existe, nas ruas, um gato sultão
sem comida, sem água
nem dá pra fazer
glubglubglub
e uma gata napolitana
sem casquinha
quase sem o creme
o chocolate já esteve na moda
R$52,00
_sobre este livro
Quando li pela primeira vez os poemas de Malena Pedro, logo os associei àquela sensação descrita pelo título de um dos livros do Dalton Trevisan, “picos na veia”. São poemas que vêm rápidos, como um recado pra gente fazer alguma coisa, ou prestar atenção em alguma coisa. Agora, com o livro que eu e o leitor vamos ter nas mãos, uma outra ideia surge pelo título aparentemente comum, mas incômodo: Prendi o pé na corrente da minha bicicleta. Os poemas podem bem ser experimentados pelo frisson da experiência: um pouco de raiva e do ridículo involuntário, e uma vontadezinha de ser salvo pra alguma coisa (o pé?, o coração?) não machucar e não doer. De bicicleta, um certo território é percorrido, e, no atravessar de uma esquina, os poemas de Malena Pedro te encontram, leitor. Em algum momento, um deles vai nos dizer: “não quero te beijar/só quero ficar aqui sentado no meio-fio da calçada”. Nada contra o beijo, mas há momentos em que o que interessa é o meio-fio, o meio do caminho, o meio da rua. O beijo para as horas de amorzinho, o meio-fio é o entrelugar de ficar atento. O meio-fio é um bom lugar para se pensar a poesia que a gente lê aqui: entre o beijo e a rua, entre um verso e outro, esse espaço entre o ir e ficar parece então se traduzir na feição dos poemas. De um verso a outro, Malena Pedro nos leva a provar da familiaridade do cotidiano até nos fazer andar aos tropeços (para uma percepção ou às vezes uma decepção) do que não pode ser evitado, e que por isso é viragem do dia a dia, e virada do verso: “coloca o leite na medida/de uma lata de leite condensado/joga na panela/e mexe mexe mexe mexe sem parar/até você perceber que/doeu em mim também.” Para tampar esta orelha, ainda um som do poema: “não me importo de preencher o buraco /da sua parede/sou mesmo um engenheiro de obra pronta”, diz o poeta para quem ama e para quem lê. O engenheiro, que não é João Cabral, trabalha aqui muito mais para re/desconstruir do que para montar edifícios: faz a gente olhar de novo cada calçada, cada muro, cada palavra ouvida ou riscada na parede. É assim que Malena Pedro, sabendo cada medida do que faz, traz tudo de mais genuíno que a poesia tem a oferecer.
Marcelo dos Santos
UNIRIO, Professor de Literatura
_outras informações
isbn: 978-85-7105-223-9
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 100 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª