Neste mais recente trabalho de Daniel Leite, escutamos uma voz cheia de sensibilidade e potência ameaçando o inimigo que vem assombrar a vida de uma família: O medo imaginava que nós éramos de porcelana. Inês narra com a coragem de quem sabe que o medo não pode sentar-se à mesa da casa, ou ainda, o medo não pode datilografar o destino de uma família, de uma sociedade inteira. Inês afronta o medo, mas as grandes protagonistas da história são as máquinas de datilografar. Em tempos em que tudo se resolve com um clique de um botão, cuja sonoridade não é capaz de fazer viajar a memória, como é bom ler as belas cenas em que o leitor pode escutar o barulho do papel nas tradicionais máquinas de datilografia, especialmente o som do sininho metálico indicando o final da linha. O leitor deste livro vai notar no elegante trabalho dessas máquinas a arma de que dispunha a narradora: a escrita, a palavra: ela vai escrever palavras que acendem uma história.
Inês compartilha com o leitor a dor da criança ao ver a avó maltratada. Quem pode amarrar uma avó? Quem tem coragem de quebrar o relógio de uma avó e destruir todos os seus objetos de vó? A explicação não cabe no coração da criança que só anos mais tarde, já adolescente, consegue elaborar em palavras o que houve naquele dia. Entramos no coração dessa menina que fala ao leitor do seu equilátero de amor: avó, avô e neta, laço inquebrável e que, graças às máquinas de datilografar, chega a mim e a ti, leitor. É dentro dessa atmosfera melancólica de um tempo de sombra e de gente silenciada, que o barulho das teclas das máquinas compõe a trilha sonora daquela ofensa engasgada. Talvez por isso a boneca de porcelana, com tudo que pode representar para uma criança, não tenha conseguido salvar Inês do seu instante de abismo.
Apesar da narrativa de dor pisada e amordaçada, essa história fala ao leitor sobre esperança, coragem e crença na potência da palavra. Se o leitor prestar atenção à escrita elíptica do texto – recurso magnífico, diga-se de passagem, que o autor emprega com maestria – vai notar que ele mesmo é convidado a preencher certos silêncios de que a obra se compõe. Longe de pensarmos que um texto pode dizer absolutamente tudo, somos inevitavelmente convocados a sair de nosso silêncio de comportado leitor e preencher com nossas palavras os vazios das frases da narradora Inês, que cresce e amadurece diante de nossos olhos.
Flávia Menezes, professora, IFPA, Belém.