O livro que tem em mãos, Migração das palavras ditas ao vento, oitavo poemário do paraense Paulo Vieira, já traz, em seu título, uma forte carga imagética que anuncia uma poesia escrita no limite. “Migrar”, do latim, significa deslocar-se, passar de um lugar a outro — movimento que ecoa no próprio vento, entendido como ar em trânsito. Essa ideia de deslocamento atravessa toda a obra e sustenta uma investigação contínua das relações entre linguagem, tempo e existência:
morrer um pouco ontem,
viver um tanto hoje
nisso consiste a existência:
uma parte dela é luto interminável
em contraste com a outra parte
que é luta e arte
Ao longo dos poemas, a linguagem é tratada como algo instável, insuficiente, mas, ainda assim, inevitável. Os poemas questionam explicitamente tanto o poder quanto a impotência da palavra: se, por um lado, ela se mostra incapaz de apreender plenamente o real, por outro, permanece como a única forma de resistência contra o esquecimento e o vazio.
É um livro que conquista de imediato pela forte consistência poética. Essa coesão talvez seja sua característica mais marcante. O poeta trabalha a palavra com economia expressiva, evitando excessos retóricos, e aposta em imagens precisas. As construções sintéticas abdicam de imagens desnecessárias e reforçam a densidade conceitual do conjunto.
finda o verão quando acabo
de escrever a palavra tarde
Em muitos momentos, o poema se dirige a um interlocutor que se configura mais como ausência do que como presença. Raramente há resposta, raramente há reciprocidade. Nessa unilateralidade do diálogo, o amor se desloca da experiência compartilhada para a expressão da falta, como uma condição interior marcada pela perda e pela impossibilidade.
Quando o amor emerge, ele se associa à memória, ao luto e à tentativa de preservar algo diante da ação dissolvente do tempo. O vínculo não se apresenta como plenitude, mas como aquilo que resta, ou que insiste, frente à inevitabilidade da perda.
É impossível, aqui, percorrer todos os territórios poéticos deste belo livro. Fica, portanto, o convite à leitura desta obra que se afirma pela coesão e pela consistência intelectual, sustentada por uma poesia madura e reflexiva.
Ancorada na crise da linguagem e na consciência da finitude, a poesia de Paulo Vieira convoca a percorrer esse movimento tenso e delicado — entre dizer e falhar, entre presença e ausência — e a encontrar, nesse intervalo, a força das palavras ditas ao vento.
Márcia Huber