Devorei o camafeu em uma só abocanhada. Ele é exatamente tudo que deveria ser: clássico, romântico, rebelde, elegante, complexo e ao mesmo tempo — e talvez aí resida uma de suas maiores qualidades — delicado.
É definitivamente brasileiro, com um retrogosto meio amargo que me fez querer repetir várias vezes. Me empanturrei como um animal faminto, porque de fato há uma escassez de livros capazes de nos enfeitiçar já no primeiro poema e nos fazer sentir saciadas e nutridas ao virar a última página.
O camafeu de Letty é um desses [poucos] livros capazes de traduzir o que só podemos dizer de soslaio, aquilo que escondemos no fundo do armário e só podemos comer quando o marido está fora de casa e quando as crianças já foram dormir. Aquele pequeno badulaque que herdamos de uma avó empobrecida pelo mundo dos homens e que guardamos com um cuidado quase ritualístico, porque sabemos que nesta vida talvez nunca encontremos outro de igual valor.
O que há de mais feminino do que uma sensibilidade enfurecida pela mitologia do que nela se esconde? É assim a escrita de Letty e a extensão poética de seu camafeu, com seus pelos grudados no sabonete, a pia cheia de louça, novíssimas rugas de preocupação, uma pizza fria sobre a mesa e o desejo súbito de fugir. Tudo ganha dimensão mítica quando o camafeu captura e registra em si pequenas cenas delicadas de nossas tragédias, como se fosse um relicário a preservar antigas maldições herdadas por e entre nós, mulheres.
Ainda assim, apesar da melancolia subterrânea que infiltra o virar de páginas, há o humor que só poderia vir dela. Ácido, nervoso, inteligentíssimo e emergente para barrar o colapso. É com uma naturalidade irreverente que a poética do camafeu sugere o quão ridícula chega a ser nossa condição no mundo dos homens, e ouso afirmar que é justamente isso que a torna tão pungente em meio ao corpo insosso de poetas contemporâneos.
É definitivamente uma joia, dessas raras, herdadas e quase impossíveis de reproduzir, pois cumpre a profecia de seu próprio nome ao encapsular em delicados relevos as cenas íntimas, grotescas, românticas e ferozes que atravessam a experiência ímpar de ser mulher. Letty transforma com brilhantismo as cenas mais vulgares em relíquia de nosso tempo, oferecendo à poesia contemporânea o frescor de uma voz que não teme ser simultaneamente lúcida, ridícula, desejante e devastada pela própria possibilidade de sua linguagem.
Layla de Guadalupe
Outono de 2026