Lábios que crescem nas mãos. Dias que nos grudam à terra. “O cheiro de morte ali do lado”. Enquanto leio Sentenças para romper barragens, é como se me sentasse em meio a uma clareira, envolta na atmosfera dos elementos naturais. Me sinto tomando sereno enquanto leio. Há fumaça de cigarro e tudo se propõe seco, mas, sabemos desde o título: não é. Tudo é provisório — e logo tudo inunda.
Quando leio este livro, entendo que ele é uma espécie de manifesto, recortado em trechos que se complementam. É um feitiço, feito “com febre de lua minguante, no continente da infestação”. Um banzeiro a ser atravessado, não sem medo. Somos levadas pelas ondas de sal, entre silêncio e invenção, até o momento em que paramos, mergulhadas, e perguntamos: houve mesmo, em qualquer momento, uma barragem? Ou há antes um convite?
O que compreendemos certo é que há, entre fragmentos, um tanto de água, e também de sonho, e de sexo. Bruna Reis escreve sobre o amor e seus derrames, sobre a solidão e o desejo. Há também, e principalmente, bichos que sabem a importância da morte. Cavalos, cegonhas, onças e grilos — malditos, violentos, berram. São bichos-representantes de nós, quando não encontramos palavra certa.
Nos escritos, quer dizer, quando escreve, Bruna parece desejar ter uma baleia dilacerada vivendo dentro de si mesma. Ela escreve sentindo, com a destreza (ou a trapaça) de quem sabe que, na maior parte das vezes, estar próximo do amor é estar próximo do chão. Caímos junto, nós, leitoras, com a voz poética de Bruna e suas paixões. Estamos todas, agora, olhando o mesmo céu: “veias cobertas de água”, suturadas por cada palavra.
Gabriela Soutello
Escritora e jornalista