A noite está próxima. […]
Pressinto uma sombra, a envolver-me. Ouço músicas…
espirais de som subindo aos subúrbios da alma.
Al Berto, Horto de incêndio (1997)
Música da noite, de Lucas Freitas, é um livro que nos convida a atravessar a escuridão: não apenas a que se aninha na noite paraibana, mas também aquela que habita a memória, a culpa e o medo. Em cada conto, o autor convoca figuras do imaginário para costurar histórias em que o sobrenatural age como continuação da vida cotidiana, ampliando seus conflitos e dores.
As páginas pulsam a partir de uma chave essencial: o som. Nada aqui acontece em silêncio. O lamento incessante de criaturas ancestrais, os passos que ecoam à meia-noite, o farfalhar das árvores que esconde decisões perversas, a batida na porta que marca um retorno inesperado, a gargalhada que pressagia a morte. São os ruídos os verdadeiros faróis das personagens, anunciando presenças ocultas e instaurando um clima de tensão profunda. As narrativas tornam-se, assim, verdadeiras composições sonoras, nas quais cada barulho é um prenúncio, cada silêncio é uma ameaça, e cada voz, humana ou não, molda os caminhos da leitura.
Sombrio, envolvente e bastante enraizado na cultura popular nordestina, Música da noite é um livro que transforma lendas em presença viva e a noite em território de revelações. Um conjunto de contos em que o medo se constrói tanto pela aparição fantástica quanto por aquilo que reverbera dentro das personagens (ou seria dentro de nós?) quando a escuridão se aproxima e começamos, inevitavelmente, a ouvir.
Valnikson Viana
Professor, escritor e mediador de leitura. Doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba