O labirinto das duas árvores

Disponibilidade: Brasil/Europa

Vou esculpindo o tronco,
o mistério
que me trouxe até aqui,
à arqueologia dos valados,
à cal, aos telhados de barro da terra,
às raízes amargas e venenosas
a suster a amendoeira
tão delicada em flor.

Trago o desejo
de cavar, de encontrar uma luva
ou pequeno utensílio
esquecido dentro de um valado.
E esse amargo do veneno
das minhas próprias raízes
a suster a amendoeira
tão delicada em flor.

(porta-enxerto, 39)

 

 

R$55,00

_sobre este livro

Este é um pequeno livro fascinante. Havia muito tempo que não lia nada assim. Quando se diz que poesia é linguagem, habitualmente esquece-se que as palavras só criam sobressalto quando o mundo que elas evocam ergue diante dos nossos olhos uma revelação esperada, mas cujas imagens desconhecíamos. Foi esse sentimento de encontro súbito com o inesperado aguardado que me provocou um terramoto pelo encontro com o universo de Sofia Correia. Os poemas de O labirinto das duas árvores levantam do chão sombras de animais selvagens, figuras ancestrais de um tempo mediterrânico remoto, sentimentos em diminutivo que ficaram escondidos sob o lastro da tecnologia e da modernidade, os lugares pacatos dos campos de que se tem vergonha de pronunciar os nomes, as figuras queridas mortas que ressuscitam para acarinhar as mãos da poeta.
É possível que as vivências longe da pátria tenham criado em Sofia a noção do valor do mundo desaparecido, mas cuja raiz se encontra sob a terra que pisamos e condiciona o nosso futuro colectivo. É bom encontrar, assim, uma poesia moderna sem metáfora convencional, toda ela palco e narrativa, ladainha, a organização de um livro cuja imperfeição confere perfeição e sentimento de verdade. Uma homenagem a um povo em transformação, através de versos esparsos, por vezes ilógicos, por vezes literais, como se a autora ignorasse regras básicas da gramática poética, e por esse despenteado sopra uma sinceridade que comove. Uma autobiografia angélica, não confessional, sem outra pretensão que não seja o louvor das coisas. Ao ler este livro, pensei em vozes como a de Herta Müller dos primeiros romances, ou a Irene Solà de Eu canto e a montanha dança, textos em que as autoras não têm pudor de usar os materiais ancestrais e domésticos mais modestos que há para erguerem vozes que vêm ter connosco e nos surpreendem por nelas reconhecermos o que estava a ser esperado, sem o sabermos. Coloco em relevo poemas como “A sobremesa”, “Memória dos montes ou ainda “Celebração dos cem anos do Museu do Cineteatro”. Nós sabíamos que eles existiam em algum lugar, mas estavam escondidos. Que este seja o primeiro de muitos livros da autora.

Lídia Jorge

_outras informações

isbn: 978-65-5900-995-4
revisão: Marcella Sarubi
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 132 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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