não revisada de <em>Meu personagem no divã</em>, eu fiquei muito curioso para saber qual seria a invenção rafaélica da vez. Mas, ao mesmo tempo, fiquei com uma quase-certeza de que teria pela frente uma experiência, no mínimo, tecnicamente bem-acabada. Chamo de “experiência tecnicamente bem-acabada” aquela que, de algum modo, cumpre os riscos de suas possíveis e impossíveis pretensões declaradas. No caso de <em>Meu personagem no divã</em>,<em> </em>há uma pretensão, já exposta no título, de se criar uma metaficção em diálogo com incertezas (em sentido amplo e último, incertezas psicanalíticas, já que postas em voltas e reviravoltas de divã) de determinados pensamentos cunhados na tradição de uma “desconstrução moderna”: aqueles que colocam em xeque apreensões supostamente objetivas e assertivas do “real” (seja esse real biossocial e/ou bio-individual) e nos levam a rasurar os limites entre realidade e ficção, clínica interior e clínica exterior, literatura urbana e documento urbano (no caso diretamente conectáveis ao cotidiano da cidade “real-ficcional” de Juiz de Fora).</p>
<p>Ao mesmo tempo, o romancista evita cair em uma exposição forçada de um universo teorético simplesmente projetado e projetável em forma romanesca (como se a arte se fizesse instrumento para a divulgação das “ideias do autor”). Buscando dominar as técnicas do suspense e do gênero policial, Rafael Senra termina por nos oferecer uma narrativa que, fundindo uma coesão estrutural verossímil (com unidade de tempo, espaço e ação) a situações absurdas, nos leva, em ritmo progressivo, a nos deixar navegar por suas ondas de mistério&#8230; E, o mais relevante, convida o leitor a ser pensativo sem ter que suportar (pelo menos, suportar sem risos) algumas chatices típicas das grandes maçadas intelectualoides. Muito de outro modo, trata-se de um romance que, pretensiosamente, quer fazer a gente poder ficar um tanto inteligente sem ser (e sem querer que a gente seja) uma gente chata. Pretensão que, em minha pequena perspectiva, foi realizada com muita precisão. Sem dúvida, um ponto alto entre as grandes estrelas dessa vasta e multidisciplinada/indisciplinada constelação rafaélica&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>André Monteiro</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Monstros subterrâneos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Oct 2023 22:14:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Para onde vamos quando sonhamos? É o mundo onírico apenas um teatro de representações ou é ele na verdade uma usina de desejos e de futuros? Bruna Malta Victal expressa, na velocidade do sonho, a natureza mágica do inconsciente num texto cheio de humor e mistério que, em sua psicodelia caleidoscópica, irá causar ao leitor tanto o mais alienígena dos estranhamentos quanto a mais particular das familiaridades. <em>Monstros subterrâneos</em> é um retrato lisérgico do mundo onírico que consegue a proeza de ser, ainda que trate do que é quase surreal por definição, realista.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nunca entendi direito a diferença entre o sonhar e o estar acordada. Muitas das minhas memórias de infância são consideradas “sonhos que devo ter confundido com a realidade”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas dizer que um sonho não é realidade não faz sentido, afinal, este mundo que consideramos real é a maior das ilusões.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, o que vivenciamos acordados e o que vivenciamos nos sonhos são a mesma coisa. A diferença está apenas no tempo. Passamos mais horas acordados. Mas e se dormíssemos mais?</p>
<p style="text-align: justify;">Foi assim que me tornei “psiconironauta&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Os sonhos, tal como a morte, a loucura, o transe, os enteógenos e outras experiências mágicas, nos permitem explorar dimensões ocultas do universo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mapear as jornadas do plano astral, comecei a registrar todas as experiências que conseguia me lembrar. Algumas dessas memórias eram repletas de detalhes, enquanto outras eram apenas fragmentos fugazes.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas histórias eram pistas de um enigma, os símbolos eram mensagens criptografadas, o código Da Vinci que eu precisava decifrar. Esse tem sido meu método de autoinvestigação, minha bússola para as “escavações psíquico-arqueológicas nas ruínas do meu inconsciente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Visualizo a mente como um corredor de hotel, repleto de portas de cada lado. Cada porta que se abre revela um mundo paralelo, onde tudo pode acontecer. Nunca se sabe o que pode emergir dali. Anjos? Fantasmas? Monstros?</p>
<p style="text-align: justify;">“Somos conduzidos por forças interiores que emanam de uma fonte profunda que não é alimentada pela consciência nem está sob seu controle. Na mitologia antiga chamavam-se a essas forças espíritos, demônios e deuses”, afirmou Carl G. Jung, e eu me pergunto: Que histórias são essas que os monstros debaixo da minha cama estão tentando me contar na hora de dormir?</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os tempos da fuga</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/os-tempos-da-fuga</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Oct 2023 22:01:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">1979. Com a Anistia, uma mulher retorna ao Brasil. Após passar anos na Argentina, é hora de voltar ao país de origem. Um trajeto marcado por uma cidade interiorana, uma casa e uma lápide. O regresso é também o despertar de lembranças incandescentes. Ele traz à memória o passado em cinzas da protagonista, Lígia.
No prefácio do romance, Matheus Lopes Quirino escreve que </span><span class="fontstyle2">Os tempos da fuga </span><span class="fontstyle0">mostra como o silêncio guarda frases fortes, enredos cinematográficos e personagens difíceis — elementos que confluem em uma trama abrasadora</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao receber a notícia de que os exilados da Ditadura foram anistiados, Lígia, até então disfarçada sob o nome de Virgínia, decide retornar ao Brasil. Sem destino certo, inicia uma peregrinação para descobrir o paradeiro daqueles que ama, ao mesmo tempo em que luta para fazer as pazes com um passado caleidoscópico e sangrento.</p>
<p style="text-align: justify;">Dividido em duas partes e um epílogo, <em>Os tempos da fuga</em> narra a saga de uma mulher que, na intenção de reaver a identidade estilhaçada pela violência de um regime opressor, parece, na verdade, querer escapar — da própria história, de si mesma e até do leitor, a quem caberá reconstituir o mosaico de sua vida.</p>
<p style="text-align: justify;">O quebra-cabeça que se monta, no entanto, é movediço, e pouca coisa se revela como de fato é. Para que se obtenham respostas, é preciso atravessar um campo minado de perguntas: como Lígia conseguiu se evadir daqueles que a perseguiam? Ela vai mesmo acatar os planos do pai e se casar com Carlos? Ou se deixará guiar por Ângela, jovem sedutora e misteriosa com quem troca cartas de conteúdo secreto? Sob que circunstâncias ela é obrigada a abandonar São Paulo e passar a morar em Saudade, pequena vila rural? Até que ponto a família que a acolhe é confiável? Giuliana, moça com quem desenvolve uma relação de afeto, é parceira ou vilã? Quem foge é, afinal, herói ou covarde?</p>
<p style="text-align: justify;">Entre a literatura política, o testemunho histórico e a investigação existencial, Giovana Proença compõe, com destreza canônica, um romance de delicadezas cruéis e verdades elusivas, pensado e costurado, fragmento a fragmento, para culminar em um final que, de tão surpreendente, mais parece uma explosão.</p>
<p><strong>Pedro Jucá</strong></p>
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		<title>Numa só onda o mar inteiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Oct 2023 21:41:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">Em </span><em><span class="fontstyle2">Numa só onda o mar inteiro</span></em><span class="fontstyle0">¸ as coisas não são como parecem. O amor pode continuar após a morte do amado, os espaços mudam de lugar, e a memória pode ser traiçoeira. O mistério que envolve a experiência humana surge a partir de atividades cotidianas como jogar xadrez ou pegar um trem. A certeza das personagens presentes neste livro é colocada sob suspeita, pois nem sempre compreendemos corretamente os fatos. A partir da ordem, a desordem chega para nos mostrar que há sempre mais por ver.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="Default" style="text-align: justify; line-height: 150%;">A capacidade que a arte, e em especial a literatura, tem de transmitir sensivelmente a experiência do mundo <span style="color: windowtext;">não está posta nem na mimese formal dos objetos reais através dos quais se constituem, nem na verossimilhança produzida pelas ações das suas personagens. Reside, entretanto, na capacidade do artista de apresentar ao leitor uma certa dinâmica do real traduzida, com efeito, através de uma síntese de opostos, seja no plano visual, intelectivo ou sonoro do construto artístico. Essa </span>unidade de mudança e duração (<i>Wechsel-Dauer</i>, como a nomeou Goethe) é um processo enantiomórfico através do qual se encerra a grande contradição desse real, a “coisa em si” tão obsessivamente perseguida pela filosofia ocidental, que, ironicamente, pode ser capturada apenas em seu estado de devir, esteja ele expresso no “fogo-calmo” do rio Neckar <a name="_Hlk68792542"></a>— como notou Hölderlin durante sua viagem a Heidelberg — ou mesmo na “pressa que se demora” das cascatas suíças em Schaffhausen, no rio Reno — conforme Goethe. Em outras palavras, a Alma da Natureza escapa, por sua própria índole transitiva, aos olhos dos homens já habituados à rotina dos acontecimentos, e, sobretudo, às categorizações próprias do uso utilitário da linguagem, isto é, da esterilização desse vir a ser provocada pela produção de mais e mais conceitos, o que se converte, fatalmente, numa cisão (na modernidade mais tardia) entre o corpo e o espírito. Na contramão dessas tendências objetificantes de um realismo extrínseco, <i>Numa só onda o mar inteiro,</i> de Caio Augusto Leite, percorre, mais uma vez, o caminho do corpo, através de temas que remetem inequivocamente ao desvelamento dessa dinâmica do real por meio de imagens simples, sensíveis e cristalinas, que, no entanto, pejadas também de sombras e lugares vazios, oportunizam o contraditório que pode levar a essa tão necessária desautomatização do olhar para o mundo, para o outro, e, dialeticamente, para si mesmo, deslocamento, esse, que só a literatura realmente atenta ao <i>páthos</i> da natureza humana pode produzir.</p>
<p class="Default" style="text-align: justify; line-height: 150%;"><strong>Rafael Tahan</strong>, poeta e mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Anhangá</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Oct 2023 13:07:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O choro rompeu o silêncio na mata — o que não é verdade, já que na mata não existe silêncio, muito menos à noite. Mas sim, aquele choro sobressaiu-se a todos os ruídos que na madrugada assustam e, às vezes, nos arrebatam a alma: ao barulho dos grilos, dos sapos, do caburé... do vento arrastando as folhas secas ou fazendo ranger o bambuzal; das criaturas existentes ou imaginárias; dos seres encantados e dos espíritos.

Os pássaros agitavam as copas das árvores, assustados e desorientados pela escuridão. O bater de suas asas despertava as guaribas, que gritavam à toa, pois ninguém lhes dava importância. O único som que se percebia em toda a floresta era o daquele choro, que o caboclo ribeirinho, arrepiado, imaginou ser a <em>Matinta Perera</em>, e, numa aldeia distante, temiam tratar-se do <em>Anhangá.</em>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao receber o convite do Yussef para escrever esta orelha, hesitei. Deparei-me, em todas as vezes que vi um homem branco escrever sobre povos originários, com histórias que pouco ou nada somavam à luta, mas que engrandeciam o seu ego e a sua carreira. Respondi que teria que ler a obra primeiro para, então, dar-lhe uma resposta. Sempre defenderei e reforçarei que são os nossos que devem contar as nossas histórias, mas vi uma responsabilidade e um cuidado na escrita e na postura do Yussef. Confesso que me tocou o fundo d’alma. Neste livro, Yussef Francis Kalume traz, por meio de um romance ficcional, uma história que, na realidade, acontece há mais de 500 anos. Rudá, personagem marcante da trama, nasceu como fruto de um amor entre Moara, uma mulher Moparã, e Iberê, um homem Jaguará. Com dupla etnia, cresceu sendo acolhido por duas aldeias. Até que ele, que sempre pôde escolher entre esses dois espaços, se viu, pela primeira vez, sem poder de escolha. Tudo era seu, mas era como se quase nada lhe restasse. As suas famílias já não estavam mais ali, e os territórios já não o acolhiam. Restava-lhe apenas uma paixão que acendia chamas de esperança em seu peito, mas que logo foi impedida pelo novo sistema de sobrevivência. O que um dia foi visível e palpável tornou-se lembrança e saudade. O que um dia foi belo converteu-se em dor, logo em pólvora. O que um dia foi real transformou-se numa lenda que passou a ser contada de várias formas. Será que hoje há alguma boca que conte essa história de forma correta?!</p>
<p><strong>Raynna </strong></p>
<p>(Payayá/Tapuia)</p>
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		<title>A canção da inocência e a reluzência demoníaca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Oct 2023 20:40:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A desordem, a orgia e, principalmente, a alucinação (concretizada em linguagem febril) são temas fulcrais deste romance. Os textos bíblicos são a base da história, na qual o sangue urge a um personagem marcado pela violência desde a infância. Emanuel, protagonista e narrador, reveste-se de uma couraça poética, estranha, premonitória, que tinge de cores e tons toda a brutal realidade à sua volta, incluindo a sua vida com a mãe, a sua vizinhança, os seus colegas de escola e mais diversos outros personagens e lugares.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Seja pela escolha gramatical do tu, em detrimento do você, este último mais informal, ou pela escolha do léxico e discurso grandiloquentes, igualmente inusuais, a linguagem deste livro toma ares anacrônicos, mas já advirto que tal característica á apenas aparente. Justifica-se pela trama, mas não só isso: trama e linguagem neste livro coexistem de maneira tão harmoniosa que uma depende substancialmente da outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Inspirada na tradição cristã, mais propriamente na Bíblia, essa linguagem é levada ao extremo, a momentos de pura convulsão. E, em se tratando de um universo religioso, poderíamos fazer um paralelo do romance com a Santíssima Trindade, sendo aqui a linguagem: o Pai; as imagens: o Filho; a violência: o Espírito Santo. Creio ser essa a tríade que sustenta a trama. Sendo a violência, além disso, o sopro que a anima. Violência essa cruel e brutal, mas também lírica. E há ainda, de forma quase onipresente, a hipérbole, figura de linguagem que se justifica tanto pela questão bíblica quanto pela visão de mundo do protagonista-narrador.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, já há o aviso, em forma de epígrafe (referência ao Novo Testamento): “bem-aventurados aqueles que não se escandalizam de mim”, e eu reitero que quanto à violência “não há nada de novo debaixo do Sol”, nem mesmo a hipocrisia dos que possam se escandalizar ou vir a julgar a obra pelo prisma da moral mais tacanha, posto que a própria Bíblia e o mundo que nos circundam não são outra coisa senão um interminável rio caudaloso de sangue, miséria e destruição.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Pedro Colombo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Nem todas morrem no final</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Oct 2023 20:27:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ela fumou um cigarro no caminho, as luvas atrapalhavam um pouco, <em>mas estava um frio! É cada uma que eu passo por esse homem</em>. Cruzou com os olhos dele e mirou fundo no castanho: ele era bem bonito. Naquela íris perdia-se devagar enquanto pedia para sentar em seu sorriso. Em meio aos delírios de quase êxtase, um toc toc na porta.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quinze textos breves compõem este livro de estreia de Monalisa Bomfim. O designativo “textos” ajuda a contornar a dificuldade em circunscrevê-los em único gênero literário, já que se trata de uma reunião de contos e poemas. Mal escrevo isso e me parece desajustada a palavra “reunião”, que poderia dar a entender, equivocadamente, que os textos aí estão de modo aleatório, único fio a atá-los a sucessão das páginas impressas. O que ocorre é bem diferente disso. Explico-me: são textos que se enredam mutuamente, que fazem eco uns aos outros, seja temática, seja formalmente — e isso sem prejuízo de sua diversidade. A essa força centrípeta não escapam nem mesmo as epígrafes escolhidas a dedo pela autora: outros tantos textos, apropriados e chamados a dialogar com esse universo de personagens mulheres que de diferentes maneiras se mostram abertas para a vida, para o amor e para a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">É desse enredamento que resulta talvez o mais notável aspecto do livro, a maneira como vida, amor e morte são tratados sem hierarquizações benevolentes ou oposições maniqueístas, em favor de um olhar que desvela como, no quinhão de existência de cada uma das personagens — e de cada um de nós —, vida, amor e morte estão imbricados e implicados mutuamente. Se isso parece um truísmo, nem sempre é fácil encontrar boas representações literárias dessa complexidade que faz deslizar a vida para dentro da morte, o amor para dentro da vida, a morte para dentro do amor e assim sucessivamente em combinações cada vez mais improváveis e verdadeiras. Veja-se, por exemplo, o desvelo amoroso da guardiã, em conto do mesmo nome; ou a força anímica da flor que desponta teimosa do cimento, despertando o impulso mortífero até de quem só soube, ao longo da vida, cultivar; ou ainda o cuidado metódico da personagem que planeja cuidadosamente o momento mais extraordinário da sua vida, ainda que saiba que ele também será engolfado pela vida ordinária.</p>
<p style="text-align: justify;">É assim que fui sendo levada de texto em texto até a última página do livro: sem coragem de quebrar os elos que os atam, curiosa para entender de que forma a autora daria a ver os deslizamentos de aspectos da vida humana que, de tão sutis, quase nunca são captáveis, senão pelo olhar artístico e literário. Ao fechar o livro, permaneceu aquela satisfação intranquila que nos reserva a literatura digna desse nome.</p>
<p><strong>Rejane Rocha</strong></p>
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		<title>Tarô</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Sep 2023 16:36:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— Eu sabia que você viria se despedir — ouvi sua voz ecoando do banheiro, enquanto ele abria a porta na minha direção.
Perdi a fala.
Como assim sabia?
O que eu estava fazendo ali? Por que fui parar naquela casa? O que eu esperava que ele fizesse ao me ver? Era realmente ele? Ou a casa já estaria vazia?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quem abrir <em>Tarô</em>, de Nicole Oliveira, receberá o intrigante convite de perambular pelas calçadas de um subúrbio qualquer de um país periférico. As palavras, costuradas a dedo pela autora, possuem a capacidade de transportar quem realiza tal travessia para tardes quentes, úmidas e despretensiosas do final da década de 1990. Através da companhia de três adolescentes, Vitória, Julieta e Marcela, é possível caminhar pelos quarteirões de um bairro de classe média baixa localizado na região central da capital paulista e entrar, vez ou outra, em uma casa, um bar, um salão, uma oficina, um ônibus, uma escola, uma padaria, uma igreja, um cemitério e até mesmo em um terreno baldio. Ao longo desses trajetos, se notam as alterações de suas ruas quando começam a receber a decoração antecipada de Natal, quando reúnem jovens nas calçadas em meios às férias e ao verão, quando aglomeram vizinhos em um bloco de Carnaval ou quando testemunham os preparativos para uma festa de casamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Através das movimentações provocadas pelos caminhos da vida e pelas cartas do tarô, quem acompanha os jogos de sorte e azar das irmãs Raz, que persistem em embaralhar noções como vontade e destino, constata que também é preciso ampliar sua leitura em direção às janelas quebradas, aos muros pichados e aos encanamentos estourados que fazem parte de seu entorno. Dessa maneira, se faz necessário farejar as trajetórias realizadas por meninas — que cheiram a chiclete, fritura, cerveja e peru queimado — através das habilidades de alguns dos animais que se apresentam nesses percursos, como uma rata, uma corva, uma tartaruguinha, um cachorro, um bode, duas cervas e alguns homens. A partir da ampliação dos sentidos, é possível reconhecer que, ano após ano, as nuvens estão ficando mais carregadas e prever que, em algum momento, o cinza precisará dar espaço a outras cores no horizonte.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem já conhece a escrita de Nicole Oliveira, é uma grata surpresa identificar os aprofundamentos dos buracos que persistem em vincular gênesis e juízo final, apogeu e colapso, já presentes em <em>Pequenas Catástrofes</em>. Aos que ainda não tiveram oportunidade de ser conduzidos e capturados pelo modo afiado como a autora tece seus textos, esta é a ocasião para começar a se aventurar por narrativas, contos e peças de teatro nas quais o trágico se apresenta como fio condutor. Em <em>Tarô</em>, com olhos perfurados por agulhas, com gargantas entaladas por punhais, em meio a uma coreografia trágica que acontece enquanto o céu está prestes a desabar, o gozo de quem lê está, justamente, na busca por indagar quais forças determinam nossas existências.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Paola Lopes Zamariola</strong></p>
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		<title>A idade das perguntas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Sep 2023 14:23:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Meu pai, como muitos outros, queira usar o dinheiro que ganhasse na construção de Brasília para comprar um pouco de terra em algum lugar. Talvez começar alguma criação. Um ano antes de morrer — caindo de um dos prédios onde estava trabalhando —, comprou uma ema, crescida, e colocou o animal em um cercado que havia feito atrás do nosso barraco provisório. Equivalia ao peso de quinze galinhas, foi o que lhe disseram. Pagou caro por uma fêmea, que supunha a primeira de sua futura criação. Deu-me a responsabilidade de cuidar para que não roubassem o bicho durante o dia, e de alimentá-lo. A ema era enorme, metia muito medo em mim.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nem sempre há possibilidade de redenção, na vida e na literatura. Mas, às vezes, há a possibilidade de vislumbres de uma luz estranha, que quando toca — sempre com assombro e volatilidade — as coisas do mundo, tem o poder de vicejar, em pequenos instantes, verdadeiras epifanias.</p>
<p>É disto que se encarrega a escrita de Iko Flores, das impressões indizíveis encapsuladas de forma quase sobrenatural em invólucro de texto. Em seu livro de estreia, nos deparamos com a escassez das respostas, porque elas deixam de ser importantes quando são os enunciados que carregam as revelações.</p>
<p>No conto “A idade das perguntas”, que dá título ao livro, os questionamentos se desenrolam sem sobreposições hierárquicas, ou sem apreço ao reino da lógica. O que é o suicídio? — a criança pergunta ao pai. Quando o sol se põe no horizonte, ele passa a iluminar o fundo do mar? Também os cavalos, quando velhos, ficam grisalhos? Indagações infantis, profundamente necessárias: enquanto o olhar da criança busca compreender o mundo, ela gradativamente o reinventa.</p>
<p>Os estremecimentos que perpassam os contos aqui reunidos são de uma ordem singela, jamais abalada por excessos, seja de luz ou de sombra. São, contudo, dramas cotidianos que, ao trabalharem as irrupções do que há de mais poético e de decisivo no humano, nada têm de banalidade. Ao autor interessam mais os sobressaltos do âmago do que os eventos (trágicos ou esperançosos) que se desencadeiam em torno dos personagens. Estes, solitários, em busca de salvação ou diante do abismo, patéticos ou imbuídos de uma dignidade intrínseca, são protagonistas porque carregam o <em>agon</em>, o conflito, mas na via contrária à das jornadas heroicas: pois são antagonistas de si mesmos, e seus desfechos importam menos do que seu encontro com as questões que trazem. O encontro, nesses contos, essa fricção entre dois corpos, dois mundos ou duas desolações, é colisão ou adeus, confluência de cursos d’água, sempre efeito alojado entre as omoplatas, deixando em seu rastro reverberações de beleza. É uma prosa que se desfolha em consumição necessária, de dor ou de graciosidade. Somos invasores em um universo magnético e as tramas escondem, aqui e ali, passagens secretas.</p>
<p>Neste sentido, Iko Flores é habilidoso não apenas em tecer ficções inventivas e luminosas a partir das linhas mais tênues: sua prosa se firma em pequenos e constantes clarões de poesia — aquela luz estranha que, quando se revela, é sempre intempestiva e rara.</p>
<p><strong>Léo Tavares</strong></p>
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		<title>Mitologia pantanal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Sep 2023 14:00:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sete lendas das Missões do Itatim, um homem que viu o Pai do Mato! Um tratado para o canto das aracuãs, um
ensaio sobre a origem e as espécies de Saci. Nhanduti,  três lendas para NS de Caacupê. E se o nascimento de Jesus tivesse sido na fronteira…? A Retirada da Laguna. No tempo dos ervais da Cia. Matte. O antes e o agora na literatura de Mato Grosso do Sul. Textos mestiços: mitológicos, originários, imigrantes, pioneiros — com suas paisagens humanas, seu bioma social, sua escritura simbólica, fantástica. É dessa gente e dessa natureza que Manoel de Barros <em>fez matéria de poesia.</em></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Imagine inventar lendas, reescrevê-las, se inspirar nelas para relatar e revelar o Mato Grosso do Sul. Pois este livro é isso! É dessas narrativas e literaturas que ele trata. Fala do tempo das Missões, de fazendeiros e boiadeiros, dos bichos e plantas (com os quais inventa lendas <em>super</em> sul-mato-grossenses), da História — até com H maiúsculo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pinta cenários e imagina espaços para a Mula sem Cabeça e o Lobisomem. Registra aparições e sustos do Pai do Mato. Não poderia faltar o Saci, Jacytatere, original, mestiço. Vamos do Pantanal ao som da viola de cocho para a Serra da Bodoquena, dos trilhos da Estrada Noroeste para os ervais da antiga Companhia Matte. A obra lembra, adota ou batiza os elementos culturais paraguaios, como o idioma guarani, Madrecita Caacupé e o Nhanduti.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa mimética criação, parafraseia José Saramago, transladando os sagrados evangelhos para as paragens e situações da fronteira do Mato Grosso do Sul, suas gentes, seus espaços, usos e costumes.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final do livro, contos de criação inspirada na escritura de Jorge Luis Borges, nos quais lemos/vemos episódios da Retirada da Laguna, acontecidos no chão natal do escritor, recriados e repensados, num amálgama de ficção, pesquisa e fatos em que a Literatura e a História dão-se as mãos numa alquimia reveladora…</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Mitologias Pantanal</em> é um livro belo, profundo e sinuoso, que mostra através de suas lendas, seu folclore, fauna e flora exuberantes que o Mato Grosso do Sul é muito gente, muito humano. E é esse ser humano, sua história e cultura que se afirmam e se criam (n)estas <em>Mitologias</em>. Literatura total, à beira do impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">Me deu uma vontade doida de gritar… Pois grito:</p>
<p>— Pipipipopopupuúúú’!</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Portas e vãos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/portas-e-vaos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Aug 2023 20:07:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os sete contos deste livro se ligam pela temática encantadora e muitas vezes cruel da paixão amorosa. Guiados por impulsos e desejos dissimulados, seus protagonistas se deixam facilmente enredar no perigoso teatro da sedução, vivido no convívio das relações. As tramas, primorosamente bem construídas, cheias de idas e vindas no tempo, surpreendentes a cada lance, revelam no seu desenrolar o lado mais sombrio e o mais amoroso do humano.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que é a crônica senão um retrato, a polaroide que registra um instante, e que, décadas depois, nos permitirá compreender um pouco melhor o período em que foi escrita? — Antônio de Alcântara Machado, Cecília Meireles, Rubem Braga, Clarice Lispector e Lourenço Diaféria que o digam, dentre tantos muitos outros. E, na tangência entre o estilo do conto mais clássico e algumas passagens que remetem à forma de contar dos cronistas, David Oscar Vaz nos brinda com esta coleção de textos, poéticos em determinados instantes, mais fluidos em outros, como numa conversa de vizinhos ou num papo defronte ao balcão da padaria de bairro que aparece no conto “A trama de Afrodite”.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">O escritor é íntimo da composição doméstica de Machado de Assis, e ares das famílias retratadas pelo gênio criador da Academia Brasileira de Letras surgem nas tramas deste volume, como uma pitada de elegância a mais na construção da prosa.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Além da tradição machadiana e dos traços de memórias que surgem com pitadas de crônicas, nota-se no trabalho do autor uma linha de trabalho inspirada num outro mestre das nossas letras: Nelson Rodrigues. Há um elemento de trágico, de inevitável, que assalta as famílias descritas nos enredos e que nos leva ao prosador carioca. O olhar rodriguiano para algo a princípio despudorado, mas que não deixa de ser parte do humano (e que faz de tudo para ocultar os desejos mais verdadeiros muitas vezes), aparecem nos contos do livro, talvez com mais força no texto “O coração de Carolina”.</p>
<p style="text-align: justify;">A dicotomia passado-presente, mais uma vez, em “Chuva oblíqua”, fazendo referência ao magistral poema de Fernando Pessoa, aparece costurando o narrador do presente com o jovem entusiasmado e célere de outros tempos — ele mesmo — entremeado a lembranças e decepções, porém diante de uma grande realização que é a publicação de um primeiro livro — ninguém sai impune da publicação de um primeiro livro. A história corrobora os movimentos de memória e imaginação que permeiam as sete narrativas, dando ao livro uma unidade que navega por recordações e projetos, saudades e ressentimentos: luzes a escapar por entre os vãos das palavras, por entre um acontecimento e outro, formando um bonito mosaico de impressões oferecidas ao leitor na forma de contos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Moacyr Godoy Moreira</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>O velho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Aug 2023 00:41:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O filho mais novo se propõe a discursar no velório. Em casa, de preto, ensaia uma fala de longo fôlego sobre o velho, mas na ocasião só saem duas palavras: <em>Eu tentei.</em></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>O velho</em> é o livro de estreia de F. K. Bettiol. Sua narrativa brevíssima, caleidoscópica, híbrida, entrega fatias mínimas de pontos de vista variados a respeito do personagem-título, sobre quem, por fim, sabe-se tão pouco.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">A representação crua de algumas experiências de envelhecimento — os limites do corpo e da mente, ambos dando sinais evidentes de cansaço ou falência — soma-se aos limites das relações entre os personagens. Qual a relação entre pais e filhos, esposa e marido, viúva e memória do morto? A falta de nomes próprios ajuda, por um lado, a despersonalizar o velho e os personagens que gravitam ao seu redor. Por outro lado, permite a inevitável projeção de sujeitos sociais e de suas características, coisa que o enredo tênue é capaz de desfazer, aqui e ali, ao dotar os personagens de traços únicos, como é o caso da cuidadora, pouco envolvida com o velho de quem, no entanto, deveria cuidar.</p>
<p style="text-align: justify;">É mesmo sobre o velho, o livro? Ou sobre os que veem o velho, sem desejo de enxergar, de escutar, de cuidar, de limpar? Talvez duas respostas sejam possíveis, na leitura e em releituras. Afinal, o texto conciso parece convidar à releitura, a vislumbrar nos silêncios o que os personagens desejariam ter dito, o que planejaram dizer, mas não foram capazes ou não tiveram coragem de fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O personagem-título começa a ser mostrado por suas exterioridades, seus resíduos, seus dejetos. Só depois é que a narrativa acrescenta um ponto de vista mais particular: o do próprio velho, com sua intimidade, seus poemas, suas reflexões e páginas frustradas. Não deixam de ser, essas páginas, resíduos de uma vida vista depois da morte, como restos definitivos. Não mais escatológicos, são densos e enigmáticos. Convites, mais uma vez, a ler e reler, descobrir sentidos, montar o quebra-cabeças textual de outras maneiras, encontrar um fio para o labirinto de fragmentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Qual relação quererá o leitor estabelecer com este velho, de papel e tinta? Essa relação, se intensa, trará à tona experiências da vida real, feita de corpos, cheiros, memórias e afetos. Apesar de sua concisão, ou talvez justamente por causa dela, o texto parece impelir à reflexão sobre a realidade. No silêncio do branco das páginas, o convite para a participação e para o envolvimento do leitor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Milena Ribeiro Martins</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Risos no hospício</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Jul 2023 18:32:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[“Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino
De longe, eu avistava a figura de um filósofo
Que corria abrir o Montaigne e depois vinha me pedindo
‘Leia pra mim, seu moço, que é pra eu ficar ouvindo’
Quando a boiada passava e a poeira ia baixando
Eu jogava uma moeda e ele saía sofismando:
‘Obrigado, boiadeiro, que Platão vá lhe acompanhando’]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Otto Lara Resende contava do dia em que, diante das alarmantes notícias sobre uma greve geral, o amigo Rubem Braga lhe telefonou e convidou-o a ir ao Bar Luiz. “Vamos ver a crise de perto”, propôs. O episódio ilustra a peculiar lógica do cronista. A ele interessam as miudezas, que quase sempre, num aparente paradoxo, têm o poder de iluminar o quadro geral. Pois Carlos Castelo é um dos mais brilhantes em atividade. Seja nas máximas cheias de verve e ironia, seja nos textos mais longos, papeia com o leitor como se estivesse à mesa do bar, de bermuda e chinelos, sob a brisa fresca da tarde. Se há forma melhor de se conversar, desconheço.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong><strong>Marcelo Moutinho</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Carlos Castelo é um ótimo cronista. Admiro seu estilo calmo, sem pressa, de quem sabe conversar (sem nunca gritar) com o leitor. Pode ser muito engraçado, mas em geral seu humor é discreto — vence por pontos, não por nocaute. Pode ser lírico, até. De um lirismo suave, pouco dramático, em sintonia com o país de Rubem Braga e João Gilberto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fabrício Corsaletti</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">O cronista é, antes de tudo, um irreverente. A reverência pomposa não combina com a crônica, seja ela direcionada a personalidades, lugares ou ideias. Certa vez, Castelo perguntou a seu leitor: “E se Jesus morresse no sofá? Uma coisa é certa: decorar as igrejas seria complicadíssimo!”. Assim é o cronista, um sujeito capaz de fazer troça até dos objetos mais sacrossantos, como os sofás. Que tipo de pessoa levantaria perguntas dessa espécie? Só um louco. Ou um cronista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong><strong>Marcelo Dunlop</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O último apito do trem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Jul 2023 23:20:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lilás Nogueira, apesar do nome incomum, era, em suas palavras, tediosamente comum, com uma vida igualmente tediosa. Porém, a queda de um meteoro numa fatídica noite a transporta para uma aventura na qual realidade e tempo se misturam. Por sorte, ela não está sozinha: em sua jornada, conhece Noel, um menino misterioso que parece estar na mesma situação. Juntos, os dois partem em busca de uma saída, sem saber que um vilão está à espreita, cobiçando seus poderes...</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando criança gostava de me aventurar em mundos fantásticos, fosse nas costas de um dragão ou no lombo de um unicórnio. Nunca numa baleia voadora ou num vagão interdimensional, pelo menos não até agora.</p>
<p style="text-align: justify;">Dotada de uma mente brilhante, Bia Chaves abre as portas de uma Belém única, em que voltamos a ser crianças. Isso enquanto nos ensina sobre o poder da amizade, a magia da diversidade e, principalmente, o amor pela vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Acrescento que O último apito do trem viverá para sempre em seus corações, assim como vive no meu desde os primeiros manuscritos. Uma prova de que a literatura fantástica brasileira não perde em nada para o resto do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Rafael Delboni</strong></p>
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		<title>Tomei um doce sem calcinha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Jul 2023 18:39:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Como numa montanha-russa, a dor e a fúria intercalavam espaços dentro da loba que renascia, e, quando a segunda dose da mais pura raiva voltou, viu-se em frente ao armário observando as roupas do marido, todas cúmplices da canalhice daquele corpo que ela tanto amava, ou achava que amava. Pegou não tudo, mas muito, e caminhou sorridente até os fundos da casa. Entre os ternos, os Armani foram os primeiros a queimar, depois as calças sociais, as camisas polo, as gravatas e as cuecas que ela lavava tão bem. Tudo virando uma grande fogueira que não só queimava roupas caras, como também lavava a alma.”</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Tomei um doce sem calcinha</em> é uma coletânea de contos que tem como fio condutor as histórias de Ana e de mulheres que se relacionam entre si por uma hereditariedade. Fruto de algumas experiências pessoais, as narrativas apresentadas transitam pelo universo feminino em temáticas como abandono, maternidade solo, gravidez na adolescência, amores não correspondidos e traições, entre outros temas do universo feminino e LGBTQIA+.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto que dá nome ao livro, Ana é uma jovem que está profundamente apaixonada pela imagem idealizada de sua amada casada. Presa numa eterna viagem psicotrópica e num turbilhão de pensamentos e sentimentos que guarda somente para si, Ana precisa enfrentar a realidade, materializada na festa de aniversário da amante, e combater o sentimento tóxico que ela mesma criou para saciar os seus desejos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tomei um doce sem calcinha</em> é uma narrativa intimista e não linear, que flerta com a obscuridade do nosso subconsciente, muitas vezes inclinado a criar situações perfeitas que existem apenas em nossa mente.</p>
<p style="text-align: justify;">“Mulheres várias, mágicas intensas; justiceiras emaranhadas em trechos de estereótipos engolidos (a seco). Cada mulher uma chave, uma chance, uma chancela para rasgar os papéis nossos de cada dia. Mulheres que se desregulam, que se desmembram, que se demovem para ser plenas de saudades, de afetos, de desejos: livres e libertas, de filhas a avós em um piscar de olhos, conduzindo a barca no infinito das pernas e gozando, para o desespero dos homens em criogenia.” — Mylle Silva</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Entre o fogo e a flecha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Jul 2023 18:25:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após um incêndio que destrói toda a sua vila, Catarina é salva por um cavaleiro do Rei e passa a viver de forma clandestina no castelo Real. Entre o fogo que transformou sua trajetória e a flecha de quem a salvou, ela precisa se resignar para continuar viva, enquanto começa a se envolver e descobrir os segredos do Reino.
Catarina então percebe que a vida é um grande movimento cíclico e que ela precisa decidir se quer repetir o passado ou romper de vez com os caminhos de quem a antecedeu.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando eu era pequena, meu avô dizia que, se o Reino está muito tempo em paz, é momento de se preocupar. A guerra virá.</p>
<p style="text-align: justify;">— A vida é cíclica, Catarina. Passaremos pela mesma situação várias vezes, geração após geração. Não serão necessariamente as mesmas pessoas ou exatamente a mesma circunstância, mas o mesmo padrão. E ele se repetirá até que, um dia, alguém decida rompê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu achava aquilo exagerado. Mas eu devia ter acreditado._<br />
&#8212;&#8211;<br />
Catarina tem uma vida comum até o dia em que um incêndio inesperado devasta toda a sua comunidade, matando familiares e amigos. Sem compreender o motivo, ela é salva por Will, um cavaleiro Real que tinha a missão, junto com seu grupo, de apagar qualquer rastro daquela pequena vila.<br />
Para se salvar, Catarina finge ser uma amiga distante de Joana, filha do Rei e também noiva de Will que, embora a contragosto, apoia o plano para não prejudicar a carreira do futuro marido. A partir daí, a camponesa torna-se uma hóspede do castelo, enquanto recupera-se e elabora maneiras de se livrar daquela situação.<br />
Dividida entre o ódio de quem a destruiu e a gratidão por estar viva, Catarina passa a conviver com seus algozes e descobrir os mais profundos segredos e dores daquele Reino. E, quando menos percebe, está mais envolvida do que gostaria nos dramas daquela família.<br />
Ela então precisa decidir que papel vai desempenhar para quebrar antigos padrões e garantir que as histórias do passado não aconteçam novamente.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Imagem invertida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Jul 2023 15:07:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O cheiro da terra vermelha depois da chuva é algo de que nunca me esquecerei. Assim como jamais perderei o enlace dos dias mais frios de Curitiba, quando tudo fica cinza e o sol parece nunca mais ter forças para aparecer. De certa maneira, essa umidade que passa pelos poros do meu corpo me faz sentir o cheiro do interior. Uma simbiose completa entre o antes e o agora, como se tivesse ficado parado no intervalo entre esses dois pontos: a pausa desenhada em uma partitura musical só faz sentido, justamente, porque está parada entre o que veio antes e o que virá depois, ou seja, nasce a partir da estática para, então, colocar-se em movimento.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Depois de duas décadas sem voltar para sua cidade de origem, o psicólogo Pedro retorna ao interior do Estado com a suposta finalidade de reatar alguns laços soltos e voltar a um passado que o acompanha.</p>
<p style="text-align: justify;">Como diferenciar as lembranças e memórias das invenções que sua imaginação cria? A narrativa dessa busca (estruturada em <em>prólogo</em>, <em>episódios</em> e <em>epílogo</em>, como as tragédias clássicas do Teatro Grego) fornece pistas para o leitor sobre qual a verdadeira razão de sua viagem, sua relação com a mãe e com o pai, seus avós paternos (que vieram da Itália fugindo da Segunda Guerra) e ainda divagações sobre como a psicanálise e algumas pseudociências (ironizadas por ele) explicam a formação de seu caráter e personalidade determinada, muito possivelmente, pela infância e outros momentos de sua criação.</p>
<p style="text-align: justify;">Através das metáforas do espelho e da revelação do negativo de uma fotografia, o narrador expõe as dúvidas e aflições que estão presentes na vida de Pedro: “<em>era como se estivesse vendo o negativo de uma fotografia, dividido em duas realidades invertidas, pronto para ser exposto à luz, jogado em uma mistura líquida</em>” e transborda a tensão desse momento de busca “<em>voltar, fechar um ciclo. Não é assim que vivemos nossas vidas?</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria Pedro a imagem invertida de seu pai?</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Pontas soltas tardes de neblina</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/pontas-soltas-tardes-de-neblina</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 10:41:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Memórias, ensaios, narrativas, crônicas, textos abandonados, restos de leitura; é desse liame de textos — que rompe com a tênue fronteira dos gêneros literários — que surge Pontas soltas tardes de neblina, um romance autoficcional, no qual o narrador relembra sua infância em um bairro de classe média: o primeiro contato com a leitura, o cinema e a escrita, a partir das histórias que sua avó contava num final de tarde.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Neste <em>Pontas soltas tardes de neblina</em>, de Rogério A. Tancredo, o narrador toma a memória como matéria de invenção de si e de sua linhagem familiar, porque “A memória, com o tempo, torna-se um labirinto sem saída” e é preciso espernear contra essa dura realidade. Assim, a autoficção é o meio de inventar saídas onde estas não existem.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma mãe amargurada e violenta, a ausência de um pai, as dificuldades financeiras no Brasil dos anos 1980. Em meio a um cenário turbulento, encontramos, por exemplo, a avó que criava histórias para manter nosso protagonista por perto. Pois, se contar histórias não redime o mundo particular de suas adversidades, no mínimo serve para nos aproximar como pessoas implicadas numa cumplicidade que extrapola os laços sanguíneos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas aqui não temos apenas amarguras. Tancredo soube muito bem temperar sua narrativa com momentos em que nossos sentidos são despertados e levados, deliciosamente, de volta ao vigor da juventude. “A comida de nossa infância é insuperável” — recorda o narrador. A atração irresistível pelo corpo feminino: “Ela riu, afagou minha cabeça febril entre seus peitos”. E, claro, as delícias da literatura: “Li livros inteiros dentro dos coletivos”, para citar alguns exemplos.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrever, porém, não alivia nossas perdas. Não há redenção. Rogério A. Tancredo escreve seu romance com a consciência de que “o fracasso está sempre à espreita”, e o livro que você tem em mãos prova que ele conseguiu, de uma forma corajosa e poética, ludibriar a possibilidade do fracasso. Ao final, talvez o leitor possa também dizer: “Encontro-me miserável e feliz”.</p>
<p><strong>Eleazar Venancio Carrias</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Tema do amado viajante</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 10:34:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Terei me aumentado, e para quê? De tão sozinha, exata e surpreende, segundo estima o campo velho em tempestade. Mas te preserva, fica a salvo. Esquece a sorte. Para a coisa que fascina, o horário engana. Em todo caso, ao menos o sol vai ter baixado qual técnica para sustentar o duradouro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro, <em>Tema do Amado Viajante</em>, convida e abriga o leitor na ânsia da revelação que se faz risco poético e o embala num devaneio, num último ou primeiro suspiro de quem sabe que “nem tudo que respira é de verdade”. No emaranhado de possiblidades, fragmentos vão tecendo relatos de ações interiores em um abril que se abre num espaço-tempo da memória e da entrega. Entrega que se faz pela escrita assumidamente desdobrada por quem escreve, lê e admite, em tom confessional, que “pesa manusear um lápis”.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo de início, desci de mãos dadas com o narrador aos porões tal qual Alaíde e, rodrigueanamente, me vi absorvendo cada dia a dia. Fui tragado pelo desdizer de detalhes tantos e proibidos. Fiquei em estado de visitante descobrindo segredos nessa Casa-Diário onde cartas tensionam sentimentos e colagens.</p>
<p style="text-align: justify;">As palavras do narrador-autor se metamorfoseiam, e personagens vão se aproximando — Armando, Paulo, Marcos e o leitor — e são convidados a adentrar essa Casa-Diário, a seguir pelos labirintos da escrita. Como disse Gaston Bachelard, “as palavras se vão, buscando, nas brenhas do vocabulário, novas companhias, más companhias.” O filósofo e poeta acrescenta, em tom questionador: “Quantos conflitos menores não é necessário resolver quando se passa do devaneio erradio ao vocabulário racional!”. As passagens não poderiam ser mais breves e profundas e, nessa vertigem, o sumário pode ser lido como poesia, síntese do que, principalmente, se faz sentir e sonhar.</p>
<p style="text-align: justify;">A metanarrativa onírica submerge do nível das (in)compreensões amorosas e cruas. E cada filigrana é densidade nessa busca. Cada confissão revela o que o autor-narrador procura entender na leitura, no toque, na espessura e no voo.</p>
<p style="text-align: justify;">Breves como são, os capítulos-fragmentos de Lucca Greco guardam certa potência, que pode e deve ser expandida pelo leitor num respirar emocionado, desatando o nó de cada imagem. Fica o convite: siga o leitor com o amado viajante.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>André Luís Gomes</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>A lua fantasma</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Jun 2023 13:00:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em algum tempo no passado, se eu tivesse morrido, meu irmão teria escondido meu corpo, não iria me salvar, mas fazer parecer acidente. Era isso mesmo que ele pensava?
Uma hélice girando muito forte, zunindo, a força centrípeta atirando pedriscos, terra, grama em um terreno que se corta muito rente. Ele só consegue se lembrar de algo esquecido, guardado a sete palmos de matéria orgânica recalcada e que retorna, como um sonho ruim, de arqueólogo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A primeira vez que vi Marcio Markendorf foi no início dos anos 2000, começando a faculdade&#8230; Era uma criatura rara, linda, enigmática, sobretudo apaixonante. Reencontro-me com ele, mais precisamente com seu verbo-afeto, duas décadas depois, unindo as duas pontas de nossas vidas literárias. E, neste lado de cá do tempo, seu livro de contos <em>A lua fantasma</em>, um hino de oblação a Caio F., demonstra exímio trabalho com as palavras, labor que em cada uma das narrativas deixa impressos os engendramentos operacionais dos afetos, melhor, dos afetos-outros, aqueles considerados socialmente <em>inadequados</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses afetos geram sujeitos <em>inconvenientes</em>. E para tratar deles o autor lança (ou dá a) mão para outros, <em>i.e.</em>, por debaixo da terra das palavras deste conjunto de textos, é possível vislumbrar, além de Caio F., Kafka, Raduan, textos sagrados judaico-cristãos, tragédia grega, muitos filmes, elementos onírico-insólitos e, claro, a vida acontecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Marcio, com erudição — não aquela que afugenta o leitor, mas pelo pacto que mantém com a palavra —, trata do ordinário cotidiano: a iniciação do amor adolescente se inclinando a um corpo-outro-igual, como se observa em “O dia em que vi o cometa Halley passar”, “Lá, na cidade pecuária”. Ou ainda, as relações efêmeras entre homens (“Cicatrizes” e “Animais noturnos”); homens que amam garotos (“O pinguim”); amores gays (im)possíveis (“A lua fantasma”). Em linhas gerais, pergunta: <em>pode doer o amor?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Em cada conto, o leitor não passa incólume aos eventos e às personagens, mas torna-se cúmplice de cada uma delas, seja por identificação ou sentimento de outridade; é convidado a penetrar o mundo das palavras e ver o outro, a dor do outro — o verbo-dor —, e, nesse gesto, ver a si mesmo nos solavancos da vida, nos caminhos sinuosos, nas tentativas de (auto)afetos, nas tragédias às quais todos estão submetidos; daí que o autor, num claro intento de não ferir mais ninguém, não manchar mais nossos olhos com mágoas e desafetos, tece, como as abelhas o fazem, um verbo doce e delicado, sem, contudo, nos sonegar a <em>verdade</em> do mundo. Em outras palavras, é a delicadeza inscrita no horror.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A lua fantasma</em> perpetrado pela voz poético-narratológica de Marcio Markendorf, talvez, esteja indicando uma saída, uma fresta, outro caminho na contramão da hegemonia&#8230; Para descobrirmos outras vivências sociais — a educação pelos afetos — e, assim, escaparmos de caçadores sanguinários e vivermos como os leões: em comunidade.</p>
<p><strong><em>Flávio Adriano Nantes</em></strong></p>
<p><em>verão de 2023</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Seu nome na minha boca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Jun 2023 16:49:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Pedi a conta perturbado e parece que escondi bem tudo o que se passava na minha cabeça. Perturbado. A barriga dela subindo e descendo tão deitada embaixo do meu corpo, a calcinha ali, e ela não queria tirar a calcinha, o que achei alarmante porque era necessário usar os dedos para enganchar e esticar as revelações, e eu queria uma conversa razoável, me fale sobre seus grandes sonhos, precisava de outros pontos, outros detalhes, certos pudores, porque estava fisicamente inquieto ou com um tesão além do necessário, mas continuava ali comendo por trás, e ela gemendo na beira da cama, derretendo, com as mãos escorregando, o corpo chegando no chão, e eu dizendo levanta, fica como eu mandei. Detesto que mexam nas minhas coisas. E ela dizendo eu não consigo levantar, e eu a recolhendo e metendo, e ela você me ama? E eu te amo há tanto tempo e vou te machucar, mas não agora, juro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Priscilla de Oliveira nos oferece em seu livro de estreia, <em>Seu nome na minha boca</em>, histórias que em narrativas diversas mostram como as relações familiares e amorosas são determinantes em nossas vidas. Nem sempre de forma agradável ou bem resolvida, seus contos cortantes têm em comum o devir mulher. Tendo esse tema como ponto de partida, as personagens surgem para falar de afetos e da força destrutiva de seus desejos reprimidos que pulsam como pequenos incômodos no cotidiano.</p>
<p style="text-align: justify;">A autora disseca com maestria o lado mais íntimo e, por isso mesmo, às vezes macabro de seus personagens.</p>
<p style="text-align: justify;">Há em cada conto a exposição da vida como um jogo de forças irracionais. Nomeado como delícia e terror, o conto escolhido como título do livro, “Seu nome na minha boca”, tem o clima da paixão encarnada sem romance, uma pitada de perversão revestida de erotismo, não há espaço para glamour.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso faz com que o livro de Priscilla apresente uma predominância feminina. São mulheres impulsivas, apaixonadas, que seguem o fluxo da atuação, levam a vida num ritmo norteadas por instantes de prazer e uma espécie de ‘não querer nem saber’ sobre o risco que correm. Sem amor avançam, sem prazer insistem. Ansiosas pelo futuro, teimam em lançar-se à própria sorte. Numa euforia contínua, elas estão ora buscando, ora fugindo. Insatisfeitas permanecem. Perdidas. Vítimas cambaleantes que no desfecho de cada história vivem a face trágica do amor.</p>
<p style="text-align: justify;">E por aí a trama segue, deslizando nos trilhos de uma vida sem rumo certo, o que aliás pouco importa, pois o que está em jogo na trama é uma ética do desejo cego, que faz de cada linha uma continuação, ou uma emenda infinita, do que há de mais revelador do feminino em sua particularidade. Além disso, as lembranças de quem já se foi são avassaladoras, embaralham os tempos vividos do presente e passado que nunca chegam a vigorar como saudades. Efeitos desencadeados da falta que provoca estragos e da violência sofrida. Nas entrelinhas encontramos o abuso sofrido por traição, estupro ou incesto. Acreditem, as personagens a tudo sobrevivem (mesmo que precariamente), menos aos efeitos silenciosos de suas próprias lembranças.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é a maior qualidade da autora: conseguir apresentar em seus contos uma trama que é capaz de revelar primorosamente o que não conseguimos jamais esquecer — que o amor marca para sempre a vida da gente, e não se vive isso impunemente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Renata Salgado</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Campo dos milagres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jun 2023 21:04:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O bizarro e o fantástico existem de forma simbiótica no Sul do Brasil, como se a existência de um justificasse a do outro. Nessa faixa de terra localizada abaixo do Trópico de Capricórnio, podem-se encontrar médicos nazistas, célebres vampiros e criaturas amaldiçoadas. Mas também a paranoia nos grandes centros urbanos, a fé que leva as pessoas ao delírio, e a vida moderna como um épico antigo. É esse o Sul que Francisco Mateus apresenta aos leitores ao longo dos seis contos de Campo dos Milagres, sua primeira obra de ficção.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entre em <em>Campo dos Milagres </em>pela estrada principal e, na impossibilidade de passar despercebido, acene para cada um que aparece à sua frente. Não estranhe se alguém lhe cuspir ou uma mula quase te atropelar: a recepção é essa mesmo, com gente simples, trabalhadora, graças a deus. Mas cuidado com Heriberto do Oeste, que deixo a cargo do leitor e da leitora conhecerem melhor, adentrando um dos diferentes estratos do Sul do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em sua estreia como contista, Francisco Mateus retrata esses espaços que habitam em cada um de nós, inevitavelmente paranaenses, mas sem o tom pueril de narração em off dos programas de TV locais e sem a afetividade alienante dos poetas de porteira e seus elogios à terra e à família. Nos textos, encontramos o reflexo de nosso tempo um tanto distorcido, registros-crônicas que passeiam por diferentes pontos de vista e vozes: uma viagem ao interior pode ser desgastante dentro de um Fusca, como o tédio que sentimos, ainda crianças, em tardes infinitas na casa dos avós, ou o alento nas palavras de um amigo compatriota quando em terras estrangeiras — ainda mais quando ele carrega a verdadeira essência do gaúcho.</p>
<p style="text-align: justify;">É inevitável não pensar no espírito latino-americano ao longo dos seis contos, reverberando a nossa orfandade de Bolaño ou Casares. Sair do campo e morar na cidade, procurar um refúgio de si mesmo em apartamentos pequenos e trabalhos insalubres para descobrir com dor o afeto que reside nas lembranças é, certamente, um excelente convite para recomeçar em um novo rincão desconhecido, sempre com a cuia em mãos. Afinal, “Quando não se pertence a um lugar, é muito mais fácil de partir”.</p>
<p><strong>Lucas Silveira de Lavor</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Aconteceu muita coisa nos últimos três anos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jun 2023 20:34:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em dez contos diferentes, <em>Aconteceu muita coisa nos últimos três anos</em> coloca mulheres lésbicas, bissexuais e sapatões como protagonistas de suas próprias histórias. A descoberta do amor, a desconexão de um casal, a entrada nas relações não monogâmicas, os novos formatos de família, o fim conturbado de um relacionamento, as implicações da proibição de um amor sáfico na juventude e outros acontecimentos cotidianos ou extraordinários recheiam as páginas deste livro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Você tem um convite.</p>
<p style="text-align: justify;">Está diante de uma porta abrindo lentamente para você.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre!</p>
<p style="text-align: justify;">Caminhe o quanto quiser pelo tempo, pelos quartos, pelas camas e pelos corações dessas pessoas agora mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Venha, não se acanhe! Não é sempre que se ganha esse tipo de liberdade. Aqui, uma taça está servida para que você beba de uma realidade muito próxima sem necessariamente estar nela.</p>
<p style="text-align: justify;">Não dessa vez!</p>
<p style="text-align: justify;">“Dessa vez, eu só vim para olhar.”</p>
<p style="text-align: justify;">Deslize as páginas, parando para sentir ou lembrar seus próprios momentos. Afinal, quem não se lembra dos plenos 18 anos de experimentações regados a vodca roubada do pai e refrigerante de limão? Quem não conhece a sensação de partilhar uma cama de hotel com a ex sem poder tocá-la, enquanto o celular vibra na cabeceira com uma mensagem da atual? Quem nunca viu a decepção nos olhos de um homem que, dia após dia, teve esperanças de mudar a sua natureza e nunca entendeu sua sexualidade?</p>
<p style="text-align: justify;">Já te adianto que esse convite inclui um interessante happy hour depois de um dia de trabalho em que você nem se lembra muito bem das atividades que cumpriu. Inclui viagens de ônibus e de avião regadas a muita cerveja e dilemas emocionais. Inclui abraços calorosos de amigas que acompanham o seu olhar. Inclui lágrimas da companheira que se perdeu demais em você e inclui cafés quentinhos em cafeterias aonde você vai sozinha, aliviar o peso do seu coração partido com as boas-vindas do seu computador. Você vai vibrar com uma mensagem chegando e vai deixar ir um amor que te fez muito feliz.</p>
<p style="text-align: justify;">E vai sentir que valeu a pena!</p>
<p style="text-align: justify;">Lendo, só consegui ser grata por tanta sensibilidade, pela aceitação dos sentires e pelo transcender de si mesma para habitar outros corações e escrevê-los. Obras que naturalizam amores atacados por tanto tempo são um bálsamo no coração. A aceitação do ser humano em múltiplas facetas, o acolhimento dos desejos, da verdade, da superação e de saborear a vida com honestidade e coragem de ir correndo ao encontro de si mesma até queimarem os pulmões, respirar fundo e desfrutar.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu desejo é que tenhamos mais, muito mais desta obra que é cheia de tato, carinho e afeto. Um namoro caloroso e profundo com a escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Você tem um convite.</p>
<p style="text-align: justify;">A este ponto, vou entender que você o aceitou.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Lara Muntaser</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Terebentina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jun 2023 11:23:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[(te.re.bin.<em>ti</em>.na)

