Após um episódio de violência urbana, Bárbara, uma advogada carioca, se muda para Portugal com o marido e o filho pequeno em busca de uma vida mais tranquila. Mas por trás da decisão não está somente o medo de uma bala perdida. Ela foi detida e está sendo processada por crime de racismo depois de ter agredido verbalmente um candidato cotista que “tomou” sua vaga em um concurso público.
De início, Bárbara se encanta com a vida em Lisboa. O patrimônio cultural, os vinhos do porto e a água encanada potável lhe proporcionam o alívio e segurança que procurava. Aos poucos, as nuances da sua nova posição social se impõem. A xenofobia surge na linguagem e nas carrancas dos lisboetas, e logo revela sua face mais cruel.
Bárbara não consegue emprego em Portugal por ser brasileira e seu filho Zeca sofre preconceito na escola. Wagner, seu marido, se adapta melhor, mas vai se tornando insensível às dificuldades do resto da família. Privilegiada no Brasil do qual tenta escapar, ela agora é uma “zuca”, e terá as crenças e a identidade confrontadas pela discriminação. No registro quase diarístico de suas experiências, Bárbara risca os termos brasileiros e os substitui pelos equivalentes do português lusitano, esforço que, paradoxalmente, parece produzir ainda mais distanciamento.
Com uma prosa firme e lúcida, Fernanda Hamann não entrega ao leitor uma jornada de salvação. Sua protagonista não é uma heroína. Tampouco é completamente vilã. Zuca busca o oposto do maniqueísmo didático, oferecendo uma trama construída com ambiguidades e sutilezas, provocando nossos juízos automáticos de justiça e compaixão. Bárbara não enxerga completamente o racismo que pratica, mas sentirá na pele a xenofobia. Insegura, recorrerá ao álcool e ao tabagismo para suportar o lento colapso da vida íntima e doméstica.
Até que ponto sairá transformada? O leitor descobrirá. Ou melhor: terá que decidir. Sem respostas definitivas, a pergunta deixa um gosto amargo, mas o romance faz nas entrelinhas uma defesa indubitável da necessidade de diálogo em nossa época de crescente intolerância. Os afetos reacionários, nos sugere Hamann, se alimentam de pulsões destrutivas que só serão contornadas com união e empatia. O caminho é árduo, para os indivíduos e a sociedade. E sem garantias de redenção.
Daniel Galera