Há livros que servem como espelhos e outros que funcionam como estilhaços, cortando-nos inteiros. A vontade de matar iria passar é o momento exato em que o vidro se torna caco afiado na carne. Daniel da Rocha Leite não oferece o conforto da linha reta; ele entrega o líquido derramado, o trauma e a beleza que nasce do que foi quebrado.
Neste livro, o leitor não apenas lê sobre a dor: ele sente o gosto. A sinestesia da palavra descendo pelo corpo da língua. O cheiro do sal, o peso do lodo e a quietude que antecede a ruptura. São contos que habitam as bordas e os meios. Não é uma leitura passiva; é uma colisão estrategicamente dolorida.
Um momento de escuta para as vozes que o cotidiano mastiga e cospe.
Daniel nos conduz generosamente por uma cartografia em que o corpo, sobretudo o feminino, é território onde dor e transcendência se multiplicam e sobrevivem. O autor não trata a mulher como paradoxo. É elemento. A mulher-água que, agredida pelas pedras, escolhe o mar como útero para renascer em iodo e sangue.
Nestas páginas, a resistência tem rosto de mãe e mãos sacras, como somos aos olhos dos filhos. Aqui somos Deus. Enlamaçadas, vincando a pele no arame farpado, ainda somos Deus.
É uma escrita que fere a pele para revelar que, mesmo num mundo que lacera e silencia, permanecemos como a maré: cíclicas. Um universo de urgências em que se pare a tempestade quando tudo ao redor é estiagem.
“Aprendeu a se escrever, a se reescrever, a não matar, a não morrer.”
Segue-se, ainda que a vontade de matar não passe.
Viviane Ferreira Santiago
Professora universitária, escritora e jornalista