s.f.
<ol>
 	<li>Quím. Nome comum às resinas que se extraem de certas árvores, esp. coníferas, us. como solvente</li>
 	<li>Bras. Pop. Cachaça</li>
</ol>
[F.: Do fr. <em>térébenthine</em>, deriv. do lat. medv. <em>terebinthina</em>.]

<em>fonte: dicionário Caldas Aulete. </em>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Alguns livros buscam a linha reta, a promessa organizada de um começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem, porém razoavelmente garantidos na organização mental de quem se dispõe a ler.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há alguns livros que parecem se deleitar com a matéria irracional do mundo; nesses livros, as estórias se espraiam caoticamente (ou numa “caosmose”, como conceituava Félix Guattari): uma invade a outra, sem compreendermos bem se há ali qualquer relação causal, se estão mesmo concomitantes, ou se o próprio tempo ameaça ver sua trama se esgarçar diante dos nossos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">É o caso desta <em>Terebentina</em> de Alexandre Gil França, em que a promessa de um livro de contos logo se torna uma espécie de labirinto no qual a prosa narrativa abre lugar ao modelo de um script cinematográfico ou de roteiro teatral, por vezes hesitante entre a prosa e o verso, e muitas vezes aceitando um narrador (ou roteirista) que invade o texto como um <em>eu</em> que altera os fatos que ele mesmo organiza. E cada coisa acontece num universo que pode saltar do mais obcecado realismo para cenas delirantes em passagens vertiginosas, num instante.</p>
<p style="text-align: justify;">Gil França então constrói um mundo de instabilidade e cruzamentos que recusam as hierarquias organizacionais. Notícias de rádio e jornal se cruzam com atores vestidos de cartas de tarô; um ônibus de lotação pode se tornar um avião de primeira classe; torturadores passam por bailarinas e criam suspeitos; e mariposas podem ser o sinal de loucura, ou então um ataque inclemente etc. Tudo está acontecendo no cruzamento das suas possibilidades de leitura, porque essas possibilidades são os modos mesmo da existência aqui proposta.</p>
<p style="text-align: justify;">E, um último detalhe, que conforma muito do que encontramos nesta obra: tudo é narrado com um fascínio absoluto pela matéria-mundo. Cheiros, cores, sabores, sons, texturas, do nojo ao deleite, e vice-versa: o mundo aqui reluz intenso, atinge todos os sentidos, como que para apenas desnorteá-los. Talvez esteja num grude que não sai mais, ou que sai apenas com terebentina, na medida mesma em que ela deixar seu cheiro e seu sabor nos novos corpos.</p>
<p><strong>Guilherme Gontijo Flores</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cabaré</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Jun 2023 12:34:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O romance é narrado por uma protagonista sem nome e tem três núcleos: o bairro de trabalhadores onde vive a garota, a universidade pública onde estuda Antropologia e o Cabaré, onde realiza sua pesquisa e, ao mesmo tempo, trabalha como prostituta.
Os vínculos a esses lugares se cruzam, se chocam e colocam dilemas para a atuação da protagonista. Memórias familiares ligadas à vivência em um bairro violento, a expectativa profissional acadêmica, o trabalho no Cabaré, que rende muito dinheiro, criam uma espiral que enreda personagens e leitores nos dramas do pertencimento e da dificuldade de conciliação de certos papéis sociais.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antes de conhecer Natânia em carne e osso, a conheci pela intensidade rasgada de sua escrita. Poderia dizer que a força de seu texto se apresentou antes, mas o que seria da existência de qualquer escrita sem a materialidade daquele ou daquela que lhe deu à luz?</p>
<p style="text-align: justify;">Com <em>Cabaré</em>, conhecemos a força de uma escrita que é também vontade de vida, de uma autora que transita com estilo, salto alto e vestido vermelho sobre os paralelepípedos da Lapa. Entre os passos exuberantes da puta e da escritora, nos perdemos deliciosamente nas curvas do tempo e nos segredos da história.</p>
<p style="text-align: justify;">Se um livro é como uma espécie de filho, posso dizer que tive o prazer de acompanhar de perto a gestação de <em>Cabaré</em>, desde suas esquivas às escuridões mais difusas, curtidas noites adentro, até que uma linha de fuga pudesse se anunciar.</p>
<p style="text-align: justify;">Como todo filho, este também ganhou corpo e voz a partir de um punhado embrionário de caos, gerador de uma combinação única de memórias e paisagens que nos aguçam a vontade de experimentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Simplesmente: devoro-te!</p>
<p><strong>Marta Picchioni </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Labirintos: uma estória de fricção</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/labirintos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 May 2023 14:16:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tadeu é um jornalista policial que se meteu onde não devia. Envolvido com jogatinas, travestis, corcundas, japonesas, mafiosos, bares de quinta categoria e psiquiatras tão ruins quanto os bares, ele cai aos poucos em uma complexa teia de conspiração e loucura. Perdido em si mesmo e em suas fantasias, Tadeu luta poeticamente, e com muito humor, por sua liberdade.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Escrita frenética, quase automática. Pontuada. Quebrada. Mergulhada em humor ácido como a bile que processa e destrói. Fragmentada como curtos pensamentos angustiados. Sonhos e também prazeres obscuros. Difícil discernir fantasia de realidade neste livro. Escrevê-lo foi parte de um processo de cura, de autoconhecimento, de renascimento, mas também um chute no balde. Este livro foi um parto: doloroso alívio. Foi bom começá-lo, foi ótimo terminá-lo. E agora, melhor ainda, tirá-lo da gaveta e apresentá-lo a vocês. Boa leitura.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O som de quem te ama</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-som-de-quem-te-ama</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 May 2023 12:49:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 4.5pt 0cm;"><span style="color: #222222;">Paul, um professor universitário na casa dos sessenta anos, anda esboçando uma teoria segundo a qual cada relação pessoal seria como um componente de um conjunto de frequências, que formaria o som da sua vida afetiva. Nisso, nenhum afeto exclui outro. Ao contrário: soma, enriquece. E complica também. Com Carmen, mantém </span>—<span style="color: #222222;"> na Paraíba, onde moram </span>—<span style="color: #222222;"> uma história de amor e companheirismo que cultiva e acolhe outras relações. </span></p>
<p style="text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 4.5pt 0cm;"><span style="color: #222222;">O romance parte de uma situação de afastamento temporário: enquanto Paul viaja para Paris com uma jovem e ambiciosa modelo em início de carreira, Carmen atende ao chamado de um musicista catalão para viver um tempo com ele em Barcelona. Rapidamente aquelas duas pessoas revelam caracteres perversos que levam a empreitada ao fracasso, tanto de um lado como de outro. Isso terá incidência na forma de eles se relacionarem, uma vez de volta ao Brasil, tanto entre si como com as outras pessoas que aparecem na estrada sempre aberta de suas vidas afetivas.</span></p>
<p style="text-align: justify; background: white; margin: 0cm 0cm 7.5pt 0cm;"><span style="color: #222222;">Pela sua temática, o romance estimula questionamentos sobre a norma monogâmica numa sociedade assombrada por uma assustadora regressão no campo moral.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“O único meio de suportar a existência é mergulhar na literatura como uma orgia perpétua”, dizia Flaubert. A frase não apenas define o mergulho de Helayne Cristini e Didier Guigue na literatura, mas também soa quase como um epítome da vida dos autores quando emprestadas, na ficção, aos personagens Paul e Carmen — protagonistas do romance <em>O som de quem te ama.</em><em> </em>Conterrâneo de Flaubert, Paul é um professor de música que vive um romance poliamoroso com a musicista Carmen. Ele possui uma teoria: as relações humanas são como ondas sonoras que vibram em conjunto: são várias as combinações possíveis. Mas a teoria que Paul compartilha com Carmen se vê ameaçada por um ruído: a relação dele com Brenda, modelo brasileira em ascensão com quem Paul embarca numa aventura de volta à Europa de suas origens.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance é fragmentado. Não apenas porque trata de relações fragmentadas, mas também de tempos fragmentados: além da narração focalizada em Paul, utilizam-se os suportes das redes sociais (ambiente onde parte das relações se desenvolvem) para contar os episódios que permeiam os contatos de Paul e de Carmen com vários outros personagens: por exemplo, o catalão Jordi, uma figura excêntrica que, de início, é uma das arestas nesse poliedro amoroso composto pelo casal.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário da narrativa audiovisual, que tem abordado a dinâmica dos relacionamentos não monogâmicos em incontáveis filmes e séries, a literatura de ficção tem se revelado um território ainda muito tímido no registro dessas formas de afeto que, embora não sejam tão novas, ainda carecem de uma representação artística menos perpassada por mitos e preconceitos sociais. <em>O som de quem te ama</em> tem a virtude de não apenas tematizar uma relação que foge aos padrões normativos tradicionais, mas trazer também uma visão participante “de dentro” desse universo, a partir das experiências amorosas dos protagonistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um livro de inegável apelo, que tem a coragem de enfrentar perspectivas conservadoras a respeito de relações supostamente abusivas, numa época de reacionarismos em que a arte, nossa única arma contra o ódio, não pode se prestar a ser inofensiva.</p>
<p><strong>Tiago Germano</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Pulei sete ondas e não funcionou, então pulei o mar todo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/pulei-sete-ondas-e-nao-funcionou-entao-pulei-o-mar-todo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 May 2023 10:54:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ela dá voltas na piscina, mergulha, me olha fundo por trás dos óculos apertados, me olha clorada, filtrada, sensata. Seis anos. Sabe muito mais do que nós duas juntas. Ela também está em você, estamos juntas nadando, pra sempre, redemoinho de afeto e memória, somos três peixes arregalados agora, transmutados pelo silêncio escuro, meditativos e molhados. Somos mortais, nós três. Você já passou na prova final, sem recuperação, passou direto com louvor. Eu ainda tento, estudo, ainda nado, respiro. Ainda te amo.

