Teclas, toques, caracteres, termos de uso, telas, likes, senhas, caps lock, mensagens, print screen, Ctrl+C… É no mundo habitado por esses elementos que estruturam as máquinas que hoje atravessam nossos sentidos e nossos modos de fazer sentido que Rafael Malhado encontra os motivos e as formas da poética que nos apresenta neste livro. O lirismo aqui é um exercício crítico cotidiano que se volta para a necessidade de atualizar o que há de mais elementar em estarmos vivos. Apertar Esc. Olhar com olhos de quem mira a página de um livro. Porque entre as teclas e os textos se encontram as salas vazias, os olhares dos outros, os toques dos outros, as bocas, os braços e os abraços dos outros, a falta de respostas, as lembranças, as perguntas, os julgamentos, os gestos de preocupações, os medos, as rebeldias, o canto, a vida. Malhado requer que o leitor se lembre de que vive entre textos, gentes, bichos e coisas. Alguém que escapa ao labirinto em linha reta do esquizo-rizoma operado pelos que comandam as máquinas que têm achatado nossos sonhos em uma barra de rolagem infinita. Este livro instiga a encontrar um respiro, um encantamento. Senão, seguimos nesse vai-sem-ir. Nesse olhar-sem-estar. Nesse estar-sem-ter. Mais que instigar, nos convoca. Porque ele recorre, muitas vezes, ao imperativo, como nos seguintes versos: Guarde no bolso o calabouço digital. / Não deixe seu amigo partir. Ou em: Digite menos e se agite mais! Não se trata, entretanto, da busca por uma saída, de uma negação da técnica, seus algoritmos e outras parafernálias. É um chamado para uma postura ativa, uma resposta: Responda ao web mar que a terra-firme-da-rua também é seu lugar! O que resulta da leitura, como deve resultar toda poesia, é um mundo reencarnado e reencantado, um mundo humano, no qual os Orixás voltam a ter morada. Um mundo de tecnologias cartomantes.
André Rodrigues
Professor de Ciência Política da UFF e escritor