Naturalizadas, exploradas cotidianamente, não se tratam apenas de imagens de desigualdade social, de miséria e de pobreza nas periferias e nos grandes centros das principais cidades e capitais do Brasil. São milhares, são milhões de vidas, de experiências, trajetórias, sonhos, traumas, rupturas, fugas, abandonos, violências, mas são também histórias de recomeços, recaídas, retornos, persistências. Enfim, são “Passagens pelas ruas” que Hugo Ciavatta, concentrado em narrativas na cidade de São Paulo, traz, refaz, conta, aproxima-se, recupera, segue, acompanha, descreve. Em uma palavra, fazendo uso da tradição antropológica, Ciavatta não deixa de procurar por uma maneira de etnografar situações de rua em São Paulo. Mas não estamos, ora, claro, em meio às diferenças étnicas caras ao termo. Trata-se, então, de sociografar essas experiências sem fazer uso de recursos que possam amenizar seus sentidos. O autor não se propõe a mais do que isso; pelo contrário, desde o início afasta-se de linhas que o levem a exotizar, ou mesmo a dramatizar pejorativamente as histórias em questão. A leitura, portanto, não dará respostas às questões sobre o que são, o que é uma situação de rua. Ciavatta preocupa-se, por outro lado, em dar profundidade, em abordar como são as diversas situações de rua em uma cidade como São Paulo. É assim que, de maneira inusual, entrelaçam-se tradições conceituais, teóricas e da história antropológica. Ao mesmo tempo, o pesquisador busca seu próprio encaixe, desliza, separa e estabelece olhares críticos para os usos peculiares à sua disciplina acadêmica, jogando luz também em outros usos que as Ciências Sociais fazem do “biográfico”, da “história de vida”. Ciavatta se apoia, desse modo, no recurso tradicional à antropologia, calcando-se nos caminhos que seus encontros, que as histórias que sua pesquisa traz e produz, fornecem de material de reflexão. É esta uma escrita, finalmente, como exercício de humanização.