O intocável

Disponibilidade: Brasil/Europa

Que som terá
a grama quando cresce,
um pássaro que aninha
antes de dormir?
Que som tem
um carro estacionado,
a água parada
na calçada?
A escuridão profunda da noite,
a cumplicidade de um olhar,
as mãos entrelaçadas,
o cheiro do café,
a pele que se arrepia
em algum lugar
digo
devem ressoar.
(Silêncio II, página 13)

 

R$50,00

_sobre este livro

O intocável, de Florencia Guzzetti, começa falando sobre a língua materna, perguntando-se o que aconteceria se a perdêssemos: não sei/ como acordar e balbuciar sons/ numa língua estrangeira — por mais/cotidiana que ela seja —, como/ amar ou sentir saudades, como/ pedir ajuda quando a febre sobe/ numa língua em que não se aprende/ a dizer frio, dói, mamãe?/ Como será o silêncio/ para quem esqueceu a sua língua? E o livro responde a essas perguntas com poemas, porque os poemas são sempre escritos, como disse Proust sobre todos os textos bonitos, em uma espécie de língua estrangeira. Vamos permitir então, sugere este livro, que seja essa língua estrangeira a que revele o que acontece quando estamos no exílio, quando saímos de casa, quando nos despojamos de tudo, até mesmo do que considerávamos intocável. Quando não há mais nada intocável, porque o mundo — finalmente percebemos — é puro e excesso, e luto e festa, então podemos deixar ir embora aquilo que tínhamos tanto medo de perder, então podemos nos afastar de nossa terra natal e pedir ajuda ou dizer “eu te amo” a alguém nesse idioma estrangeiro, confiando que seremos compreendidos, confiando que, além das palavras aprendidas, haverá outras, outras que nos permitirão fazer contato com o corpo dos outros, outras palavras que serão gentis e raras, que designem tudo de novo, que criem uma nova pátria, um novo lar.
Entrar na prática/ de perder dia a dia/ algum objeto, alguma ideia/ nos beneficia, mas insisto/, escreve a poeta, / também se trata/ de olhar com grandeza/ pequenas coisas: um caracol/ uma pedra/ uma casa/ em qualquer lugar. Olhar para as pequenas coisas com grandeza, será que é isso o que a linguagem poética faz, essa bela língua estrangeira, redefinir hierarquias, fazer com que o insignificante e o desnecessário se tornem indispensáveis, de modo que não possamos mais viver sem essas coisas que não servem para nada além de preencher nossas vidas com graça, serenidade e beleza?
Este é um livro — para nos acompanhar aonde quer que a gente vá, para que, nos momentos em que nos julgarmos mudos, insensíveis, incapazes de entrar em contato com outros seres vivos por termos perdido nossa língua materna, possamos descansar nessa língua estrangeira que é a poesia, uma língua que não nos demanda ou exige, mas que nos convida a nos deixar levar pelo que não interessa a ninguém, pela música daquela eterna manhã, por aquela melodia que limpa e cura o coração. Por essa melodia que recomeça todos os dias, quer a ouçamos ou não.

Claudia Masin

 

 

_outras informações

isbn: 978-85-7105-211-6
revisão: victor negri
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 52 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

Carrinho

Cart is empty

Subtotal
R$0.00
0