HÚMUS PRAZEROSO OU POR QUE NOS TORNAMOS LEITORES?
Conheci Mayara há alguns anos e seus interesses literários à época estavam voltados para o lançamento da plaquete Uma luminária pensa no céu, publicada pela editora Escriba. Não me espanta ver que em Por dentro da pele uma floresta sonha, o livro onde cá estamos nós, leitores, Mayara aprofunda os enigmas e explorações de escutas secretas que já se podiam notar em sua produção anterior.
Aqui discursos que se evolam por meio da relação entre ambiente e corpo se opõem a um mundo retórico previsível no qual a linguagem fática, algorítmica, artificializada hoje se demonstra uma média consentida na comunicação social e poética. Mayara sempre destoou dessa escola que vem deliberadamente espraiando seus tentáculos sobre o mercado editorial e sobre a cultura literária, buscando vieses de linguagem que se revelem enquanto chaves próprias de cada poema/prosa, ao modo dos ossos que cabem perfeitamente (ou imperfeitamente) por dentro da musculatura à qual foram designados. Ao propor a escuta daquilo que em tese não tem a propriedade da fala, Mayara incorre em outras transfigurações da realidade, afiliadas por certo ao melhor de nossa poesia amazônica e nortista.
A escuta (ou ausculta?) das coisas, das folhas, dos bichos, do espaço, da pele humana enquanto limiar entre dois mundos narrativos, surge em Por dentro da pele uma floresta sonha como eixos litúrgicos e também eróticos. Litúrgicos porque propõem ritualização, cultivo de outro modo de operar a comunicação entre diferentes planos, um convite para novos pactos significativos através dos quais nós leitores participamos do texto como ouvintes e testemunhas da expedição intranarrativa. E eróticos porque a fina camada entre a paisagem lá fora, objetiva em sua constância real, e o universo interno, subjetivo, do ente poético, é feita de húmus prazeroso, matéria que nos seduz e nos leva ao texto entre planos e recortes mordazes, carregados de pulsão vital.
Sim, talvez seja isso que Mayara tem perseguido nestas tantas décadas de trabalho com a poesia: em tudo há vida e na vida tudo há, tudo canta e silencia. Também em silêncio algo deve nos sussurrar lembranças de uma vida ainda desejada, quem sabe. Não foi para sonhar que nos tornamos leitores?
Paloma Franca Amorim