(<em>luto</em>, página 17)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Escrever é uma viagem pelos dias acima. Quem escreve tem um mapa a desenhar-se na cabeça, uma bússola no coração, uma placa de titânio e sete parafusos a segurar as dores da inquietação. Para viajarmos temos que estar bem vivos. Respirar, querer ir aonde nunca fomos, respirar de novo. Sentir. Entender. Sofrer. E, se não existir um entendimento imediato, continuar a viagem dará, porventura, respostas íntimas, pessoais e, coisa estranha, também universais. As viagens têm cores, cheiros de outras vidas, de outras pátrias acostumadas aos viajantes. São feitas de um tempo fresco, tal como as pequenas fontes de movimentação circular e contínua que nunca secam nem mudam de lugar. E, todavia, o viajante é o próprio caminho mapeado pela esperança de uma vida melhor. Sete ondas ou um oceano inteiro separam as duas pátrias que Carla Mühlhaus tão bem conhece e descreve. Que tanto quer amar. Mas não há carruagens douradas para percorrer caminhos doces e idílicos. Ali, mais à frente, as palavras constroem uma ponte de especiarias sentimentais. Imbiriba e puxuri. Louro e canela. Passo a passo, sílaba a sílaba, tudo vai fazendo sentido: em frente! O mapa está feito na cabeça. A bússola aponta para fora do coração. E os pontos de exclamação são como setas em direcção à emoção extrema das pequenas ondas de intenções que se transformam em oceanos de linguagem.<br />
Que fazer com a realidade onde todas as coisas dialogam? A escuta é, também, um caminho a percorrer, sabendo que “a verdade está na percepção”. Uma borboleta, duas lembranças, três abraços. Uma mãe, ama-se para sempre. Carla Mühlhaus fala-nos de <em>redemoinhos de afeto e memória</em>, enquanto o tempo <em>palpável</em> organiza a sua viagem. Há um universo feminino tão palpável e corajoso como o tempo, mesmo que os seus pés sejam pequenos para as despedidas. Um abismo, duas mortes, três angústias. Há cicatrizes que só farão sentido se forem lidas depois de as escrevermos. Não devemos jogar fora uma cicatriz bem desenhada. Poderá fazer-nos falta, essa pele onde costuramos saudades, vírus e outras serventias. A pandemia, de tantas cicatrizes que deixou, é quase bela.<br />
Entre 2018 e 2022, o mundo de Carla Mühlhaus mudou. As bonecas da filha Alice também, agora todas de cabelo cortado. Textos que são flechas em cheio no alvo do que ainda é humano dão-nos esses testemunhos. E, se podemos guardar os espinhos bem secos no bolso, e usá-los quando a dor é mais densa do que uma gota de sangue, para que queremos um buquê de rosas enjoativas numa jarra? Alice cresce dois centímetros em cada noite e nós brincamos de viver, uma e outra vez, pois, enquanto as memórias são retocadas para não se esmaiarem como os pratos de porcelana: “a vida e a literatura, duas faces da mesma moeda”.<br />
Nas suas viagens, Carla Mühlhaus carregou, corajosamente, uma bagagem filosófica de grande peso: <em>aranhas, vasos de flores, constrangimentos, saquinhos de amargura de conversetas, e ainda uma voz de volta.</em> Nas suas crónicas, não ficou esquecido o grande conjunto de eufemismos que é a civilização. E ainda que não saibamos a saída do labirinto, pôs os pontos nos is: é preciso deixar o amor vencer. “Espantem-se.”</p>
<p><strong>Adília César</strong></p>
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		<title>Ainda quero aprender mandarim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 14:00:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os contos apresentam um olhar sobre o período que ainda se estende em nosso país nos últimos anos, em que todos foram transformados de alguma maneira pela pandemia e pelo movimento natural do mundo de empurrar todos para a frente. A transformação é vista sem que se perca a crença, o principal questionamento que ficou nas ruas agora é: quando tudo isso vai passar? Ainda quero aprender mandarim é uma obra que recorta passagens difíceis, mas que tenta também soprar outras chances possíveis e mais leves, o que podemos
chamar de esperança.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A leitura é o exercício do encontro.  Não é novidade o fato de que, ao enfrentarmos um livro, estamos diante do que a obra nos diz singularmente. As frases revelam segredos diferentes a cada leitor e leitora.  Entre a escrita e a interpretação está o terreno instável, fértil e produtor de flores imprevisíveis. Os livros importantes são portas abertas a quem tem a coragem da entrega. Tiago D. Oliveira abre para nós, com a delicadeza de poeta, uma dessas entradas para aventura da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">O autor nos conduz, nos mínimos detalhes, à reflexão sobre formas sinuosas de nossa existência frágil, buscando o aprendizado da linguagem de nossa experiência num mundo que se apresenta muitas vezes despedaçado e outras tantas como campo onde plantamos esperanças.  Chama atenção a epígrafe que abre o conjunto de contos: <em>“Todas as coisas da vida que uma vez existiram tendem a recriar-se”</em>.  Ousando discordar de Marcel Proust e desconfiando do querido Tiago (só conhecemos um poeta em suas segundas intenções), talvez na vida não haja recriações. Tudo é sempre novidade, por mais similares que sejam as vivências. Não há recomeços. Tudo é sempre novo caminho. Encontramos nesses contos esses percursos de novas miradas, sem a ingenuidade de que sejam construções fáceis ou sempre felizes, mas com a certeza de que guardam beleza.</p>
<p style="text-align: justify;">Os textos revelam um autor buscando por meio de sua literatura a identificação ou a criação do sentido de nossa experiência comum em meio ao aparente caos. Entretanto, Tiago não o faz impondo convicções, mas mostrando possibilidades, como um gato malabarista transitando entre objetos delicados sem quebrá-los. Apresenta formas coexistentes de estar no mundo, como metaforicamente faz nesse jogo de associações: <em>“Pequeno mamífero que anda sobre os dedos, com garras retráteis, carnívoro e domesticado, patas curtas, cauda longa e pelo macio, caça ou afugenta ratos. Engano, lapso, erro. Provérbio. Regionalismo. Mitologia. Quantas casas pode haver em uma única palavra? Como crer em uma única verdade?”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Tiago D. Oliveira olha para o que nos machuca e para o que nos emociona. Cumpre essa tarefa com a serenidade de um bom poeta. Convoca quem o lê para a ação imperiosa de viver. Prestemos atenção na forma como o faz: <em>“Há apenas a calma em que acolho a manhã como se tivesse vivido só para estar aqui. Entender a noite anterior, aceitar (os itinerários são a digestão)”</em>. Que a vida permita ainda que aprendamos mandarim, mas não adiemos o desafio maior e mais profundo que o autor nos chama a enfrentar. Coragem!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Paulo Vicente Cruz</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Espólio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Apr 2023 19:11:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um livro de humor negro. Inesperadamente, um jovem saudável é encontrado morto dentro de seu apartamento. Dele, o pouco que sabemos descobrimos pela boca dos outros personagens, que aludem a aspectos contraditórios sobre o defunto. Um texto para pensar sobre a vida e a morte, sobre o ridículo das convenções sociais, para desmistificar a inteligência, a competência e a ética dos privilegiados do país.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Esta é uma história atravessada pela morte e pelo riso. Vinte e quatro horas — pouco mais, pouco menos — cobrindo o período entre o último suspiro e o sepultamento. Aos que ficam resta o espólio, ou antes, o problema do espólio. O luto, parte integrante do patrimônio deixado pelo falecido, pode ser vivido no seu devido tempo, sem a urgência que a propriedade dos bens demanda dos vivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vítima de uma morte súbita, filho de uma tradicional família da elite política e econômica, virtual proprietário de um futuro promissor, o defunto não passa de figura secundária do próprio velório. Antes mesmo do enterro, a família se digladia para conter as consequências da morte prematura e inexplicável do jovem parente, além da luta que cada um empreende para garantir o seu quinhão.</p>
<p style="text-align: justify;">Figura escorregadia que conhecemos — ou desconhecemos — pela visão contraditória dos familiares, mesmo morto, o defunto parece escapar aos visitantes do velório e, talvez, aos leitores. A pergunta não cala desde a primeira aparição: quem é, ou melhor, quem foi o morto? Por outro lado, não sobra dúvida sobre as intenções dos outros membros da família. O livro, além do enredo, entrega aos leitores e leitoras uma visão desmistificada sobre os privilegiados do país.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Menores que o céu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Apr 2023 13:20:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Apoiados por um texto carinhoso e inteligente, entramos na Casa de Gean e descobrimos um lugar sensível, onde as paredes estão pintadas de cores suaves, os móveis limpos e o tapete da sala esconde aquela tábua de madeira que estragou no dia em que a gente encontrou o martelo na área de serviço e resolveu bater no chão, só pra ver o que ia acontecer. É um lugar agradável e acolhedor, ao mesmo tempo em que é um lugar de dúvida: o que se faz quando ficamos desamparados no nosso próprio abrigo?</p>
Davi Boaventura.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há autores que sabem tratar de momentos específicos da vida com maestria, e os contos que estão neste volume é um desses casos. Gean Paulo Naue nos emociona com narrativas tenras que encantam em seus mínimos detalhes, falando de infância e de juventude. Dominando as técnicas da escrita do conto, flanando entre os narradores em primeira e terceira pessoa, Naue nos presenteia com um mundo real (cheio de cores, sons, sensações várias), flertando com o maravilhoso cotidiano (que é, também, parte do mesmo real). São histórias delicadas, bem-contadas, sussurradas aos nossos ouvidos para nos encantar.</p>
<p style="text-align: justify;">Com personagens marcantes, que tentam escapar de doenças incuráveis através de mordidas misteriosas, comer pastel sossegados no clube de campo, relembrar um irmão morto, Gean apresenta histórias que nós, leitores — essa espécie emotiva —, lembraremos de momentos pessoais, da universalidade da infância e da época escolar, das brigas com os irmãos. Tudo isso sem perder aquilo que realmente importa em um conto: uma narrativa bem-construída; e não só, pois são cheias do ingrediente fundamental da boa literatura: a humanidade dessas personagens. Assim, veremos que “pássaros são crianças desde o nascimento até a morte” nas reflexões de Liana, ou que os pinheirinhos sempre são montados na véspera de Natal e desmontados no Dia de Reis, nem um dia a mais, nem um a menos… ou, ainda, a força dos trovões e o medo do escuro durante as tragédias que, vez ou outra, nos acometem na construção de nossas vivências.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, no entanto, o que mais tocou foi que os relatos de Naue são, em verdade, minha história pessoal. Se o retrato de Itabira na parede dói a Drummond, os contos de <em>Menores que o céu</em> me doem na memória de um tempo que vivi. Impossível para um leitor — esses emotivos, eu já lhes comentei? — não deixar, aqui e ali, um suspiro tomar o nosso redor.</p>
<p style="text-align: justify;">Vida longa aos contos deste <em>Menores que o céu</em>! Força criativa a Gean Paulo Naue para que não deixe de nos presentear e emocionar com sua literatura!</p>
<p><strong>Rafael Bassi</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Enquanto o dia não vem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Apr 2023 18:46:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando a massa de angústia veio de novo, fui pega de surpresa. Não por não conhecer a intensidade com a qual era capaz de me assolar: nada, nem o modo como se instalava como um rolo denso de fumaça negra, nem o jeito com que parecia mergulhar minhas cordas vocais em chumbo, deixando-as pesadas e inúteis, constituía algo novo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Deixar-se secreta, como que detrás de uma cortina, assistindo à vida com seus inúmeros anseios passar e, no entanto, com um corpo ofegante, sensivelmente inclinado à captura de qualquer paixão cotidiana: essa é a personagem deste romance noturno.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo o seu drama se dá no esquadrinhamento de sua experiência recôndita, experiência de um corpo feminino, que insiste na questão de seu Ser. É assim que vamos acompanhando o puxar das linhas de todo o emaranhado secreto que são as mulheres em sua volta; seja na distância que toma sua mãe, na exterioridade que assumem suas irmãs, no silêncio e no ar quase espantoso de Cecília, na amizade clandestina com Paloma. Num exame turvo e inquieto das relações, que muitas vezes chega a questões sobre a realidade, a vida e o viver, a personagem vai notando aquilo que<br />
atravessa seu corpo de mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">A minúcia da autora está em ressaltar as singularidades que recobrem cada personagem, que, no destrinchar de seus destinos, se veem atadas por suas reclusões, culpas, silêncios — por um nó escondido no peito. Decerto, um corpo feminino que se mexe ainda tem de ser um corpo disposto a aguentar a poeira que levanta, e é em meio a toda essa poeira que a personagem se pega sempre meio ofuscada, ainda que guarde uma profunda ânsia para fazer valer seu olhar, seu toque e, por que não, sua voz.</p>
<p><strong>Saulo Machado </strong><span style="color: #ffffff;">catharina azevedo</span></p>
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		<title>Anunciação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Apr 2023 14:02:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em> <span class="fontstyle0">Anunciação </span></em><span class="fontstyle2">é uma história sobre a natureza criadora e, por vezes, destrutiva do desejo. Centrado em uma mulher que desconhece a própria autonomia e está acostumada a apequená-la, o romance acompanha sua autodescoberta e desconstrói temas recorrentes como o intercâmbio entre fantasia e realidade, a relação íntima entre poder e abuso e a imagem demonizada da mulher apaixonada obsessiva, além de discutir o uso da escrita como afirmação e meio de tomar posse do próprio desejo, a figura masculina como musa, o aprisionamento do eu feminino e sua identidade esfacelada pela sociedade.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Escrever um livro é anunciar uma invenção, e Puri o faz numa radicalidade de deixá-lo existir na corda bamba de seu quase desmoronamento. A narrativa é trançada em segunda pessoa com o protagonismo de uma escritora e sua criatura, que ora é seu ápice devocional e ora é o contraste de seu aniquilamento. Quando a fantasia se torna realidade? De que maneira a realidade se desmancha na fantasia? Esse jogo de duplicidade se faz e se desfaz enquanto seu desejo é declarado, confessado, escavado. O devaneio tempera a motivação criadora, e os estados alterados de consciência borram a noção precisa entre o que é real e o que é ficção. Nos interstícios de um amor devocional, a relação frágil entre a autoestima da escritora e a vulnerabilidade de seu objeto de desejo põe em xeque o sentido da adoração, friccionando e tensionando a função da idolatria. Um mergulho na perecibilidade do ato de criar narrativas ficcionais, que esbarra no perigo de se dissolver a cada instante se não for tatuada no papel. A escritora manifesta sua necessidade vital em contar uma história para que ela passe a existir. E desemboca no desejo de anunciar uma outra forma de existência das narrativas, afirmando sua assinatura no realismo fantástico e questionando a própria falha das palavras como matéria-prima da escrita.</p>
<p><strong>Aline Bernardi</strong></p>
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		<title>O cubo e outros contos cariocas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Mar 2023 21:19:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">Interessante como as partes do corpo funcionam tanto juntas como separadas. Pinto, barba, cabeça, tudo de gente, assustadoramente familiar. Os pedaços dele são como outra história, um curta feito de si para si mesmo sabe, frames insidiosos e resolutos. Enquanto o corpanzil todo parece a mim sempre bem maior quando consigo fixar o olhar de uma só vez. Imenso, e aos cacos. Parece o tesão mesmo, às porções. Aos saltos, abocanho peças, sem mastigar, com a boca bem cheia. Pulos de desejo, sanha, entre a curiosidade e o medo.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Líquidos dos corpos e vísceras da cidade é ao que nos expõe Gabriel Alvarenga em <em>O cubo e outros contos cariocas</em>. De uma ponta à outra, caminhamos através de um olhar sangrento, é sempre um corpo que sente, um olhar que atenta, um momento que pulsa. Por corpos turvos, gomosos, úmidos, flutuamos entre a cidade que se esvai violenta em esgoto e o cruel corte seco do sol sobre a testa, onde molhado é o que brota da pele.</p>
<p style="text-align: justify;">Em todos os contos, o presente é soberano e Gabriel o apresenta por meio do suspense. Cortes no cotidiano em que, do grande angular do urbano, da rua, da noite, da feira, o que resta é um aturdido instante, uma bandeira esquecida, uma gota prestes a cair, o gozo à espreita, o som vazio de um momento, o espanto. Espanto que também é nosso ao nos depararmos com esses átimos sempre em movimento e que misturam o lodo da cidade que corre, a corrida do suor no corpo, o visual da rua que passa, o horário que marca, a melancia que se rasga.</p>
<p style="text-align: justify;">São contos de cores vivas e contrastes — a transparência da gota e o escuro da carne, o colorido da fruta e o corte que arde — escritos feito poesia. Com sonoridade complexa, linguagem imagética, evocações musicais e referências populares, os narradores trazem algo da criança que vê tudo pela primeira vez e ao mesmo tempo a complexidade de sentimentos que só quem vê há muito tempo a mesma cena pode ter.</p>
<p>Uma experiência tranquila, você não vai encontrar por aqui, mas se você quer a singela monstruosidade cotidiana, leia <em>O cubo</em>.</p>
<p><strong>Talita Tibola</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sem mim não há dia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Mar 2023 20:00:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">Um homem desperta cego e paralisado. Ao encarar tal realidade, repensa sua existência em relações afetivas com o marido, a mãe e a terapeuta. Ao flertar com memória e projeção, o leitor é convidado a se desconectar da verossimilhança para se ver no espelho de pulsões de vida e morte da mente de um narrador que enfrenta degradação e redenção. </span><span class="fontstyle2">Sem mim não há dia </span><span class="fontstyle0">é um romance sobre a vulnerabilidade humana, sobre a linguagem dos desejos e culpas provocados pelo desgaste da vida.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Sem mim não há dia</em> é o livro de estreia de Fellipe Fernandes F. Cardoso. Nele, somos chamados a ver o mundo por trás das retinas do narrador: um homem que um dia acorda sem os movimentos do corpo e completamente cego. O narrador, que é o único personagem não descrito e sem nome (sabemos dele apenas F., uma inicial na assinatura de uma carta), nos é apresentado por meio de seu raciocínio elegante, altamente filosófico, de vocabulário rebuscado e pensamento analítico.</p>
<p style="text-align: justify;">O narrador perde sentidos, mas, como num mecanismo de compensação, sua percepção se aguça e a feitura do livro se torna, na leitura mais do que tudo, uma aventura sinestésica. A limitação pelo espaço do corpo incapacitado é o ponto de partida para uma viagem intensa a um universo de imagens e memórias, sempre com muita atenção aos detalhes, ao que é nuance; àquilo que está à margem, mas sem o qual não haveria rio.</p>
<p style="text-align: justify;">No decorrer da narrativa, somos levados a expiar e espiar suas memórias. O romance então vai a todos os interiores deste homem. Do Brasil, com o seu calor, sua família e seus cheiros; da sua depressão e a sua incapacidade de gerir a própria vida; do apartamento e os movimentos suaves que denunciam sua relação com o marido, com a mãe e a terapeuta. Descortina-se também um mundo repleto de simbolismos. O <em>kudzu</em> e suas raízes, a serpente, os gatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando interage com o mundo externo, o narrador coloca suas relações no divã. É a sua chance de testar a ligação que ele tem com as pessoas que constituem a sua vida. As que estão ali por obrigação, por dever ou por afeto. Seria o amor um ato de altruísmo ou de constrição? Há algo de profundamente socrático quando suas provocações e reflexões se dão por meio do diálogo que faz com cada interlocutor. Incluindo o leitor, a quem estende a mão diversas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Já acomodados na pele do narrador, não conseguimos mais distinguir o que é impressão do que é sonho. Não sabemos mais se estamos dormindo ou acordados. E, sem que nos demos conta, concluímos que sonhos e impressões são o que constituem a realidade privada e individual de todos nós. “Não sei se estou dormindo ou acordado, porque não vejo a diferença”, afirma em determinado momento.</p>
<p><em>Sem mim não há dia</em> é sobretudo um livro de exploração e descobrimentos, de vulnerabilidades de uma personagem com uma poderosa visão, ainda que não possa mais andar ou enxergar. É, afinal, um romance de reflexão: profundo, instigante e, sem dúvida, marcante. Um elogio à linguagem dos desejos e culpas provocados pelo desgaste da vida.</p>
<p><strong>Carlos Raffaeli</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cafuzo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Mar 2023 15:41:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um tempo mítico que recorda a fundação de Salvador, realidades distintas concorrem em Caramurê, nome dado à Bahia por seus primeiros habitantes. O indígena Itaúna narra as mudanças na aldeia de Juniparã, os conflitos pela terra e pelas almas disputadas pela cristandade. A sua própria identidade está em jogo, enquanto a chegada dos povos vindos da África cria um mundo repleto de entidades ancestrais que povoam as crenças deste lado do Atlântico. Cafuzo é metáfora da junção de tradições e gentes, reunidas em batalhas de sangue e festas de fé para serem reconhecidas como Povo do Brasil.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Transitar entre o presente e passado, fazendo da nossa perspectiva um ponto de observação sobre o que estamos vivendo e o que se passou à nossa volta, é sempre um caminho de desafios emocionais que nos paralisa, mas também nos impulsiona a querer entender de onde viemos, onde estamos e para onde vamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste seu primeiro romance, Pedro Soledade nos mostra que entender a ancestralidade é como nos reconectar com esse futuro, aquele lugar para onde queremos ou devemos ir a partir do nosso olhar pelo retrovisor.</p>
<p style="text-align: justify;">E é essa abordagem que o, agora, escritor tem carregado em toda a sua trajetória profissional como comunicador social, criando e disseminando narrativas que façam sentido a partir da percepção do passado para entender o agora e o depois.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse lugar mestiço racialmente, embora a mestiçagem tenha as suas problemáticas, em se tratando de um Brasil colonial, Pedro apresenta esse realismo fantástico que nos faz entender também muitas questões sociais que envolvem a brasilidade. A cultura, os costumes, a forma de abordar nossas questões. Principalmente, relembra a Bahia, seu berço, como a grande mãe de tudo isso que nos engloba e modela, em linhas gerais, a personalidade do ser brasileiro. Por isso, retomar essa história será um desafio emocional para qualquer um que tenha algum interesse mais profundo sobre a história do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Na obra, podemos perceber, além da importância da Bahia no processo de formação do Brasil, o papel de destaque da mulher como líder, muitas vezes negligenciado pela nossa história oficial.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto importante em <em>Cafuzo</em> é a reafirmação dos indígenas e negros como nosso povo originário, dando-lhes também o protagonismo na história, não mais o papel de agentes submissos e coniventes com tudo o que foi feito pelos colonizadores para a construção do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cafuzo</em> é para quem quer mergulhar na dor e na delícia dessas origens, de quem somos como povo e do que podemos ser como potência para o mundo, trazendo a ancestralidade à tona, seja pelo conhecimento, pelo sincretismo ou pela mitologia, propondo esse fator como uma forma de nos guiar para o amanhã que nos espera, um futuro ancestral.</p>
<p><strong>Igor Leo Rocha</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Caronte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Mar 2023 13:41:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um homem anônimo vaga pelas praças e esquinas de uma grande capital. De dia, um bancário dedicado a cumprir metas e conquistar a confiança dos chefes para subir na carreira. À noite, um vigilante errante, guiado por visões de vítimas de assassinatos que querem apenas descansar em paz. A cada nova aparição, o delírio narcisista e a brutal realidade se confundem, levando a uma onda crescente de violência e paranoia.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um bom homem, bancário dedicado ao seu trabalho, bastante misterioso e introspectivo, vive uma vida secreta. Ao mesmo tempo em que é apenas mais um cidadão perdido em meio ao cotidiano de uma grande cidade, das demandas de trabalho e da construção de afetos com os que estão ao seu redor, ele apresenta uma característica no mínimo peculiar.</p>
<p style="text-align: justify;">O protagonista de <em>Caronte</em> também é um justiceiro, mas não um personagem como aqueles que vemos com frequência em textos e filmes sobre vigilantes. Este homem é acompanhado e atormentado por aparições que buscam vingança.</p>
<p style="text-align: justify;">Como a criatura da mitologia grega, é um ser que vive entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Seus atos são influenciados pela necessidade de ajudar desconhecidos, da mesma maneira que pela vontade de, em algum momento, se livrar desse fardo. Ele é apenas um instrumento, um meio para a reparação dos que já se foram.</p>
<p style="text-align: justify;">E, se não bastasse toda a pressão daqueles que buscam seus serviços, existem feridas abertas de uma vida pregressa, um porteiro intrometido e detetives em meio a uma investigação, atravancando seu caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu segundo livro, Rafael Waltrick nos presenteia com um suspense urbano que mescla a violência humana ao cansaço mental, a tormentos do passado e suas influências nas pessoas, bem como aquela pitada sobrenatural que serve de urdidura para que todos esses elementos coexistam de forma coesa no universo de <em>Caronte</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Convido os leitores a subir na barca e navegar pelas palavras do autor, acompanhando o homem-barqueiro em sua jornada anti-heroica.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em><strong>Yasmine Evaristo</strong></p>
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		<title>Embriaguez de Jenipapo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Mar 2023 11:59:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um assombro por cima do muro, uma casa engolida pelas tripas do chão, um rapaz encharcado de céu, uma santa que só aceita luxúria como pagamento de promessa, um homem que desaprendeu a viver por cima da terra. Morte, esquecimento, renascimentos, sumiços, partidas e retornos pela enchente da maré. Feitiço, encantamento e crítica social. Assim é Embriaguez de Jenipapo, livro de estreia de Fabíola Cunha no gênero contos. Aqui encontramos uma escrita poética composta por oralidade, a força das experiências vividas numa geografia das águas e por isso fluida, compondo cenários como pintura.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>“Quem primeiro botou as vistas no assombro dessa manhã, não sei dizer”.</em> A beleza traiçoeira da frase de abertura desta coletânea já nos alerta de que enfrentaremos textos que demandarão de nós astúcia na leitura, para que não escapem os sentidos profundos e as intenções disfarçadas em cada sentença esculpida nos contos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fabíola Cunha conhece o que declara ignorar. A resposta desse falso enigma é justamente o elemento que nos conduz pelas linhas de sua escrita singular. Por meio de sua arte, falam ancestrais e vivências coletivas com a tradução de quem domina as múltiplas possibilidades da palavra e o ritmo da prosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Impressiona a capacidade da autora de criar paisagens. Não se trata da descrição de cenários, mas do retrato feito por meio de palavras para alcançar o sotaque e a gênese das personagens de suas histórias — o sotaque não como dicção em sentido literal, mas como expressão que traduz as experiências das figuras fictícias que a artista cria.</p>
<p style="text-align: justify;">O poder de síntese e a contundência de Fabíola revelam-se em soluções como as contidas no conto “Corpo de lama”: <em>&#8230;alguém dado a simetrias podia observar uma leve inclinação de uma das paredes. E o cristão cantou que sábios fazem casas sobre rochas. A questão é mais de dinheiro e menos de sabedoria</em>. Também podemos ver essas habilidades no conto “Doum”: <em>E que ninguém pense em força-tarefa daquelas de filmes. Aqui não voaram helicópteros nem latiram cães farejadores, policial não anotou o andar de cada um. Aeroporto e rodoviária não tomaram ciência do acontecido, nem TV fez cobertura nenhuma. O trânsito correu livre na BR 324. Carros sem averiguação, autoridades não emitiram um alerta sequer. Quem busca o seu sumido é o povo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora interesse saber quem primeiro colocou as vistas no assombro de nossas manhãs, Fabíola, com a força poética de sua prosa, convida leitores e leitoras para que a acompanhem nos percursos de quem olha o espanto da vida com verdade, intensidade e beleza. Receberá a recompensa quem aceitar o convite.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Paulo Vicente Cruz</strong></p>
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		<title>Frio magma</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Feb 2023 18:04:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Frio magma é um livro sobre encontros repletos de consequências. Vida e morte, alegria e tristeza, amor e solidão, delírio e lucidez, sol e chuva, mar e sertão. Rejeitando o repouso nas dualidades, o que interessa aqui é o conjunto de forças que habita a fronteira, o
espaço arrevesado do “entre”.</p>
Os 14 contos passados em Fortaleza dão ao/à leitor/a a chance de cruzar com tipos comumente encontrados na capital cearense. Os personagens percorrem  caminhos incertos, questionam o tempo todo as próprias intenções e se aproximam da dimensão extraordinária do cotidiano.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Frio magma</em> é rocha fundida no subterrâneo que vem à superfície e corre lambendo o solo, lava que resfria e fabrica o mundo. Disso é feito o livro de Leonardo Araújo: do choque de temperaturas que muda estados físicos; do absurdo cotidiano que transborda quente e forma o chão da cidade — que é Fortaleza em várias das suas nuances, mas que é também qualquer lugar que construímos dentro do corpo que pressente o assombro.</p>
<p style="text-align: justify;">A capital alencarina, assim como nosso próprio desamparo ou mesmo a mistura entre crença e descrença no agora e no depois, nos encontra, ao mesmo tempo, na pele suarenta do “caçador” — personagem que guarda os segredos do mundo em latas de leite —, na solidão do Edifício Rubi e ainda no cansaço e na rouquidão que guardam as palavras ditas por um navio-fantasma. A suavidade das cascas de manga, o amor desavisado da morte e as mentiras que o passado conta formam esse “oceano vermelho-alaranjado de poeira e vento” que Leonardo Araújo anima em <em>Frio magma</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">As palavras, aqui, fabricam imagens que se sucedem no corpo de quem lê. O “azul elétrico” do céu da capital, a profundidade do buraco que cresce, o corpo de poucos satélites que repara o vazio são também caminhos que o livro assenta — e nos convida a tracejar. O passar de páginas põe nossa respiração suspensa e nos obriga a abrir os olhos, vem nos acertar em cheio e “derramar o próprio calor em todas as coisas”. As masculinidades falhas e risíveis, as histórias de amor que se esgarçam ou se costuram como tecido de algodão, as maternidades possíveis, as falências, os medos que nutrimos e os que teimamos em ignorar, tudo isso nos espreita por dentro das histórias que, como pequenos filmes, são memória feita pra ver, ouvir e guardar. É um convite à atenção: este é um livro sobre o que teima em acontecer.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marília Oliveira</strong>,<br />
artista visual e pesquisadora.</p>
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		<title>Antes de mais nada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2023 12:00:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[sente a firmeza do meu punho cerrado
e o pulsar incessante das artérias furiosas
a arrebentar as cordas de sisal
que sustentam pesos e estátuas
no teto de memórias desvanecidas

sou inteira pó
pólvora

pergunta
e renascimento]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Quando pequena/encantava-me com os pentes de madeira/de fragrâncias florais […]/perdia-me na mística que haveria de ter ali […]”: guardar-se “perfume de flor/em natureza morta.”</p>
<p style="text-align: justify;">Assim — com uma pergunta sobre o mistério, um enigma posto, incandescendo — Juliana Dias abre este <em>Antes de mais nada</em>, seu livro de estreia. Como podem os cheiros, que são vivos, inscreverem-se num corpo frio, na matéria inânime? Há um vislumbre e um espanto que nascem aí, no litoral dessa pergunta.</p>
<p style="text-align: justify;"> Agrupados em quatro seções, os poemas de <em>Antes de mais nada</em> repõem a incógnita própria do encontro entre os opostos, desdobrando-a na descoberta de que nós mesmos nos construímos pelo contraste entre o vivenciado e o perdido. Afinal, ao lado do tempo que se desenrola e se cumpre, corre outro tempo, feito de nossas desistências e abandonos, “uma pilha de livros/não lidos […]/um rio de palavras/não vertidas […]/uma lista de projetos/não executados/um punhado de amores/não ateados”.</p>
<p style="text-align: justify;"> Não deixa de ser uma espécie de cronologia que segue à sombra — e que, vale lembrar, também atua sobre nós, sobre nossos corpos. “Desejo não é bicho que se mate”, diz a poeta. Não há renúncia que não pese sobre aquela que renunciou, seja numa cicatriz ou numa ferida aberta, seja na presença insistente de uma voragem represada ou num ímpeto torcido. Vira um hóspede, no fim das contas. “Ferve-me o sangue/arqueia-me as garras da boca”.</p>
<p style="text-align: justify;">Com uma linguagem repleta de sutilezas, delineada no fio entre certa poética da sensação e a abertura à reflexão, Juliana nos oferta aqui um livro a um só tempo delicado e provocador, tênue e fulguroso. Nele, atravessamos um caminho em que a rede de referências e o endereçamento do vivido não encerram o vivo, pelo contrário: há sempre algo que a palavra não esquadrinha jamais, uma espécie de “silêncio-sussurro”, “furo-passagem da dúvida”. Deslumbramento, digo eu depois da leitura. Sonho a ser lido no escuro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mar Becker</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A noite dentro de nós</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Feb 2023 11:51:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se o agiota descesse do carro, de arma em punho, e invadisse a casa, haveria uma chacina? O homem não teve dúvidas, desvencilhou-se do abraço da esposa e foi à porta. Não atire, a gente vai conversar, vou sair, gritou. Escondeu a tesoura no bolso da bermuda, única arma disponível, e se dirigiu ao portão. A esposa soluçava, e os meninos tentavam acalmá-la. Não atire, vou sair, o homem gritou novamente, mas sua voz foi coberta pelos latidos do cachorro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os personagens de <em>A noite dentro de nós</em> adotam um tom confessional e mergulham em suas vivências conflituosas, trazendo à luz a <em>noite</em> dentro de cada uma delas. Aqui, podemos atribuir uma conotação patológica à palavra “noite”. Veremos nela uma metáfora para sentimentos como solidão, ansiedade, depressão, angústia — entranhados em seus personagens por um autor seguro do que faz, porque faz como se apenas descrevesse o que observa de sua janela ou do noticiário. O que as retinas e os ouvidos alcançam. E por isso tais histórias são tão nossas. Esses mergulhos psicológicos nos obrigam a repensar nossas próprias angústias e as do outro. Como fica a mente de uma pessoa em situação de rua que foi incendiada enquanto tentava dormir? Refletimos em “A fogueira”.</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>noite</em> é o <em>mal</em>. É esse <em>mal </em>de se perceber só, sem saber como ou por que gritar a um mundo de poucos ouvidos. E é assim que estão os personagens de José Nascimento, com um grito na agulha. O que nem sempre é ruim. No conto “O grito”, as bombas, os disparos e a truculência policial não impedem a marcha. A manifestação prossegue. O grito não é sufocado. “Mesmo que acuados, mesmo que não nos restasse outro sentimento além do medo que era quase pânico, não deveríamos fugir. Fugir seria reconhecer o massacre moral”, diz a narradora sobre como responder à selvageria autoritária. Diz a narradora sobre nossos dias atuais. Além disso, se a ansiedade (esse “cansaço” que “debilita as certezas”, como coloca o narrador de “Tsé-tsé”) é mesmo o <em>mal do século</em>, este livro é sobre nossos dias. Se ainda continuamos sendo cruéis com o corpo feminino — como acontece em algumas narrativas aqui presentes —, é, infelizmente, um livro bem atual.</p>
<p style="text-align: justify;">“Matilda quer ler” é, também, um conto sobre o efeito catártico para aqueles que abrem um livro em busca de fugir da realidade sufocante. <em>A noite dentro de nós</em>, livro de estreia do escritor potiguar José Nascimento, certamente seria um desses livros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Aliedson Lima</strong></p>
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		<title>Oniros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jan 2023 12:59:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na mitologia grega, os Oniros são os sonhos, proféticos ou enganadores, enviados pelos deuses. Na Psicanálise, o sonho é território privilegiado do inconsciente. Os 15 contos aqui presentes flutuam, portanto, no espaço etéreo do absurdo e do insólito, constituindo matéria bruta de sonhos transformada em linguagem. A partir de cenários e personagens diversos, estas narrativas oníricas nos falam de desejos ocultos, angústias, madrugadas insones e do inalienável direito do homem ao sonho, esteja ele adormecido ou desperto.</p>
<p style="text-align: justify;"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Literatura é sonhar acordado, viver, por um momento, não no mundo real, mas em um mundo inventado por nós. Essa é a sua essência, que, quase que oculta no romance realista, se desvela à luz do meio-dia na literatura fantástica, à qual tantos escritores latino-americanos fizeram suas contribuições.</p>
<p style="text-align: justify;">Marcela Fassy, que desde o seu primeiro livro, <em>Animais Cinzentos</em>, se filia a esse gênero, aposta, em seu <em>Oniros</em>, na natureza onírica da literatura. Os , (em grego <em>onéiros</em>, pl. <em>oneíroi</em>), isto é, os sonhos, são figuras mitológicas que, em Hesíodo, aparecem como filhos da Noite e irmãos do Sono, da Morte e da Velhice. São criaturas das sombras, a habitar a fronteira entre o caos e a forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Os estudiosos, de Freud à neurociência, lhes atribuíram diversas funções. Gosto de pensá-los a partir de Susan Langer, para quem o ser humano possui uma profunda necessidade de simbolização, meio pelo qual o caos das impressões sensíveis se tornam para nós inteligíveis. Pois esse é, assim creio, um dos papéis dos sonhos, que eles compartilham com a literatura.</p>
<p style="text-align: justify;">Não somos animais racionais por inteiro. Dentro de nós habita a luz da razão, mas também sombras, tão próximas do sonho e da literatura fantástica. Adentrar nessa dimensão que faz parte inescapável de nossa existência, tal como em uma <em>katábasis</em> de um herói épico, eis a experiência que encontramos neste livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Em alguns dos sonhos narrados, temos a simbolização de alguns dos nossos mais profundos desejos: a juventude perdida, o encontro improvável, a reintegração a um estado paradisíaco, ainda que impermanente. Mas Marcela, desde <em>Animais Cinzentos</em>, também se aproxima, em sua escrita, daquela literatura de terror que tem em Edgar Allan Poe o seu mais insigne modelo. É por isso que muitos destes sonhos são, na verdade, pesadelos, manifestações de nossos medos mais viscerais, aqueles que só ousamos confessar a nós mesmos logo antes de dormir ou quando acordamos no meio da noite: a fragilidade diante da violência desmedida, a transmutação para um estado inferior do ser, o completo desaparecimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um livro para se ler no escuro. Mas, paradoxalmente, para lê-lo, precisamos de luz. Pois penso que estes contos, nessa síntese entre medo e fantasia, são como uma clareira que, em meio às sombras que se ocultam em nossas profundezas, nos permite simbolizar o desconhecido e caminhar, mais lucidamente, por entre os desacertos de nossa existência.</p>
<p><strong>Bernardo Lins Brandão</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Novelas de beco</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/novelas-de-beco</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Dec 2022 12:41:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O amor do ponto de vista de quem não o conhece, a vingança como grandfinale, a raiva sendo tudo que se aprendeu, a inconsequência como a única carta na manga. As novelinhas deste livro são assim. Causos que correm na boca do povo. Acontecimentos mais comuns do que deveriam. Talvez uma dessas histórias tenha acontecido na esquina da sua rua, e você não viu.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entre o sabor doloroso de dirigir ao som de &#8220;Até Que Durou&#8221;, de Péricles, a absolutamente qualquer som duvidoso de Leno do Brega, essas novelinhas saltam da escrita da mesma forma que as narrativas correm pela língua da gente de uma cidade pequena, mas não tão minúscula assim.</p>
<p>São histórias que poderiam ter sido contadas, aumentadas e distorcidas em tom de fofoca pela sua tia à mesa de almoço num domingo de jogo do ASA. Poderiam também ser histórias de garçons (aqueles, tal qual Reginaldo Rossi já disse, que provavelmente já se cansaram de escutar centenas de causos de amor), e tanto faz se esses garçons fizeram parte do mais fino restaurante do agreste alagoano ou do mais farrusco pega-bebo de toda a História. Quiçá foram até histórias contadas ao fim da longa noite, quando trabalhadores se juntam para finalmente trocar a farda pela roupa e descansar antes de pegar a bicicleta para ir para casa.</p>
<p>Entre quengas, matadores, cornos, políticos, agiotas, bandidos, torcedores fanáticos por futebol e policiais face a atitudes extraordinariamente comuns descritas num humor irresistivelmente típico de Luciano, tudo se soma ao redor de grandes sentimentos do ímpeto: o amor, a raiva, a vingança, a amargura de quando não se consegue atingir<br />
o objetivo daquilo que poderia ser bem-feito se não fossem razões exteriores, a surpresa que paira e nos ressente quando engolimos em seco e admitimos (obviamente, não para o mundo) que podemos ter errado por uma besteira&#8230; No fim, tudo neste livrinho é como já dizia o Conde Só Brega: &#8220;não devo nada a ninguém (só a Deus)&#8221;. Nossas vidas poderiam acabar, entre um beco bem traçado ou não, mais ou menos assim também.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Julia Magalhães</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A ruivinha do sinal vermelho</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-ruivinha-do-sinal-vermelho</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Dec 2022 11:49:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Amira está toda prosa neste livro ousado! É uma estreia? Nem tanto. Já a conhecemos de outros carnavais — ou melhor, de outras publicações, nas quais exibe suas melhores qualidades e seu talento, ao seduzir pela leveza e empatia saídas da vida real.
Quando falo em vida real, destaco aqueles instantes que nos marcam — um gosto, um cheiro, um ruído. Coisas inevitáveis que se escondem no inconsciente ou até no consciente, onde vamos encontrá-las quando precisamos. Sobretudo no terreno fértil da ficção, no qual somos muitas vidas, nunca apenas uma vida. Aí entra a invenção, e Amira é profundamente inventiva. Assim acontece em <em>A ruivinha do sinal vermelho</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Raimundo Carrero</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Amira Rose Medeiros tem dois amores: a medicina e a literatura. Transita entre eles e deixa marcas visíveis dessa imbricação. <em>A ruivinha do sinal vermelho</em>, seu primeiro livro de contos, é uma prova disso, seja na forma ou no conteúdo. Como numa aula de anatomia, secciona-o em três partes. Na primeira, o objeto de estudo é o tecido social. É a parte mais densa do livro, na qual Amira expõe as mazelas das desigualdades sociais de um corpo doente, a sociedade. Destaco quatro contos. “As mulheres coloridas do sinal”, cujo título é uma espécie de falsete, pois mal consegue esconder a dor e o sofrimento de uma diáspora. “Escolha o que quiser”, que descreve a difícil arte da alteridade e de como ela pode surgir de onde menos se espera, como mostra seu desfecho, um tapa com luva de pelica contra os pré-juízos. Mas nem tudo está perdido, a julgar pela lição dada no conto “O doador do corpo”, que, a par de ter a ficção da escritora invadida pelo conhecimento científico da médica, é um exemplo radical de desprendimento e solidariedade. Por fim, o conto que dá título ao livro, cujo núcleo dramático, não por acaso, se dá em um sinal de trânsito, talvez seja o que mais revela a profundidade do abismo entre as pessoas, como os dois lados de um pulmão que agoniza por falta de oxigênio, ainda que por trás disso, mesmo por uma frestinha do vidro fechado do carro, se vislumbre alento no olhar de uma ruivinha que acena com algumas moedas na mão, um simples gesto, mas suficiente para lembrar que ainda há um fio de esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">Na segunda parte, para arrefecer a dureza da anterior, vem o momento lúdico, leve e bem-humorado do livro, no qual destaca-se “Gatinho casual”, que, numa leitura de primeiro nível, fala das trocas recíprocas de um encontro entre um pequeno felino e um ser humano. Desse momento, há muito o que aprender, sobretudo com os animais, que, diferentemente dos humanos, oferecem carinho sem moeda de troca. Contudo, nas entrelinhas, a casualidade pode ser lida como a fugacidade nesses tempos de amores líquidos, e o felino não necessariamente tem quatro patas.</p>
<p style="text-align: justify;">A terceira parte não é visceral e contundente como a primeira e nem humorada como a segunda. É nela que se encontram as narrativas mais introspectivas, quase sem ação. Tudo a sugerir, como indica o subtítulo, um mergulho nas regiões mais profundas da alma humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Como última palavra, uma recomendação: acene de volta pra ruivinha do sinal e leia, sem medo, antes que o sinal abra ou feche.</p>
<p><strong>J.L. Rocha do Nascimento</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>A nudez extinta</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-nudez-extinta</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Dec 2022 11:38:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">Algo desmorona silenciosamente. A escrita de Isabela Sancho desafia as forças de esmagamento, se fazendo guiar pela pulsação invisível, cravando as unhas na superfície densa até perfurá-la com estados de paixão e fúria. Com a alma impregnada de um desejo feroz de alçar voo, dilata os limites criando atravessamentos e deslumbramentos. O avesso da ruína emerge expandido e nos fascina por ser queda propulsora. Os contos aqui reunidos revelam a intensidade e a beleza do que permanece altivo e sobrevive ao colapso.</span></p>
Karina Tengan]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os contos desta coletânea balançam ramagens alvissareiras, que nos convidam a uma perda dócil na ondulação de suas copas. Uma mulher esfrega a xícara com o lado macio da esponja. Uma criança observa os gansos ou se entedia no banco da igreja. Então, com um silvo, a paisagem é cortada por uma jaca em queda.<br />
As crianças se põem a correr, sacudindo carrapichos e estátuas da barra de suas calças. Os pequizeiros se rasgam nas lanças do portão. A noite se abre no elevador panorâmico e a ascensorista insiste: não vai entrar? A narrativa é inundada por uma poética apurada, demarcando o momento em que o retorno ao estado anterior não é mais possível. A casca rachada da jaca revela a carne exposta, o desarranjo próprio do trauma.<br />
Isabela Sancho suspende essa dobra da experiência. Os personagens hesitam e encaram a fissura: a violência sofrida, a relação perdida, a excitação, o desconhecido. Flagramos seus olhos procurando boias ou absolutamente rendidos. Assim como acompanhamos os gestos de uma resistência serena, capaz de guardar o desejo em uma maleta de pintura no armário.<br />
E esta é uma das grandes belezas deste livro: da compreensão de que algo da existência agora está invariavelmente ligado a estes acontecimentos, e da consciência de que alguns deles propõem problemas insolúveis e constitutivos, se empreende uma investigação literária dos arranjos possíveis.<br />
Como quem azeita as mãos e as mergulha nos gomos da jaca partida, salgando ou preservando o doce, e, quem sabe, encontra modos de colá-los com o leite que escorreu da própria fruta.</p>
<div>
<strong>DRIELLE ALARCON</strong></div>
]]></content:encoded>
					
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		<title>E vivemos infelizes para sempre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Dec 2022 00:48:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Era começo da noite e eu estava <em>caindo</em> de fome

após passar o dia me esforçando para prestar aten-
ção ao conteúdo insuportável das aulas.

