O livro de estreia de Lígia Villaron repousa sobre uma delicada contradição. Dividido em quatro partes (“me jurei nunca escrever poemas de amor”, “metrópole”, “percurso” e “takes”), a força desse conjunto de textos, escritos entre 2017 e 2025, nos dois lados do Oceano Atlântico, se concentra no próprio gesto de trair a frase-título. O primeiro poema termina afirmando que, no fundo, “todos os poemas são de amor”. Ao recuperar um verso já intertextual de Ana Martins Marques, o livro desnuda suas referências e demonstra seus procedimentos internos.
Partindo, sobretudo, de versos curtos que constroem imagens sintéticas e, por isso, muito vivas e bastante sonoras, os poemas trabalham contradições (“como a cidade me tem/ nas pontas dos dedos/ que ela não possui”), exploram possíveis certezas (“perdi as horas/ por algum canto da sua casa/ não fiz questão de procurar”) e revelam um olhar atento para as coisas cotidianas do mundo (“se o vagão fosse grama/ os corpos orvalho/ que tombam a cada manhã”) e de si (“sou matéria/ densa/ bruta/ flutuante”).
A ideia de jurar implica acreditar ser capaz de cumprir aquilo que se jura. Porém, ao escrever, certas coisas se provam mais fortes do que as vontades da autoria; há uma espécie de vida própria do poema que se impõe. A promessa rompida, voluntária ou involuntariamente, é a premissa aqui. O elemento que insiste em estar presente, apesar do juramento, é o tema do amor — um dos temas clássicos da poesia de que nós (essa classe escorregadia dos leitores de poesia contemporânea) frequentemente tentamos fugir ou juramos recusar e que, ao descobrir que são inescapáveis, nos tornamos capazes de ver por outro ângulo. Esses poemas de amor navegam esse confronto com maestria.
Para Anne Carson, Eros — o desejo, o amor — tem a ver com fronteiras: entre o ser que ama e o objeto amado, mas também entre o eu e o mundo. Ao trilhar o percurso do livro de Lígia, constatamos o quanto fronteiras são imaginárias. Andamos sobre o meio-fio que divide uma pessoa da cidade em que habita, uma pessoa da outra. Um pé depois do outro, percorremos um caminho mais atento ao gesto, ao corpo, à escuta do silêncio e do ruído.
Ana Canellas