Vínhamos por uma calçada estreita, ela na frente, eu atrás. Dona Souzana, com um tamanco feio e descascado, não combinando com o vestido novo, florido, de festa. Quando ela foi desviar de uma poça, dando um pequeno salto além do que sua perna alcançava, torceu o tornozelo e caiu sentada sobre a bolsa. Acudi assustado, e percebi que seus olhos estavam marejados. Eu não sabia que minha mãe chorava, quer dizer, nunca tinha percebido tão claramente os olhos de minha mãe afogados em lágrimas, a parte branca muito vermelha, as pupilas embaçadas como vidro de box com chuveiro quente. É daquelas frações de segundo que te fazem cair de volta na realidade, te puxam de qualquer sonho acordado, uma distração tola com os carros, com os pedestres, com o farol queimado, com a placa torta sem o nome da rua. Sim, minha mãe está chorosa. Está sofrendo muito. Porque meu pai está morrendo, e nesse segundo, precisamente, eu me lembro disso, e a lembrança entra pela barriga como um alfinete gelado e muito comprido.