Estava no primeiro ano do curso de administração e
todos os dias pensava em fazer outra coisa da vida.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>E vivemos infelizes para sempre</em> é uma prosa do cotidiano de inúmeras sujeitas que, ao ingressarem nas relações afetivas, se deparam com a violência patriarcal. Renata Rodrigues narra, como se falasse a uma amiga, a cronologia de uma tragédia anunciada ao leitor, mas não para quem vivencia. Vemos uma mulher que se torna “uma máquina de fechar caixas” enquanto encaixotava a sua vida em um mundo que não lhe cabia. A ideia do amor romântico em nossa sociedade nos impõe desde cedo o desejo de realização do ser por meio da relação, a cristandade atrelada a isso nos prepara para sempre dar a outra face. E damos tudo. Damos nosso corpo, nosso tempo, nossa energia e abdicamos do nosso desejo, dos fetiches, dos sonhos e nos perdemos em sonhos outros que não são os nossos. Ao ser apresentada a uma personagem que caminha em um deserto de afetos, pensei logo no dito de que quando sentimos sede, uma gota de água parece um rio. Quando não estamos acostumados com o afeto, uma migalha torna-se suficiente a princípio. A autora capta em sua escrita a degradação da vida em nome do amor e do desejo de ser amado. É uma escrevivência que dialoga com tantas e tantas histórias. <em>E vivemos infelizes para sempre </em>critica os ideais de amor ensinados em nossa sociedade (família, igreja, mídia) e nos põe no ponto central, a infelicidade sempre nos caberá enquanto nosso ideal de afeto for regido por uma sociedade patriarcal.</p>
<p><strong>Bruna Santiago</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Piedade, amor, piedade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Nov 2022 20:50:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Piedade, amor, piedade apresenta contos que traduzem sentimentos, desejos, realidades, amores, desamores que revelam toda a sensibilidade de uma escritora sagaz e poderosa, capaz de despertar reflexões. Um livro que faz recordar, pensar e reconhecer situações tão prováveis de ser vividas por mulheres de ontem, de hoje e de sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">Eliane Costa Silva


</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Num jorro de coloquialidade, com palavras exatas, em cada conto a autora nos põe diante de situações vívidas e pulsantes. Personagens têm rostos e se movimentam, explodem de emoções, ânsias e sonhos. Sem artifícios maçantes, ela nos comove, porém sem um traço de pieguismo. Ao contrário, descreve fatalidades e logo suspende a sensação de desventura, pois suas personagens não se curvam a dramas, crescem como algumas árvores resistentes cujos frutos brotam lindamente em terrenos pedregosos. Alguns cenários são descritos com tamanha espontaneidade, comicidade e vigor, a ponto de nos trazer lembranças pessoais e familiares cheias de sabores e cheiros incontornavelmente queridos. A escrita tem um ritmo impactante e desce como água gostosa sobre nossas cabeças. Impossível largar o livro de Sandra de Lima. Ela me fez lembrar uma palestra de Rachel de Queiroz a que assisti na Universidade Federal de Pernambuco. A reconhecida e florescente escritora foi provocada a expressar o que sentiu quando leu um livro de outra imensa escritora. Com naturalidade, disse: “Abri o livro antes de dormir para ler duas ou três páginas”. Concluiu: “Que nada, li o livro inteiro. Ela é uma tiradeira do sono dos outros”. Alegremente, senti o sono ir embora para me enovelar nos contos aqui reunidos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Janeide Oliveira de Lima</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Dia das mãos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 19 Nov 2022 14:41:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Este livro tem compromisso com a saudade, ao falar da mãe, do pai, do amigo morto, da terra natal.

É alimentado de dor e esperança, porque sofre e vibra pelo Brasil.

E traz o sopro de múltiplos espíritos, porque se nutre de leituras

E tem a argamassa dos sonhos, porque tem pele de películas.

E impregna-se do lírico, do lúdico, do erótico, pois espreguiça-se no brincar.

Este livro não tem gênero definido: <em>croniquesia </em>ou <em>prosoemas</em>, celebra o dia das mãos, perfazendo os trabalhos e os dias.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O HEXÁGONO DO CAIO</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O rapaz trocou de nome, nasceu Luiz Carlos e virou Caio, pôs-se a escrever livros, mas de nada adiantou, pra gente aqui da Cruzília, ele é só o filho do sô Juca.</p>
<p style="text-align: justify;">Saiu de sua terra, mas a terra não saiu dele: é só ler as duas primeiras partes deste livro, que é <em>prosoema</em>, <em>croniquesia</em> ou coisa que o valha ou velha, pois o tempo está no pé desse mineiro que garimpa diversos gêneros.</p>
<p style="text-align: justify;">Se ser brasileiro é ter por profissão a esperança, esse escribaixinho, que foi professor por quase 40 anos, sofre muito de Brasil, tenta falar disso na terceira parte deste livro, evocando os versos de Manuel Bandeira, “vi terras de minha terra,/por outras terras andei,/mas o que ficou marcado/em meu olhar fatigado/foram as terras que inventei…”</p>
<p style="text-align: justify;">Nas lidas com as letras, empanturrou-se de leituras, daí ter escrito ensaios, comentários, artigos e, nesta obra, há uma parcela do estoque dessa faina de um esfomeado por livros.</p>
<p style="text-align: justify;">Como seu pai era sócio do Cine Vitória, empresariando sonhos, o filho do sô Juca desandou a ver filmes, apaixonando-se pela telona, daí misturar filmes com suas inconscientes viagens noturnas, o que também comparece nesta seleção de textos.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrever é também um jeito de brincar. Na infância, fazia do dedal um cavaleiro andante; e, com giz, rabiscava no pátio revestido de pedras de São Tomé desenhos para histórias que lhe letravam por dentro. Escolheu seus objetos diletos e fala disso neste livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Resumo da ópera: Este livro contém 60 textos, além da introdução; estruturam-se em seis partes, um hexágono, com a seguinte divisão:</p>
<p style="text-align: justify;">1) a família; 2) a terra natal e Minas; 3) o Brasil e outras terras; 4) leituras; 5) filmes &amp; sonhos; 6) objetos diletos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a palavra <em>hexágono</em> lhe traz lembranças obscenas: em Cruzília, o popular <em>Vicente Batata Roxa</em>, em atormentada geometria, usava esse termo para designar a genitália feminina.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem assina esta orelha é o zoado cruziliense Zé Jão, que numa atividade escolar anotou: “Redazão zem azinatura, azinado Zé Jão” <span style="color: #ffffff;">Caio Junqueira Maciel</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Feito neblina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Nov 2022 12:28:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um universo rural e contemporâneo, na fronteira, no estacionamento, no sertão: chão que ganha cores e sons no presente da vida e da morte de gente anônima para o mundo, mas de concretude repleta de sabedoria e poesia no dia a dia de suas histórias. Como sempre foram, Juanito, Toninho, Tiana, Neto, Antônio, João são criados por um eu lírico que descreve cupinzeiros e lavouras de café, reconhecendo as belezas da vida, da natureza, das pessoas, todas elas atravessadas por diferentes relações de poder. Cada personagem, esquecida na poeira do prosaico, é um grito político, reflexivo e poético.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antes de mais nada, é preciso saber que este livro é intenso. Por vezes, violento. Mas, acima de tudo, pulsante, vivo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Feito Neblina </em>é composto de contos cujos caminhos narrativos são imprevisíveis e entrelaçados por suas paisagens em comum, imersas em um mundo de fazendas, trabalhadores do campo, animais, árvores, frutos, cores — até mesmo quando o cenário é um quarto simples e úmido no subsolo de um estacionamento no meio da cidade grande.</p>
<p style="text-align: justify;">A escrita de períodos ora tão curtos que nos deixam ofegantes, ora longos, repletos de gradações, formam imagens nítidas e bem delineadas, que não raras vezes chegam a ter textura e sonoridade. Dessa maneira, nos é possível adentrar a mente em turbilhão de um alguém chamado Juanito e seguir um gato que nos leva ao inesperado. Mergulhamos em silêncios que apenas são percebidos quando não existem mais. Observamos um ladrão de frutas que vive em delito por não saber decifrar palavras e o desmanchar de pessoas e sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">As histórias deste livro nos escancaram a solidão dos mundos particulares de todos aqueles que não são vistos, ou que não se deixam ver. Escancaram-nos o “retrato defeituoso de um tempo atrasado”. Escancaram-nos as saudades, as ausências — de recursos, de amor. <em>Feito Neblina</em> é como uma tecitura poética de tristezas, medos, lembranças. Mas também de desejos, de possibilidades de amanhãs, de “sussurros de finitude” permeados de esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">Intenso. Violento. Pulsante. Vivo. Assim é o livro de estreia da autora mineira Marcela Ávila.</p>
<p><strong>Mayara Freitas</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Grãos de areia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Nov 2022 15:11:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Alberto é um jovem carregador de feiras no interior paraibano dos anos 1960 que mora na fazenda do patrão de seu pai, mas sonha com outra vida. Lúcia é uma estudante que reside com a família na cidade, imaginando o que irá viver depois que deixar o local. Ambos buscam fugir da paixão, mas ela os cerca como fogos de São-João.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Já diz a cantora Mariana Aydar: “Eu me entendo escrevendo” e é na literatura que desde 2010 venho me ressignificando e (re)descobrindo sentimentos, lugares e histórias. De lá para cá, já foram dois livros publicados, alguns contos em antologias, e-books, novas amizades e olhares sobre mim, o mundo ao meu redor e meu passado. Este novo livro é uma pequena forma de homenagear minha cidade natal, Areia (PB), minha família e os bons sentimentos em tempos sombrios.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Grãos de Areia</em> é uma novela que já teve outros nomes, mas no final o simples da conexão temporal-ancestral ganhou força e virou este livro. Uma obra que reescrevi, ampliei, corrigi, conversei por anos e a qual fico muito feliz de poder ver chegar a mãos e almas alheias. Espero que quem já acompanha meu trabalho literário e aqueles que passarem a conhecê-lo curtam, pois, para quem escreve, no fim o papel se torna um pouco de nós, um tipo de portal onde escoamos nossa essência e que nos ensina muito. <span style="color: #ffffff;">Marcelo Soares de Lima</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A catástrofe violeta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Nov 2022 19:36:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Esse livro é sobre o amor de duas mulheres. Não de uma para outra necessariamente, apesar de se amarem. É do amor delas pelo todo. Tão denso e profundo quanto oceano. Frágil e desbotado como tinta velha na parede. Efêmero e intenso como as pétalas da violeta. Um livro sobre existências que se atravessam, em tons que vão do sangue ao <em>blues</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Começou pelas trocas de e-mails de duas amigas vivenciando o luto pelo fim de seus relacionamentos. Mas se expandiu. A escrita virou uma necessidade, uma ferramenta ou um ritual através do qual a existência se fez possível. Escrevendo puderam (r)existir. Puderam se olhar. Nesse gesto em que uma, vendo a outra, via a si mesma. Um reflexo. Uma reflexão. Então, um território foi criado. No qual circularam afetos múltiplos. No qual a história e a singularidade de cada uma emergiram através de personagens que podem, talvez, misturar-se a singularidades outras; podem, quem sabe, afetar leitoras e fazê-las também se enxergar nestas linhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata, no entanto, de um livro epistolar apenas. Há nele, certamente, um quê de crônica. Antonio Candido, em seu texto “A vida ao rés do chão”, diz que a crônica é um gênero menor, não faz parte da grande literatura. Por isso possui uma sensibilidade outra. Ainda bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a leitora talvez tenha a sensação de que o livro começa pelo meio e de que não termina. Pois é. É que tudo não passa de uma conversa. E, como diria Clarice Lispector, “faz parte de conversa ser inacabada. O resto é invenção”.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>onda.<br />
a onda transporta energia, mas não transporta matéria.<br />
cor é onda.<br />
violeta é cor.<br />
a última cor do espectro visível<br />
e<br />
como seu oposto direto<br />
tem<br />
o<br />
vermelho.</p>
<p>De todas as mortes, as secretas são as mais doloridas e as microscópicas, imensas. Sejam células, neurônios e/ou esperanças: matamo-nos diariamente.</p>
<p>Liz e Nina morrem e renascem a cada frase. Em cada encontro regam seus brotos e arrancam matos de seus jardins com a doce loucura das que teimam em seguir amando — seja a si mesma, seja ao outro.</p>
<p>Suas catástrofes ganham contornos e se desmancham de maneira fluida e contínua, e tudo as mobiliza. Tudo. Tudo vira matéria poética para elas que tecem como Moiras seus próprios destinos e brincam de profanar tradições e velhas formas de amar e morrer, com a sabedoria das deusas expulsas de paraísos. Paraísos construídos para que permanecessem domesticadas, nutrindo, com suas entranhas e sonhos, a fome insaciável do patriarcado, enquanto elas próprias minguam como minguam as esponjas do mar expostas ao Sol.</p>
<p>De Paris ao Rio Grande do Sul, de São Paulo à cama repleta de fotografias velhas e coisas antigas, a viagem infinita e infinitesimal guiada por Liz e Nina faz com que nós — finalmente — olhemos para os nossos e ao redor, com a delicadeza dos que nada sabem. O encontro entre elas nos encontra.</p>
<p>“Quando a gente escreve, a gente sepulta. As pessoas leem e a gente morre um pouco.”</p>
<p>Leiam-nas<br />
e<br />
boa viagem.</p>
<p><strong>Gabriela Guinatti</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Princípio</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/principio</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Oct 2022 11:19:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">nem teu nome te dou de volta, como-o com dentes podres e língua poderosa. lambo o é do teu nome, como quem busca o gozo do outro. mastigo tuas consoantes, banquete maior não há. como calado, como quem comete pecado. como como cobra. engulo-te todo, e só já dentro de mim é que podes ser livre, repousar em teu samadhi.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">um <em>princípio</em> teria que supor a ideia não só de que algo ali se começa, aqui se começando de maneira ainda demorada, mas que também teria como preposição a anterioridade da própria possibilidade de estarmos começando: se algo é princípio, origem, quem lhe garantiria a chance de gastarmos, aqui com nosso vocabulário sempre escasso, sempre em falta, sempre mais seco que a fonte do desejo, uma formulação que pressuporia termos chegado, enfim, ao começo? como finalidade que tem o desejo da origem, estar em um mundo no qual uma formulação sobre a origem seria um tanto idílica que nos faria querer sempre retomar e retornar ao começo, o desejo de pressuposição como uma capacidade de voltarmos para lá, já que temos ciência de para onde estamos voltando, aqui não se realiza, prova-se impossível, caso não se revisite que o fundante também pressupõe uma chance de voltarmos sempre a um ponto que não é aquele para onde estávamos indo. a menos que se saiba de onde vêm nossos desejos, nossos começos, estaremos em falso passeando em volta do medo e da negação do outro que também nos faz parte, que nos torna, assim, coletivos, principiantes no meio de um <em>princípio</em> principado ao precipício.</p>
<p style="text-align: justify;">o desejo da nomeação de uma origem passa também por uma composição possível que interliga tudo a todos e a algo que também deve de alguma maneira sobrepujar a possibilidade da linguagem, que, ao mesmo tempo em que a perpassa, também a limita para que a própria chance da língua se prove somente limitada e limitante perante a sua materialidade: desejo de enroscar a sua na minha, fazer da prece algo que se endereça e se prova sempre cheia de desejo, ainda que de um desejo vazio, faz da constituição de um <em>princípio</em> algo que também evoca aquilo que já veio de forma faltante. pressupor a falta, o vazio, ao invés da presença, é também se tornar parte de um todo que se encaixe independentemente se sei ou não <em>qual</em> o <em>meu</em> papel perante esse grande outro que se apresenta e assume tantas faces possíveis quanto as minhas palavras poderiam formar, tanto quanto o desejo que nutro e nego seria capaz de materializar. se ainda não se sabe, enfim, o lugar de tudo perante todos, há aqui, nas páginas agora protegidas por essa capa orelhada, pronta para <em>ouvir</em> o sussurro gritado dessa prece, uma chance de começarmos a entender o que é que se começa a partir dos contos desejosos de outro de eduardo valmobida. leitor(a), devore-os.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fabio Saldanha</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>No sexto dia</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/no-sexto-dia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Oct 2022 13:25:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A mãe dividida entre a esperança e a angústia. Toda história precisa de um fim. Uma semana depois, encontraram um corpo. Pelos exames, descobriram que tinha sido do menino.</p>
Nesse desfecho, todos sofriam. A mãe mais do que todos. Do que sobrou do menino, fizeram velório, enterraram. Na frente da casa, no meio do asfalto, ainda estavam os caracóis. A mãe que nunca mais foi a mesma, concha sem caracol.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O livro <em>No sexto dia </em>de Hortência Siebra convida o leitor a experienciar as infinitas formas de ser e estar no mundo. Acho que foi ao longo da leitura que eu realmente compreendi a frase de Clarice Lispector: “Já que sou, o jeito é ser”. Afinal, não foi isso que Billy fez? Decidiu aceitar-se pássaro, ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A complexidade da vida dos seres envolve muitas forças, algumas controláveis, outras inexoráveis, que nos enredam em coisas que nem sabemos existir. Ao longo da leitura, me senti uma intrusa autorizada (isso existe?). A mim parece que andei xeretando momentos que eu não devia, tal qual Paulo Roberto. Outras vezes, senti a força de conhecer as histórias que ressignificam aspectos de minha própria vida. Eu já havia tido contato com alguns dos textos de forma aleatória, mas a força de ler todos eles, juntos, foi uma experiência marcante.</p>
<p style="text-align: justify;">Verdadeiramente, o livro nos mostra que é pelo fato de sermos humanos que essas experiências, embora distantes de nossa realidade individual, são passíveis de serem nossas, e essa mera possibilidade nos aproxima de uma forma surpreendente de cada uma delas. A obra da autora se insere em uma longa corrente que vem desde a Literatura Antiga: representar o homem, recriando-o em suas relações com os outros homens e com seus próprios destinos. Não importa quanto tempo passe, quanto a sociedade mude, há algo primitivo que sempre unirá essas experiências, afinal elas advêm do caráter singular que existe dentro de nós.</p>
<p style="text-align: justify;"> Enfim, no sexto dia, Deus criou os homens, sua <em>master piece</em>, já Hortência Siebra <em>No sexto dia</em> apresentou as diversas facetas que nos torna mais humanos e menos parecidos com Deus. A leitura dessa obra se mostra relevante e nos permite ver a grande versatilidade e o grande potencial da autora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Leticia Freitas Alves.</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Gólgota ignota</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/golgota-ignota</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Oct 2022 17:45:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Destituído do direito de ser bicho, tornava-me todos os dias casto e calmo, dormente pela obrigação do nascer do sol, e a luz que brotava queimava e jogava para uma terra distante as sombras que me abraçavam com os seus tentáculos gelados e com a promessa do anoitecer do meu juízo, do crepúsculo da sensatez. E quando a hora vinha, quando não me aguentava de tanto adoecimento, meu corpo pedia a Deus a mesma clemência pedida por minha mãe, as mesmas palavras, as promessas impossíveis de serem cumpridas.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É difícil traduzir para as palavras todo o peso do mundo. Não cabe nas dimensões dos números escritos a falta e a ausência que preenchem tudo. Nos sonhos encontram-se todas as impossibilidades da humanidade, e são deles que brotam aquelas realidades que escapam e nos atormentam o estado de vigília. As Miríades vêm do mundo dos sonhos. Os sonhos vêm do mundo das Miríades. Elas nos contam os segredos ancestrais que moldaram o mundo, nos tempos em que o mundo era virgem e nenhum humano ainda havia pisado na Terra, e assim acordamos apavorados com as verdades primitivas que jamais farão parte de nós novamente. A construção humana deixou de lado o animalesco que havia em nós. E o narrador sem nome, em um embate interno, adentra nos labirintos oníricos das dimensões de dentro, vendo suas marcas no tempo, no avançar dos anos e nas cicatrizes que ficaram em sua pele, percorrendo os dias melancólicos e entediantes de vidas vazias. Sob a tutela surreal de entidades muito além da compreensão de qualquer pessoa. As senhoras. As avós. As Miríades. Tudo veio de um sonho. A realidade é formada por uma infinidade deles. E se tudo veio do sonhar, talvez nada exista de verdade. Ou talvez a verdade seja insuportável. Em Ilhazinha, no fosso do fim do mundo, a Gólgota Ignota está lacrada. E dentro dela, as Miríades.</p>
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		<title>Outros escritos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Oct 2022 16:51:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não tardaria muito para que deixasse de escrever minhas primeiras obras da juventude. A primeira delas inexistiu sob a forma de um diário de viagem intitulado <em>Jornada a nenhures. </em>Dessa etapa igualmente consta <em>Personne, </em>uma coletânea de apagamentos em francês dos poemas de Afonso Calado, heterônimo de Fernando Pessoa. É também desde aquela época que venho adiando a escrita de <em>Más allá de ningún front, </em>baseado nas profundas marcas que a ausência na Guerra Civil Espanhola me deixara.</p>
<p style="text-align: justify;">(Trecho de “O manifesto invisível”)</p>
&#160;

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estes oito contos de Martim Butcher são de fato <em>outros</em>. Se a literatura brasileira na contemporaneidade tende às histórias identitárias, com seu realismo por vezes bruto e uma reprodução direta da(s) fala(s) popular(es), ou às distopias que figuram no futuro o que se entrevê na atualidade, esta coletânea (re)inaugura uma nova modalidade da escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Os narradores de <em>Outros escritos</em> compõem um conjunto cuja unidade, pouco apreensível à primeira leitura, define a qualidade indiscutível desta escrita. Tal unidade relaciona-se à qualidade linguística e às escolhas de estilização da linguagem. Todos os narradores são apaixonados pelas palavras e retiram de limbos vocábulos pouco conhecidos ou termos raros, mesclando-os a formas coloquiais de enunciação. Essa mescla, em si mesma significativa, não é gratuita: ela se articula organicamente à matéria dos contos e dá forma estilística ao que neles configura o sentido do conjunto.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, antes de qualquer especificidade temática, de dar voz àqueles que a história sequer conheceu (como em “Anunciada”, curiosa narrativa, um pouco à maneira borgiana, acerca de uma outra carta do descobrimento do Brasil que, como o navio que a levava, foi tragada pelo mar). E, sobretudo, de apresentar personagens que, mesmo ao alcançar o sucesso, orientam-se pelo fracasso (como em “Questão de tempo”, em que as fantasias do escritor premiado revelam sua autoinclinação para a derrota e a certeza de que o mundo finalmente descobrirá ser ele um embuste). O ponto máximo da ironia em que o amor às palavras choca-se com a autoanulação da obra está no irônico e delicioso “O manifesto invisível”, quando o narrador proclama seu “dom para o nada”.</p>
<p style="text-align: justify;">Configurar esse conjunto de contos nas temáticas do fracasso e, por outro lado, da tentativa de revelar o que permaneceu desconhecido indicia um modo de conceber a literatura na contramão do que atualmente tem sido produzido. O que há, aqui — e é novo por revigorar uma tradição que parece esquecida —, reinventa homens e atos falhados ou por suas fantasias negativas ou por contingências desastrosas que, não obstante, a linguagem salva. Não por acaso, o último conto é “Introdução ao fracasso”, manual que, na contramão do ideário do sucesso a qualquer preço, revela a contrapelo o ideal da derrota.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso e mais — que não cabe numa orelha — revela que Martim Butcher é um escritor pronto. E que queremos mais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ivone Daré Rabello</strong>,<br />
crítica literária e professora da USP</p>
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		<title>A minha mãe não tem idade para ser minha mãe</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Sep 2022 14:31:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Dentro da mente da Mãe de Miguel existia um caos de pensamentos. Quaisquer tentativas de procura de ordem revelavam-se estéreis devido às marés de reflexões, idealizações e cogitações inefáveis que, a reboque da fadiga, mutavam-se em terríficas e tempestuosas batalhas de proporções titânicas e nas quais o questionamento do próprio levava às dissecações mais profundas do ego, processos inevitavelmente condenados ao esquecimento como tantas outras agitações do espírito. É então no fim, quando a cadência eventualmente termina, que sobrava apenas um aglomerado que pesava no corpo e a cansava. Sentia-se, no entanto, particularmente longe de tudo.

