A cada linha, uma curva de tudo aquilo que é extremamente humano e banal: sentir. Afetar-se de dor, de amor, de estar e não estar lá/aqui/agora ou de ser a mais completa ausência nisto que chamam de vida, ainda que vivendo dia após dia.
É por meio da narrativa de afetos possíveis, reais, crus e falidos que se fala sobre o amor. Mas não é apenas disso que os dias são vividos, pois há uma infinidade de sentimentos que pingam silenciosamente e molham os pés, encharcam a casa, afogam os corpos. Depois (ou antes, ou no meio) do sentir demais, há também as dores da vida, o medo do fim, o vazio do corpo que um dia foi ocupado de alma. Seja lá o que isso queira dizer.
Esta união de narrativas se divide entre tudo aquilo que sangra afetos, mas que salva a vida do vazio que o não sentir causa, e tudo aquilo que escancara como o vazio de sentimentos é denso, árduo e pesado. Totalmente humano.
Uma vã tentativa de esvaziar o corpo, a alma, a essência. Uma vã tentativa de ocupar-se disso que é tão matéria, e pele, e vísceras, e unhas, e roupas. Uma falida tentativa de construir a si e se reinventar mais um sem-fim de vezes.
Entre tatear a pele e o arrepio da ausência, os textos deste livro discorrem sobre sentir muito, demais, de modo extenuante e dilacerador. E colocam isso em palavras, porque contar é mais simples do que sentir, pois morre muito quem não sente, mas morre ainda mais quem não diz, quem não se deixa afogar em tudo aquilo que pinga silenciosamente do próprio corpo e estronda ao atingir o chão.