Em O cordel do Tarô Nordestino, a leitura se transforma em experiência de encantamento. Vira-se a página como quem vira carta de tarô. O mistério se anuncia. São ilustrações de Pedro Índio Negro dedicadas aos 22 arcanos maiores do Tarô de Marselha e, em diálogo direto com elas, os 440 versos em décimas de Guga Limeira. Cada arcano se relaciona a uma figura da cultura popular nordestina.
A música atravessa a tudo como escolha estética. Seja com o triângulo, bumbo, pandeiro ou ao som da concertina, ela habita os modos de reinventar/versar arcanos. Está no batuque do maracatu (A Imperatriz), na moda do violeiro (A Lua), no frevo (O Sol), no caboclo de lança (O Julgamento), no coco de roda (O Enamorado), no forró (O Mundo).
É como se vibrassem aqui os sons de um território inteiro e plural: Nordeste. Pelo tarô / pela terra. Não só nas ilustrações, mas no corpo do texto poético, no ritmo, nas rimas e na feliz escolha das palavras que ativam a dimensão oral do cordel — mei’caminho, mei’malandro, beradêro, coitadin, sustança.
As ilustrações não repetem os versos. Os versos não reproduzem as imagens. Firma-se uma relação de reciprocidade, como um jogo. O deck fica na mesa: páginas, cartas e versos lançam perguntas (pr’onde vai a criatura?), oferecem pistas (dê ouvidos ao mistério) e se abrem ao movimento de ler.
Na minha leitura, ganham destaque os arquétipos ligados à criação, à espiritualidade e às mulheres — lembrando que força é um substantivo / de gênero feminino. A cangaceira (A Força) desafia estereótipos. A Papisa surge como baiana que alimenta, reconecta e sustenta; a Imperatriz vira rainha do maracatu; a Temperança, lavadeira de paciência perfumada. Muito além de ornamento simbólico, essas presenças afirmam o compromisso ético, estético e político do projeto.
Há ainda um gesto atento de escuta dos saberes indígenas, africanos e afro-brasileiros que formam a cultura nordestina — não de modo folclorizante, mas como leitura de mundo: o babalorixá (O Papa), o cacique (A Justiça), a mulher indígena (A Estrela), o preto velho (O Eremita).
Essa escuta pede corpo e voz. Leitura em voz alta, eu diria, para que os saberes que habitam o livro sigam circulando por escolas, universidades, bibliotecas e por todo lugar onde a poesia chamar. Arrisco dizer que O cordel do Tarô Nordestino é um livro para se ler cantando. Avia!
Rinah de Araújo Souto