Entre o canto das parteiras, o silêncio das matas e o ruído dos hospitais, este livro mergulha em um território onde nascer é mais do que um evento biológico: é ato cultural, gesto político e performance ancestral. Ao investigar os rituais de gestação, parto e pós-parto entre os povos Pataxó e Xakriabá, em Minas Gerais, Christina Fornaciari constrói uma cartografia sensível das práticas que resistem, se transformam e, por vezes, correm o risco de desaparecer.
A autora entrelaça pesquisa de campo, escuta atenta e sólido referencial teórico para revelar como os saberes tradicionais — banhos de ervas, rezas, restrições alimentares, cuidados coletivos — coexistem com o Sistema Único de Saúde e com as políticas públicas voltadas à saúde indígena. Longe de uma visão nostálgica ou folclorizante, o livro evidencia a vitalidade dessas práticas como performances culturais: comportamentos restaurados que, ao se repetirem e se atualizarem, sustentam identidades e reafirmam pertencimentos.
Ao mesmo tempo, a obra explicita as tensões históricas entre dominação e resistência. O corpo da mulher indígena emerge como espaço de disputa: alvo de processos colonizatórios e medicalizantes, mas também centro de força, memória e agência. A partir do diálogo com os Estudos da Performance e com os Direitos Humanos, a autora propõe uma chave de leitura que reconhece os rituais de nascimento como estratégias de (re)existência cultural.
Escrito a partir de um lugar de fala assumido — o de uma mulher branca, mãe, pesquisadora e artista atravessada por sua própria experiência de parto — o livro não pretende substituir as vozes indígenas, mas amplificá-las. São elas que conduzem a narrativa, seja nas conversas nas aldeias, seja nas produções acadêmicas e políticas de lideranças e intelectuais indígenas.
“Maternidades Ancestrais” é, assim, mais que um estudo sobre o nascimento: é um convite a repensar o cuidado, a autonomia dos corpos e o papel das políticas públicas na garantia da diversidade cultural. Ao acompanhar os caminhos do nascer entre hospital e aldeia, entre tradição e tecnologia, esta obra nos lembra que proteger rituais é também proteger mundos.