<strong> </strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>“Em tempos tinha tomado gosto à preguiça, até que lhe caiu a responsabilidade de cuidar de um ser, obrigada então a sustentar ambos com múltiplos trabalhos e vivendo toda vida no buraco a que chamou casa. Não que fosse decrépita, mas relembrava-a da desilusão que tinha, agora que a ilusão da vida desaparecia para dar espaço a uma realidade esmagadora e sufocante. Era jovem. Sabia-o, mas não o sentia.”<br />
“Que temia? Nada. Temia-se a si mesma. Um medo que provinha do seu desejo de poder ser mais do que era. Gostava de ultrapassar as amarras do mundo e ir mais além, deixar o corpo para trás e nunca mais ser, nunca mais existir, morrer? Talvez. Desaparecer para sempre deste mundo, toda a consciência que um dia teve simplesmente a desvanecer-se de tudo o que é físico, é o mundo antes de nascermos.”<br />
Com uma estrutura rigorosa e uma escrita envolvente, por vezes ligeira, outras mais profunda, Guilherme Pires Correia formula neste romance uma história que segue mãe e filho através dos seus percursos familiares, trajectos profissionais e académicos, círculos de amizade e sentimentos confusos. Os dois protagonistas ilustram de modo exímio o colapso afectivo e a carência emocional da moderna sociedade ocidental e a forma como um quotidiano avassalador e imparável consegue, dentro do mesmo espaço, colocar mãe e filho separados por abismos, partilhando uma solidão intrínseca que torna a dinâmica familiar numa dor que se renova a cada dia. O mundo exterior é sentido como um local pouco habitável e quase inóspito.<br />
São essas memórias, associadas a momentos emocinalmente fracturantes, que Miguel recorda como as primeiras tomadas de consciência e que, de certo modo, o fizeram sentir que era diferente dos outros, moldando-lhe a personalidade e o carácter, levando-o ao longo da existência a constantes indagações filosóficas e perscrutações metafísicas sobre os desígnios da vida e da morte, do amor e da amizade, da ética e da moral.</p>
<p>PAULO CORREIA</p>
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		<title>Atlântida XXI</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Sep 2022 13:55:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">— Sei que esperam isso, não é? Ou algum de vocês quer advogar? — E apenas um ou dois de cada turma de oitenta confirmava vocação.
Assim prosseguia a aula, revelando um sussurro de escárnio, atacando os alunos.
— Prisão é a aparelhagem geral para tornar os indivíduos dóceis. Mas o Estado garante a segurança do condenado, que não será linchado em praça pública. Escola — Trabalho — Diversão. Adestrados desde pequenos a se tornar normais, iguais, seja no trânsito, no trabalho, na escola. Nosso tempo é roubado e moldado pelas normas. O Estado é domesticador.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Só parecença crer que é igual o giro cotidiano do relógio. A cada deslocar do ponteiro, quanta coisa pode surpreender em Belo Horizonte ou Atlântida ou qualquer outro lugar em que o leitor se encontre ou penetre linhas. Seja num tempo mitológico ou nas ruas de uma cidade grande inundada por água que é também vírus, por arranha-céus e desigualdades. Ingredientes dos contos desta obra de João Valadares em que a cidade que submerge no mito de Platão ou no flagelo de uma pandemia tem referências para quem trafega memórias na capital de Minas Gerais. Essas alusões, no entanto, viram ocasionalmente cenário de um enredo para quem não conhece exatamente este tópos, mas outros lugares tão semelhantes de nossa urbanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">João, que é também ator, diretor-teatral, professor e poeta, nos apresenta aqui a sua prosa ficcional. As narrativas têm protagonistas de sortidas castas, da intelectualidade a um sacerdote de coreto, uma anja e um MC do morro. Aqui, acolá, personagens reaparecem, fios que voltam de um novelo. Dentre eles o cão Borges, que também merece o seu conto particular. Sobre essa alcunha, para quem conhece a vida universitária belo-horizontina, remete a uma moradia estudantil muito conhecida por gerações. Afora isso, a forma como o representante canino é criativamente inserido pode, por que não, ser também homenagem às alegorias do grande escritor argentino.</p>
<p style="text-align: justify;">As surpresas nas criativas e bem-construídas tramas do escritor aparecem também na maneira como ele não se esquiva de abordar de lâmina afiada querelas sociais que sempre precisam ser ditas, visto que os atrasos não se cansam de tentar nos empurrar para trás. E a escolha do mito de Atlântida transposto para o nosso XXI é perfeitamente plausível se a lenda platônica quer lembrar que não importa quão poderoso é o homem, a natureza é sempre mais forte. Quanta atualidade! “Do Oiapoque a Nova York, se sabe, que o mundo é dos que sonham, que toda lenda é pura verdade”, canta Rita Lee na música “Atlântida”, dela e de Roberto de Carvalho. Como sobrevivente, leitor, embarque de remo em punho.</p>
<p><strong>Júlio Assis </strong></p>
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		<title>A verdade e a chacota do diabo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Sep 2022 12:48:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">— Vô, </span><em><span class="fontstyle2">quiquié </span></em><span class="fontstyle0">“cabo”?
— Esse..? — apontando pra vassoura.
— Não, vô... é </span><span class="fontstyle2"><em>quicê</em> </span><span class="fontstyle0">falou que a Curiosidade quis dar
“</span><em><span class="fontstyle2">cabo</span></em><span class="fontstyle0">” na vida do gato...
Ele ria e mostrava os dentes obturados e amarelos, feito os grilos e papéis da gaveta. Parecia que comia papel; os bigodes relinchavam e depois se acalmavam no inquieto vício que trazia no copo. Acendia um cigarro e explicava, ou melhor: professorava minha curiosidade e – mais tarde – meu lamento. E ainda que não mais pudesse subir no telhado, restava-lhe uma garra ou outra para pular da cama e mijar no mato. Vez teve em que me disse para desaguar a bexiga no ferida: cortei o dedo com o canivete que ganhei de meu pai.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não espere detalhes. Não procure respostas. Abandone a exegese, pois não há significados. As crônicas gerais de F.G.L. são altamente sensoriais, mas não trazem nem almejam algum sentido. Se há uma procura e um achado é por atmosferas, climas que se constroem da junção entre cenários, pessoas e narrador. O encontro nos é dado para ver em flashes. Dos retalhos de imagens, sons, cheiros e falas resulta um mundo que brilha como uma estrela já consumida em supernova. Como a luz que viaja anos-luz para, enfim, nos iluminar, o hoje é memória. Há um quintal, mas não há. Há uma mãe, um pai, as onipresentes avós. Há o corte e a cicatriz. Há a distopia, a modernidade inconclusa, o pesadelo pandêmico. Há também sempre algo a apontar para o que poderia ter sido e não foi. O convite “vamos fugir?” morre antes de nascer. Para o memorialista autoficcional, o único escape possível é para o passado. Este não vive, sobrevive como fardo ou farsa, faz casa na melancolia de um eu lírico cujo universo não lhe pertence. Que não nos pertence.</p>
<p><strong>Rodrigo Ratier</strong></p>
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		<title>O rinoceronte na parede</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Sep 2022 12:44:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As lagartixas correram ante as suas passadas, arrastando o ventre inchado sobre a areia. Gabirus se esconderam em suas tocas, tão barrigudos que mal passavam pelos buracos. Até os besouros que rastejavam pelas pedras eram grandes e lustrosos, brilhando quase metálicos sob o sol, depois de se fartarem das carnes pútridas que encontravam debaixo da terra. Tonha passeou pelas ruas vazias da necrópole, ladeada pelas casas dos mortos, umas humildes, outras suntuosas, refletindo que a diferença entre eles e os vivos era pouca.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por que este livro deve ser lido?</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro deve ser lido porque traz o melhor do fantástico contemporâneo. Frederico Toscano surpreende neste segundo livro de contos com sua linguagem marcante, lapidada para tocar as nossas emoções e, em muitos momentos, confrontar nossos medos.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre rios, aranhas, sifões e ruas comuns, encontramos personagens fantásticos que habitarão nossas mentes por muito tempo. Os ambientes insólitos dos contos por certo estarão em nós, quando fecharmos os olhos, antes de dormir. Por vezes, nos impedirão de descansar.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro foi escrito para assombrar, provocar, mostrar as forças e fraquezas dos personagens, alimentando as nossas próprias angústias comuns de leitor.</p>
<p style="text-align: justify;">Só posso dizer que este livro deve ser lido porque é incrível.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de ler, tenho certeza de que vocês repassarão a mensagem: por que este livro deve ser lido?</p>
<p><strong>Camila Inojosa</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Clube dos niilistas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Sep 2022 12:40:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tenho sonhado muito depois que voltei a enxergar. Não lembro onde deixei minha antiga bengala. Minha mente divaga. Encontro dificuldades para dar sequência lógica aos pensamentos. Harena faz trinta anos hoje. Já não nos falamos há algum tempo. Não sei mais por onde anda. Lembro que nos divertíamos em seus aniversários. Quando ela fez vinte e dois anos, quis fingir ser cega.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;">Continuo então com minha caminhada cambaleante e, ao dobrar outra esquina camuflada, aproveitando o inesperado ato de bondade do meu algoz, me deparo com Tralalá, magrinho-magrinho, usando o seu sempre limpo calção azul de educação física de listras laterais, levando na mão um pote vazio de margarina, passando de casa em casa para fechar todos os portões, grades e janelas, esfregando as pontas do indicador e do polegar junto ao nariz exibindo misterioso refinamento para a noiva invisível que o teria abandonado logo depois da primeira crise. Eu estava muito feliz por rever meu irmãozinho Tralalá caminhando pela rua daquele jeito dele, meio de lado, com molas gastas nos joelhos e articulações, balançando o corpo descoordenado como um automóvel com sérios problemas nos amortecedores. (&#8230;)</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>As lâminas permeáveis</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Aug 2022 13:35:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“As cores na natureza espelham a natureza das cores...”. Ela dizia essas palavras sentada ao meu lado em um ônibus que margeava a orla de uma praia com um mar muito verde. Além de nós dois, não havia mais passageiros no veículo. O motorista permanecia incógnito em sua cabine de direção. Lucília estava sentada do lado da janela, e eu, sentado do lado do corredor, segurava sua mão esquerda. Com a mão direita, ela apontava para os elementos do panorama que se apresentava à janela do coletivo fantasma.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>As lâminas permeáveis</em> é um livro que se alastra por paisagens transitórias, que se multiplicam rumo a um aeroporto. Desde a folha de rosto, o reflexo de uma figura se forma entre as linhas. Em meio às notas numa caderneta acerca do que o sonho e a vigília deixam a desejar, tatearemos a textura instigante da matéria textual nua em pelo. Através de Flora, na direção de Lucília, percorreremos as cidades escondidas na cidade. Carlos Eduardo expõe, assim, os cruzamentos daquilo que permeia e é permeado, onde o real, nunca desnudo, é refeito em mais de uma ficção. Cruzamentos esses que se erguem no mapa mental — como duplo da memória (coletiva e afetiva) — dos bairros de São Paulo, locais de passagem que revelam camadas de tempo sobrepostas. Talvez, no percurso, nenhum de nós descubra a natureza da cor nos cabelos de Lucília, essa protagonista figurante, ou nos de Charlotte, hóspede no endereço de uma fantasia muito crua. A pele é negra. A cidade é móvel. Não perderemos a viagem.</p>
<p><strong>Maiara Gouveia</strong>,<br />
poeta, autora de <em>Pleno deserto</em> (2009), <em>Antes que se rompa o fio de prata </em>(2013) e <em>E o resto é barulho de água </em>(2019).</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Museu dos errantes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Aug 2022 21:34:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O nome, Quadrilátero do Prazer, ninguém sabe como surgiu, mas, apesar de longo, pegou. Essa espécie de mercado informal caiu no gosto da população e trouxe à Rua Prefeito Magro um aumento do movimento, bem como os primeiros sinais de gentrificação.
Quando a prefeitura falou em demolir o prédio foi um alvoroço. Os comerciantes se mobilizaram, disseram que era um espaço plural, começaram a usar jargões de que a cidade precisava se reinventar. Falaram dos urbanismos e dos coletivos, do conceito da smart city, das cidades criativas, do <em>urban hippie yuppie hype hipster lifestyle</em> da Rua Prefeito Magro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um homem negro que trabalha como vendedor ambulante nos trens da cidade sai de casa para trabalhar, e não retorna. Enquanto sua mulher se vê às voltas com duas crianças pequenas e com as buscas na delegacia para encontrar o marido, a vida do ambulante segue dentro do trem, vagão a vagão, com histórias e aventuras com os passageiros e outros vendedores. Dentro e fora do trem, <em>Museu dos Errantes</em> apresenta visões diferentes de tempo e de espaço, que ora se alongam, ora se contraem. O fio condutor do romance é a própria viagem, que se dá a partir do ramal de trem de Serzedelo, que conecta o centro às periferias. Cada capítulo do livro tem o nome de uma estação de trem, de forma que ao final do romance o leitor terá percorrido, assim como os personagens, todo o trajeto que o trem realiza. Salpicado por discussões sobre racismo, machismo e gordofobia, o que está em discussão o tempo inteiro é a própria cidade: o que ela é, como é construída, como as pessoas circulam e quem usufrui de seus benefícios. O título do livro, Museu dos Errantes, é o nome de uma das estações de trem do ramal de Serzedelo: nem no centro nem nos extremos da periferia, essa estação de trem abriga o museu de mesmo nome, uma homenagem àqueles que erram pela cidade, por vezes dentro dos trens, sem saber muito para onde vão nem como foram parar ali.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Uma ficção científica pornô romântica</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/uma-ficcao-cientifica-porno-romantica</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Aug 2022 21:18:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— Aids??? De que tempo você é? A Aids foi erradicada há séculos! Refiro-me à <em>Peste Célibe</em>, surgida logo após a Grande Guerra. O mundo estava desolado, e a tristeza era tamanha, que os sobreviventes criaram laços, cuidavam uns dos outros e compartilhavam tudo o que tinham: abrigo, alimento, o calor de seus corpos, inclusive, todas as formas de afeto. O sexo era livre, e a humanidade, assim, se reconstruía e superava os seus traumas... até surgir a Peste.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Assim que comecei a ler <em>Uma Ficção Científica Pornô Romântica</em>, senti-me de frente para um daqueles livros que eu comprava na banca de jornal. Ele se chamaria “<em>Moema</em>” e me contaria a vida romântica e apimentada de um casal. Mas logo — e num repente — Yussef Kalume jogou-me em um mundo completamente diferente, e fui sugada pela ficção científica. Junto com a personagem principal, Emílio, fiquei perdida e tentando entender o que estava acontecendo com a gente. Em busca dessas respostas e caminhando por esse lugar que tem muito em comum com nosso mundo, fui redescobrindo teorias e explicações sobre a humanidade. A escrita e os questionamentos são tão reais que em vez de um livro de ficção me pareceu estar lendo um livro de biologia. As descrições dos corpos humanos e de suas funcionalidades me fizeram pensar se também sou assim. Ou será que é só nesse mundo de Yussef?</p>
<p style="text-align: justify;">De biologia fui pra filosofia, política, religião&#8230; E mais vezes me questionei se este livro fala de Emílio e desse futuro aterrorizante ou se está falando de nós e nosso mundo atual.</p>
<p style="text-align: justify;"> Ao terminar de ler e voltar para meu mundo mais ou menos real, fiquei olhando a paisagem urbana da minha janela. As pessoas em seus apartamentos, um pouco da mata existente e esse céu ainda azul que temos. E fiquei pensando, que ousadia desse escritor falar com tanta convicção sobre assuntos tão delicados! E usar o sexo e a pornografia para questionar nossos tabus e escolhas como sociedade. Que bom que existem pessoas que se arriscam, se jogam e nos jogam de penhascos fictícios para podermos refletir sobre nós mesmos, sobre a situação que vivemos e sobre o que é o amor.</p>
<p><strong>Dandara Guerra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O homem do jardim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Aug 2022 20:44:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lúcia me deu apenas o número de telefone de Dona Mariquinha. Passei vários dias olhando para o post-it pendurado na porta do armário da cozinha. Eu me deparava com os números escritos em tinta azul sempre que pegava o pó de café. Suspirava e me perguntava se deveria ou não ligar. Achava o fim da picada recorrer a uma benzedeira para resolver minhas questões existenciais. Fazer terapia parecia mais sensato, apesar de mais caro, porém não me ia tentando explicar o inexplicável para um psicólogo. Não achava que tinha um problema. Ou tinha? Minha apatia seria um sintoma de depressão? Não achava que estivesse deprimida. Eu me interessava por muitos assuntos, amava ler, haveria algo errado comigo?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>O homem do jardim</em> foi escrito quando eu era bem mais jovem. Alguns dos episódios descrevem cenas que presenciei e que ficaram marcadas em minha memória. Pode-se dizer que a indecisão da Mila, a protagonista, sobre os passos a dar depois de anos de estudos e seu desencanto e rebelião de adolescência tardia também são reflexos meus. O resto é ficção mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Lia muito Haruki Murakami naquela época, e o flerte com acontecimentos misteriosos, como os vividos pela protagonista na também fictícia cidade serrana de Morro das Araucárias, deve vir daí. Não que eu tentasse imitá-lo. Já que isso estaria fadado ao fracasso. Gostava do estilo do autor. Naquela época.</p>
<p style="text-align: justify;">Romance? Talvez <em>O homem do jardim</em> possa ser chamado de novela ou de uma sucessão de reflexões da Mila. Independentemente de definições, há personagens, e a narrativa trata das relações entre eles. De seus encontros e desencontros em uma época em que a internet e os <em>smartphones </em>não eram onipresentes como hoje. (E de sua solidão, porque essa parece ser uma característica da juventude.)</p>
<p style="text-align: justify;">Julgar o que eu mesma escrevi é difícil, e sempre tive necessidade de algum tipo de validação externa. Fiquei feliz quando alguém na Urutau achou que esta história, ou estória, merecia uma chance e me estendeu a mão. Espero que o livro propicie alguns instantes de entretenimento aos leitores. Mais, não peço.</p>
<p><strong>A autora</strong></p>
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		<title>Brasilis Busílis</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Aug 2022 18:03:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dênis Saverin seria insuportável se existisse em carne e osso. Ele é um pouco como aqueles amigos e parentes que não entendemos como se desentenderam conosco.
Nosso consolo e esperança é vê-lo se apaixonar por uma artista de esquerda, a Rafaela. Como um agente duplo disfarçado, o jornalista vai acompanhar a encantadora ruiva nas aulas de arte do Robin Rude, na feira do MST, na parada LGBT, na Marcha da maconha e até em terreno ocupado pelo Boulos. Este romance é a tentativa de elaborar em literatura um trauma histórico. Uma crise que só será atravessada se estudarmos o adversário e só trará alívio quando pudermos rir de nós mesmos. Uma crise intransponível sem a ajuda da arte.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há uma força única na literatura que emula o testemunho, o jogo de luz e sombra que só é possível nos diários (e na entrega louca dos diários). Atento a essa possibilidade estética, na angularidade de cenários públicos e privados, Ivan acerta na dicção do excesso, do habitar as bordas, por meio de voz narradora com a qual exercita uma lente sensorial ampliada capaz de empacotar a tragédia nunca totalmente percebida de um tempo, de um sonho, de um sentir coletivo, arrastado pelo que ainda é imediato. Só pode testemunhar quem sobrevive ao tempo (e à cegueira do presente). É risco, um risco que o autor assume de maneira corajosa. Aqui, um romance que enfrenta a máquina do esquecimento, por ser, muitas vezes, ela, a máquina, potente expressão do caos — um caos que também acolhe o trânsito da literatura. Um notável livro sobre o errar e sobre o existir (e recalcitrar) nos afetos que, por serem o que nos move e nos desestabiliza, mesmo quando tempo e espaço se diluem na racionalidade oblíqua da violência, jamais se perdem.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Paulo Scott</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Viagem ao redor do mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Aug 2022 18:30:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Viagem ao redor do umbigo</em> é uma obra repleta de vazios existenciais, vazios na paisagem e na própria construção textual. O livro deixa várias lacunas para que o leitor tenha um considerável trabalho a realizar. E não há uma trama a ser resolvida, não há enredo, mas sim dois personagens e seus conflitos, sem qualquer tipo de heroísmo. Cego, que é abandonado na praia durante uma excursão, e o jovem ciclista, que parte de Harmonia e pretende chegar a Tramandaí, naquilo que se torna uma viagem de leitores e personagens pelo deserto litoral gaúcho em fim de temporada.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu gosto muito do que o Knewitz escreve. Sempre gostei. Desde quando li seus primeiros textos. O Knewitz sempre tentou alçar voos para além do convencional. É um autor de grande inventividade, de arrojo estético, que não tem medo de que absurdo e o delírio contaminem suas narrativas. E agora, após um livro de contos e um romance, me chega às mãos este <em>Viagem ao redor do umbigo</em>, uma novela. E o Knewitz mais uma vez surpreende. Primeiro, pela força das imagens que nos entrega; depois, à medida que lemos a obra e nos abrimos à senciência. Uma senciência, diríamos, literária, se é que isso é possível (acho que é). O livro faz um apelo, a todo instante, aos nossos sentidos. É sinestésico. Por vezes, delirante. Alterna capítulos em prosa com outros que são pura prosa poética. É um livro cambiante como os cômoros, as dunas que surgem no espaço desta narrativa e que, sabemos, são modificadas com o vento. E a novela-duna de Knewitz também muda sua forma quase que a cada capítulo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em alguns momentos, há um clima de <em>O Louco do Cati</em>, de Dyonelio Machado, outro autor gaúcho que fez dessa região um espaço para a viagem de seus personagens. Há também alguns vestígios, ecos, do sofisticado <em>Assim na terra</em>, de Luiz Sérgio Metz. Knewitz estabelece um diálogo com dois dos mais ousados escritores de seu estado e de nosso país.</p>
<p style="text-align: justify;">Na obra, as vidas de dois solitários personagens, Cego e o jovem ciclista, se cruzam e o segundo — que afirmava ser o umbigo a “finalidade última da minha jornada, a razão e motivo” — acaba por socorrer o primeiro, que parecia morto no cume de um cômoro. Esse encontro é marcado pela alteridade, por um momento de rara beleza. O ciclista deixa sua individualidade de lado e acolhe Cego: “Ele senta na bicicleta. O umbigo desaparece. Um irmão gêmeo toma forma no meu útero que nunca existiu”. A partir daí, os dois se juntam na travessia. Mas logo Cego, levado na bicicleta, começa a perturbar o colega com suas profecias. Torna-se uma espécie de jovem Tirésias, a prever uma pátria caótica, coalhada de fanáticos, fascistas etc. Vemos também as sombras de um passado marcado pela violência, e isso se dá durante um sonho de Cego, no capítulo “Operação El Condor<em>”</em>: “crianças de porcelana mortas ao longo da praia”, crianças de “boquitas pintadas”. Nesses trechos o livro parece ganhar um tom de crítica política; a operação Condor, conduzida pelos militares e patrocinada pelos eua, sequestrava oponentes políticos do regime e seus filhos aqui no Brasil. As <em>boquitas pintadas</em> no trecho citado parecem estabelecer, ainda que de leve, uma aproximação com o experimentalismo do argentino Manuel Puig em seu romance <em>Boquitas pintadas</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, é válido dizer: <em>Viagem</em>… não é literatura fácil. Este livro, aparentemente pequeno, se expande em suas possibilidades interpretativas e exige de nós aos menos duas leituras para absorver boa parte de sua grandiosidade. Mas a leitura (ou leituras) e a travessia que fazemos com Cego e o ciclista, tenho certeza, serão gratificantes a quem nelas se aventurar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Paulo Sandrini</strong></p>
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		<title>Tempos ainda sem nome</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Aug 2022 16:56:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sua esposa faz menção de viver em permanente pânico ao seu lado, como o senhor interpreta isso? Não sei o que
fazer com a minha alma, doutora. Onde ela está? Como você interpreta isso? Morra, amor. Morra.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um homem solitário que está prestes a completar 30 anos e repassa suas humilhações a limpo. Um pai que tenta lidar com a presença do filho em sua vida. Mãe e filha que, em tempos diferentes, travam uma disputa sobre suas visões de mundo. Um menino que revê a relação com o pai olhando para ele no caixão.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu livro de estreia, Danilo Brandão tece narrativas que cortam os fios que nos ligam às relações humanas. O leitor vai encontrar, nas 20 narrativas que compõem o livro, personagens que transitam entre o horror de pensar na própria vida e o drama de serem obrigados a conviver com o outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem deixar de lado um apuro estético e o cuidado com a forma, o autor levanta as cortinas da vida e propõe uma viagem pelos bastidores das relações humanas com narrativas que quase dispensam o lugar e o tempo para colocar o leitor em um abismo difícil de se localizar.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, esse se torna um livro sobre o que acontece quando todos os laços de uma vida se rompem. Um livro sobre como se livrar das dores que deixam as cicatrizes mais profundas, pois têm origem na própria condição humana.</p>
<p style="text-align: justify;">A um dos protagonistas, por exemplo, a resposta está em reconhecer o mundo a partir da própria mente, deixando de lado os conceitos psicanalíticos que definem a psicose e neurose. Para outro, está em se trancar em um quarto de hotel e assistir às horas passarem à espera do fim. Para todos eles, encontrar a resposta é uma tarefa impossível de se livrar.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tempos ainda sem nome</em> é um livro incomum. Mais interessado em convidar o leitor a dançar entre os questionamentos do que a oferecer respostas concretas. Para o leitor, resta aceitar o convite e tentar, de alguma forma, encontrar a coreografia certa para essa dança. Mesmo após fechar o livro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A invasão &#8211; segunda edição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Jul 2022 18:01:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na verdade não somos índios. Somos Nhandeva (guarani), Kaiapó, Terena, Tukano, Tupiniquim, Krenak, Pataxó, Xetá e muitas nacionalidades mais. Essa palavra não tem tradução em nenhuma das nações indígenas, é fruto de um erro sociodemográfico.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os povos indígenas buscam manter sua resistência com estratégias que fortaleçam a territorialidade levando em conta o tempo e o lugar. O contato reduziu em grande número as nações que habitavam essa terra de pindorama. Passam-se os anos, novas estratégias de luta se apresentam e eis que surge uma literatura indígena, nativa do ponto de vista do lugar de onde se escreve, originária porque tem uma origem em um povo que compartilha saberes aprendidos com a natureza numa relação de afetividade, amor, harmonia, cuidado, doação.</p>
<p style="text-align: justify;">Desbravar horizontes ainda não imaginados foi o que fizeram os “colonizadores invasores”, invadidos na alma e no território, modificando modos de vida, adotando novos credos, descobrindo a cruz da dominação, imposição e capitalista opressora. Os povos já conheciam seu Deus, já tinham sua ligação com uma energia maior que movimenta o mundo e que fortalece a quem lhe busca encontrar. Deus para uns Nhanderú, Senerú, Tupã para os povos originários filhos da floresta.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro “A Invasão” do escritor Olívio Jekupé vem refletir com a gente sobre esse olhar agora partindo de dentro para fora, com as ideias de quem fala do seu espaço de luta, do seu território memorial, na sua simplicidade de aldeia que não busca complicar as ideias do leitor, mas questionar quem são os invasores e como proteger nosso ser dessa invasão. Será que a literatura não é uma forma de descatequisar o que já foi colocado em nosso ser como indígenas e não indígenas?</p>
<p style="text-align: justify;">Deixemos que as palavras de Olívio Jekupé que é um pioneiro na literatura indígena fortaleçam em nós uma reflexão profunda de nossas ações e reações perante essa invasão ainda presente nas formas como somos abordados, nas ideias equivocadas de que “estamos nos aproximando da civilização e nos tornando humanos como os que nasceram em um outro lugar na urbanização das grandes cidades”. Que nos fale ao coração a literatura nativa de Olívio Jekupé e nos descolonize da forma que puder.</p>
<p><strong>Márcia Wayna Kambeba</strong></p>
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		<title>Entre os actos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jul 2022 15:19:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<strong>tradución de Elisa Alfaya Pérez</strong>

Na última novela de Virginia Woolf, a acción transcorre un día de verán nunha casa de campo no corazón de Inglaterra. Nos meses previos á Segunda Guerra Mundial, a veciñanza presenta o seu certame anual. A través do diálogo, o humor e as apaixonadas reflexións dos personaxes, Woolf explora como se forma (e se dispersa) unha comunidade ao longo do tempo.
<em>Entre os actos</em> é unha despedida lírica e conmovedora.

