Eu te carrego

Disponibilidade: Brasil

Vínhamos por uma calçada estreita, ela na frente, eu atrás. Dona Souzana, com um tamanco feio e descascado, não combinando com o vestido novo, florido, de festa. Quando ela foi desviar de uma poça, dando um pequeno salto além do que sua perna alcançava, torceu o tornozelo e caiu sentada sobre a bolsa. Acudi assustado, e percebi que seus olhos estavam marejados. Eu não sabia que minha mãe chorava, quer dizer, nunca tinha percebido tão claramente os olhos de minha mãe afogados em lágrimas, a parte branca muito vermelha, as pupilas embaçadas como vidro de box com chuveiro quente. É daquelas frações de segundo que te fazem cair de volta na realidade, te puxam de qualquer sonho acordado, uma distração tola com os carros, com os pedestres, com o farol queimado, com a placa torta sem o nome da rua. Sim, minha mãe está chorosa. Está sofrendo muito. Porque meu pai está morrendo, e nesse segundo, precisamente, eu me lembro disso, e a lembrança entra pela barriga como um alfinete gelado e muito comprido.

R$65,00

_sobre este livro

No contexto sombrio em que o mundo estava no auge da pandemia de covid-19, uma simples ida à padaria ganha um contorno catastrófico e abre um portal que suga o narrador para um não lugar em tempo algum: as próprias lembranças.

Recordações que levam o narrador a visitar a morte inesperada do pai e, partir dela, o autor, com uma escrita que se aproxima de um relato confessional, reconstrói o percurso de uma família que traz em sua ancestralidade raízes muito distintas e distantes — uma mistura genética improvável entre cangaceiros, calabreses e nipônicos. Uma família em cujo seio persiste um segredo, encalacrado na mente de uma avó com Alzheimer que teima em represar suas revelações.

Com capítulos curtos entrecortados por saltos cronológicos, o autor estreia na autoficção tentando encontrar, para além de alguma neurose transgeracional e do costume de colecionar quinquilharias e miudezas sem valor aparente, uma linha condutora entre ele, seu pai e seu avô. Ou pelo menos uma pedra fundamental que justifique seu constante incômodo de existir.

_outras informações

isbn: 978-65-5900-980-0
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 216 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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