História das sombras do monte

Disponibilidade: Brasil/Europa

O meu berço foi um sobreiro enviesado
que me acariciou o seio inanimado.

Eu, ruína de um monte,
perene ao tempo, espero.
Trago por manto a geada e nuvens,
esburacado o teto.

As ovelhas que passam
alimentam-se das ervas
que me crescem nas paredes.

Depois, muito gordas
a comer bolotas,
que me decoram o chão,
rebolam pelos campos
e transformam-se em cadáveres.

Assim sou eu. E as ovelhas
réplicas sombrias de mim.
Morro com elas.

(Primeira sombra que foge ao sol, pág. 31)

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_sobre este livro

Na pele e no corpo de Madalena Maria, encontramos uma mulher que é todas as mulheres. Nas sombras que são a pele e o corpo que restam depois do desfazer dos seus sonhos, o destino possível de que toma posse, encontramos a escuridade cuja travessia é tantas vezes cruel, tantas vezes inevitável, tantas vezes transformada em algo outro. Um lugar novo de existência e de criação. Um tempo, ainda assim, luminoso.
Na resistência serena e silenciosa de Madalena Maria, encontramos a história da face feminina do mundo, arredada de decidir sobre si e sobre tudo o resto. Arredada da importância que lhe é devida pela medida do seu número, da sua força, da sua vontade, do seu direito.
“Os homens não gostam de futuros fugidios que pressagiem destinos livres de medos”, diz o poema, que é parte de uma história que conta uma vida que são muitas vidas e que reclamam uma igualdade e uma liberdade que respiram na ausência de medo. Respiram de pés descalços enterrados no pó, de solidão assumida, de cabelos revoltos e de desfazer de ideias feitas. De gestos corajosos, no trabalho como no amor. De compaixão e de sobrevivência, de pensamento e de exaltação.
A escrita da Lúcia Vicente traz os sentidos colados ao chão, na escuta e na sensibilidade do pulsar da luta pela dignidade de todos os seres humanos, pela existência em respeito, paridade e liberdade, horizontes verdadeiros que aqui se apontam no fim de um caminho percorrido em ficção e em poesia. Porque as palavras têm o poder de tocar a alma de quem as lê ou escuta, de quem se deixa transformar. Têm o poder de partilhar a sombra e a vida de outras árvores, de partilhar a luz de outras estrelas e de abrir novos caminhos. Porque as palavras são impossíveis de destruir: metade sombra, metade sopro, metade sonho.
Hoje, como em cada momento da História em que as ameaças rosnam perto e as conquistas parecem prestes a sucumbir, o testemunho em revolta e afronta de Madalena Maria é ainda mais importante. Porque nos embrulha as entranhas e nos faz cerrar os punhos. Porque lhe reconhecemos verdade. Porque olhamos à nossa volta, observamos e escutamos e lhe reconhecemos ainda mais verdade.
Entre pó que se solta da terra, estendendo a foice às hastes de trigo, ou na frente de um caderno, estendendo as palavras ao verso, personagem e criadora, inspiração e narrativa, unem as vozes que interpelam quem as lê. Convocando a força ancestral de mulheres tão comuns como extraordinárias, convocando-nos a nós também, a escrita da Lúcia Vicente ganha pele sensível e corpo concreto. Deixa de ser sombra, passa a ser vento.

Raquel Patriarca

_outras informações

revisão: victor negri
isbn: 978-85-7105-382-3
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 104 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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