<strong> </strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A última novela de Virginia Woolf sitúase nunha casa no corazón do país, na que a veciñanza presenta o seu certame anual.<br />
A través do diálogo, o humor e as apaixonadas reflexións dos personaxes, Virginia Woolf explora como se forma (e se dispersa) unha comunidade ao longo do tempo. A representación de escenas da historia inglesa enlazánse cos dramas persoais dos espectadores que suceden entre os actos. A través da figura da señorita La Trobe, a creadora do certame, Woolf cuestiona os principios imperialistas e, ao mesmo tempo, recrea o esquivo papel da artista.<br />
Entre os actos é tamén unha rechamante evocación da experiencia inglesa nos meses previos á Segunda Guerra Mundial.</p>
<p><em> </em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ciranda da Catarina e outros contos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Jul 2022 17:39:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Catarina e sua mãe são tão parecidas que ninguém pode perceber a diferença de idade que, supõe-se, existe entre elas. Tanto é verdade que as duas vivem em turnos. Catarina vive os dias pares, e sua mãe, os ímpares. A rotina é sempre a mesma, combinada de antemão: café da manhã no Senadinho, almoço em algum restaurante do Centro, onde ainda há garçons em gravatas-borboleta, e as tardes na Biblioteca Municipal. Nesses lugares, não se sabe por que, todas as pessoas conhecem Catarina e sua mãe por outro nome, Paula.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A velocidade do processo criativo de Bruno Vicentini é inversamente proporcional à rapidez de suas narrativas: se estas são mesmo velozes, aquele pode ser comparado a uma persecução, tão tenaz quanto morosa.</p>
<p style="text-align: justify;">O perseguidor-autor converteu consideráveis lapsos temporais em construções exíguas, fez da curiosidade uma obsessiva observação, foi macarthista na caça aos excessos. Com lentidão bovina, por tentativa e erro ao infinito (sem nunca se contentar com menos do que a perfeição formal), pôs à prova seu estudo e suas obsessões temáticas. <em>Ciranda da Catarina e outros contos </em>é o resultado de sua busca pela Literatura — assim, sem adjetivos e com L maiúsculo.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos são os frutos dessa quixotesca empreitada: a verossimilhança, o <em>non sequitur</em> dos diálogos, os absurdos sequenciais do cotidiano; o amálgama do cronista ferino; o cerebral narrador e o filho lírico, que nem ao evocar o pai se despe da elegância e da concisão. Estão aqui o aforista implacável e o contista virtuoso, técnico, de almanaque. Presentes, também, o <em>voyeur</em>, executor de vinganças e de odes a partir do gris cotidiano, e o metaliterato — que, ao pedir benção aos seus mestres, não deixa de fazer o seu próprio milagre.</p>
<p style="text-align: justify;">Persecução, perseguidor, perseguido. Neste objeto ideal, feito de tempo e de buscas, o que ainda falta? Neste jardim, em que se justapõem afeto e memória, onde a paciência do beato para talhar aforismos perfeitos encontra uma endiabrada imaginação, o que pode faltar?</p>
<p style="text-align: justify;">Falta você, caro leitor, cara leitora. Você, que está prestes a entrar nas veredas deste notável jardim, e de conhecer, de um só jorro, todas as faces de sua terrível arte.</p>
<p><strong>Marcos Peres</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Principais achados na iminente morte de um pobre</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/principais-achados-na-iminente-morte-de-um-pobre</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 17:06:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saí do quarto, estava tudo escuro. Chutei alguma coisa. Chutei outra. Fiquei com medo de abaixar e tocar naquilo que estava no caminho. Pisei. Era duro. Fiquei com nojo e medo. Fui até a porta que estava entreaberta. Abri inteira e olhei para dentro da casa. A luz de fora iluminou o chão. Eram ossos. Corri para fora com a coragem do medo. Vanete brigava com o cão, tentando tirar um osso da boca do bicho. Ele já tinha cavado uma pequena cova. Ana e Cleiton apareceram.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Assim nascia uma personagem à sua imagem e semelhança, obcecada, que não ligava para mais nada — inclusive ir à praia — que não fosse cozinhar. Assim se presenciava os primeiros passos desta personagem tão mundana que engole sua vergonha ludibriando o mundo ao dar bem-estar e mise en place a ele. Assim nascia uma personagem carregada de culpa por ações que nem se lembrava de ter cometido, que se coloca diante de si mesma, envergonhada por, ao se ver, ter se tornado precocemente uma adulta. Estava doente, aquilo era crescer”. (Trecho da obra)<br />
O livro <em>Principais achados na iminente morte de um pobre</em>, de Tatiana Ribeiro, nos joga quase num paradoxo: se, por um lado, a autora expõe — com maestria — a falta, a hipocrisia, a dor e o sufoco que uma existência vazia pode causar, por outro, desperta uma emoção ímpar na gente; somos levados com domínio e destreza por esses labirintos por onde a Tatiana exerce a sua escrita. Fiquei fascinada. E muito tocada também. Uma visão clara e crua de vidas passadas em vão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marina Lima</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O porto do descobrimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 15:30:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— Sou filho do casamento de um inglês com uma cambojana, portanto herdei de minha mãe as virtudes que devem iluminar o caminho dos budistas. Por outro lado, nasci e fui criado em uma sociedade ocidental, na qual aprendi a tentar equilibrar os belos preceitos filosóficos com a efetiva prática de sua consolidação. Que a virtude está no meio, todos o sabem, talvez esse seja o conceito espiritual mais disseminado no budismo. Isso significa que devemos seguir as orientações recebidas, mas inserindo-as na amplidão das influências da vida moderna.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A obra <em>O porto do descobrimento,</em> de Eduardo von Sperling, reúne dezessete contos com temas bastante variados. Neles são expostos os traços de solidariedade, humor, persistência, surpresa, carinho, arrojo e as muitas dúvidas que acompanham a trajetória dos seres humanos. Da mesma forma, a magnitude dos contos se estende desde peças curtas, em que estão concentradas as mensagens e as descrições, até obras mais longas, nas quais o enredo e os participantes são delineados com maior profundidade.<br />
Convido o leitor a esta pequena viagem, na qual são encontradas paisagens diversas, estruturas familiares, harmônicas ou não, anseios, alegrias, inquietudes e, notadamente, fartas doses de esperança. O conteúdo do livro pretende não apenas trazer a fruição pela leitura, mas ainda induzir a reflexão sobre as curiosas e, muitas vezes pouco exploradas, facetas da  vida.<br />
As personagens, que considero como sendo a maior riqueza da obra, são compostas por pessoas às vezes muito simples, em outras já dotadas de predicados de cultura, seja pela vida ou pelos livros, mas todas plenas, inquietas, sempre buscando o melhor caminho para se atingir o bem-estar, cuja essência talvez seja a mesma para todos nós.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Transpasse, ó céus</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/transpasse-o-ceus</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 15:04:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Seu Martinho não era tão diferente de dona Álvara quanto às palavras. Reservado e temperamental, mantinha conversas breves com as pessoas. Isso se agravou nos últimos anos. Nesse tempo, eu ouvi apenas uma história sobre o casal, uma a qual ele mesmo gostava de repetir. Na cidade vizinha, mais ou menos quarenta quilômetros de Almirante Castros, ele batia o ponto na fábrica onde trabalhava pra mais tarde tomar o ônibus de volta pra casa. Assim como ele, dona Álvara era jovem e estava visitando o pai que morava (e também trabalhava) lá. O cheiro de soda cáustica que vinha do morro, bem do topo da cidade — onde a fábrica foi construída —, impregnou nas casas, ruas, pessoas, e o odor a incomodava muito, era o motivo de suas visitas serem breves.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Duas histórias estão ligadas entre Almirante Castros, bairro de interior, e a capital de São Paulo. De um lado está dona Álvara, recém-viúva de Martinho e com uma tranquilidade irritante. No outro, Helinho, seu enteado, um sujeito que anda pelas ruas da metrópole, muitas vezes bêbado.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambos já não possuem mais nenhum laço familiar, ou quase familiar, a não ser eles próprios, o que desperta a curiosidade entre um surgir no caminho do outro. Mas como será que os destinos de Álvara e Hélio Braga se cruzarão sendo que não se encontram há mais de sete anos? Hélio mal fora no enterro de seu próprio pai…</p>
<p style="text-align: justify;">E no meio de tudo isso, claro, muita fofoca. Dona Elsa com sua teimosia e língua afiada e sua sobrinha, dona Inácia, tio Zé, Zilu, benzedeira e conselheira, e tantos outros vizinhos que não poupam medir as palavras e opinar sobre a vida da viúva e do filho de Martinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses personagens cômicos parecem fazer parte da memória de pessoas conhecidas, e de situações das quais se não vivenciamos, no entanto, pelo menos, já ouvimos falar durante a nossa vida. Ora estamos como os que fofocam, outrora com os holofotes sobre nós.</p>
<p style="text-align: justify;">No bairro da cidade passa também o carro de ovos, o homem vendendo produtos de limpeza, o carnaval de rua, a procissão, e no entorno dela toda, a expansão de prédios e novos moradores. Enquanto na capital, há avenidas, vida boêmia, alagamento nos bueiros, moradores de rua sob o Minhocão e outros bairros mais chiques nas proximidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Por meio das narrações alternadas, a escrita do autor nos atenta para uma maneira amena de questionarmos sobre a brevidade da vida em figuras de pessoas que já viveram bastante. Há muitos ecos e orelhas em Almirante Castros e em São Paulo, mas poucas vozes para dizer uma verdade limpa e ouvidos para ouvir uma mentira suja. Um tanto quanto parecido com a realidade que nos assola.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Transpasse, ó, céus</em>, de Gustavo Araújo, além de ser um romance que aborda estigmas sociais atuais com diálogos de fácil entendimento, é uma súplica diante do absurdo e do desconhecido. Também é uma leitura divertida na qual se cria expectativa sobre a continuação de um acontecimento num capítulo mais à frente, fazendo com que várias situações circulem e movimentem-se dentro dos dois cenários.</p>
<p style="text-align: justify;">São tantas versões nas histórias que o povo conta. Cabe apenas ao leitor decidir qual conclusão tirar de cada desfecho.</p>
<p><strong>Ingrid Dearo</strong></p>
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		<title>Antes de cair o pano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 22:17:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em outra época fui escritor. Contava histórias e me contava, embora não encontrasse muita gente que quisesse me ler. Isso agora não importa, já não escrevo uma linha sequer. Minha vida não deve durar muito mais, mas eu seria capaz de dar o tempo que me resta para saborear um último prato de sopa quente de ervilha, feita por mãos cheias de afeto e de carinho, antes que minha vida terminasse de se cumprir. Antes de, definitivamente, cair o pano.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um dado momento do livro, Mário Baggio nos traz o diário de um soldado em campo de batalha. Entramos nesse campo com ele, entendemos o mirar e estar sob a mira, entendemos o tiro. Mas o tiro metafórico não dói, não sangra e não mata.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida é um campo de batalha onde nós, artistas, estamos sempre mirando, de olho em alguma ou várias coisas, e somos igualmente alvos. Nos expomos de peito aberto do lado de lá da trincheira, esperando o impacto. Ou provocando o impacto.</p>
<p style="text-align: justify;">O tiro, enquanto analogia, é apenas um estampido; o que fica é o que esse estampido muito rápido deixa de herança. A prosa de Baggio é o estampido. A herança vai da sensibilidade de cada um.<br />
Certa feita, resenhei um dos livros de Baggio para o blog Bibliofilia Cotidiana. Não é uma resenha recente, mas me recordo claramente de aponta algo muito peculiar na obra dele: Baggio não conta histórias, ele conta fragmentos delas. É como se ele escrevesse narrativas mais longas e pinçasse de dentro delas aquilo que ele quer expor, cabendo a nós interagir com suas histórias.<br />
É um processo tão fascinante quanto perigoso — leitores são altamente perigosos quando livres para completar as lacunas! Para além da brincadeira, Baggio realmente não teme que o leitor amplie sua obra e chegue às suas próprias conclusões. O autor cria pequenas histórias, o leitor lê romances inteiros de uma ou duas páginas.<br />
Esta é a grande assinatura de Mário Baggio: histórias curtas que convidam o leitor a participar do processo criativo. Mas não só isso, ele é versátil, explorando uma diversidade imensa de temas, situações, personagens&#8230; como os soldados citados no início, a menina feia que quer ser a mais inteligente, o garoto que vai encontrar o pai e tantos outros.<br />
A identificação é inevitável. E interessante. E, por vezes, aterrorizante. Autores são muito mais eficientes como espelhos da alma alheia do que os olhos. Uma visão de raio-X que desnuda realidades das mais avassaladoras às mais banais. Pequenas realidades, ou fragmentos de realidades. Como um mosaico de almas que se constrói página a página. Siga seu rumo. Em quais das páginas você precisou se encarar de frente?</p>
<p><strong>Maya Falks</strong></p>
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		<title>A fábrica dos corações vermelhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jun 2022 17:24:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na segunda-feira, quando as luzes fossem acesas, vinte corações dariam vida àquele lugar. Na linha 1, trabalhariam Zé e o próprio Jonas, responsáveis por preparar as misturas de bolo e operar o envase; junto a eles, Lúcia, embalando as caixas de papelão na saída da esteira, e Mosca, movimentando os paletes concluídos até o estoque. A linha 2, de produção manual, ficaria a cargo de Marcão e de Marquinho, e a linha de panificação, onde eram assados os bolos, sob a responsabilidade de Silva e John, que eventualmente também operavam o shrink. A sala de pesagem seria conduzida por Mari, sozinha, e, supervisionando a todos eles, estaria o encarregado. Somavam-se ao grupo Galileu, na portaria, Cabral, no recebimento e expedição, Valentina, na faxina, e Juscelino, na manutenção. Cinco pessoas ocupariam ainda o escritório, trabalhando nos setores administrativos, além de Maxi, o diretor geral.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Uma fábrica de bo</em>los onde acontecem coisas fantásticas é o cenário deste romance, no qual Jonas vivencia situações dramáticas e engraçadas. O enredo se passa entre os seus 20 e 30 anos, refletindo a pressão social por tudo que se espera conquistar nesta fase da vida. Qualquer alusão aos ciclos do desenvolvimento dos micro-organismos não é mero acaso: todos os seres vivos são submetidos a situações adversas em suas jornadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Frente a mudanças, no primeiro momento é necessário mergulhar em uma “fase de latência (LAG)”, cujas palavras de ordem são resiliência e adaptação para entender o ambiente, as relações que despontam e as formas de transformação, assim como traçar estratégias necessárias para a sobrevivência. Passado este estágio, surge um sentimento de fortalecimento e de segurança; é o momento de mostrar todo o potencial, de aproveitar os aprendizados e energia acumulada, advindos da prévia incubação, para finalmente despontar, brilhar e aproveitar a “fase exponencial (LOG)”.Contudo, seria ingenuidade acreditar que este processo seja eterno e tranquilo. Constantes desafios, competições, frustrações e situações que fogem do controle, inevitavelmente, nos levarão a uma “fase estacionária”, onde a produção e a exaustão ocorrem sempre na mesma medida até atingirem um ponto crítico. Quando finalmente reconhecemos que a “fase de declínio” entra em cena como o último ciclo possível, passa a ser necessário nos resignar e torcer pela chance de um reinício.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista microbiológico, os desafios das bactérias parecem ser exatamente como os do protagonista. O desenrolar de seu relacionamento amoroso com a microbiologista Darlene, sua ideologia, sua trajetória no “chão de fábrica”, as imposições econômicas e sociais do momento: tudo dá margem para acreditarmos que ele também está predestinado a cumprir as mesmas etapas.</p>
<p style="text-align: justify;">Este universo introspectivo e mágico, moldado com referências que vão de Mariana Ianelli a Gabriel García Márquez, é diversão garantida para quem adora explorar os desígnios da vida. E traz ainda uma boa pitada de ironia sobre o mundo real, onde o rumo da oferta de alimentos é cada vez mais regido pela produção industrial de grande escala, pelos padrões de qualidade internacional, globalização da distribuição e  recorrente dinâmica de fusões e incorporações de empresas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Deise Baggio Ribeiro </strong></p>
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		<title>Verdes quase cinzas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jun 2022 15:26:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Cinco meninas reuniram-se ao redor de Mariana e lhe mostraram uma foto no celular, perguntando quais eram as cores do vestido apresentado. Azul e preto, oras. Fez-se um burburinho. Ai, profe, você também vê torto? Riram, mas ela não entendeu. Outra menina disse Claro que não, a prô vê igualzinho eu, porque somos normais. Empatamos! Não, o voto da Prô vale mais. Não vale! E seguiu-se o debate pela sala ao redor das carteiras próximas da porta quando o grupinho deixou Mariana para trás. Das cinco garotas, três delas afirmavam ser branco e dourado o vestido, enquanto duas confirmavam azul e preto. A resposta da professora empatava a situação.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Verdes quase cinzas</em> nos leva a (re)pensar sobre como enxergamos o mundo; não sobre os pontos de vista de cada um, mas sobre como vemos e recebemos as cores de tudo. Se o senso comum nos leva a crer que todos os olhos veem igualmente os objetos — as pessoas, o céu e a terra —, a leitura desta obra nos provoca a refletir sobre como as realidades concretizadas, física e humanamente, nem sempre condizem com as esperadas por nossas expectativas. Ficamos, quase sempre, nos quases.</p>
<p style="text-align: justify;">Mariana, a protagonista da narrativa, é uma mulher cujos desassossegos são “seus problemas com a cor azul” e seu desejo de “experimentar como seria tocar intimamente outro homem”. A cada capítulo, por meio da focalização onisciente, o(a) leitor(a) acompanha — de forma muito próxima — a história da vida de Mariana: o ingresso na Licenciatura em Física, a intensidade de sua vivência como uspiana, a sua compreensão especial sobre a visão humana, a relação de amor com Cassiano, os flertes com amigos e o início da carreira como professora de Física na rede pública do Estado. Mas essa certa aproximação com a vida da personagem é colocada em hesitação pelo próprio narrador: “Há anos que as lembranças da vida de Mariana atuam como fantasmas no meu cotidiano, e sinto que é preciso contar essa história. Contudo, contar a história de alguém não é nada fácil. O ponto de vista do narrador é apenas um ponto de vista. A coisa funciona assim, sempre funcionou e deve funcionar aqui também”.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar dessas (e outras) incertezas levantadas sobre o ato de narrar, o fato é que, com uma certa intimidade, convivemos com as fragilidades e as inquietações de Mariana sobre sua visão das cores e da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">“O mundo estava se adaptando novamente, a evolução humana prosseguiu, e ela estava ali, no meio de tudo. Que bosta!, pensou.”</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Verdes quase cinzas</em> propõe uma reflexão sobre a relatividade de percepções da natureza física, das vontades e das memórias humanas e, se por um lado aponta para a instabilidade do olhar humano, por outro oferece uma abertura para a variedade de percepções no modo de ver e de viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Com este romance de estreia, Renato Pugliese amplia seus trabalhos no cenário das artes, agora como prosador, mas não se distanciando muito de seu mundo profissional: a Física.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vanessa Regina</strong></p>
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		<title>Degredados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jun 2022 17:41:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p class="Body" style="text-align: justify;"><span lang="PT">Detiveram-se diante da cena sinistra. O esqueleto de um preso antigo ainda se encontrava atado em uma das solitárias. Os braços se abriam lateralmente, o corpo suspenso por correntes se apresentava como uma cruz flutuante no vazio. Aos seus pés, espalhavam-se uma infinidade de estátuas de santos, crucifixos, rosários, restos de velas. O noviço examinou a túnica grossa que o envolvia. <em>Um monge?</em> Abaixo do crânio, o pano pendurado, a mordaça. Daniel colocou as mãos através das vestes despedaçadas e encontrou o relógio no bolso. Lembrou-se de imediato do paciente no leprosário. <em>O verdadeiro Pastor Ezequiel, só pode ser ele! Penitenciado à clausura em uma posição excruciante.</em> Ambos sentiram a queda brusca na temperatura.</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Num dos cantos do quarto de Ester no segundo andar, há um espelho quebrado e o</em><em> genuflex</em><em>ório calejando perpetuamente seus joelhos. Os sussurros rápidos e repetitivos sustentam a prece que os dedos traduzem em oraçõ</em><em>es táteis pelas contas do extenso rosá</em><em>rio. Ela flutua no louvor mas atenta ao respirar da moradia inteira. Os ouvidos sã</em><em>o hábeis em detectar os gemidos arfantes do aposento vizinho, onde um corpo em transição se revira sob o grosso cobertor. Há um movimento </em><em>cadenciado, uma lamúria quente. Ele se p</em><em>rotege todo sob a manta, esconde-se da casa. É necessário um outro mundo, o calor e a falta de ar para a intensificação do êxtase</em><em> que se aproxima. Já </em><em>no último pavimento, um miado lascivo se repete</em><em> à medida que as unhas grandes de um ancião se insinuam na pelagem do animal. Ele murmura consigo mesmo lembranças desconexas, a cabeça tremulante. O gato ronrona, o velho rosna”.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Num tempo ainda à luz dos lampiões e à sombra da religiosidade, uma família diminuta vive isolada em uma casa na floresta. O garoto Macabeu é retirado da escola para cuidar do avô doente, enquanto sua mãe trabalha no vilarejo próximo. Os comportamentos estranhos dos adultos se acentuam com a visita de membros da igreja local. A ameaça de revelação de um segredo levará a uma espiral de tensão que descortinará o passado obscuro e marcará profundamente o futuro dos envolvidos.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Desembrulho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jun 2022 13:21:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Demorei um tempo na sala, prisioneiro da luz na televisão. Vazava muito som misturado. Tentei fixar voz na confusão, em vão. Migrei de cor em cor, buscando solidez. Quebrei até o caber no menor dos pixels. Fiz intenção. Forcei um tanto acima do tom, provocando a saída do ar da programação. Preto e branco, ondulando cinza. Escapei pela poeira elétrica grudada na tela a chiar. Ele tropeçou no ronco, mas não despertou. Já perto do chão, peguei carona na pouca luz que havia, almejando ingressar num pedaço qualquer de sonho.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Grandes livros e histórias sempre partem de grandes questões ou dúvidas como forma de provocação. Normalmente as respostas nunca são alcançadas, e o grande “barato” é esse: a busca por elas. <em>Desembrulho</em>, livro de contos de Diego Soares não é diferente.  Se pudesse ser definido por meio de uma questão seria: “Quem sou eu? qual minha identidade (aqui você também se insere, leitor) a partir de conexões com o outro? Quem eu sou a partir do meio em que vivo e por meio do Deus, com o qual me relaciono? Se fosse ser marcado por uma frase chave seria identidade impermanente. E é essa impermanência que dá o tom dos vinte e um contos fragmentados em três seções ou provocações: <em>casca</em>, <em>miolo</em> e <em>semente</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a melhor forma de apresentar <em>Desembrulho</em> seja associar a Anicca. Um conceito budista, que é considerado uma das quatro nobres verdades. Anicca define-se por impermanência. Qualquer ideia de existência, seja do eu, seja de um objeto ou de uma experiência é impermanente. Ela não perdura. Tudo se esvai.</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira seção, <em>casca</em> o conto “Desafixado” chama a atenção por não ter um personagem concreto. A figura perpassa por pessoas, ambientes, tempos e ao mesmo tempo se deixa perpassar por eles. Muda destino, muda identidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outras formas de provocações estão presentes no conto “O Ritual do Perdão” por ser justamente o oposto de “Desafixado”. Aqui parte-se de uma personagem concreta que se desconstrói a partir do outro. Sua vida e identidade como conhecia é interrompida pela vida como ela é. Novamente a impermanência. O imprevisível nos molda, nos descostura e costura novamente. E felizmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda nesse viés, mas de forma mais leve, o fragmento <em>miolo</em>, trata da identidade a partir das relações, sejam elas familiares ou meramente sociais, e os contos presentes na seção <em>semente</em> nos convocam a todo momento a buscar por tradições religiosas familiares que fazem nos tornar mais próximos de nossas raízes históricas. Destaca-se o singelo e sensível “Pardal e Pedra”.</p>
<p style="text-align: justify;">Vanessa Santos,</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Vidro à prova de pobre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 May 2022 13:57:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">não sou bom em leitura, mas sou bom de conta. falei isso pro meu menino que estuda, é melhor ser bom de matemática, quem sabe fazer conta vai usar essa sabedoria, esse conhecimento pro resto da sua vida. essa meninada de hoje conta nos dedo, no celular, na calculadora. quando vou fazer um rejunte, já sei do tanto que precisa de cada coisa, isso é matemática, quando faço uma coluna, sei o tanto de ferro, o tanto de pedra, areia e cimento. a senhora mesma, é boa de conta?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Viajou a distintos lugares e trouxe muitas coisas, das quais a maioria não deveria saber. Precisou resolver consigo toda mazela expatriada das memórias dos subúrbios, das favelas, das vielas…; mas seu estado já era outro…<br />
Considerou haver indícios de tristeza esfacelando com a mandíbula a boca seca acostumada. Muito discreto sussurrou, gritou baixinho:<br />
“queria morrer agorinha… preciso disso, tenho esse direito…”.<br />
Escreveu um livro… maravilhoso.<br />
Este é o segundo.<br />
Leia-se, pergunte: que circunstâncias deram fôlego à linguagem inusitada, esquecida, por vezes escondida do autor?<br />
Poderia dizer que aqui há apenas um que observa os impactos da sociedade pós-moderna pseudoglobalizada com suas conveniências e armadilhas, que de alguma maneira destina-se a retratar as incoerências carcomidas que a realidade pequeno-burguesa produziu ao longo das últimas décadas.<br />
Seria injusto de minha parte se assim fizesse.<br />
aramyz vai além, seu estilo expressivo adota uma espécie de distorção figurativa com o intuito de conflitar a confusão interna de suas personagens com a realidade externa de suas inconsistências.<br />
Percebe-se aí uma voz que marca, precisamente, a constituição de um sujeito impreciso, como alguns farão crer, imprevisível.<br />
Aproveite, aceite a escrita matreira viva assassinada de aramyz.<br />
É preciso um momento muito especial para poder trazer a nossos olhos a arte de escrever com tanta precisão que os leitores comecem a duvidar de sua própria visão.</p>
<p>aramyz é, sem dúvida, um desses grandes autores extremamente talentosos, cujas obras dificilmente passarão despercebidas, cujo desenho é, principalmente, retratar a figura humana. Entretanto aramyz explora infinitamente a luz e as sombras que, de algum modo, insistem imprudentes em acomodar o molde à superfície.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Flávio Moura</strong></p>
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		<title>Chuva oblíqua</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 May 2022 12:09:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Acontece que Baltazar foi, de fato, um pioneiro. Muitos anos atrás, junto com uma ex-companheira, Dália, fundou e assumiu o status de mentor intelectual de um, talvez o primeiro, grupo de afinidade. Eram quatro, à época: Baltazar, que trabalhava como chefe clínico de um hospital psiquiátrico no interior, Dália, então enfermeira-chefe, Tsimikas, uma jogadora grega de polo, moradora perpétua do Hotel Graça Branca, e Sebastião de Molhas y Gravas, jovem filho de um proeminente barão do café, cabo do exército e provável cônsul, se tivesse concluído os estudos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um mundo onde tudo parece vivo e nada parece impossível, os espíritos padecem de anomia sentimental, suas vidas entrelaçadas e atravessadas por uma energia e beleza para as quais não encontrarão finalidade. Aqui nada é sagrado — o estado, o amor ou a gravidade — e menos ainda profano. Debaixo da <em>Chuva oblíqua</em>, os seres humanos e, por fim, a própria realidade se cansam e cedem perante o imaginário, a consciência e os símbolos. Aqui é uma terra saturada de melancolia e afetos, fértil para quem aspira à morte, onde a cumplicidade habita a mentira e a afeição move o carrasco. Agora que o passado esmaeceu e o futuro é impossível (ainda que se confundam), melhor é esquecer os dois. Aqui a virtude é ter o que responder ao presente.</p>
<p><strong>Peppe Souza</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sândalo vermelho e os gatunos olhos dela</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 May 2022 10:27:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após um desmaio e acontecimentos misteriosos em torno da vida de Léia, uma viagem de carro se delineia pelo leste europeu, onde essa personagem brasileira perdida num território gelado relembra momentos de sua formação no Rio de Janeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambientado na Polônia contemporânea, o romance Sândalo vermelho e os gatunos olhos dela nos apresenta o mundo inconsciente de uma personagem que parece ter esquecido até então suas origens e motivações.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Acontece de uma pequena cobra se alinhar na coluna vertebral daqueles que aceitam”. Assim começa este belo e instigante romance de Camilla Loreta. Um início que já aponta um caminho, é um livro-travessia, e transita entre diferentes realidades, entre a vigilia e o onírico, entre o corpo e o espírito, passado e presente, matéria e reflexo. A protagonista, Léia tem um pai. Senta com ele à mesa da cozinha, come pão feito em casa e se pergunta se ele sente falta da mulher que morreu, como se tentasse resgatar nesse pai alguma lembrança intransponível. Ambos moram em Lublin, na Polônia. No passado dela no Brasil. A mulher que morreu é a mãe de Léia. O pai é tradutor. E há James, o astronauta que faz anotações num caderno vermelho. Um astronauta pode viajar para outros planetas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é um acontecimento muito específico que a leva Léia (a personagem que carrega em seu nome o imperativo da leitura) a essa travessia: uma queda do corpo, a visão enevoada, os pés e mãos quentes. Uma ausência que estará ligada à descoberta de duas mulheres, Papusza, uma cigana polonesa e Sydonia, última princesa da Pomerânia que, acusada de bruxaria morreu decapitada e queimada. Uma habita marte outra a lua. Personagens pelas quais ela se interessava desde os tempos da faculdade, e que numa coincidência (não existem coincidências), aparecem nas anotaçoes do astronauta. E de certa forma, é a partir desse encontro que Léia empreende uma viagem para Helsinki, onde o seu pai está a trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas uma viagem pode nos levar por lugares muito antigos. E assim, Camilla Loreta nos leva pela mão por um tempo ancestral, consciência alterada do corpo, linguagem lírica dos sinais. É preciso saber ler, junto com os personagens, o que a vida desponta. E chegando ao final, saímos com a certeza de que a travessia é ao mesmo tempo individual e coletiva, e se repete no tempo e no espaço. E um dia, uma pequena cobra se alinha na coluna vertebral.</p>
<p><strong>Carola Saavedra</strong></p>
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		<title>Transitórios (ou Cadernos de viagem)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 May 2022 11:49:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O corpo é condição. O corpo sobre duas pernas. Parece que se move, mas permanece no lugar.
A carne das figuras é pouca e, além de pouca, convulsa, moldada por mãos que buscam e tornam a buscar uma perfeição, mas a perfeição do mínimo, do olhar e de um rosto. O rosto, uma impossibilidade: oblongo e arredondado. Uma impossibilidade que existe. Por isso desenha, molda, destrói, torna a recomeçar.
Janeiro de 1945, centenas de milhares de fatos, oitocentos mil vestidos, sete mil quilos de cabelo. E espectros, alguns mal se equilibrando nas pernas, quase nus, crânios pelados, pendendo dos pescoços. O peso de sobreviver, um fardo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Há alguns anos, quando conheci Alexandra Lopes Da Cunha na sua cidade de Porto Alegre, percebi, em nossa primeira conversa, algo muito evidente, mas que eu, carioca adotivo recém-hipnotizado pela cidade maravilhosa, não compreendi então: que a matriz literária brasileira é muito rica e não se resume às superpotentes centrífugas culturais do Rio e de São Paulo, tão centradas nelas mesmas, tampouco às riquíssimas tradições caipiras, sertanejas, afrodescendentes e indígenas do interior, da Bahia e do Nordeste e da imensa bacia amazônica, mas que também incluía a herança centro europeia, germánica, italiana e portuguesa de segunda geração, tão palpável no sul do Brasil que ela tão bem conhece, além da relação íntima, geográfica, intelectual com a riquíssima literatura em espanhol dos países do cone Sul.<br />
O que não sabia então, e que fui entendendo e admirando ao longo dos anos, é que seu próprio trabalho é um magnífico exemplo dessa diversidade, dessa abertura e dessa vitalidade. Os soberbos relatos transitórios deste livro (que não por acaso tem o subtítulo de Cadernos de viagens) são uma nova prova. Há neles ecos do famoso mal-estar dos centro-europeus e de Kafka (e também da sua ternura e infinita compreensão do humano, esquecidas com frequência), está a versatilidade e o puro prazer narrativo dos grandes contistas uruguaios e argentinos, de Hebe Uhart a Felisberto ou Cortázar.<br />
E, caso infrequente, seu trabalho com a língua portuguesa continua uma tarefa empreendida em livros anteriores, que consiste em refletir e reconstruir vínculos culturais e afetivos entre Portugal e Brasil, como é o caso de duas obras ainda inéditas: sua novelização da figura de Florbela Espanca (Os ossos de Florbela) e seu relato de um amor luso-brasileiro no romance Entre nós, oceano.<br />
Assim, há nestes contos menções diretas e ecos das fábulas condensadas e meditativas de Pessoa; há uma lúcida opção pelo romantismo de Castelo Branco; há a irrenunciável e higiênica ironia, além da clareza incisiva que nos remetem a Eça e a Sá-Carneiro e a grande Agustina.<br />
Alexandra vive agora, precisamente, neste norte de Portugal, que foi o território arquetípico de Bessa-Luís, cuja paisagem e o clima (o real e o moral) envolvem-na diariamente. Parece-me possível já senti-los presentes nas narrativas deste livro. Cariocas e paulistas se apressam (demasiado, creio) em afirmar que Portugal está muito longe e se vê diminuto de lá. Pelos olhos e pela voz de Alexandra, no entanto, Portugal recobra novo relevo e complexidade. A autora coloca-se como interlocutora e possibilita um diálogo frutífero e prazeroso entre literaturas e modos de entender, de construir e de renovar uma mesma língua.<br />
Há um adjetivo que agora (atenção, isso já ocorreu em princípios dos anos trinta) começa a soar suspeito e condenável, apesar de resumir e condensar muitas das virtudes da melhor literatura: cosmopolita. Estes contos e esta voz o são no seu melhor sentido: aquele que entende que a própria identidade somente pode nascer e construir-se a partir da atenção, da compreensão e do interesse pelas infinitas identidades presentes neste mundo, vasto mundo, a bordo do qual viajamos.</p>
<p><strong>Javier Montes</strong></p>
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		<title>O negativo do rastro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 May 2022 16:58:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Minha mãe já não enxergava os filmes como antigamente. Imagino que a repetição tenha feito do registro semente originária, objeto externo internalizado no corpo cujas córneas queimavam e cegavam. “Aumenta um pouco”, pedia a mãe, enquanto bordava algo. A cabeça virada fazia dos ouvidos olhos, que auxiliavam na construção da imagem habitada, trazida do oceano profundo para o raso do consciente. Algo me mantinha distante do filme, da tela, de minha mãe e minha irmã. O pingo na cozinha me incomodava, sempre encontrava algo que me incomodasse. Dessa vez o pingo, a fumaça entre as barras de um portão, a vó e a culpa.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entre a memorialística e o ensaio, <em>O negativo do rastro</em> é um exercício de investigação do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Filipe Fernandes Bonita é um filósofo. Sua filosofia está tanto na reflexão como nas referências de que lança mão ao examinar o real de forma sensível e tatear os estímulos da natureza e da cultura na vida de um indivíduo. Aqui, cada objeto que povoa nossa infância vira um totem a nos perseguir eternamente, e sobre eles edificamos nossas estruturas. Seja um quadro na parede da casa — para o qual olhamos obsessivamente durante toda uma vida — ou a cena banal de um vizinho sacudindo o tapete pela janela, criamos mundos a partir desses estímulos. Podemos fazê-lo de maneira automática, de modo a evitar a dor de estar vivo, ou como um eterno explorador, atento e exposto aos perigos. Ao adulto é impossível escapar dessas escolhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>O negativo do rastro</em> a mitologia tem papel de decifrador da experiência, verdadeira chave-mestra: heróis e deuses que vieram antes nos apontam a trilha e nos mostram como estamos destinados a repetir suas tragédias. Tudo isso feito com a observação cuidadosa nas metáforas, um trabalho de linguagem precioso, ciente de que a palavra é a coisa em si, como o mármore para o escultor. Uma experiência memorialística sobre a infância de todos os pertencentes ao gênero humano.</p>
<p><strong>Lucas de Sena Lima </strong></p>
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		<title>Artefato cognitivo nº 7√log5ie</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 May 2022 20:30:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Cortaram caminho pela plantação de milho vermelho e voltaram ao chalé, foi o que me contou meu pai, após me explicar como se encantou pela matemática logo cedo, ao se deparar com a identidade de Euler: e iπ + 1= 0. O enigma daquela combinação perfeita de elementos era fascinante. Seria resultado de nossas próprias operações humanas que criaram aquela ciência exata, ou algo transcendente operava por trás das leis da natureza que insistíamos em desvendar? Minha mãe, por sua vez, falava dezoito idiomas, de cinco troncos linguísticos diferentes, e conseguia visualizar mentalmente poliedros de centenas de faces. Desenvolvera, inclusive, alguns teoremas ousados a respeito do rombicosidodecaedro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Contemplado com o Prêmio Biblioteca Digital 2021, o romance <em>Artefato Cognitivo nº 7√log5ie</em> apresenta uma narrativa que combina a odisseia de uma professora em busca de um castelo com fundamentos dos estudos literários e da crítica cultural. A obra é composta por meio de múltiplos dispositivos diegéticos, jogos linguísticos, paradoxos espaçotemporais e registros que orbitam interpretações simultâneas de ordem realista, subjetiva, onírica e delirante. <span style="color: #ffffff;">Marcio Aquiles</span></p>
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		<title>Arquetiprotótipos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Apr 2022 12:07:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Porra, Gil, vou te falar um negócio. Eu nunca vi ninguém falar a real desse jeito assim, não”, foi o que o Dundum disse para mim. E nessa hora senti que a gente estava fechado, que eu não ia precisar matar ninguém, que não ia precisar abaixar a cabeça, e que não ia precisar morrer.
Só que as coisas iam precisar mudar no Uru mesmo assim. Isso eu já sabia, que não adiantava só transformar o Dundum em aliado. Porque os caras grandes na milícia — principalmente os do mercado-contravenção, que são tudo polícia — não deixam nada barato.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um padre que reconta o mito do Jardim do Éden a partir de uma visão paranoica da história; um traficante numa cruzada por poder em meio a uma realidade dominada por milicianos; a escalada de uma guerra entre facções; o episódio lendário do Rapto das Sabinas recriado na terra sem lei do dinheiro do agronegócio; o relato de um repórter de política e o fim do jornalismo; o mito dos Argonautas rodando “como uma presença imortal numa cidade morta”. Em seis textos de alta voltagem literária, partes de um romance a ser montado e desmontado, monólogos numa peça teatral do fim do mundo, Arquetiprotótipos coloca em cena as forças nefastas de um país. Um livro cruel, distópico, alegórico, inventivo, quase surrealista, paródia sombria e atual da mais triste nação.</p>
<p><strong>Emilio Fraia</strong></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Alexandre Boide</span></p>
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		<title>Lusco-fusco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Apr 2022 21:12:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— “Tu não te moves de ti.”
Sorrimos um para o outro, não mais ombro a ombro,
mas frente a frente. Você correu para o mar. Eu ainda fiquei uns instantes olhando a cena. Vi seus passos sendo
esculpidos na areia, ouvi uma cigarra esgoelando — ato contínuo, lembrei do sorriso tímido do seu Antônio, o guardinha —, senti uma leve brisa que vinha da praia aberta, gigante, tranquila.
Corri também, então.
Com alegria.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um fato literário é dos acontecimentos mais bonitos que podem ocorrer no universo da escrita. E você agora pode usufruir de um autêntico fato literário com o livro de André de Oliveira na prosa de ficção. Ele leva para as páginas desta coletânea de contos, <em>Lusco-fusco</em>, o talento e a inteligência que o consagraram como um dos jornalistas mais sensíveis de sua geração, revelando uma inegável capacidade de construir histórias comoventes nas quais os conflitos, assim como os afetos humanos, se impõem ante o sentimento (indiferente) do mundo. As sete histórias deste volume são como rios que, embora tenham margens próximas, apresentam águas profundas e correntezas poderosas, convidando à imersão leitora. A dicção é de um autor maduro, cuja arte, inteiramente em alto relevo, encontra culminância em “Temporão” e “Folhas secas”, tanto quanto singularidade em “Seres alóctones” e “Tardança”. Aliás, as palavras-palavras, matérias-primas cimentadas pelo silêncio, operam nestas criações breves não só como disparadores das tramas, mas também na qualidade de signos definidores das interações familiares, dos encontros fraternos e das aprendizagens que conjugam o sublime em nós. A literatura costuma se espraiar em situações solares, nas quais a luz dos encantos domina os enredos, ou no polo oposto, em tramas noturnas, fincadas em camadas espessas de espanto. André de Oliveira nos surpreende com narrativas cuja atmosfera se define no horário em que a tarde morre e a noite, sob a sua pele, emerge, misteriosa. Eis, portanto, um fato literário que devemos celebrar: o nascimento de um legítimo ficcionista — André de Oliveira e as admiráveis histórias deste seu <em>Lusco-fusco.</em> Desfrute-as, descobrindo esta voz autoral e as nuanças inéditas que ela traz para o claro-escuro da produção contística brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>João Anzanello Carrascoza</strong></p>
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		<title>Horizonte de espantos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Mar 2022 08:44:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Mal rompe a manhã, Dasdores chega em casa do serão, depois de comer o pão que o diabo amassou naqueles teares da Manufatora. A noite inteira foi um suplício: mato ou não mato aquele desgraçado? A vida besta demais para um desagravo assim tão derradeiro. Cachorro!!! Quando um não quer, dois não brigam, dizia seu velho pai. Nem filho arranjou, era nova, podia arrumar outro homem, ouviu do Abdias contramestre naquela noite. Esquentar a cabeça com o Nerivaldo? Não merece que eu suje minhas mãos. Aquele traste já nasceu torto, pensou. Decidida, entrou de manso-mansinho, apagou a luz da sala, ele dormia ainda com o cheiro da cachaça da noite anterior, pegou as malas e picou a mula. Quando deu meio-dia, ele pulou da cama esfregando os olhos, a ressaca tinindo em seu fígado, a boca amargando e um vazio enorme dentro de casa. Dasdores estava bem longe.

&#160;

<strong> </strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O poeta, prosador e crítico brasileiro Ronaldo Cagiano lança novo livro a partir de sua atual morada lusitana. Distinguido com um prêmio Jabuti por seu livro de contos <em>Eles não moram mais aqui</em> (2016), Cagiano nos apresenta, neste Horizonte de espantos, um desaguadouro afetivo dos temas capitais que inervam sua escrita.<br />
Tal como Alberto Caeiro, que exaltava “o rio que corre pela minha aldeia”, Cagiano também não se distancia muito dos rios que cortam sua cidade natal, Cataguases, Minas Gerais: o Pomba e o ribeirão Meia Pataca, que flagelam os ribeirinhos em época de cheias. Não por acaso, o poeta já publicou <em>Os rios de mim</em> (editora Urutau, 2018). Assim é que este inventário de espantos, por mais kafkiano ou algo fantástico em certas narrativas, revisita inelutavelmente os tempos e viventes das margens do rio Pomba. Pois é o anjo (ou o demônio?) da memória que preside a estes relatos, como em “Estrangeiro”, em que o protagonista percorre sua antiga cidade interiorana, revendo fantasmas pontuais e sempre assombrado com a permanência desse tempo staccato, coagulado. Esse fluxo da memória beira o delírio em “Acossados”, enquanto a vítima de um sequestro-relâmpago, sob a mira de armas, é avassalada por rajadas de lembranças extemporâneas.<br />
O espanto é recorrente até mesmo numa crônica aparentemente lírica da infância, “Vozes”, que será marcada pelo espanto da finitude e da dissolução final. E o conflito da vida republicana brasileira se atualiza em “Vórtice”, quando velhos companheiros de luta armada, nos Anos de Chumbo, se reencontram em meio às manifestações políticas de junho de 2013. Segundo Jorge Luis Borges, todo autor teria no máximo uns quatro ou cinco temas eletivos, aos quais retornaria, assim como Uróboro/Ourobóros, a serpente mítica, devora a própria cauda. Nessa viagem circular, à beira do rio Pomba ou do Tejo, o escritor Ronaldo Cagiano segue acompanhado por seu cortejo de fantasmas, históricos e existenciais, rumo ao perene horizonte de espantos.</p>
<p><strong>Luiz Roberto Guedes</strong></p>
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		<title>Corpos luminosos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Mar 2022 09:39:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A manhã de primavera inundada de sol era o convite à quietude. Adônis faz questão da boa convivência, acena para um e outro com o melhor semblante. Embora tenha uma certeza: se uma casa é considerada mal-assombrada, os moradores se transformam em fantasmas aos olhos de quem a olha. Não, nunca quis assombrar ou ser importunado. Bastava ter que suportar as corujas-mecânicas de dentes afiados e ameaçadores que vagam pelos telhados. Malabaristas da casa ancestral. Vigias impiedosas e rotineiras.

&#160;

<strong> </strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A prosa de Eltânia André é densa, urdida para apanhar o leitor no contrapé. Com diversas referências da mitologia, da literatura, da filosofia, da música, de outras artes, estes textos cativam pelo lirismo e pela abrangência de temas e situações. Para além do necessário olhar progressista, feminino e feminista, as personagens destas histórias suportam dilemas profundamente humanos e, portanto, carregam, em suas errâncias, questões universais. O que venho denominando de “projeto literário” está muito claro neste livro: a dualidade subvertendo a crença no maniqueísmo, a procura da identidade, as intervenções do narrador na trama, a língua submissa à cultura, as limitações morais e religiosas travando a libertação dos sentidos, a abordagem de assuntos atuais, sem, no entanto, se render a modismos temáticos, a transgressão da linguagem. Uma escritora completa, com uma carreira consolidada, que sabe como e por que escrever. Nestes Corpos luminosos, Eltânia André resgata a animalidade do homem, levando-o à perda não só da própria identidade, mas também de tudo aquilo que poderia diferenciá-lo das demais criaturas. O racionalismo de Escher, que aparece nas narrativas, questiona a essência mundana e, paradoxalmente, leva o homem a se apequenar diante de diversos outros animais, inclusive os considerados, por ele próprio, insignificantes. É dessa liberdade que se trata, desses grilhões que a logicidade erigiu para fugir do vulgar. Que saída senão abandonar tudo, sempre? Os heróis desta obra são corpos em desconstrução, luminosos de crenças e crendices, mas não iluminados, — Deus, um fantasma que mais aterroriza do que consola. Trazendo contos longos, outros menores, minis, micros, Eltânia André apresenta ao leitor diversas técnicas — do realismo cru ao mágico, monólogo interior, fluxo de consciência, sempre com competência e refinamento. Apesar das questões abordadas, do ceticismo disfarçado, do niilismo até, de uma desesperança calculada, o leitor encontrará prazer no estilo, na abordagem, se identificará com as protagonistas, sentirá, por fim, um incômodo prazeroso, uma inquietação diluída em doses de ironia, algumas vezes de cinismo e de humor. Exemplo disso é encontrado em pessoas que lambem os ossos das asas de um morcego, em Wuhan, em uma mulher que escolhe se tornar Rita Lee ou em um marceneiro, um pouco surdo, que decide fabricar violas. Tudo aparenta estar em constante construção, nada é permanente ou completamente realizado, os protagonistas destas agonias estão em movimento constante rumo a uma individualidade que jamais será alcançada.</p>
<p><strong>Whisner Fraga</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Um fado Atlântico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Mar 2022 13:08:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustração <strong>zuzana brakociová</strong>

“há os poucos que perguntam de onde sou, o que faço aqui, normalmente as mulheres que, vez por outra, vem a seus papéis de esposa a constranger a imigrante da colonia que serve pratos aos maridos todos os dias.
Respondo com educação, sucinta, calada, econômica.
Quem era ela, econômica nas palavras.
Evito olhar nos olhos para não ser mal interpretada. Respondo olhando para o chão, porque é para o chão olham as empregadas de mesa, e para onde devem olhar, é assim que rege o estatuto internacional deste ofício, principalmente o estatuto das imigrantes que servem mesas em tascas.”

Um fado Atlântico, IX, página 28 e 29.

<strong> </strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>No prefácio que escreveu para o volume de poesia da antologia <s>Volta</s> para tua terra, Manuella Bezerra de Melo afirma que &#8220;A imigração é um labirinto&#8221;. Esta é a primeira pista para uma possível leitura de <i>Um fado Atlântico</i>, um livro que conta a história de uma mulher imigrante presa neste labirinto. Empregada de mesa precarizada, esta personagem sem nome deixa sua cidade do outro lado do oceano para viver num país que, logo percebe, é muito diferente daquilo que imaginava. O que encontra é o subemprego e o preconceito, e passa por uma dificultosa adaptação onde é preciso muito esforço emocional para reconstruir seu lugar no mundo. Um Fado Atlântico é sobre a dimensão de gênero da imigração, mas também sobre a domesticação e a assimilação a que são submetidas as pessoas imigradas, evidenciando o sofrimento psíquico de alguém que se esforça para tornar-se aquilo que nunca poderá ser por uma tentativa inútil de se encaixar, de ser aceita, ou de minimamente não ser violentamente ferida.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Mar de telhas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Mar 2022 12:42:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se, por um lado, a recusa do Tadeu de passar os finais de semana com ele o magoava, por outro era certo que, caso não se ocupasse de trabalhar, os dois não teriam mais para onde voltar depois que o bar fechasse.
Soube de um bico de pintor pelo rapaz da grelha, que acertou de apresentá-lo no dia seguinte, antes de o bar abrir. Só aceitaram o Betinho porque o homem contratado para aquele serviço chegou bêbado, adormecido no banco de trás de uma van, e foi atirado aos pés deles ainda ferrado no sono, sem deixar dúvidas de que, naquele dia, a única possibilidade era ele, o moço de mãos macias, o filho da Carmen Rita e do Augusto.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dentro de uma casa com janelas que dão para a rua, uma família divide sopas em silêncio. O patriarca, Augusto, é um homem medíocre e de poucas palavras. O filho, Betinho — um menino que não sabe chorar — é o próprio silêncio encarnado. Nesse microcosmos alheio ao mundo, a mãe, Rita, é quem rompe o invólucro que separa a realidade do sonho. Por não ter mais o que dizer, a mulher começa a latir. Em “Mar de telhas”, os três personagens convivem como estranhos dentro da própria pele, cada um com seus respectivos mistérios, regendo uma narrativa singular sobre loucura e pertencimento.</p>
<p style="text-align: justify;">No livro, as cidades não têm nome e o tempo é inexato, mas o reconhecimento arde aos olhos. Não é preciso ir longe para entender que a galeria de personagens que atravessa o mar de telhas representa um simulacro de sociedade em que a crueldade, os abusos e o desprezo pelo outro configuram a normalidade. Perder a razão, aqui, é pura e simplesmente uma forma de se libertar.</p>
<p style="text-align: justify;">As histórias de Augusto, Betinho e Rita espelham absurdos e tiranias, assim como as outras narrativas e os lugares que as perpassam. Dos dois desquitados abandonados à própria sorte que, após a morte de seu cavalo, fincam residência na rua; passando pela “casa dos bocós”, onde pessoas dormem no chão; o mundo aqui é um deserto e viver a vida de acordo significa fechar os olhos para o horror. Nessas vidas cheias de lacunas, a loucura descortina um outro modo de existir: mais honesto, mais real e, quem sabe, mais próximo da salvação.</p>
<p style="text-align: justify;">A brasiliense Mariana Lozzi demonstra um talento raro para a escolha de palavras, flertando com a poesia e o realismo fantástico, com metáforas delicadas e sutis. Seu pequeno universo mítico é feito de solidão e tristeza. O desfecho da história esmurra o coração. Se a literatura é um modo de sentir, no “Mar de telhas” o sentimento transborda em uma prosa cheia de cadências. É uma linda e poderosa estreia.</p>
<p><strong>Fabiane Guimarães</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Era preciso não sucumbir, uma vida para Laura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Mar 2022 12:34:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Talvez o tempo tivesse parado, ou o corpo e a memória estivessem soluçando em busca de um espaço onde o equilíbrio físico pudesse finalmente se estabelecer. O olhar tremia, a luz cegava, e a cabeça, vazia, buscava, como o pulmão afogado, um sopro de vida. Não era tão real assim quando uma mão atravessou o seu campo visual, irreconhecível! Os anéis espremidos lado a lado não só tiravam o movimento dos dedos, mas, ao olhar, causavam um sufocamento que rebatia em algum lugar ainda incompreensível. Retirou com uma pressa um tanto nervosa quilates de desespero e jogou como pôde dentro da bolsa dourada. Jamais usaria tanto brilho assim junto! O que estava acontecendo?

