Quantas vozes habitam os poemas que leio? Quantos silêncios os compõem? Quais vozes se fazem audíveis? Quais são silenciadas? Escolhi iniciar este texto com essas questões, que reverberam diretamente a leitura do poema “Reescrita”, de Larissa Rodrigues, pois acredito que elas apontam e sintetizam um dos investimentos poéticos presentes neste seu livro Acasadentro, a partir do qual tensiona os efeitos do racismo e a forma através da qual o espaço de enunciação tem sido ocupado, ao passo que interpela e requer de nós, pessoas leitoras, um gesto ativo de leitura e reflexão. Um investimento que, se adensa e abre a muitas outras questões como as que seguiram me acompanhando, de modo sempre renovado, ao longo das releituras que fiz.
Pensar sobre a literatura e o silêncio, ou melhor, o silenciamento, nos leva a considerar que o ato de escrever é sempre localizado e imbricado nas relações de poder que permeiam a nossa sociedade, afinal todo corpo que escreve tem sempre cor e corte. É escrevendo deste corpo-mulher-negra que a autora ergue sua poética contra as “eternas ondas coloniais/ O riso, a pólvora, o medo, o chicote/ Cantam em coro canto de morte/ Canção de ninar capital/ nada que te lembre humana caberá no poema”, denunciando assim as inúmeras violências coloniais que não cessam de se reatualizar, mas também recusando o silêncio e as imagens de controle do racismo, já que “atiraremos ao fogo todos os silêncios./ Cantamos essas terras/ E, na guerra/ Dançamos./ Uma seiva retorna por novas artérias/ O olho do espelho/ É uma raiz./ Até lá, não há paz”.
Percorrendo o conjunto de poemas que se desdobram entre as três partes do livro abre-se ainda espaço para urdidura de outros encontros que apontam para a ancestralidade, para os afetos e para o diálogo com outras vozes, poéticas e consigo mesma, encontros que podem oferecer uma sutura para as dores e cicatrizes dessa ferida infectada que é o colonialismo (kilomba, 2019), como um talho “Costurando nosso couro de memórias/ Por dentro”. A literatura, esse território em disputa, possibilita então vislumbrarmos o desconhecido ou o ainda não dito, moldando novos horizontes e anseios, “Já que meu futuro eu desenho”, e é também a partir dessa grafia-desenho que se criam novas “memórias/ de constelações não calculadas/ até que eu,/ enfim possa,/ me perceber (ou receber)/ inteira”.
Mariana Paim
Professora, pesquisadora e poeta