Como se cada poema desarmasse uma bomba melancólica no asfalto minado da cidade. Calçado naquelas botas carcomidas pelo tempo, o poeta transforma o artefato em flor — flecha germinada por pés flutuantes antes da pisada inaugural. Neste livro de estreia, Thiago Abercio se move entre o que persiste no grito fantasmático e a voz residual ecoada a partir do abismo. Há um universo de esplendor precário, feito de coisas inacabadas que se encenam nos sussurros geográficos trocados entre observador e observado, num jardim de escombros com pedras tateadas por dedos aquosos.
Em Para tocar com os olhos, Abercio descortina o horror do mundo e suas minúsculas gotas de esperança, num mar de versos fuliginosos — iluminados, por contraste, pelos dias vacilantes de desconfortável brancura. Para realizar esse gesto, ele tensiona uma linha de costura que, ao se esticar, revela o movimento das retinas num assombroso deslocamento cinético entre o fluido e o sólido. Suas evocações desconcertam e erguem uma urbanidade polifônica de ruínas, dialogando com os antepassados — aqueles que também beberam o cotidiano em pratos rasos, preenchidos pelos restos da primeira e também da última refeição do dia.
Ali, o olhar não é apenas um gesto de ver, mas um campo de afetos, cortes e descobertas, exatamente como propõe Roland Barthes. Cada cena é composta pelo encontro entre o que o pensamento enxerga e aquilo que, de súbito, o atinge como punctum: um detalhe, uma memória, uma presença que devolve o olhar. A narrativa poética se constrói nessa tensão entre o que é culturalmente compreensível e o que escapa ao controle, revelando que ver é sempre interpretar, desejar e ser tocado. O olhar não descreve: ele transforma, fere, convoca — e, como em Barthes, faz do instante uma experiência íntima e irrepetível.
Manoella Valadares
Poeta, tradutora e crítica literária