Há livros que se erguem como territórios firmes; outros, como este, existem na instabilidade. Eu sou uma ilha / I am an island, de Raquel Smith Cave, é um desses lugares: uma geografia íntima onde a autora se reconhece simultaneamente habitada e deserta, visitada e abandonada. A ilha é metáfora de isolamento, mas também de vulnerabilidade — uma dimensão onde a desconfiança se tornou linguagem e onde a identidade se constrói entre marés contraditórias.
Raquel escreve a partir de um centro em deslocação e fluidez. Assume-se lésbica, queer, pansexual, uma mulher de orientação não normativa, ou melhor, desorientada, e essa afirmação surge como fluxo, matéria viva. A sua poesia procura palavras para nomear o que ainda desconhece — e, nessa busca, revela-se plural, escorregadia, por vezes em queda livre. Há nela uma sede de abismo, um impulso para tocar o que ainda não tem nome.
Mas se a ilha sugere solidão, também ambiciona comunidade. E é Raquel quem escolhe a sua família — a comunidade LGBTQAI+ — que atravessa o livro como abrigo, contrariando feridas marcadas pela culpa católica, repressão sexual e afetiva, e silêncios difíceis de traduzir. Poemas como “Mãe”, “Read you, wrote you” ou “Formigas na cozinha” inscrevem essa tensão: laços que se quebram, se reconfiguram, persistem…
A relação com a palavra é lúdica. Há prazer no jogo verbal, na rima simples, no ritmo quase juvenil que torna os temas mais diretos. Muitos poemas pedem voz — pertencem ao corpo, ao gesto e à respiração. A cadência da spoken word atravessa o livro, assim como uma musicalidade que ecoa outras paixões: cantar, tocar baixo ou bateria, sentir a palavra como percussão. A rima surge como batida, numa linhagem que evoca a avó materna, Laura Silva, compositora cujas músicas atravessaram gerações.
Há também uma energia adolescente nestes textos — uma transgressão contra imposições íntimas. Essa leveza formal convive com temas densos: amor, identidade, depressão e política do íntimo. Curiosamente, embora a autora confesse não saber amar, o livro está povoado de poemas sobre o amor — como ensaio, tentativa ou aproximação.
Durante muito tempo, Raquel escreveu na sombra, protegida pelo anonimato e pela timidez de se afirmar. Este primeiro livro concretiza, com rara honestidade e coragem silenciosa, o impulso do seu desejo. Desejo que, etimologicamente, advém de de-sidere, interpretado como “deixar de ver os astros” ou “sentir falta das estrelas”. Tal como Raquel se sente Plutão, que já nem sequer é um planeta, a observar o Sol. Eu sou uma ilha / I am an island não oferece respostas: convida-nos a habitar a incerteza e a reconhecer que, mesmo nas ilhas mais solitárias, existe sempre a possibilidade de encontro — nem que seja connosco próprias.
Raquel Lima