Não o conheço, provável leitor, mas posso afirmar-lhe: você nunca leu um livro como este. Talvez já tenha lido livros melhores, mas iguais não.
Talvez já tenha lido alguns contos de terror, mas não o que aqui lhe espera em Horas mortas. Algo como um Lovecraft lírico, imerso em folclore pouco conhecido (ou melhor, pouco divulgado) e que aproveita de forma brilhante um viés típico do autor: seu talento como poeta e letrista.
Você também já pode ter lido A metamorfose (eu sei, a comparação é arrojada), mas O inferno, por gentileza, sem dever um pingo de absurdo, ultrapassa Kafka em algo muito curioso: a aceitação espirituosa por parte do personagem (tão diferente do melancolismo de Gregor Samsa) de sua condição burocrática (e mortal).
Talvez já tenha visitado a obra fantástica de Le Guin, e note reflexos em A cor da bandeira no planeta vermelho (embora o autor afirme desconhecê-la), mas a autora anarquista, ironicamente, carece do humor anárquico de Yussef, o que leva a narrativa de uma civilização hipotética a um nível de realismo que somente hoje, imersos como estamos no cinismo, somos capazes de refletir e apreciar.
Por fim e seguramente, você nunca leu três narrativas tão estilísticas e narrativamente distintas, e que entre si fazem tanto sentido quando postas lado a lado. Sutil e habilmente, Yussef age como um ritualista escolhendo ervas aleatórias na floresta e, por puro instinto, de tão diferentes lugares e contra todas as possibilidades, cria um elixir poderoso.
Mas o mais importante, e nisso as referências estrangeiras não foram por acaso, Yussef escreve deste lugar do globo, ou melhor dizendo, por este lugar do mundo. E isso é valioso. Tão mais valioso por ser Yussef único.
Creio ter sido eloquente em boa medida… Agora, caminhe calmamente até o caixa, cumprimente o atendente com educação, e leve este exemplar que, garanto, não lhe decepcionará.
Bruno Laet