Este livro é uma espécie de coreografia das mãos: nele, as mãos cooperam, seguram, cuidam, se ocupam, se mexem. As mãos se tocam e os dedos dançam — um no outro e, depois, no outro, ora em pinça, ora abertos, e se buscam e se estranham.
Nesse balé, vai se desenhando um percurso nada óbvio que exibe o músculo de um exercício contínuo: o percurso da transmissão. Os gestos passam de uma geração para a outra e atravessam o tempo. As mãos da avó, da mãe, da filha deixam sua marca e permanecem.
Aos poucos, com passo delicado e firme, Isabel Ramos Monteiro vai lendo algumas formas de herança que restam e se refazem. A avó que pisca e olha com vagar, a mãe da mãe que anda com os chinelos arrastando, o avô que gira a aliança, que senta ao piano, as palavras e expressões que sobrevivem, o nome de uma que se repete em diferença no nome da outra (Daisy, Margarida, o mesmo nome com duas grafias). Ou, ainda, a impressão digital que se forma na ponta dos dedos durante a gestação graças ao movimento das mãos do bebê no contato com o líquido amniótico. A herança em seu caráter involuntário e singular, capaz de marcar a identidade.
O que parece estar em jogo aqui é uma espécie de “manutenção da vida”, levando em conta o sentido etimológico da palavra manutenção: ato de segurar com a mão. E passar adiante. Assim, nesses poemas comparecem a infância, a memória, as práticas corporais, mas também os nascimentos, as mortes, e tudo aquilo que pauta nossa existência. Além da presença de autores que trazem pistas de leitura, como Winnicot, Ursula K. Le Guin, Andreia Yonashiro etc., multiplicando os sentidos em jogo.
Nessa hora em que nos isolamos nas tecnologias digitais, cada vez mais distantes do manual, estes poemas evocam um mundo em que o cuidado e a comunicação passam pelo gesto de tocar, segurar e fazer coisas concretas com as mãos — quem sabe uma forma de vislumbrar “uma fresta de futuro” adiante.
Marília Garcia