O desfibrilador
Caros futuros leitores,
há boatos que apontam para a morte da crônica (o jazz, ora ouçam, também está em bocas de matildes). O coração, sabe… Cronistas são sensíveis e muitas vezes irritadiços: reagem com velocidade jornalística aos fatos e, mormente, travam com a memória batalhas melancólicas e perenes — ninguém se dá por vencido. Neste livro, aqui mesmo, o tema será explorado.
Porém, tal rumor jamais será confirmado. Como sei? Simples: a literatura brasileira conta com um desfibrilador. Ao menor sinal de arritmia, paralisia ou palpitação (palpitações e crônicas andam sempre de mãos dadas), um choque de mais ou menos uma lauda revive o gênero. E esse desfibrilador tem nome. Atende por Ataíde Menezes e, folgo em saber, é meu fraterno amigo.
A última revelação do parágrafo anterior antecede minha inveja para consigo: antecipo uma epifania de sua parte ao trilhar as páginas. Sabe o olhar do viajante quando se encanta pela paisagem inédita? É! Sabe o frio na barriga do primeiro beijo? É, também. Saltando desta humilde orelha para o miolo do livro, posso até ver aqui de longe, no tempo e no espaço, nascerem centenas de sorrisos em sua face.
Sim, Ataíde, o Desfibrilador. E de onde vem a energia destes choques? Primeiro, na consistente erudição do escritor, trazida para a crônica por fios de oralidade e cultura popular. Se numa linha é citado Machado de Assis, Adam Smith, Pitágoras ou os Irmãos Grimm, logo adiante há alusões ao futebol, personagens mundanos e divertidos, e fábulas surpreendentes. No eletrodo, o constante toque com a intertextualidade garante novos significados aos pulos. E o coração da crônica volta a pulsar outra vez. Cada vez melhor.
Recomendo vividamente duvidar da morte da crônica, assim como devorar Três perus metafísicos e outras crônicas, de Ataíde Menezes. Até velhos cronistas como eu revivem o pulsar acelerado do primeiro beijo quando esses textos tocam o coração.
Rubem Penz