É fevereiro no Sul e Yone não tem a vida que sonha: é mãe, é chanfradeira em uma fábrica de sapato, é a primogênita de um casal de primos que foram obrigados a casar pelo fato da gravidez de sua mãe, Idalina, o que gerou uma infelicidade completa por parte do pai, Aldo. Ainda por cima, tem uma relação conflituosa com a irmã, Aria, que chega a momentos extremos. Coube à Yone a destruição do próprio lar desde sua concepção. E são os anos 1970, época em que a indústria calçadista brasileira era símbolo de nação.
São três dias na vida dessa mulher: sexta, sábado e domingo. A cada dia, Yone vê sua angústia tomar conta, esperando pelo convite do americano que conheceu na fabriqueta e que promete a ela uma vida no subúrbio estadunidense. Ou, pelo menos, é isso que ela entende que foi prometido. Mas ela espera, vive na expectativa da ida para um lugar em que ela mais ouve falar do que realmente conhece e de um homem que viu poucas vezes, mas que aposta todas as suas fichas.
Engravidou solteira, vive com o filho, Fabrício, em uma casinha que fica nos fundos do terreno dos pais; tem uma niqueleira praticamente sempre vazia, compra fiado, mas adora vitrines. Gasta sempre que pode o que não tem em butiques da cidade, maldiz os parentes e ama português. Uma personagem que coleta o que vê, recortando das revistas aquilo que chama atenção e menospreza o que realmente orbita sua realidade.
É uma história sobre aquilo que se repete, aquilo que se deixa acontecer e aquilo que é provável que não aconteça. Dos sonhos, Yone só conhece o delírio. Sonhava em ser aeromoça, sonhava com as estrelas de Hollywood, sonhava que o trem que passava no bairro a levasse para a lua, sonha agora que um americano a salve dos seus problemas.
Um livro sobre uma operária que sobrevive no Brasil profundo, vivendo as aparências e comprando ilusões de soluções fáceis. Em primeira pessoa, a narrativa leva o leitor a mergulhar no universo feminino de uma mulher que sabe que sobreviver tem mais a ver com projetar um futuro do que encarar o presente encardido de sofrimento.