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Eu sou uma ilha / I am an island

Disponibilidade: Brasil/Europa

Matei o monstro da misantropia
E a minha vida parou na letra M
Eu já fui um livro da Raquel Freire
Mas nos entre tantos a vida queimou-me

Se quiseres escrever
Salta para dentro de um poço em tons de cinzento
Pode ser um poço igual ao da branca de neve
Igual ao do The Ring
Se for daqueles avant-garde, new wave, retro vintage
Podes escolher um a preto e branco
Para escreveres tens de estar no meio
Como ser um adolescente, no limbo da vida
Tens de estar a olhar para o branco
Tens de estar preparado para o branco
Para os anos de branco que se formam à tua frente
Nem a luz segue o olhar
Os anos de mãos trémulas que penteiam riscos contínuos
Languidamente, perseguidos por ti
Se queres escrever tens de perceber o preto
Tens de te entregar ao preto
Tens de perceber que o preto não é a salvação
A tinta escorre pelas tuas costas de velcro
Mas eu… já não sou a outra face
Já não sou o outro ponteiro do relógio

Sempre abominei cada segundo
E escrever é um poço sem fundo

(página 30)

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_sobre este livro

Há livros que se erguem como territórios firmes; outros, como este, existem na instabilidade. Eu sou uma ilha / I am an island, de Raquel Smith Cave, é um desses lugares: uma geografia íntima onde a autora se reconhece simultaneamente habitada e deserta, visitada e abandonada. A ilha é metáfora de isolamento, mas também de vulnerabilidade — uma dimensão onde a desconfiança se tornou linguagem e onde a identidade se constrói entre marés contraditórias.
Raquel escreve a partir de um centro em deslocação e fluidez. Assume-se lésbica, queer, pansexual, uma mulher de orientação não normativa, ou melhor, desorientada, e essa afirmação surge como fluxo, matéria viva. A sua poesia procura palavras para nomear o que ainda desconhece — e, nessa busca, revela-se plural, escorregadia, por vezes em queda livre. Há nela uma sede de abismo, um impulso para tocar o que ainda não tem nome.
Mas se a ilha sugere solidão, também ambiciona comunidade. E é Raquel quem escolhe a sua família — a comunidade LGBTQAI+ — que atravessa o livro como abrigo, contrariando feridas marcadas pela culpa católica, repressão sexual e afetiva, e silêncios difíceis de traduzir. Poemas como “Mãe”, “Read you, wrote you” ou “Formigas na cozinha” inscrevem essa tensão: laços que se quebram, se reconfiguram, persistem…
A relação com a palavra é lúdica. Há prazer no jogo verbal, na rima simples, no ritmo quase juvenil que torna os temas mais diretos. Muitos poemas pedem voz — pertencem ao corpo, ao gesto e à respiração. A cadência da spoken word atravessa o livro, assim como uma musicalidade que ecoa outras paixões: cantar, tocar baixo ou bateria, sentir a palavra como percussão. A rima surge como batida, numa linhagem que evoca a avó materna, Laura Silva, compositora cujas músicas atravessaram gerações.
Há também uma energia adolescente nestes textos — uma transgressão contra imposições íntimas. Essa leveza formal convive com temas densos: amor, identidade, depressão e política do íntimo. Curiosamente, embora a autora confesse não saber amar, o livro está povoado de poemas sobre o amor — como ensaio, tentativa ou aproximação.
Durante muito tempo, Raquel escreveu na sombra, protegida pelo anonimato e pela timidez de se afirmar. Este primeiro livro concretiza, com rara honestidade e coragem silenciosa, o impulso do seu desejo. Desejo que, etimologicamente, advém de de-sidere, interpretado como “deixar de ver os astros” ou “sentir falta das estrelas”. Tal como Raquel se sente Plutão, que já nem sequer é um planeta, a observar o Sol. Eu sou uma ilha / I am an island não oferece respostas: convida-nos a habitar a incerteza e a reconhecer que, mesmo nas ilhas mais solitárias, existe sempre a possibilidade de encontro — nem que seja connosco próprias.

Raquel Lima

_outras informações

ISBN: 978-989-9348-35-6
revisão: Victor Negri
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 86 páginas
papel offset ahuesado 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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