Em Brasa d’água, a poesia nasce da contradição. Aqui, fogo e líquido não se anulam: se atravessam. Cada poema é um corpo em estado de passagem, exposto ao calor da memória, ao vapor do desejo, à água turva do tempo histórico.
A obra se organiza em seis movimentos, Brasa, Reflexo, Fenda, Vapor, Cicatriz, Maré, que não seguem uma linha reta, mas um ciclo no qual a voz poética habita o íntimo sem se fechar nele. O cotidiano, o sonho, a sexualidade, a natureza, a política e a violência coexistem no mesmo campo de força, como se o poema fosse ao mesmo tempo abrigo e confronto.
Há uma escrita do corpo que sangra, deseja, ama, adoece, goza, resiste, e uma escrita do mundo, onde o amor não se separa do conflito, e a experiência individual se reconhece atravessada por sistemas de controle.
Brasa d’água é um livro de atravessamentos. Não pede leitura apressada nem oferece conforto fácil. Convoca o leitor a sustentar o calor, atravessar a névoa, aceitar a instabilidade como método. Entre incêndio e maré, resta ao leitor aceitar o risco, e mergulhar.