Uma pergunta atravessa este livro: o que fazemos com aquilo que herdamos? Não se trata apenas de posses materiais — um pingente de ouro em forma de conchinha do mar, um bezerro que, com o passar dos anos, se transforma em um pequeno rebanho —, mas aquilo que nos habita por dentro e que carregamos como uma espécie de marca (ou destino) biográfica. Um quebra-cabeças que precisamos, em algum momento da vida, nos aventurar a montar. Desdobramento de uma palestra-performance realizada, pela primeira vez em 2025, o livro quebracabeças, da artista, escritora, psicoterapeuta e pesquisadora Camila Caires vem sendo escrito, entretanto, há muito mais tempo, principalmente, se partirmos do entendimento de que a escrita é um lento trabalho de decifração dos signos que nos constituem e, também, um gesto de peregrinação e de partilha. Camila Caires performa uma genealogia familiar atravessada pela enxaqueca — essa dor que atinge 20% da população feminina no Brasil e cujas causas permanecem, em grande parte, indecifráveis. Entre médicos, acupunturistas, plantas, centros espíritas e variadas formas de deslocamento (físicos e psíquicos), a narrativa, em formato de quebra-cabeça, acompanha uma mulher que transforma a busca pela cura em movimento de invenção de si e de criação. Entre imagens, fragmentos de memórias e perguntas, a autora cria um artefato verbo-visual que é também um dispositivo de escuta: da mãe, da infância e do corpo, um corpo que aprendeu cedo demais o idioma da dor. Quebracabeças não é, entretanto, apenas sobre sofrer uma dor — é sobre herdar um sintoma, uma genealogia, uma história. Como se a linhagem feminina transmitisse, junto ao sangue, uma vibração insistente. O texto tenta domar essa herança, realinhá-la, desmontá-la peça por peça. Se a dor é um mapa quebrado, a escrita é tentativa de recompor seus fragmentos — não para apagá-la, mas para transformá-la em outra coisa: voz, gesto, travessia, criação.
Flávia Péret