<strong> </strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Joana Cabral mergulha o leitor em um labirinto emocional complexo, hiper fragmentado e sem um minuto de sossego, para falar da busca de um estado de tranquilidade impossível.<br />
Em labirintos de lapsos de memória e certezas não confirmadas,<br />
Laura procura sua verdade e, quanto mais procura, mais distante e só se encontra.<br />
A história de Laura não é sobre uma mulher que busca sua verdadeira identidade, não é sobre a tristeza e tampouco sobre a aflição de um ser desestruturado. É uma cíclica busca por lucidez e reconhecimento. Ao final das contas, percebemos que a única, a onipresente protagonista é a angústia!</p>
<p><strong>Márcia Marquez</strong><br />
jornalista e escritora</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Trabalhos que nos forjam</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Jan 2022 11:15:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Organização Elaine Moraes
<p style="text-align: justify;">Todo mundo ficava doido, no começo por medo do sol queimar a minha pele, mas depois eu cresci um pouco e comecei a fazer isso na escola também, tirando a blusa do uniforme. Imagina, uma menina correndo sem camisa? Não podia. Eu queria que pudesse, mas não podia. Desde então, eu nunca me dei muito bem com esse negócio de me vestir. Nunca pensei muito nisso, sempre peguei a primeira camiseta limpa da gaveta e uma calça jeans qualquer.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As pessoas que escreveram os contos neste livro são alunos da primeira turma da pós-graduação em Escrita Criativa da PUC Minas. Nossas origens são diversas, mas há algo que nos une: a paixão pela literatura e a escrita e o desejo de contar histórias. Começamos uma trajetória de forma presencial em 2019 e acabamos sendo isolados pela pandemia. Mas a força das palavras que você lerá a seguir nos trouxe o afeto das aulas virtuais e conseguimos concluir a formação em setembro de 2020. Esta publicação é mais uma etapa dos nossos encontros, que com certeza não se encerrarão por aqui.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O silêncio de onde acabo de voltar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Dec 2021 23:04:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">toda espera é interminável para quem, tragado por aquilo que a razão humana não foi capaz de entender, padece. tal como a sensação de fome de quem não vê um prato de comida há dias e fica, com o pouco juízo que lhe resta, traçando mil maneiras de saciar o vazio no estômago. neste caso, a barriga está cheia e a fome que sentimos possui outra natureza. talvez por esse motivo inventaram o éden e a maçã proibida. deus certamente sabia das minuciosas consequências que trariam apenas uma lasca de mordida daquele suculento fruto. os mais sábios, aqueles que vieram antes de inventarem deus, diziam que a sensação de fome pode ser amenizada com a ingestão de água, muita água.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">no livro o silêncio de onde acabo de voltar, o estreante felipe nunes se expressa através da poesia escrita em prosa, ou, como querem alguns, da prosa poética, gênero híbrido surgido na europa por volta do século xix e que logo granjeou adeptos no brasil, onde é praticado desde então.<br />
o livro de felipe reúne pequenos textos, com temática variada. os temas por ele eleitos são a natureza e seus elementos (o fogo, a água, a terra, as pedras); a negritude, suas religiões e escravidão; a preservação do meio ambiente; as reminiscências da infância em sua terra de origem, sergipe; e ora visita a crítica política (de modo sutil), ora passeia por questões de ordem filosófica e subjetiva, sem deixar de lado a paixão e o amor, forças motrizes do ser humano, do mundo. para ficar nestes.<br />
na condição de doutorando em antropologia na ufrn, felipe poderia ter cedido à tentação de escrever textos seivados de termos científicos, de academicismos, o que às vezes dificulta a compreensão, reduzindo a fruição do conteúdo poético ofertado. mas ele cuidou de os elaborar a partir da linguagem simples, direta, lírica, bonita, resultando num livro de leitura agradável, para ser lido de um fôlego só. ponto para o novo autor. engenho e sensibilidade se conjugam no autor pela voz do eu lírico, com formulações tocantes, como essas contidas nos trechos que destaco: “encostado no canto do jardim vejo passar as estações. sou um deus que chora, esculpido das ruínas de um velho casarão abandonado. dou alimento aos perdedores que renunciaram a todas as virtudes”, em apresentação; “gostaria de ser iniciado em pedras como aquelas que meditam secularmente sobre o lajedo. geométrica beleza da imperfeição esculpida pela paciência do tempo”, de iniciação em pedras. ainda: “diga-me palavras doces, enfeite o vocabulário, recite teus códigos para que assim construa uma linguagem que desautorize a distância. [&#8230;] em silêncio, falaremos da fome”, em instruções para dançar.<br />
resta convidar o leitor ao mergulho imediato nesse mar de silêncio tão eloquente quanto tocante que é o livro do poeta felipe nunes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Rizolete Fernandes</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Chão de parafina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Dec 2021 19:51:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tem-se uma perspectiva gigantesca estando no meio de um alinhamento de pessoas: os que estão atrás se sentem como eu há hora, e os que estão na frente repetem a ideia que estou tendo agora. É algo escandaloso abordar desse jeito, mas a vista é válida.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há instantes toleráveis. Em outros, fui escrevendo de pouco em muito os contos deste livro. Alguns, antigos, me mostraram um caminho razoável para continuar a compor qualquer maneira. Os outros, mais novos, forçam as teclas a desenharem o espaço-branco da folha digital. Assim, seguindo e seguindo, o resto se desenvolve.<br />
Embora todas as letras do livro não me satisfaçam completamente, é preciso dizer que as histórias dentro dele são precisas.<br />
Não necessárias ao ponto de serem lidas ao redor de um país, mas precisas ao ponto de entenderem alguma questão do urbano, da cidade enquanto forma e enquanto pessoas dentro da forma. Mas a leitura, como ponto de concretizar o pensamento, absorve também o território, induz aqueles que precisam, de alguma forma, se aliviar na escrita de um outro. Portanto, ao mesmo tempo que temo por minhas exposições, ofereço todas aos olhos alheios.<br />
As personagens, munidas de sobriedade ou mesmo qualquer falta de senso, adquirem o tom da individualidade. Mas há aqui algo que experimentam todas as ruas, as calça das e as avenidas do Brasil. Como a cidade do livro é Recife, talvez essa conjuntura seja mostrada de uma forma melhor.<br />
É isto: as nuances estão todas dentro, cabe abri-las.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Pedro Antonio Almeida Machado</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Enguia-lobo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Oct 2021 17:38:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sentei-me na cama e, olhos virados para o teto, contemplei-a. Tinha um rosto engraçado, bochechas salientes, olhos enormes, era um urso-peixe. Não por medo, mas pelo inédito, eu estava paralisada. Fiz um grito, não gritei, fiz um aaaaaaaa abdominal e ela grunhiu. Aí eu corri. De um pulo parei na sala, não ousei voltar ao quarto até o fim da tarde, quando ouvi uma espécie de lamúria.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Poesia, prosa, conto, romance? Enguia-Lobo, de Flavia Recabarren de Castro, parece desafiar os gêneros. Seu texto transita livre ao descrever situações, imagens e personagens. Dois personagens: uma inusitada Enguia-Lobo que habita as pás de um ventilador de teto fazendo companhia fiel à narradora no momento em que esta se recupera da perda sua cadela Guloseima. Temos aí o esboço de uma pequena trama centrada na relação que aos poucos vai se estabelecendo entre as duas. Mas o que interessa em Enguia-Lobo está menos no conteúdo de sua história e mais na forma como o texto de Flávia se desenvolve e nos envolve. Descrições de situações domésticas, e dos afazeres do dia a dia, ganham uma dimensão poética. Um exemplo: <em>Uma camisa no chão. Tem os punhos apontados para a porta. Parece desesperada.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Mas eis então que a crônica das situações domésticas encontra o fantástico. As nadadeiras da Enguia-Lobo como asas de uma imaginação que voa. Uma enguia falante, leitora de Machado, bebedora de cerveja (do tipo escura), que curti discos de rock. E ela também tem seus dias de ressaca&#8230; A crônica fantásticas das situações comuns. O comum das situações fantásticas. Tem vezes que tudo se mistura. E a lógica da Enguia é a que faz mesmo mais sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os vinte e um capítulos que compõem Enguia-Lobo possuem como regra nunca ultrapassar o limite de uma página. Rigorosamente uma página. Às vezes bastam algumas poucas linhas, dando prova de um domínio de síntese da autora. Outro exemplo: <em>Às cinco da manhã de uma quinta-feira eu disse “bom dia”. Ela respondeu com uma voz caricata e rouca “bom dia”. Eu vomitei.</em> Apenas três linhas. Um capítulo, mas poderia ser um miniconto.</p>
<p style="text-align: justify;">Já faz algum tempo quando li pela primeira vez os textos da Flavia. Era uma série de contos curtos misturados com poemas distribuídos em umas cinquenta páginas de um arquivo <em>doc</em>. Alguns dos contos vinham com títulos duplos, outros nem títulos tinham. Mas todos eram marcados por uma originalidade rara, dessas que ilumina e te leva para cima te tirando de qualquer buraco. O texto solto, espaçado nas páginas, uma polifonia de vozes, trocas rápidas de diálogos, festas, danças, relacionamentos turbulentos, os CDs das bandas de rock&#8230; Sim, a época era essa, os CD <em>players</em> alimentavam as festas e as cervejas ainda eram boas&#8230;. Até hoje guardo como um dos arquivos de texto mais preciosos do meu computador. Uma fonte segura de inspiração.</p>
<p style="text-align: justify;">Como primeiro livro, Enguia-Lobo vai aumentar bastante o número de pessoas que terão a chance de conhecer o precioso trabalho da Flavia. Inspiração multiplicada. E isso é só o começo&#8230;</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Sérgio Puccini</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Medo de rato</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Oct 2021 01:10:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— Vocês duas, lá pra dentro. E você fique aqui com ele enquanto eu vou buscar suas coisas.
Fiquei logo com vontade de chorar. Eu não tinha feito nada de errado, e se fiz, foi sem querer. O homem disse para eu calar, porque seria melhor para mim, e deu tapinhas no meu ombro. Lembro que depois disso minha mãe apareceu segurando uma bolsa plástica com as minhas roupas e meu sapatinho preto, que era todo arranhado. As meninas também voltaram para a sala, só que ficaram de longe. Choravam e olhavam para o homem e para mãe, esperando alguém falar alguma coisa. Nem dei tchau, e mãe nem disse o vá com Deus que repetia toda vez que uma da gente saía de perto dela.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Medo de quê, Hugo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>— </em>Hugo Peixoto é a linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o jornalista, escritor e especialista em escrita criativa Hugo Peixoto me convidou para escrever a orelha deste livro, tentei traduzi-lo da melhor forma possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheci Hugo na primeira turma da especialização em Escrita Criativa realizada em Pernambuco, fruto de uma a parceria entre a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), da qual fui ministrante de disciplina e coordenadora. Aquele jovem de Nazaré da Mata (Zona da Mata de PE), e que sabia manejar um facão tão brilhantemente quanto as palavras, me assustava no bom sentido. Assustava, pois não temia manejar nem aquele quanto estas, as tão difíceis e pobres palavras, matéria-prima mais humilde entre as belas artes. Porque, sim, nós, escribas, não contamos com tintas e telas, lentes e filtros, argila e pedaços de cristal. Apenas palavras, tão simplesmente palavras, e que nem toda pessoa que escreve sabe bem manusear sem se ferir com as arestas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Hugo sabe. Ele não teme deixar quem lê sem o final da história, nem navegar pelas classes sociais mais díspares possíveis, procurando mostrar mais do que dizer, nos convidando a mergulhar em seu universo social, político, reivindicador de melhores condições de vida para os menos privilegiados. Isso tudo sem uma acusação, sem um julgamento. Só nos faz sentir e mudar de caminho. O que era insensibilidade, se transforma em comunhão. O que era emoção à flor da pele, racionaliza os recursos e nos conduz a soluções possíveis em meio ao caos.</p>
<p style="text-align: justify;">Hugo Peixoto é a linguagem. Ou bem transforma os personagens sofridos, humildes, sozinhos em palavras puras que nos tocam o coração. Os finais inacabados nos convidam a escrever junto com ele, a participar da história, porque só é possível construir um mundo novo a várias mãos. Treze contos que representam o vazio, a violência, a falta de sentido, a solidão, a prisão do corpo, a pandemia de Covid-19. Todos eles escritos para revirar nossas entranhas. Sabemos do absurdo que acontecerá com os personagens, mas os acompanhamos até o fim, como se disséssemos: “Vocês não estão sós”.</p>
<p style="text-align: justify;">E, diante de tamanho afeto, pergunto a Hugo, pergunto a quem o lê:</p>
<p style="text-align: justify;">— Medo de quê, Hugo?</p>
<p style="text-align: justify;"> <strong>Patricia Gonçalves Tenório</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Peixes de aquário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Sep 2021 15:07:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Fogo nas amoreiras, fogo nos pés de menta, fogo nos galpões de seda. Kenji esconde o corpo na água do ofurô. Aspira devagar o frescor da noite. A água está fria. Kaede anda aérea desde aquela história da porca. Nem sequer se preocupa em esquentar a água para o banho dos irmãos. Kenji guarda as reclamações, não quer falar com ninguém. Quando fecha os olhos, nada existe. A escuridão conforta. As lamparinas da casa estão extintas quando ele sai do banho. Os olhos cruzam com o espectro branco em seu voo pelo jardim. Ainda não foi embora?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antes de mais nada, cabe destacar que Rafaela é uma dessas pessoas que parecem miúdas, tímidas, mas que se transformam em uma força da natureza com uma caneta na mão.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi assim que conheci seu livro anterior, de contos. Já tem um tempo que vivi essa experiência e não fui capaz de desgrudar de mim essa potência toda que Rafaela coloca em suas histórias. Eram diversas, impossível dizer qual foi a mais bem escrita, qual melhor enredo, narrativa, personagem. Nota 10 no quesito “baita livro bom”.</p>
<p style="text-align: justify;">E um dia chegou esse livro na minha mão. Meu primeiro fascínio com o que recebi foi o fato de Rafaela, uma brasileira, descendente de japoneses que já morou no Japão, apresentar uma família japonesa. Eu, descendente de italianos que nunca morei fora do meu estado natal (RS), percebi de imediato que ali teria algo novo, afinal, tratava-se de uma cultura distante da minha e dependeria quase que totalmente da autora que essa experiência fosse convertida de leitura para uma viagem.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande empolgação para o começo dessa jornada era justamente por saber que Rafaela é plenamente capaz de promover essa mudança de estado. Isso não evitou que eu me sentisse confusa logo na largada, porque a autora promove uma quebra de expectativa sobre o protagonismo da história (essa sou eu não querendo dar spoiler).</p>
<p style="text-align: justify;">Então o que temos é uma história contada em dois tempos: o presente, de reencontro e mistérios, e o passado, que vai nos apresentando não apenas essa família japonesa que enfrenta xenofobia por causa da guerra, mas que vive em seu seio grandes conflitos, parte culturais, parte simplesmente humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Narrativas em dois tempos são sempre um risco imenso para o autor, que pode, conforme a técnica usada, tanto subestimar quanto superestimar o leitor. Rafaela ficou exatamente na linha do acerto. As mudanças de tempo são facilmente perceptíveis sem que se escancarem a ponto de interromper o fluxo da narrativa. Isso sem contar, claro, o grande mistério que cerca a irmã mais velha, descortinado de forma quase poética.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Peixes de aquário</em> é uma obra notável e inesquecível, não tenho dúvida de que encantará qualquer um que tiver acesso a ela como me encantou da primeira à última página. Rafaela é uma autora a se prestar atenção; sua narrativa e capacidade de contar boas histórias com certeza ainda nos reservam grandes e gratas surpresas no futuro.</p>
<p><strong>Maya Falks</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Minério de ferro &#8211; 18 contos e uma tradução</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/minerio-de-ferro-18-contos-e-uma-traducao</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Sep 2021 14:41:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um antigo e certeiro sofrimento paira acima do que restou das minhas vitórias e conquistas, feito um velho monstro que acaba de acordar. Juntando toda a grana que levei depois do golpe que demos ao vender a revista Cerdos &#38; Peces para o filho do dono da fábrica de camisinhas Velo Rosado, abandonei o comando da publicação e viajei até um povoado perdido chamado Mariana.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um desvario, mas e daí? Vejo o Brasil como um balão desses de propaganda ou daqueles que Escolas de Samba utilizam quando precisam de uma lua alegórica. Gigante, suspenso, lindo, verde, azul e marrom, preso por poucos fios. Balançando no ar e fazendo sombra densa ao pedaço de chão de onde se soltou com asco: terra arrasada, cupinzeiro, pasto seco, espólio de incêndio e miséria, cravejado de grandes varandas gourmet de cem metros quadrados, com seus vidros verdes, shoppings, garagens de <em>crossfit</em>, <em>glocks</em>, leds, becos mijados e torres de telefonia — “neomoinhos de vento”.</p>
<p style="text-align: justify;">O balão guarda em si a essência do que somos e a eleva de nós, em segurança, como quem suspende uma criança diante de um cão raivoso solto na rua. Fica no céu, exposto. A altura permite que seja visto e admirado de muito longe, por muita gente. Poucos fios o sustentam. Muitas mãos corajosas nos poucos fios. As de Flávio, com duas voltas no pulso, estão entre elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste seu <em>Minério de ferro</em>, Flávio, com a camisa do Timão de 77, invade a live e arranca da parede, a tapas, a estante de livros-cenário da verborreia pequeno-burguesa dizendo: — Literatura deve ficar no chão. No rés do chão aos pés do povo!</p>
<p style="text-align: justify;">É ali que ele atua feito estaca no peito dos vampiros que tocam o lúgubre projeto de escuridão que traçaram para nossas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta estaca, com duas voltas no pulso, os fios que sustentam nossa lucidez, nossa sanidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Douglas Germano</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Encomenda e outros textos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/encomenda-e-outros-textos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Sep 2021 13:42:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A tarde esgotava a luz no emaranhado das nuvens e folhas e ventos correntes por todos os lados do cenário fundo e esquálido do centro da cidade. O shopping espelhado refletia a atmosfera cansada dos caminhantes com olhares ao chão, passando por ele como velhos conhecidos, dando-lhe sorrisos fortuitos ao lembrarem-se dos bons momentos que já passaram ali.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Encomenda e outros textos</em>, Mateus Senna nos apresenta um conjunto de 28 contos (ou algo como isso) que percorre do tragicômico aos relances do cotidiano mais bruto. Do comovente memorial esportivo de “Suburbana” [“1. Mike 2. Pepe 3. Ão 4. Bate 5. Zé 6. Canho 7. Jackson 8. Mutante 9. Lopes 10. Sono 11. Galvo.”] ao delirante e pouco recomendável “O dia em que Eurípedes depilou o cualho”, nos deparamos com um autor, infelizmente curitibano, segundo a própria família e os amigos mais próximos, dedicado a nos entregar uma turnê de absurdos luminosos — estamos diante de um autor e de uma sugestão: resta ao ser humano nada mais do que o ridículo de acordar e persistir. (Talvez também se arrepender de ter escrito um livro.)</p>
<p style="text-align: justify;">Dos cães de rua, “liberais despudorados, aos coitos”, formando legiões, aos Josés da narrativa de Senna, ainda nos deparamos com pequenos curtos-circuitos da infância, desastres amorosos, sortilégios a considerar a vida como um sopro de loucura: entre uma mulher sentada sobre o sofá da sala, perdendo o olhar nas curvas da fumaça, e, como diz o conto “Serpenteia”, uma “luz no emaranhado das nuvens”. Um comboio de cenas, miudezas e deboches de naturezas diversas caminha por <em>Encomenda e outros textos</em>. É Jesus e é Rei Nato, mártires e bobos-da-corte, uma caravana para lugar nenhum e para o coração dos leitores agora mesmo avisados: a vida não pode ser levada a sério.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Daniel Zanella</strong></p>
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		<title>Breves olhos que se movem na neblina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Sep 2021 13:34:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Comecei muito precariamente a grafitar. Quando percebi, já não era mais tão muda. As paredes falavam por mim. Meus dedos ficaram calejados. Quem toca em minhas pequenas mãos nota que a pele é muito grossa. Como pude romper a dureza dos concretos, a rigidez dos cimentos nas esquinas nossas de cada dia?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um certo sujeito que sofre de doença incurável viaja de Portugal para Vitória, no Brasil, com o propósito de reaproximar-se do irmão gêmeo e saber do destino da mãe, revelando-nos fragmentos da própria vida e inusitadas circunstâncias a respeito de sua viagem. Paralelo a esse acontecimento, uma jovem mulher, criada em um orfanato e inconformada com o cotidiano da capital capixaba, encontra por acaso relatos datilografados e manuscritos desses dois irmãos, o que estimula o seu exasperado desejo de escrever. Intercaladas com essas histórias, aparecem as vertiginosas reflexões do outro irmão gêmeo, isolado do convívio social por vinte anos, fornecendo-nos detalhes de seu passado em Vitória e constrangimentos diante da liberdade readquirida. Assim, por meio de histórias que se entrecruzam e se dividem, <em>Breves olhos que se movem na neblina</em> nos absorve com dilemas expostos em tom confessional, marcados entre o sonho e a liberdade, a ficção e a realidade, a mitologia e a história: o insólito colapso existencial que envolve suas personagens em um enredo desconcertante.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>6222</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Sep 2021 13:25:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Certos riscos, certas brincadeiras, no fim das contas um cabedal enorme a ser percorrido por eles e somente por eles. Absolutamente tudo, a título de experiência, conquanto ficasse só entre os dois. Beleza. Um carrossel de emoções prontamente instalou-se, o tesão voltara como um míssil, havia muito conteúdo subjacente naquela coisa dos cachorros transantes sem parar, os primeiros 18.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um endereço costuma significar lugar de morada, mas pode ser um destino, ponto marcado no mapa, uma coordenada, direção. Em 6222 é isso que o Terêncio nos dá, uma direção para olhar, com vários ângulos a se observar, no caso, a vida de um aglomerado humano em condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca.<br />
Uma bolha de segurança e prazeres, um cenário idílico onde o balé das relações sociais faz piruetas ou se estatela no chão com a mesma graça e facilidade. 6222 é também um livro das fachadas, do que se cobre ou disfarça. Uma casa, um prédio ou uma alma. E do que existe atrás delas. “Pessoas encapsuladas em suas realidades”, como diz a jovem e sagaz Talita, estranha no ninho e, não sem ironia, viciada em ficção. Aliás, a ironia percorre deliciosamente várias passagens, denunciando dores, deleites e paradoxos construídos num estilo de vida rigidamente baseado em prazer, status, consumo e beleza pra esconder a humanidade demasiada de cada um.<br />
Excesso, condescendência e desfrute. Formas desesperadas pra fugir da aflição de viver. Anestesia. E é justamente nos espaços de lazer que o andar de cima e o de baixo — por vezes muito diversos, por vezes assustadoramente parecidos — se cruzam antes do recolhimento aos seus caixotes. O glacê disso tudo é a escrita do Terêncio, uma ilha e um emaranhado. Arquipélago. Prosa caudalosa e sensível que surpreende no meio da frase com imagens poéticas, uma capoeiragem. Astúcia mordaz e muitas vezes cruel de quem enxerga a geografia dos detalhes. E gargalhadas. E o privilégio de ver através dos olhos argutos do autor, que nos oferece momentos especialmente geniais que brotam no texto como flor de mandacaru. E te tiram o fôlego.</p>
<p><strong>Adriana Nolasco</strong></p>
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		<title>Todos os fins</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Sep 2021 15:15:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Da porta, uma última vez a avistei, certo de que não se perdera. Sua distância da vida era responsável por meu pé na realidade, encaixado na métrica de ter algum descontrole. Apertava o pulso, estancando a luz do relógio debaixo da pele piscando com funções desconexas. Pude ver que de seus olhos pendiam uma reprimida foz. Farrapo de amor.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">De volta à cama, ela sentou ao meu lado, passando as mãos por minha testa molhada. Arfava, aquecendo, resfriando.<br />
Qual o seu nome? Deveria perguntar? Já faz horas que não fala mais do que três frases, tão confusas quanto incompletas.<br />
Estávamos presos. Quem era ela? Cheguei a considerar que fosse talvez uma das aranhas no teto, eu ainda lagarta de delírio puro, em breve volto para despertar. Quem? Perguntei se tinha notícias da moça que trabalhava no bar, quem sabe já estaria famosa entre os moradores fora da fronteira, negócios indo de vento em popa. Não me respondeu, suspirando pensativa, o cubo silencioso em meu peito. Abri de leve para ver se ainda funcionava, sua luz firme conforme prometido quando o comprei, mas agora preocupado se duraria o suficiente. Senti um pico de ansiedade no peito, quis levantar logo para sair daquele lugar. Tossi, engasgando, despertando com o ódio que traz a doença dos maus sonhos. Sonha? Nesse ritmo só teremos as paredes de realidade. Recomendou que eu comesse algo, tomasse um banho, assim melhor recuperaria as energias. Até conselho meu, mas falava da fome, suponho. Pão? Fazia horas que ninguém falava em fome, embora quem mais rimasse com nossas palavras fosse o gemido da barriga. Você se acostuma, fica o ruído ali.</p>
<p style="text-align: justify;">[Árion Lucas em Todos os fins, p. 123]</p>
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		<title>Para ver Peri beijar Ceci</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Sep 2021 15:13:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Atormentava a rua agora, que sabia ela estar absorta em um indo-e-vindo infinito desde não sei quando, adormecida, mas tão viva! Adormecida-morta. Adormecido-vivo.
“CULPA SUA!” (para o Céu do quarto)
“CULPA SUA!” (para a janela)
“E SUA!” (para o pai)</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A história de <em>Para ver Peri beijar Ceci</em> se passa em dois planos, o do real e o da imaginação, que vão se confundir durante todo o livro. A narrativa parte do fantástico, apresentando um primeiro protagonista, o Pombo, que conta a sua tentativa falha de voar após ter sido ferido na Segunda Grande Guerra das Aves, quando serviu na Fauna Aérea Brasileira. Naquele fatídico dia 28, pulou do telhado do prédio onde mantinha seu ninho e, sem conseguir alçar voo, despencou. Depois da queda, Pombo inicia uma jornada de volta para casa, espionando, no caminho, os humanos com quem divide o prédio, um deles o misterioso garoto do terceiro andar. A trama é construída pelas vozes de Pombo, de Paloma, sua companheira, e culmina na do próprio Garoto, que acompanha o leitor até o desfecho, registrando, aqui neste livro, o seu processo de desesperança e enlouquecimento frente às condições políticas e sociais de seu país.</p>
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		<title>Contos de fuga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Sep 2021 20:36:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">E de repente se tornou invisível. A cadeira de couro parecia mais nítida do que sua fisionomia esquecida. Em pouco tempo, ninguém mais sabia do que ela se tratava, se tinha angústias, sonhos ou desejos. Vivia feito água parada, às vezes, útil, muitas vezes, apenas cenário. Seus esforços, de tão transparentes, já não faziam parte do mundo real. Andava pra lá e pra cá como ruído de casa velha, quando o chão de madeira parece ter vida própria, mas todos sabem que é apenas um piso. Não havia batom ou penteado que mudasse o fato de que já não era visível. Sapato novo era para ser útil, e flor no cabelo era maldade com a planta.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"> A potência redentora da Literatura foi mais uma vez comprovada durante a pandemia que se abateu sobre a espécie humana a partir de 2020. O consumo de livros aumentou exponencialmente. O mercado editorial experimentou expressivo crescimento em suas vendas. E as pessoas passaram a escrever mais. Algumas delas, mais íntimas do universo das palavras, identificaram nessa prática uma possibilidade privilegiada para o autoconhecimento ou, ainda, para o contato com as próprias verdades. Aqui chamadas de “Contos de Fuga”, as doze narrativas breves recolhidas por Clarissa Menicucci em seu longo período de ‘isolamento social’ são, pelo contrário, um território em que ela enfrentou seus fantasmas, explorou suas memórias e, sobretudo, inventou mundos fantásticos (como o planeta Ode), circulando livremente, sem restrições, por lugares pouco ou nunca visitados. ‘Transformei minha escrita em rua’, registra a autora, na introdução que abre esse volume.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação com a criação literária é complexa. Clarissa revela escrever para apaziguar as dualidades nela abundantes. Diz que é na produção textual que se sente inteira, sendo o lugar em que tenta ‘digerir’ o mundo real, o espaço em que se perde e se reencontra, estando sempre em busca. Não é outra a jornada empreendida pelos personagens que aparecem nesse livro.</p>
<p style="text-align: justify;"> Em constante deslocamento, não é possível, para nenhum deles, sentir-se à vontade na vida, à qual não aderem sem angústia. Seus corpos sofrem. Atormentados, portam mal-estar permanente, responsável por dores terríveis e uma aguda sensação de ‘desencaixe’. Incomodada, Átroa troca seu coração humano por um de galinha. José enxerga num sofrido cavalo o covarde que sempre foi. Antípoda não consegue ser feliz em dezembro. Nem, provavelmente, em qualquer mês do ano&#8230; A mente insone tenta ‘redefinir a ordem de terras, folhas, assentamentos de planos. Meu corpo dói, a cabeça pulsa, meu estômago está velho (&#8230;)’. Etéreo está fora do tempo. Vivendo, para sempre, no eterno presente, perde a chance do futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Sintonizada com as questões mais agudas de sua época, a contista também aborda o espaço e a voz da mulher na sociedade contemporânea, focalizando, em “Parto”, o duro embate que ela precisa travar para afirmar-se, para proteger a sua saúde e a sua integridade física. Plena de esperança, a narradora do conto não desiste de seu sonho, alimentado desde o nascimento do filho: ‘Mas eu sei que podemos mais. Derrubar o patriarcado com sangue e placenta. Fizemos juntos, eu e meu menino. Fugimos das ordens. Nascemos.’</p>
<p style="text-align: justify;">A insurgência contra o <em>status quo</em> adquire o tom da crítica ácida em “A tabela perfeita”, profunda reflexão sobre a insensibilidade social e a burocracia, representadas por Pedro Otávio, o PO. Acompanhar a sua saga é perceber como as estruturas vigentes têm o poder de penetrar por todos os poros daqueles que a elas se submetem, desumanizando-se irremediavelmente: ‘(&#8230;)sentia um aperto no peito, como se linhas verticais e horizontais se colocassem entre suas vértebras, causando uma sensação de desencaixe corporal, uma angústia física e psíquica assustadora para um homem tão organizado em suas relações com o mundo’.</p>
<p style="text-align: justify;">Em mais um momento interessante do livro, quando apresenta “A mulher e o Ipê”, Clarissa Menicucci abre uma fresta para a ternura, convocando entre seus leitores as suas sensações mais suaves, ainda que o parágrafo conclusivo conserve uma nota de melancolia. A árvore encanta e seduz: “Virou projeto de escola das crianças e casa do beija-flor. Micos, bem te vi e até os morcegos vinham visitar o ipê, que usava tudo como ensinamento para os quatro. Passaram a tomar café junto com ele (&#8230;)’.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, por tudo isso, “Contos de Fuga” é um bom companheiro para essa quarentena que nunca termina. E, sobretudo, para depois dela, como inspiração e guia criativo para mover-se por um mundo que jamais voltará a ser o mesmo.</p>
<p><strong>Rogério Faria Tavares </strong></p>
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		<title>Ensaio sobre o fim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Sep 2021 19:34:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É isso a memória: um passado trazido pro agora. Quando é o contrário, chama-se saudade.
Falam que o tempo voa... mesmo assim, não acredito nele. Às vezes, o tempo para. Podemos ouvir o tinir das taças, mas o motivo do brinde foi esquecido. A imagem do sorriso permanece, mesmo que se lembre dela com dor.
Sim, o tempo para. Trazemos o passado ao presente, mas não conseguimos voltá-lo, por isso a saudade.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Yussef é uma figura esfuziante, que não passa despercebido pela vida e a vida não passa despercebida diante de seus olhos. Como um menino, encanta-se com o mundo que aprende a cada segundo. Demasiado humano, também se frustra, indigna-se e revolta-se com a realidade a sua volta, trazendo todos esses sentimentos para seus textos, transformando a realidade com e em suas histórias.</p>
<p style="text-align: justify;">Seus textos abrigam um encantamento e criam um real fantástico, se não folclórico. Passeia entre o sacro e o sacrilégio como quem caminha no calçadão de chinelos. Usa fantasia como metáfora para contar nossa história, afinal, “tudo é política”, faz assim, de seus contos um carnaval literário.</p>
<p style="text-align: justify;">O sagrado ganha ares de ordinários nas mãos do Yussef e, como canta o gigante Milton, “tudo o que move é sagrado”, movemo-nos em seus contos através de aflições, ora de um bardoto, ora de uma comovente assassina, ora de um homem comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas no fim, talvez contradizendo o próprio autor, no fim, tudo é sobre amor.</p>
<p><strong>Jade Prata</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Do amor e de outras tristezas: histórias de violência e morte</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/do-amor-e-de-outras-tristezas-historias-de-violencia-e-morte</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Aug 2021 16:39:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Safada. Sumiu por dez dias e eu procurando ela como louco, nossa filha ligando pra todo mundo, fui bater nos hospitais, no IML, na puta que pariu, em tudo que é lugar que aquela vagabunda já frequentou, ninguém sabia dela, nada. Aí me liga, diz que não vai voltar, pede pra falar com a nossa filha. Pergunto onde estava. Num motel da BR 101 perto de Tarituba. O que fazia lá, vagabunda? Não importa, não é da sua conta, disse. Não é da minha conta? Vou arrancar todos os seus dentes, sua desgraçada. Me conta? Ela contou. Acredita que estava com um namoradinho da adolescência? Tava com o amor da oitava série, disse. Não deixei ela falar com a nossa
filha. Então a safada foi atrás da menina. Vou ficar com o amor da oitava série, filha. Não quero continuar com o seu pai.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nos treze contos desta coletânea, o escritor Rodrigo Novaes de Almeida traz mais uma vez sua escrita brutal e precisa para colocar diante de nós a dura e por vezes implacável realidade dos nossos dias, sem deixar de lado o humor ácido e as reflexões existenciais característicos em sua ficção. Aqui podemos vislumbrar um escritor maduro, ciente do seu trabalho e com voz própria, afirmando-se como um dos principais nomes do conto contemporâneo brasileiro.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Linha de produção/Linha de descartes</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/linha-de-producao-linha-de-descartes</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Jul 2021 14:11:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">MULHER
Não é você, você não fez nada de errado. A questão é que a empresa está passando por um novo processo de reestruturação interna. Precisamos cortar custos antes de um novo lançamento de ações no mercado.
FILHO
Por que justo eu?! Eu sou pai de família! Eu tenho uma família pra cuidar! Tenho uma filha de dez anos pra ajudar a sustentar, só o dinheiro seu não fecha as contas da casa!</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Linha de Produção </em>e <em>Linha de Descartes </em>são duas faces da mesma moeda, separadas por menos de três anos. Duas distopias do mundo do trabalho, onde se misturam desregulamentação trabalhista, decadência do sindicato, relações familiares e preconceitos. <em>Linha de Produção </em>é de 2015, inspirada no estágio em dramaturgismo feito pelo autor no Teatro da Vertigem, na peça <em>O Filho</em>, e ficou em 4º lugar (1º suplente) no III Edital de Dramaturgias em Pequenos Formatos, do CCSP, em 2016; <em>Linha de Descartes</em>, escrita em 2018, é, de alguma forma, a mesma peça reescrita após o golpe de 2016, as reformas trabalhistas e a ameaça de ascensão fascista ao poder — cujo <em>ethos </em>já está entranhado de forma suficientemente forte nas relações sociais, nas quais a brutalidade surge cada vez mais ostensiva.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Coisas que poderiam ter acontecido</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Jul 2021 13:28:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao padre que rondava a urna, dirigiu alguns desaforos. Não gostava das rezas e tinha solicitado expressamente em vida que não fizessem tamanha desfeita a ele. Entretanto, não podia negar que, quando cantavam alguns louvores, as coisas ficavam um pouco mais animadas. Se não fosse indelicadeza dançar em um velório, até que poderia ensaiar alguns passos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo — e com oportuna sincronia — cômico, ácido e singelo, <em>Coisas que poderiam ter acontecido</em> se equilibra de forma orgânica entre o corriqueiro e o existencial, entre o fantástico e o real, ora relacionando esses elementos, ora os desvirtuando. A partir de uma rica sucessão de cenários, situações e nuances, o livro oferece personagens excêntricos, que lidam com contextos banais de maneira excepcional, e com contextos excepcionais de maneira banal, propondo o insólito pela via do humor. Com um tom leve, porém acurado, e uma retórica expressiva, porém familiar, Arthur sabe como manter o leitor preso, página após página, conto após conto, no universo que criou.</p>
<p><strong>Pedro Alves</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cheia</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/cheia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Jul 2021 13:10:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Para na primeira loja de cosméticos e perfaz todas as prateleiras. Mesmo que eu já tivesse notado e mesmo se. Eu soubesse, se eu fosse alguém que. Se lembra. Mesmo. Não procurei por ajuda. Antes. Não tem nenhum produto para queda de cabelos nos armários do meu banheiro, no box, na pia, é claro que eu não me esqueceria de algo tão importante. <span style="color: #ffffff;">Cheia</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma mulher chega a um restaurante com o marido, mas esquece que está com ele e pede mesa para um. O garçom a olha desconcertado, sem saber como agir. Mas logo em seguida, ao sentir a mão sobre o seu ombro, a memória volta a surgir; o marido, claro, está lá, esteve o tempo todo. Como ela pode esquecer? Assim começa <em>Cheia,</em> primeiro romance de Natália Zuccala, que nos puxa para dentro da história com a segurança de quem vai muito além da técnica. Porque Natália escreve à contrapelo, feito abismo, feito vórtice.</p>
<p style="text-align: justify;">A memória de Amanda, a protagonista, se assemelha a um bordado intermitente, linhas que não fecham, palavras que se desfazem antes mesmo de emergir. E ela observa o mundo à sua volta como um detetive que investiga uma realidade incompreensível. A narrativa acompanha essa desagregação. Frases pela metade, pensamentos que não se realizam, algo que insiste. Porque, por trás da desmemória, há algo que precisa não ser dito, algo do âmbito do horror. E de repente, percebemos que Amanda é Amanda, mas também é todas as mulheres, e também somos nós. Não há saída além de acompanhar a personagem nesse mergulho, mesmo que intuamos que, do lado de lá, talvez não haja nada, só o horizonte infinito do silêncio.</p>
<p><strong>Carola Saavedra</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Os bugres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Jul 2021 19:10:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">São muitas mulheres aqui. Elas procuram Sindá, sempre secretamente, na hora em que seus maridos não estão em casa. Por vezes procuram a mãe de santo para, justamente, conseguirem a graça de um emprego para os próprios. Ou para pedirem saúde. Uma vida surda e pobríssima porque, quando Sindá aconselha que procurem um médico, logo é enxovalhada, a maior parte das pessoas crê que os feitiços têm de sanar tudo. Não consegue mais explicar, não tem mais forças para dizer que estão equivocadas.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O subúrbio carioca retratado neste <em>Os Bugres, </em>de Rodrigo de Roure, com sua profusão sensorial de cores, cheiros e sabores, além de cenário e personagem, é também um símbolo poderoso a sintetizar tema e forma: tudo nesta narrativa paira suspenso em um entrelugar, evocando os bairros esquecidos nas franjas do que os cartões postais (e o poder público) consideram que seja a cidade. O olhar de cronista do autor nos coloca diante de um painel vibrante de tipos humanos que, para além de personagens exemplares (não são estereótipos nem arquétipos, muito menos modelos de conduta), encarnam na trivialidade de seu cotidiano embates silenciosos (ou silenciados?), mas não menos fundamentais. Figuras masculinas se apequenam diante do farfalhar de saias que preenche os vazios do texto, mas ao mesmo tempo mulheres fortes e desejantes não deixam de ter seu prazer interrompido e medido em função dos homens. A vida no subúrbio pulsa clandestina, conciliando de maneira singular liberdade e opressão. Portões e soleiras são fronteiras porosas entre o público e o privado, espaços que se fundem nas belíssimas cenas coletivas de celebração da vida e enfrentamento da morte, verdadeiros ritos que nos colocam diante de uma sociabilidade na qual os laços comunitários valem mais que o sangue.</p>
<p style="text-align: justify;">No centro dessa experiência solidária está um narrador ambíguo que, no limiar entre dois mundos (o do texto e o do leitor, e tantos outros a se descobrirem), tem a prerrogativa de, ao enunciar, dar a existir as vidas que se descortinam diante nós. Essa voz incorpórea e anônima é também errática: não só porque vaga sem rumo, fixando-se a esmo nas figuras por quem se apaixona e, para nosso deleite, passa a acompanhar. Ele é errático também porque recusa o papel de detentor da verdade do que conta. Entretanto, como todo bom e velho contador de histórias, não pode recusar a autoridade (não o autoritarismo) da sua enunciação. Já disse Walter Benjamin que o narrador é quem sabe dar conselhos, e por isso é ouvido e respeitado pela comunidade. Mais ainda: o conselho tecido na experiência converter-se em sabedoria. Essa sabedoria, no entanto, nunca é signo de discriminação, mas objeto de partilha, como sugere o adágio africano: “O ensinamento se dá de boca perfumada a ouvidos dóceis e limpos” – como estas orelhas, que aceitaram o convite ao diálogo e agora convocam os leitores e as leitoras a afinarem a escuta e engrossarem a comunidade de ouvintes dispostos a resistir ao embotamento das nossas memórias.</p>
<p><strong>Raquel Souza</strong></p>
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		<title>Esse sangue não é de menstruação, mas de transfobia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Jul 2021 19:09:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Este livro é um acúmulo de relatos vividos pela autora e auto-ficcionados como num despejo, um vômito. É escrito com o desejo de expurgar de seu corpo todas as violências que marcam a vivência de mulheres trans e travestis no Brasil, entendendo a importância de ser uma voz que explicita isso, de forma direta e violenta, assim como é o cotidiano desses corpos, no país que mais as objetifica e mata em todo o mundo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Eu ouço Ela cantarolar. Já ouvia antes d´Ela começar a caminhar. Ela era outra, ao mesmo tempo em que era ela mesma. A sua jornada, como de toda pessoa trans, não foi de si para o mundo, foi do cenário exterior para o seu próprio interior, descobrindo-se ao mesmo tempo em que se compunha. Atriz de sua peça, protagonista de sua vida.</p>
<p>Canções de outrora abafadas pelo barulho da contemporaneidade. Maria Lucas escutou as vozes ancestrais e contou a Ela, afetando-se-lhe.</p>
<p>A sagaz escritora confere a Ela uma capacidade ímpar de compreender o quanto de subalternizante pode haver em atos aparentemente gentis da cisnormatividade. Ela pergunta a quem a lê: quais são os limites da sua sororidade? Até que ponto não se resume a um gozo ante à dor alheia? O que significam “casa” e “família”? Por que o sofrimento afligido a esta corpa lhe importa menos do que a uma mulher cis? Por que você fala em amor mas a deseja apenas como objeto sexual?</p>
<p>Estas não são questões exóticas, são universais. A fábula fala de ti também, não importa a sua identidade de gênero, mas qual papel você encena? Gênero são óculos que foram colocados no rosto de todo mundo, mas poucos sabem que o usam.</p>
<p>Através de quais lentes você enxerga o seu próprio mundo? Um microscópio que nos reduz a bucetas e paus ou um telescópio que nos alcança nas constelações?</p>
<p>O fato de estar cercada de artistas de forma alguma a isola da transfobia ou lhe garante um abraço. Ela denuncia o sonho da oprimida em se tornar opressora, porque se sente melhor ao pisar na travesti, que considera menos mulher.</p>
<p>Mas Ela não é minúscula e Maria Lucas é uma estrela! Nestas páginas você não conhecerá um falso brilhante, há substância nestas linhas. Gritos de liberdade. Resposta amorosa ao mar de ódio que tenta nos afogar.</p>
<p>Ela não abaixa a cabeça para falsas acolhidas, parte da casa assassinada. O que lhe prepara o futuro? Este livro não responderá, Maria Lucas tem muito mais estória do que cabe na prosa. <em>Evoé.</em></p>
<p><strong>Jaqueline Gomes de Jesus</strong></p>
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		<title>O Congresso da melancolia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Jun 2021 15:30:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nas vizinhanças começaram a contar de aparições noturnas de um cavalo lobuno-azulado, sem arreio e sem sela, que parecia vigiar as sebes e sumia nos barrancos e no mato. As pessoas andavam com medo, fechando-se nas casas de noite, e de dia sussurravam sobre o que tinham visto. Miro viu o cavalo mais uma vez, quando tinha chegado o inverno e o orvalho se cristalizava no matagal atrás da casa.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando assisti ao Melancolia do Lars von Trier, uma imagem ficou gravada na minha memória: a de uma noiva que tentava se mover numa paisagem de lentíssimos verdes e marrons, as árvores frondosas do caminho carregadas de certa majestade doída que me parecia então inapreensível por si mesma mas</p>
<p style="text-align: justify;">que eu podia fácil apontar com o dedo na tela e dizer, “Aqui”. Estava lá: na confluência de raízes atadas aos pés de uma mulher de branco, a terra e a gravidade dispostas sob o desfiado de luares e grinaldas. À linha do abismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste O Congresso da Melancolia, de Léo Tavares, sou tomada por certeza semelhante. Ao entrar em cada conto, ao mesmo tempo em que fracasso – e fracasso porque a melancolia é um mal difuso, e eu não tenho palavras para falar do que ocorre com seus personagens –, ao mesmo tempo em que me calo nesse sentido</p>
<p style="text-align: justify;">avanço definitiva em outro: sou capaz de indicar na página em que altura de cena, em que ângulo, essa paixão lassa toma forma e aparece.</p>
<p style="text-align: justify;">É que Tavares domina como poucos a arte de compor imagens com a voz, dizer com imagens.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, quando na leitura de “Lobuno-Azulado-Fantasma” quase perdemos Miro das mãos e começa a faltar pé às palavras, quando ali o território do indizível chega ao limite, nesse momento surge a miríade de cavalos e nos alcança pelos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o desabrigo de Rose (“O Salto dos Bisões”) beira em nós o insuportável, eis que o foco lança luz a uma tela de celular, dentro a imagem de algo gemendo em meio à manada de enormes mamíferos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Silvana se descola de si (“Anátema, o Lobo”), e tudo é ameaça do sem tempo e sem espaço da cidade de sua infância, aí a perspectiva arranja bordas num busto: o lobo encurvado na praça central.</p>
<p style="text-align: justify;">De viagem rumo ao mesmo evento acadêmico – o congresso de suas próprias ruínas expostas –, as figuras destes contos conjugam imanência e evanescência, betume e branco-véu-translúcido, carne-múmia e cortina de névoa, o maciço de uma pedra sacrificial e a fumaça de um cigarro que queima ao fundo de uma cumulus nimbus.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas duas forças da linguagem, da palavra como coisa viva, como vida, penso que são elas que se reconhecem num grande livro. E são elas que atravessam O Congresso da Melancolia.</p>
<p><strong>Mar Becker</strong></p>
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		<title>Gota</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Jun 2021 17:59:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Júlias, Narcisos, Tulipas e Aninhas aguardam e fingem ginásticas, iogas, mantras, namastês, receitas de cogumelos e hambúrgueres veganos, mães veganas que não são feitas de carne &#38; osso. Carne para os que são de ostentar carnes de bichos; alheia é a carne à vontade do próprio bicho. A essas moças e flores e moços de jardins há casa como novo conceito de pele. Parede cor de pele. Pele cor de parede.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As gotas de Cibely Zenari atravessam todo o texto. O feminino, a maternidade, o dentro vão se manifestando em cada conto, úmido. Escrito num tempo estranho, Gota é uma tempestade, vista da janela.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela já avisa no início: o tempo se marca em pingos de espera, e antecipa que a vida comum é só tudo isso mesmo. A vida comum, o aluguel, o emprego, as contas, a escola do filho, o desejo de um grande amor, o medo da morte. Só que desta vez, o medo da morte se escreve com maiúsculas, numa trajetória autobiográfica coletiva de quem esteve sob a tempestade quando ela chegou.</p>
<p style="text-align: justify;">Cibely nomeia suas muitas mulheres para que existam “pela potência de uma corda vocal”. Elas falam e pedem, não mais por uma vida melhor, apenas para sobreviverem. Elas soam para que amanhã exista, para que a história continue e para que elas mesmas possam contá-la.</p>
<p style="text-align: justify;">Num mundo pandêmico e desesperado suas personagens precisam tomar decisões diante do cotidiano. “Escolher, às vezes, é fazer nenhuma escolha” diz a autora e algumas situações parecem mesmo sem saída. Mas de quem é a responsabilidade quando não há alternativa?</p>
<p style="text-align: justify;">Seja no confinamento entre máquinas de costura ou do condomínio, quando vão se esgotando as possibilidades de existência, é no outro que as personagens se apoiam. É no encontro, ou no desejo do encontro, que vão se reconstituindo sentidos e potências. Cada gota arrastada na outra até juntar num riozinho fino, até juntar num fio mais grosso, até juntar e ser poça, e ser qualquer coisa refletida, até chover outra vez. Até chorar e chover outra vez. E nisso, concordamos: existir é insistência.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fernanda Senna</strong></p>
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		<title>A paródia vivente ou a pavorosa sciencia de vêr</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2021 21:02:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A grande coisa é a viagem. Mas a viagem da qual não se pretende voltar. Abandonar tudo e todos, ser como um morto entre gente que não te conhece e nem fala tua língua. Estar entregue a uma existência simples, solar, que alguns dirão maltrapilha. Sem saldos e despreocupado da vida que te cabe viver. Começar de novo, só que dessa vez pelo fim. Será que é possível estar no mundo somente de passagem, sentar num banco de pedra da praça e não fazer nada diferente de sentar num banco de pedra da praça?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A partir de seu observatório pessoal, Andityas escreve com rigor investigativo e voz analítica cônscia, visitando os estágios pantanosos das condições sociais, humanas, políticas, culturais e literárias que nos atingem. A contingência de um acidente — a impor-lhe a camisa de força de uma bota ortopédica que o retém em casa em inércia física — aperta o gatilho, proustianamente, de seu inconsciente: deflagra-se um processo de incisivas indagações sobre a sua própria existência e a recente história do país. Nesse período de denso e intenso questionamento, vêm à tona seu entorno geográfico-doméstico, como também o intelectual, funcional e afetivo, extensões de uma escrevivência que mapeia e dimensiona perplexidades. Por via daquela interdição, quando a casa se converte num belvedere para o autor afastado do mundo real, em divórcio das atividades da vida prática e no vórtice de seu próprio isolamento, deambula em clave peripatética pelo mundo das ideias para tentar entender nosso conturbado tempo. E aqui podemos até reconhecer uma metáfora antecipatória dos tristes tempos que vivemos durante a quarentena pandêmica que teve início em 2020 e impôs a todos um penoso ano sabático de automergulho.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante sessenta e seis dias, entre um interregno e outro, a cronologia do protagonista flui torrencialmente como um autêntico romance-rio: nesse caudaloso fluxo de registros, consciência e memória, o autor dá voz às inquietações de um narrador profundamente insularizado neste mundo de pé quebrado, mas atolado nos seus dramas, dilemas, contradições e paradoxos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta pequena grande obra condensa e ilumina toda a preocupação dialética e deontológica de Andityas não só com o destino do ser, mas com o lugar da arte, da filosofia, da democracia, da política e da esperança num tempo em que tudo é fetichizado pelo deus mercado, os afetos e encontros foram derrogados pela tirania virtual, as instituições são constante e avassaladoramente acanalhadas por espúrias composições e a vida e a morte são banalizadas sem qualquer oposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Do <em>posfácio</em> de Ronaldo Cagiano</p>
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		<title>Ouro de Moscou</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Jun 2021 22:40:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Diz-se que o “Ouro de Moscou” eram recursos providos pela União Soviética aos partidos comunistas e afins espalhados ao redor do mundo. Em caso específico, faz referência à reserva de ouro espanhola, a quarta maior do mundo na época, transferida para Moscou pelo governo republicano durante a guerra civil, nos anos 1930.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Outubro de 1973. Com a queda de Salvador Allende, o Kremlin suspende uma contribuição de três milhões de dólares à esquerda chilena e desvia esses recursos para o Brasil. Mas o dinheiro só será entregue a uma pessoa: Nara, uma garota de São Paulo, novata no organograma da subversão, escolhida por ser pouco visada e, até então, insuspeita. Essa é a informação que Frank Venkman, um espião americano de segunda classe, recebe em Berlim. Deixando de lado qualquer escrúpulo, ele assume a missão de cruzar o oceano, encontrar a tal garota e colocar a mão na grana.<br />
A jornada abarca retalhos de memórias, depoimentos, cartas e documentos entrelaçados por uma multiplicidade de vozes. Cúmplice de uma atrocidade desde a primeira página, o leitor já não pode se retirar. Assume o papel de investigador ou testemunha, mas não consegue prever o desdobramento do roteiro, como o próprio Frank relata: “eu interferia em uma partitura que ignorava e não tinha como conhecer de antemão porque estava sendo concebida na velocidade das minhas ações, pronta para se arruinar na duração de uma semifusa”. As peças desse quebra-cabeça são recolhidas a cada passo, capítulo por  capítulo, fronteira por fronteira.<br />
Em seu primeiro romance, Roger Rocha se revela um exímio articulador de ritmos e temporalidades. No contexto de uma América Latina assolada por golpes militares e da disputa entre EUA e URSS, o texto transita, com destreza entre dimensões literárias e históricas, pelas brechas de ironia entre uma trama de espionagem maltrapilha e uma comédia romântica duvidosa.<br />
A narrativa, que enreda com seus deslocamentos no tempo e no espaço, opera como uma justaposição de mapas sem atalhos possíveis, sem rotas de fuga, que não assumem a linearidade de seus traços. E se o leitor tem um mapa a desvendar, o tesouro não está predeterminado.<br />
Para Frank, o verdadeiro Ouro de Moscou se esconde na persistência do tempo. E no caminho de volta a uma casa que nunca foi sua. Sobre isso, ele mesmo diz: “Como devia ser bom saber seu lugar no mundo.”</p>
<p><strong>Tainá Azeredo</strong></p>
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		<title>Minha Murilo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 May 2021 20:08:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sasha está na cozinha de camiseta, calcinha e sandálias havaianas. É só o que usa. Já não se lembra de roupas. Nem de cabelos, continua careca. Ela não liga mais, aprendeu a reprimir a dor e a lembrança como estratégia de sobrevivência. Está como que anestesiada, indiferente. Apenas em raros momentos, a imagem desbotada de uma bela travesti de pé na Glória, à noite, vem à tona e os lábios balbuciam involuntariamente um nome sem rosto: Sasha.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Incômodos vários me acompanharam ao longo da leitura destas páginas, mas também prazeres muitos, ambos começando já desde o título: Minha Murilo. Palavras que costumeiramente não andam juntas, aqui podem estar sinalizando seja a dificuldade em lidar com o gênero de uma personagem trans, seja a experiência inclassificável de gênero dessa mesma personagem, e será preciso avançar bastante na leitura, talvez até às suas últimas páginas, para decidir entre qualquer das possibilidades (se é que haverá alguma certeza a respeito disso, no final das contas).</p>
<p style="text-align: justify;">         Novela que aborda a instabilidade que as noções de homem e mulher passaram a assumir a partir do momento que a existência trans se fez incontornável, nele também se percebe esse fascínio, essa curiosidade em entender o que leva uma pessoa a se reivindicar de outro gênero que não o do seu nascimento. Quando se dá essa descoberta? Não há arrependimento? As mudanças são irreversíveis? Eis algumas das perguntas aqui exploradas, reveladoras de subjetividades que tentam se entender à medida que dissecam o nosso possível comportamento, que fantasiam como seria estar na nossa pele.</p>
<p style="text-align: justify;">         Mas tudo isso que aponto está nas entrelinhas apenas. Na superfície do texto, uma narrativa policial que borra a fronteira entre vítimas e algozes, que discute a capacidade humana de adaptação e que imagina as descobertas possíveis e reinvenções necessárias para quem sobreviva a uma situação-limite. <span style="color: #ffffff;">Carla Bessa</span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Amara Moira</strong></p>
<p style="text-align: justify;">é travesti, feminista, doutora em teoria e crítica literária (com tese sobre o Ulysses, de James Joyce e autora do livro autobiográfico E se eu fosse puta (hoo editora, 2016).</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Desmantelo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 May 2021 18:43:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tive sorte, mesmo assim acordei com o humor ruim pelo terceiro dia seguido, praguejando o mosquito. Foi quando você, meu amor, pegou o neném e abriu as cortinas para o sol da manhã, espreguiçando luz e energia. Vocês felizes e serenos, descansados da noite inteira dormida, vocês, prontos pro dia, dois sóis, na
janela da varanda. <span style="color: #ffffff;">Natasha Silva Siviero</span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O livro que você tem em mãos é de uma delicadeza violenta.<br />
Natasha é Natasha em Desmantelo e, por isso mesmo, pode ser qualquer mulher, mãe, filha ou neta. Neste livro-diário, em que a acompanhamos dos 29 aos 34 anos, vamos nos  sentir estrangeiras na cidade grande e perceber que alugar um apartamento é também alugar os vizinhos, as baratas e os territórios em volta.<br />
Cada pedacinho deste livro vai te despertar para uma sensação. A dor e a delícia de cuidar de meninos, as dificuldades dos pequenos – e às vezes enormes – afazeres domésticos, o desconforto no emprego novo, muitas saudades, medos, mas também muitos sorrisos.</p>
<p style="text-align: justify;">A prosa de Natasha nos conta de um amor que brota do banal e que, se não o cultivarmos todos os dias, murcha, quase morre, mas ainda pode resistir (porém como voltar a florescer?).<br />
Desmantelo é a beleza e a feiura da vida de cada uma de nós.</p>
<p><strong>Lívia Corbelari</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>No princípio era o verbo: as desventuras de Teotônio, o filho do homem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Aug 2015 18:28:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Nada pode pôr mais temor em um ser humano sensível que a hora fatídica, quando ratos, crendo ser fortes por serem numerosos, saem dos esgotos e bueiros tomando as ruas. Nesses tristes momentos, é preciso encontrar a ﬂauta de Hamelin para dar fim a essas pragas que acreditam poder exibir suas sujeiras sem qualquer decoro. É preciso afogá-los no Tietê pois que o rio Weser é muito longe de São Paulo. Por aqueles dias, um fenômeno estranho se deu, nas ruas de São Paulo pululavam ratos de várias espécies, eram milhares que possuíam uma característica comum, no geral, eram velhos e babões. Exibiam uma espuma branca e medonha na boca e quando grunhiam, a expressão assassina dos seus olhos ao invés de medo causava nojo, uma repulsa que ataca até o estômago acostumado a pimenta. Esses fenômenos não são raros em São Paulo, ouviu-se dizer que no início do século XX galinhas de cor verde tentaram tomar a cidade também – bem ali onde esta história começou – mas foram logo dispersadas à bala. <span style="color: #ffffff;">Douglas Rodrigues Barros  </span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A situação sem saída do indivíduo limitado a esfera do metabolismo mercadológico é estendida à situação humana, a todo indivíduo. A longo prazo, todavia, é em vão: Teotônio, com sua forte e brava amiga Alexandra, evidencia a esvaziada forma do indivíduo em época de degradação neoliberal. Não faz isso com qualquer proselitismo, somente demonstra a forma sem sustentação como a existência sem sentido, sem sujeito, tornou-se reduzida. A falta de subjetivação, reflexão, é, ela mesma, tanto por seu conteúdo quanto em termos temporais, a mais intolerável, o absolutamente insuportável da vida no século XXI. É por isto que a loucura das personagens, tem de trabalhar com uma reflexão fora do esquadro normativo para demonstrar o quão imbecil é esta normatividade. O dia que começa com Teotônio, mesmo na protelação que lhe inflige a noite da suposta loucura que se prolonga por todos os capítulos, dá ouvidos a outras coisas além do repicar mediano e medíocre, putrefato e vazio, da vida voltada para a mercadoria. O verbo se inicia como aquilo que pode implodir as limitações dessa vida degradada através da ação tresloucada desse grande personagem que encontramos não apenas na praça da Sé, mas em todas as praças do mundo. Verbalizar a loucura encontra seu pensar mais preciso nessa obra que denuncia nosso vazio cotidiano enquanto não nos voltamos contra essa carnificina chamada capital.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Soy loca, lorca, feito um chien no chão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 May 2015 14:44:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<span class="fontstyle0">O desejo é uma doença, Federico, e eu desejo a ti. Quero saltar no lugar em que a carne tremula, onde o gozo é macia </span><span class="fontstyle0">ﬂâmula desfraldada. Quero saltar no lençol, fazer o espreguiço de gato, lamber os pelos, as patas, lamber o dorso teu. Quero ser quarenta graus, quero ser o limite da estrada e o calor de virose debaixo do braço. Quero ser o salto do oitavo andar – o voo mágico de uma iniciação.</span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>O título cheio de aliterações da primeira novela de Marcio Markendorf, <em>Soy loca, Lorca, feito um chien</em> <em>no chão</em>, é bastante sugestivo. Ele remeteria de certa forma ao título do filme surrealista de Luis Buñuel e Salvador Dalí, <em>Un chien andalou </em>(Um cão andaluz), de 1929. Em comum, ambos introduzem o leitor/espectador num mundo em que tempo, lógica e clareza não se conjugam. Cabe lembrar que Lorca, Dalí e Buñuel eram amigos e fundaram a residência estudantil de Madrid, que reunia intelectuais da época. Esse, contudo, não é o único filme aludido por Markendorf, professor do Curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina; muitas passagens de sua novela parecem evocar imagens de <em>O livro de cabeceira</em>, do cineasta britânico Peter Greenaway, principalmente quando sugere o desejo de cumplicidade entre o corpo e a escrita.</p>
<p><em>Soy loca, Lorca, feito um chien</em> <em>no chão</em> é um delírio, uma espécie de carta-confissão ou “conficção”, como Markendorf se refere à sua obra, de uma personagem que se diz apaixonada pelo poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca. Na tensão entre o sexo e o gênero, a protagonista faz uma alusão à homossexualidade de Lorca, que poderia ser lida, por exemplo, no poema <em>Gazel da fuga</em>, cujos versos servem de epígrafe ao livro: “Muitas vezes me perdi pelo mar/ Como me perco no coração de alguns meninos”.</p>
<p>A personagem criada por Markendorf poderia ser também uma das filhas de Bernarda Alba, a matriarca autoritária de <em>A casa de Bernarda Alba</em>, última peça do dramaturgo espanhol, que enlouquece em razão das imposições da mãe. A propósito, o cenário de <em>Soy loca, Lorca, feito um chien no chão</em> lembra o “aposento branquíssimo do interior da casa de Bernarda”. Diz a protagonista de Markendorf: “Não tenho a mínima noção de quando enlouqueci, de como enlouqueci, nem do motivo para me manterem aqui. Não sei se estou em um hospício ou uma casa de cura espírita. Parece um apartamento apertado, todo branco, azul clarinho no banheiro”.</p>
<p>O fato é que a protagonista tem poucas certezas e uma suspeita, a de que lhe apagaram a memória: “Não tenho ideia alguma, o que me faz ter a paradoxal suspeita de que apagaram minha memória quando me colocaram aqui”. Apesar disso, afirma manter seu coração e desejo intactos e, com o que lhe resta de memória, ela luta para preservar vivo o nome de Lorca: “Eu o escrevo nas paredes, nos batentes das portas, nos tijolos queimados, no ferro retorcido da cidade arrasada. Para não te esquecer, eu tatuo teu nome na porção fantasma de mim”.</p>
<p>Mas ao mesmo tempo que se diz desmemoriada, a personagem afirma recordar a infância, a literatura e as coisas sensíveis. E passa a revelar passagens de sua infância e de sua vida apossando-se de citações literárias como esta que remete a <em>Alice no País das Maravilhas</em>, de Lewis Carroll: “O relógio do mundo me dizia e eu repetia: ‘Estou atrasada, estou atrasada’. Fugia como um coelho, meus cabelos vermelhos, minhas orelhas atentas, um coelho branco e de alma negra. ‘Cortem-me a cabeça se eu não conseguir ouvir, decifrar, ver os sinais de novo e a tempo’, repetia eu como um mantra. Repetia em surdina até perder o sentido, até perder a palavra e o som, até me perder na loucura de saber que o destino era incerto […]”.</p>
<p>É dentro desse paradoxo entre a memória e o esquecimento que se encontra a personagem de <em>Soy loca, Lorca, feito um chien no chão</em>: “Acho que estou lembrando quando perdi a referência de tudo, quando me tornei a esquizofrênica do apartamento claro. Era hora do almoço. Eu estava com um homem. Falava animada sobre qualquer coisa que não me recordo e, ainda que recordasse, não teria a mínima importância diante do que se sucedeu. Pois, ao levantar a minha cabeça e olhar para o balcão do restaurante, vi um boneco de Papai Noel. Foi o suficiente para que um clarão passasse diante de meus olhos e eu já não soubesse mais onde estava”. Não seria o esquecimento a própria vigilância da memória, como afirma Maurice Blanchot?</p>
<p>Para não esquecer, a personagem precisa falar, mesmo que fale “sem entender nada sem compreender a sintaxe a morfologia a pontuação e apenas deus apenas deus entenderia a língua na qual pronuncio meu nome teu nome meu nome o nome de ninguém da ninguém que ecoa no violão da garganta […]”.</p>
<p>É preciso falar para não morrer, mas a fala quando dita, diz o escritor francês, “apaga-se, perde-se sem recurso. Esquece-se. O esquecimento fala na intimidade dessa fala, não apenas o esquecimento parcial e limitado, mas o esquecimento profundo sobre o qual se ergue toda a memória”.</p>
<p><em>Soy loca, Lorca, feito um chien no chão </em>é uma novela que inclui em seu enredo também uma peça de teatro, <em>Carn3s do coração</em>, escrita pela protagonista com a intenção de encená-la para Lorca. A peça, em três atos, é composta de monólogos protagonizados por duplos de Federico García Lorca e por uma mulher, provavelmente a própria protagonista.</p>
<p>Neste livro múltiplo, o leitor se perde, se encontra ou se reencontra num outro lugar da ficção.</p>
<p><strong>Dirce Waltrick do Amarante</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Contos de Minas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Mar 2015 14:53:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<strong>Infância</strong>

