CAPITÃO
Alguém! Por favor, alguém! O Matheus…
Ele… Ele! NAVARRO entra. NAVARRO
O que tal homem faz esgoelando-se em
frente ao castelo do Rei?
R$52,00
_sobre este livro
Mate-os nasce do desejo de confronto entre o valor histórico da dramaturgia clássica e a força de fabulação expressiva da escrita contemporânea. A literatura que se consagra canônica perdura ao longo dos séculos por propiciar, em si mesma, um manancial infinito de leituras possíveis através dos novos tempos. Ela não impõe verdades imutáveis, mas se mostra um oásis em reinvenção para que as novas gerações matem as suas respectivas sedes — e é dessa fonte que Navarro bebe ao tornar Macbeth, de William Shakespeare, o pivô de abordagem de sua transição de gênero.
A tomada da célebre tragédia inglesa não é feita por meio de uma mera adaptação por transposição. Ela é quase antropofágica. No lugar do que seria uma simples releitura, Mate-os se embrenha nas brechas de subversão às entrelinhas do bardo e o sujeita à aventura autoficcional de quem o reconstrói. Navarro opta por uma síntese metafórica — manipulando a origem de sua referência com o intuito de acentuar os seus espelhos — para a construção de abordagens de gênero em sua primeira dramaturgia.
A narrativa de Mate-os arremata uma tessitura delicada entre a ficção e a vida — o limiar em que os ecos da tragédia esbarram com a dor da realidade. Macbeth, ao afundar-se na derrocada de um destino cujas rédeas lhe escapavam das próprias mãos, é também Matheus preso na pior das profecias: o próprio batismo. Ser concebido como substantivo masculino é ter de se adequar às expectativas e aspirações correspondentes. A fatalidade de ambos é fruto de promessas proféticas de grandeza e a desmedida que os acomete é condicionada por aqueles que limitam os passos de seus caminhos.
É com a tomada de consciência do que está além das imposições do mundo exterior que Matheus põe em xeque o desejo de pertencimento e a força de se reinventar. O peso de suas profecias, as interferências em seu destino e os ecos da culpa tornam-se a espiral que o aproxima da morte — e, sobretudo, da libertação que caracteriza a sua potência de vida. Se a condição para a quebra de amarras é fazer-se morto, que seja a sua aniquilação o erguer de uma nova vida.
Navarro matou Matheus para que pudesse se tornar Matthielle e é da sua pulsão de metamorfose que Mate-os vem à luz. O reescrever de uma história que une a dor da perda de si com a beleza do próprio encontrar é o convite ao pensar do que é, de fato, ser livre das próprias amarras e, sobretudo, uma ode à luta silenciosa de reinvenção do ser.
_outras informações
isbn: 978-85-7105-258-1
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 92 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª