Calamites

Disponibilidade: Brasil

já não há nada aqui
nada pra mim
estou em pé agora, e caindo
agarro a mão, o pó, a pedra
recorro ao último desejo, essa festa
minha irmã, grande festa
o derradeiro sonho em que todos se encontram
e me margeiam.

R$52,00

_sobre este livro

Foi folheando páginas num sebo que a autora deste livro esbarrou na palavra “calamites”. Calamites são fósseis de árvores ancestrais que interpelam a nossa imaginação, comunicam os mistérios do mundo em mensagens cifradas. O que mais fascina é como algo dado por extinto ainda possa falar com tanta intensidade. O livro de estreia de Isadora não poderia levar outro nome: ele nos conduz por uma densa floresta habitada por sonhos, desejos, amores perdidos, medos, obsessões — tudo isso resgatado a partir de uma minuciosa “arqueologia da memória”, que busca, entre outras coisas, trazer à tona aquilo que há muito se encontrava submerso. O objetivo é a transmutação da própria matéria — “a conversão da densidade em alguma coisa outra” — e de toda a memória nela contida: um movimento que mimetiza o processo de formação desses fósseis.

Calamites resume bem o ofício de todo poeta, esse colecionador de fósseis, fotografias, filmes: a vocação sinestésica de dar textura às palavras. Sob as retinas do leitor, movem-se imagens criadas com voracidade cinéfila (vale mencionar que estamos falando de uma poeta-cineasta/cineasta-poeta): árvores de copas frondosas, imensas figueiras, gavinhas, Phalaenopsis, begônias e ciclâmens. Essas imagens não poderiam ser mais contrastantes com o ambiente em que vive a autora: Brasília, “cidade artificial, abstrata e nua” (assim adjetivada por Clarice Lispector em um de seus contos).

Isadora transita entre a aridez e a umidade, a privação e a exuberância, o cotidiano e o devaneio. Num piscar de olhos, passa do deserto à floresta, lugar de abundância e de verde profundo, frequentado por poetas, loucos e notívagos. Em qualquer descuido, a cidade, mas também o quarto, a casa e as demais imagens construídas são tomados por lembranças cujas raízes firmes transpassam o cimento.

Como no cinema, uma sequência de imagens sobrepõe o fora e o dentro, a luz e a escuridão, o passado e o presente, a vida e a morte, a mudança e a permanência, o começo e o fim. Essas imagens — inventadas ou não — são aos poucos revividas, ressignificadas, tornando-se aquilo a que desde o início estavam predestinadas: poesia.

Gabriela Aparecida de Oliveira

_outras informações

isbn: 978-65-5900-578-9
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 68 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2023
edição: 1ª

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