Lírios

Disponibilidade: Brasil

deus tem os olhos lindos
o som cintilante das ninfas
a cor arabela do céu
o passo do balanço das ondas
as pegadas sonoras do ar
o leito alvo dos montes
a súplica profunda do mar
o desenho do arco sob o véu
a cinza acre dos homens
os sufrágios donos do vento
um menino a chorar
a voz que canta o encontro
sua mãe
Deus tem os olhos lindos.

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_sobre este livro

Lírios: a língua dos hieróglifos

 

Neste intrigante livro de estreia, plasmada em porções de flores e abóboras maduras, a linguagem se contorce sob o céu quimérico da alagoana Maria Alice Ferreira da Silva. A palavra poética, isso é sabido, tem a capacidade de ecoar, em seu mais íntimo recôndito, o mistério do mundo, o princípio. Nalguns poetas, contudo, o trato com esse “segredo” da linguagem integra um projeto de escrita. Menciono, disso, um exemplo mais próximo geograficamente: a obra da poeta Ana Maria Vasconcelos, cujo trato com a linguagem se dá no campo do enigma. Escorre o enigma do litoral para o agreste de Alagoas. Maria Alice lança o verbo — ora metáfora, ora alegoria — ao encontro, tantas vezes, do insondável. Em “Antropomórfico”, por exemplo, são dois os dados tangíveis: 1. um abdômen, pelugem, visto em primeiríssimo plano (1º verso); 2. um homem deitado de bruços (7º verso). Funcionando como dispositivo nimboso, entre essas duas imagens, correm aquelas que contrastam desejo e culpa: a margem do rio, um ouriço enjaulado (que rosna e move os olhos), o leito de pecados, o beijo no pé do vigário. O que esse ouriço, banhado em pecado, diz sobre o cara deitado de costas? E, mais, o que diz sobre a voz poética, nessa ocasião, tão impessoal? Já em “Lírios”, texto que dá título à obra, a voz poética, embebida de amor, joga com a sinestesia: os ardores do/a amado/a soam como um “respirar de areia” e como um “craquelar de traqueia”. Qual som faz a areia ao respirar? Quando craquela a traqueia? Aqui, mais uma vez em foco, o segredo da palavra exige de quem lê outro tempo de recepção.

Se para Octavio Paz “a imagem [poética] é cifra da condição humana”, com a rara habilidade de aprisionar a “alteridade estranha” dos humanos e das coisas, citando de Bosi em complemento, a poeta, em diferentes momentos de seu livro, embaralha e turva a linguagem, convertendo-a em símbolo, ícone. As palavras de Lírios, nesse sentido, jogam nos limites entre a língua portuguesa e a língua dos hieróglifos: é preciso percorrer com cautela esse poemário, atendo-se a cada um dos símbolos-imagens-ícones criados por ele.  A poeta Maria Alice dá, assim, pistas de que sua trajetória na poesia andará no encalço do mistério.

Larisse Nolasco

Professora, poeta e mestra em Literatura pela Unicamp

_outras informações

isbn: 978-85-7105-308-3
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 60 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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