Em Com amor, o que sobrou, Everton Freitag não escreve — ele escava. Com as mãos nuas, desenterra os ossos do amor, os cacos de memória, os fios de saliva seca que ainda grudam nos cantos da boca depois do último beijo. Este livro é um ritual de despedida e permanência, onde cada linha é um espelho quebrado refletindo o que insistimos em esquecer.
Freitag opera com a precisão de um cirurgião-poeta, dissecando corpos abandonados em quartos de pensão, gestos que morreram na soleira da porta, objetos que se tornaram santuários. Uma escova de dentes guarda toda a história de um casal. Um bilhete queimado revela mais do que as palavras que resistiram ao fogo — mostra o que ardeu por dentro.
Os personagens deste livro são sobreviventes do próprio colapso:
Um homem que chora lágrimas salgadas para alimentar seu filho de gelo
Uma marionete que acorda e cospe verdades na cara de quem a salvou
Um urubu pousado no sino da igreja, mais divino que o próprio padre
A linguagem é facão e seda: corta, mas o corte vem envolto em beleza. Freitag escreve sobre a podridão com a delicadeza de quem arranca uma bandagem de uma ferida — dói, mas é necessário.
Com amor, o que sobrou é para quem:
Sabe que objetos guardam fantasmas
Já se encontrou cheirando uma camisa esquecida
Entende que o amor verdadeiro às vezes parece um crime
Reconhece a poesia num copo trincado, numa escova de cabelo com fios presos
Este livro não será lido — será experienciado como um luto, um êxtase, um soco no estômago que deixa o leitor sem ar, mas pedindo por mais.
Fernando Bueno