Peito aberto até a garganta

Disponibilidade: Brasil

peito aberto até a garganta
veio o céu na anestesia
as navalhas que te perfuram
não se sente
a imensidão é potente
bom não morrer criança
imagine que dor para as tias
olhar o céu da cirurgia

R$45,00

_sobre este livro

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Vou costurar uma orelha no corpo-livro da Mariana Marino na tentativa de evocar a imagem que eu tenho em mente: seu peito atravessado por uma cicatriz violenta e elegante, que quase alcança o pescoço. Quem agora segura Peito aberto até a garganta vai perceber que os poemas da primeira parte estão povoados por corpos cortados: unhas, pelos, pés, pescoços, mãos, peles, ossos, de gente morta ou viva, desconhecida ou familiar, todas exigindo histórias para si, criadas com uma linguagem certeira e cortante como navalha afiada.

Na segunda parte, o corpo jorra manchando os segredos de mulheres de uma mesma família, que sangram com seus úteros e trompas: “o sangue das mesmas veias/ a história das mesmas teias”. E que sofrem do coração – isso não é só uma metáfora. Antes dos poemas, um prelúdio invoca o Senhor em letra maiúscula, tão esmagador quanto o amante de Sêmele. A triste história do triângulo amoroso vivido entre Zeus, Sêmele e a esposa Hera nos remete à leviandade perigosa do deus e, consequentemente, de suas criaturas homens, feitas à imagem e semelhança. Anne Carson tem uma analogia para o ciúme: a dança das cadeiras. Nessa dança, quais mulheres ficam de fora? Para arriscar uma resposta, talvez ajude pensar que o corte mais profundo é o abandono, palavra que, junto com “corpo”, aparece 17 vezes no livro. O que sente uma menina numa mesa de cirurgia? O que pode ela pensar sobre Deus?

Seguimos o traçado até a terceira parte. O corte se mantém afiado, explicitando violências. As mulheres seguem ganhando nomes próprios, acompanhadas por alguns homens de vidas comuns, que parecem tentar se desvencilhar do peso de ter a mesma cara do que aquele Senhor do prelúdio ou do que Zeus.

Volto à imagem da dança das cadeiras pra lembrar que, para a escritora e mística Simone Weil, precisamos nos abster da alma – como se fôssemos a terceira parte indesejada do triângulo amoroso formado entre Deus, nós e as coisas que existem – a fim de permitir que uma união completa e perfeita aconteça. Penso que Mariana não quer se abster, mas também não quer ser completa e absoluta. Lendo Peito aberto… sinto que quero trocar de corpo com Mariana e outras poetas: poder experienciar o mundo pelos corpos que elas criam em suas poéticas. Talvez elas sejam, entre nós, que as lemos, e o mundo experienciado, a terceira parte do triângulo amoroso tomando para si o lugar de Deus: “ouvi meu nome num poema/ desenhado pelo traço do teu lápis/ o ápice de me imaginar/ no teu corpo/ numa vida outra que jamais”.

Julia Raiz

 

_outras informações

isbn: 978-85-7105-178-2
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14 x 19,5
páginas: 70
papel: pólen 90 gramas
ano de edição: 2020
edição: 1ª

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