Cerapió, território fictício inventado pela escritora Flávia Bin, é um espaço íntimo para nós, brasileiros: ele traz consigo a vegetação, o clima e principalmente, a gente, negada durante tempos de figurar na literatura brasileira. Neste romance, pisamos no solo que conhecemos, e decidimos ficar, porque suas personagens nos ensinam sobre a poética das pessoas que ficam no chão em que nasceram.
Numa terra em que um fenômeno surpreendente acontece com as pessoas que sabem demais, fazendo com que elas emudeçam, nós conhecemos a vida e os afetos de Odara, uma mulher que desde menina questiona e se contrapõe ao que se determinou caber no conceito de ser mulher. Entretanto, a maternidade, que faz com que as mulheres se assemelhem à árvore da barriguda, torna-se para ela e para todas as mulheres desse livro a grande viagem para dentro delas mesmas.
Nessa cidade, os homens costumam ir embora, e mesmo com a promessa de regresso eles nunca retornam, fazendo com que Cerapió seja uma comunidade primordialmente feminina. E são essas mulheres que investigam o solo, a profundidade dos rios, as águas do seu corpo, os segredos de carregar uma criança no ventre, o emudecimento de quem sabe demais.
Romance narrado por meio de múltiplas vozes, com o domínio de quem conhece a boca e o fluxo de bons personagens, Flávia nos entrega uma prosa viva, com uma linguagem própria, com a geografia do Brasil de dentro, aquele que precisa povoar a ficção brasileira contemporânea, e nos presenteia com personagens inesquecíveis, prontas para entrelaçar os dedos nas suas mãos e te levar por esse solo de Cerapió num trajeto poético e encantador, nas linhas de uma literatura que aponta para o melhor que produzimos.
Euler Lopes
Escritora