Acasadentro

Disponibilidade: Brasil

E se não fosse preciso
ser abismo
e se em meu corpo coubessem
todas as chagas
e se essa voz fosse ave e
se repousasse no nada
da minha mão?

R$52,00

_sobre este livro

Quantas vozes habitam os poemas que leio? Quantos silêncios os compõem? Quais vozes se fazem audíveis? Quais são silenciadas? Escolhi iniciar este texto com essas questões, que reverberam diretamente a leitura do poema “Reescrita”, de Larissa Rodrigues, pois acredito que elas apontam e sintetizam um dos investimentos poéticos presentes neste seu livro Acasadentro, a partir do qual tensiona os efeitos do racismo e a forma através da qual o espaço de enunciação tem sido ocupado, ao passo que interpela e requer de nós, pessoas leitoras, um gesto ativo de leitura e reflexão. Um investimento que, se adensa e abre a muitas outras questões como as que seguiram me acompanhando, de modo sempre renovado, ao longo das releituras que fiz.

Pensar sobre a literatura e o silêncio, ou melhor, o silenciamento, nos leva a considerar que o ato de escrever é sempre localizado e imbricado nas relações de poder que permeiam a nossa sociedade, afinal todo corpo que escreve tem sempre cor e corte. É escrevendo deste corpo-mulher-negra que a autora ergue sua poética contra as “eternas ondas coloniais/ O riso, a pólvora, o medo, o chicote/ Cantam em coro canto de morte/ Canção de ninar capital/ nada que te lembre humana caberá no poema”, denunciando assim as inúmeras violências  coloniais que não cessam de se reatualizar, mas também recusando o silêncio e as imagens de controle do racismo, já que “atiraremos ao fogo todos os silêncios./ Cantamos essas terras/ E, na guerra/ Dançamos./ Uma seiva retorna por novas artérias/ O olho do espelho/ É uma raiz./ Até lá, não há paz”.

Percorrendo o conjunto de poemas que se desdobram entre as três partes do livro abre-se ainda espaço para urdidura de outros encontros que apontam para a ancestralidade, para os afetos e para o diálogo com outras vozes, poéticas e consigo mesma, encontros que podem oferecer uma sutura para as dores e cicatrizes dessa ferida infectada que é o colonialismo (kilomba, 2019), como um talho “Costurando nosso couro de memórias/ Por dentro”. A literatura, esse território em disputa, possibilita então vislumbrarmos o desconhecido ou o ainda não dito, moldando novos horizontes e anseios, “Já que meu futuro eu desenho”, e é também a partir dessa grafia-desenho que se criam novas “memórias/ de constelações não calculadas/ até que eu,/ enfim possa,/ me perceber (ou receber)/ inteira”.

 

Mariana Paim

Professora, pesquisadora e poeta

_outras informações

isbn: 978-85-7105-525-4
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 76 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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