De longe,
Esqueci uma parte de mim,
Esqueci uma parte de Minas.
Esqueci o pé de laranja pendido,
Esqueci a vaquinha maravilha,
E a carreira dos cafezais.
O cipoal no alto do morro,
E o leite quente bebido no quintal.
Esqueci as peneiras de café penduradas na cozinha,
E também o velho da casa desbotada e sem laje.
Esqueci o açude e a canoinha presa com a corda que um dia
eu mesma amarrei.
Esqueci o pai idoso e o chapéu de palha,
O fumo, as histórias e as rezas para a folia de reis.
Esqueci um mundo que agora, enorme, não cabe mais dentro
de mim.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>No conhecido poema de Drummond, José <em>quer ir pra Minas</em>. Mas <em>Minas</em> — diz o poeta — <em>não há mais</em>. Anos depois, Drummond explicaria que escreveu “José” em momento de crise existencial, quando queria fugir de tudo e de todos. Neste sentido nem que voltasse, de fato, para Minas encontraria alguma paz. Mas no mesmo texto Drummond acrescentava que carregava Minas no sangue, por onde quer que fosse. Parece-me que os contos deste livro que você tem nas mãos são como frutos destas duas explicações dadas pelo autor de “José”. De um lado há a vontade da autora de se voltar para as suas origens, de outro, o entendimento de que estas nunca nos deixam por mais que, muitas vezes, queiramos disfarçá-la por vergonha, pelo preconceito que a cidade grande tristemente nos ensina ou pela não compreensão do que há de nobre na luta diária dos mais pobres. Estamos diante de um livro escrito com os pés no chão, sua autora está descalça, precisamos lê-lo da mesma forma. Portanto, comecemos descalçando os sapatos.</p>
<p>Podemos nunca ter pisado os pés na Minas que Lidiany Oliveira nos apresenta em seus contos, mas, rapidamente, nos tornamos íntimos da sua galeria de personagens: a tia benzedeira, Ita, o Sr. Arlindo, e tantos outros. No mais das vezes, somos essas duas crianças — ora o menino ora a menina, ainda num estado onde estas diferenças pouco importam — que figurantes ou protagonistas criavam um universo todo seu para o mundo áspero e seco no qual viviam, “apelidado carinhosamente de ruinha”. É este universo que Lidiany Oliveira recria aqui, escolhendo palavras com a precisão de uma artesã. Cada conto tem a extensão dessa precisão, nada falta, nada sobra, tudo encontra seu lugar — como a autora encontra o seu.</p>
<p>Lidiany Oliveira quis voltar para Minas, para “sua” Minas, “diferente da que o comum reza”. E nunca é fácil fazer o caminho de volta. Até porque se volta para o que se deixou, para o que, num outro momento da vida, entendia que era pequeno demais, simples demais, para quem se acreditava maior que a vida que o pai, a mãe, os irmãos, as tias levavam, volta para tudo o que havia propositadamente esquecido: “o açude e a canoinha presa com a corda que um dia eu mesma amarrei”. Mas aqui não se volta para ficar, volta-se, como disse, para reencontrar o seu lugar, é por isso que seus contos são como se apontasse para si mesma, descobrindo-se entre os negativos revelados de um filme que há muito guardou em sua memória — e se as imagens no papel fotográfico não são mais tão nítidas, devido ao tempo, recorre-se à poesia: a mesma que transforma papel de seda em pássaros azuis.</p>
<p>Cabe a nós, leitores, apreciarmos esses contos como se fossem cartões postais que Lidiany Oliveira nos envia da sua Minas “quase irreal, quase fantástica”, dando notícias do congado que passou por lá, da menina que queria desnascer, do abacateiro que virou pé de laranja lima, se o menino já sarou do bicho-de-pé e até do bolo de milho da tia Hilda. Mas a melhor notícia que poderíamos ter recebido é saber que se quisermos ir pra Minas, Minas há e está aqui nestas páginas.</p>
<p><strong>Ricardo Pereira</strong></p>
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		<title>o livro fúcsia — da linguagem tripartida</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-livro-fucsia-da-linguagem-tripartida</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Mar 2015 11:24:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Branco. Ou branca? Que importa o gênero diante deste vazio. Em uma sala é onde estou e tudo o que vejo é branco. Isso é um fato. Tudo o que vejo é nada, isso é uma interpretação. Sim, vejo nada, e nada foi o que busquei, e é por isso estou aqui: porque escolhi. O nada, eu-nada, eu-esvaída-de-mim, eu-esquecida, agora cercada pelo vazio branco.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2></h2>
<p><em>O livro fúcsia — da linguagem tripartida</em>, segundo livro do escritor e tradutor gaúcho Diogo da Costa Rufatto, é um trabalho ímpar. Não, isso não é um clichê! Tampouco uma muleta para começar este texto. Isso é um fato. Porque a palavra <em>ímpar</em>, aqui, não quer dizer apenas uma singularidade específica — embora isso também exista no livro: singularidades —, mas sim uma forma de divisão que está nas coisas do mundo, na linguagem, na natureza, nos corpos, nos medos, nos livros que Diogo leu — fluxo e floema — do seu próprio texto, forma essa que não é apenas binária, mas um pouco mais múltipla.</p>
<p>Neste livro de <strong>três</strong> histórias autônomas, porém complementares, o autor nos apresenta uma espécie de santíssima trindade do eu: três personagens em busca de uma linguagem que lhes dê existência. Em “<strong>Eu. O vento. A coisa”</strong>, primeira história deste livro ímpar, acompanhamos a constituição de uma mulher, uma mulher velha, abandonada em uma casa de repouso, esquecida, enfrentando sozinha o processo de se (re)conhecer: “como se vive?”</p>
<p>A história que se segue, “<strong>Língua paterna”</strong>, nos conta sobre a vida de um homem “resiliente, sério e forte”, como costumam ser alguns homens. Um homem que não conhece a linguagem dos afetos até que…</p>
<p>A última história deste livro tripartido, “<strong>HLH”</strong>, nos apresenta um triângulo amoroso intertextual, que convida o leitor a entrar no campo da linguagem e — no gozo — perder a palavra, a linguagem, o limite, escapar…</p>
<p>Diogo da Costa Rufatto escreve com lascívia, sua escrita é sensual e substantiva, nomeia cada coisa até extrair dela sua medula óssea, seu cerne, sua infinita potência semântica. Tradicionalmente, essa artesania é mais comum na poesia do que na prosa e é nesse limite — entre a narrativa e o verso — que este livro impõe sua beleza. Eu não sei dizer se os livros precisam nos ensinar coisas sobre a vida — amar, resistir, libertar-se. Talvez. Os bons livros, como é o caso de <em>O livro fúcsia – da linguagem tripartida</em>, nos ensinam que a incerteza, a desobediência e a insensatez são também formas — encarnações — da lucidez.</p>
<p><strong>Flávia Péret</strong></p>
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		<title>Lesbos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2015 19:33:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p class="font_8">capitu deixou bentinho em casa e foi visitar uma amiga, mas o marido logo desconfiou que iria, de fato, encontrar-se com escobar, o que, cá entre nós, é uma grande injustiça, já que capitu foi mesmo é à casa de mme. cleópatra; o que, tampouco, significa sua inocência. em vez de comer chá com bolinhos, capitu e cleo (assim a chamava capitu, e era uma concessão, pois só ela a chamava assim) tocavam piano e cantavam, bebiam o que houvesse para ser bebido, desde que tivesse álcool, liam poemas uma para a outra no caramanchão do jardim e, por fim, se deitavam um pouco — em suma, eram amantes.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p><em>Lesbos</em> é um livro original, que fará o leitor ou a leitora entrar no mundo do amor entre mulheres. Este não é, atente, um livro feito apenas para mulheres homossexuais. Trata-se, aqui, de uma obra de arte para qual o tema escolhido foi o amor lésbico. Reduzindo, ao amor, ponto. E o amor não é o grande tema da literatura desde sempre?</p>
<p>Por outro lado, o lesbianismo é revolucionário e ser lésbica é ser revolucionária: essa condição reinventa o desejo, afronta o patriarcado, ridiculariza a heteronormatividade, choca os conservadores que cheiram a mofo e a naftalina.</p>
<p>Estão dadas, pois, as condições para a realização de uma obra de arte ao mesmo tempo abrangente e pontual; subversiva e sincera. O lesbianismo, tão estigmatizado e tantas vezes reduzido ao pequeno mundo em que homens criam sua fantasia de fazer sexo com duas mulheres, é um tema espinhoso, no qual meter-se, como faz Vivian de Moraes neste livro, é como caminhar em ovos.</p>
<p>No entanto, Vivian não caminha em ovos em nenhum dos contos. Ela aborda diretamente questões como o desejo e a perda, e, sobretudo, mostra que, no amor entre mulheres, estão características de qualquer tipo de amor, como o ciúme, a cobiça, o enternecimento, o desespero de não ser amada, o erotismo etc. Ela descortina, neste livro, a beleza que está no amor lésbico desde os tempos de Safo, “a décima musa”. E o livro é, aliás, iniciado com uma paródia da história de “Dom Casmurro” e é encerrado justamente por uma narrativa sobre Safo de Lesbos, autora do “Hino a Afrodite”, uma justa homenagem não só ao lesbianismo mas à qualidade literária que Vivian reconhece em Safo.</p>
<p>Como se disse, é um livro sobre o amor. Mas a questão de eleger um tipo específico de amor é estético – as mulheres podem deixar de ser apenas as musas para escritores homens e heteronormativos, sendo alçadas aqui à qualidade de protagonistas como escritoras que, homo ou heterossexuais, admiram a beleza do exclusivo feminino no amor.</p>
<p>Podemos aprender com este <em>Lesbos</em>. Quando o lemos sem os filtros dos clichês sociais, estamos prontos a fruir o encantamento que mulheres provocam entre outras mulheres. Esse encantamento, mágico, poético, profundo, é o melhor legado deste livro. Afinal, ser lésbica é o cúmulo da sororidade. Faça esta viagem ao mundo lésbico com entusiasmo, segure os olhos em Vivian e recrie seus padrões estéticos com a beleza de cada conto e cada canto deste livro.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ombros caídos olhando para o inferno</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/ombros-caidos-olhando-para-o-inferno</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Mar 2015 20:27:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Às quatro horas da manhã, ela acordou. Ficou insone. Deitada de costas, com as mãos em cima do abdômen, olhando para o teto do quarto, decidiu que ia continuar a viver. Decidiu também que viveria por mais muitos anos. E então voltou a dormir.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Ao ler <em>Ombros caídos olhando para o inferno</em>, de Constança Guimarães, o pensamento, incômodo porque instigante, de Arendt, pairou sobre a minha leitura. O machismo e a misoginia, como frutos da estrutura patriarcal, são tentáculos nos quais a banalidade do mal intumesce. No livro, gerações de mulheres são massacradas por único homem que, embora apareça como sujeito de um mal absoluto, só pode criar raízes devido à naturalização social da ideia de que o homem é superior à mulher. O mal absoluto só floresce porque socialmente ele é aceito, seja pela omissão do pai, seja pela conivência aterrorizada de outras mulheres, ou ainda pela galhofa criminosa dos companheiros de trabalho diante da violência.</p>
<p>Não por acaso, este sujeito é denominado como “O Delegado”: ali está uma força repressora e violenta tutelada e fundamentada pelo Estado. Num país em que o feminicídio e a violência de gênero atingem índices alarmantes, a ficção nos leva a fazer perguntas desconfortáveis como que tipo de justiça é possível para vidas continuamente violentadas? Em que território os limites entre justiça e vingança se esgarçam?</p>
<p>Nesse livro em que suspense, exercício de poder e tomada de consciência — e de rédeas do próprio destino — se congregam, a atmosfera é densa e as personagens, que estão à flor da pele, parecem saltar das páginas. Um <em>thriller</em> impossível de largar até a última frase.</p>
<p><strong>Micheliny Verunschk</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O wi-fi da igreja é muito fraco</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-wi-fi-da-igreja-e-muito-fraco</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2015 20:14:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustrado por <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/augusto-meneghin"><strong>Augusto Meneghin</strong></a></span>

e o homem–tão–só encolhe mais, murmura que todo líquido branco é veneno, e eu aperto as tetas, aperto com força, tiro baldes de leite, arremesso na sua cara vomitada, bem na sua cara vomitada, como é a cara de Deus?, como mesmo?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="col-50 red">
<div class="trecho">
<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Se o wi–fi da igreja é fraco, o caráter de Isadora Krieger, ao contrário, é sacerdotal. E se espelha dos dois lados do portal, dos dois lados do teclado, entre o Ovo e a vida. Para, enquanto o Carneiro bale Saudade, finalmente reconhecer a morte como a grande conselheira.</p>
<p>Esse conceito eu fui buscar em uma das minhas fontes xamânicas, Carlos Castañeda. Mas Isadora, com sua aguda percepção filosófica, política, mágica e ecológica, cita <em>A negação da morte</em>, de Ernst Becker, como uma de suas. Se o wi–fi da igreja é fraco, e jazemos nesta dimensão abandonados à sensação do caos, do caos refaremos a nossa força, rumo às outras.</p>
<p><strong>Alex Antunes</strong></p>
</div>
</div>
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