Em Eu perdi minha mãe na praia, a poeta nos conduz a um território onde o real e o imaginário se entrelaçam, onde as fronteiras da memória, do desejo e da fantasia se tornam tênues, quase imperceptíveis. Com uma escrita fluída e aquosa, ela cria um espaço lírico de intensidade e delicadeza, no qual a figura materna se revela, se dissolve e se reinventa. O livro se abre com “mate(r)mas”, um poema longo que desconstrói a fórmula da maternidade idealizada, oferecendo uma visão crua e poética sobre a relação com a figura materna.
No segundo poema, Eu perdi minha mãe na praia, a narradora tenta recuperar, de todas as formas, a presença dessa mãe que se esvai. Aqui, o litoral é o cenário perfeito para essa busca, pois é no encontro entre o mar e a terra que as imagens de perda e de falta se tornam palpáveis. A praia, com sua vastidão e transitoriedade, surge como metáfora da própria instabilidade da memória e da relação com o outro.
O livro transita entre o lirismo e o fugaz, a necessidade de pertencimento e a consciência de que todo encontro com o passado é, em última instância, um reencontro com o efêmero. Ao explorar a experiência da maternidade e a dor da perda, a autora nos oferece um olhar singular e poético sobre a fragilidade das certezas humanas. Aqui, a mãe não é apenas uma figura de cuidado, mas também um símbolo de tudo o que se perde e se reinventa, de tudo o que a poesia tenta recuperar.
Seja pela desconstrução da imagem da mãe idealizada ou pela busca persistente à beira-mar, este livro propõe a quem o lê uma reflexão sobre as dinâmicas entre o real e o imaginado, o fixo e o transitório. Por meio de uma investigação poética da maternidade, da perda e da memória, a autora abre espaço para repensar a ambiguidade do vínculo, questionando as certezas que sustentam as experiências de identidade e pertencimento.