Tudo começa pela boca. Ou melhor, tudo começa por um buraco dentro de outro buraco, que guarda, em seu escuro — às vezes sangrado, às vezes doce — a vida e a morte. Não necessariamente na mesma medida, pois nada é assim: meio a meio ou sem gradiente algum, mas em um lugar onde elas residem uma diante da outra, pavorosas.
É por meio desse temor que, em seu livro de estreia, Ketlyn Florêncio trafega intimamente pelas coisas, como um diário coletivo de minúcias. Ninguém escapa a tais observações, nem mesmo a autora que, em gestos bamboleantes, grafa parte do percurso não como modo de fixar ou restabelecer uma ordem para os acontecimentos, mas como enunciação da própria impermanência.
O profundo se infiltra como coisa cotidiana, por uma escrita atravessada por certo humor, mas que, em sua maior parte, flerta com o abissal. Assim, é possível ziguezaguear pelas ruas sinuosas: vir ao mundo, perder amores, oscilar entre o cheio e o vazio, ouvir o eco das pessoas mais velhas. O texto, por sua vez, tateia, insistente, para dizer algo que escape ao já dito, como se cada poema precisasse nascer de novo, ligeiramente deslocado de si.
Mastiga-se, então, o tempo como um chiclete que logo perderá a elasticidade e o sabor, sendo substituído ou aglomerado a outra circunstância. É que a vida, desde já, se apresenta como uma espécie de fenda. Nascemos quebrados, a partir de outras gentes quebradas — morreremos da mesma forma. E o inteiro, em Pavor inaugural, mais do que matéria em estado bruto, advém da capacidade de fazer dançar certa porosidade no mundo.
Camila Fontenele