Dentes polidos de fera, livro de estreia de Matheus Picanço Nunes na poesia, nos serve imagens cruas e impuras do desejo — um banquete para o qual garfo e faca não são bem-vindos.
Ao nutrir-se da poesia de Hilda Hilst, Ana C., José Régio e Augusto dos Anjos, o autor de Sereia de mármore e névoa arrisca-se ao revelar o quanto é tênue a linha entre o humano e o animal, entre o sagrado e o profano. O resultado é um longo santuário de sexo, gozo e perversão, ao qual o eu-lírico se expõe, levando o desejo às últimas consequências, como uma fera indomesticável.
Valendo-se de símbolos cristãos para construir um repertório próprio, interessam-lhe mais os membros quebrados dos anjos do que seu brilho divino. A serpente é o sexo; o paraíso, uma sauna gay. Os dias santos são os dias da danação, quando deseja “escorrer inteiro” […] “nos vazios de um rosto talhado/ à imagem de Deus”.
Como criatura das ruas, o eu-lírico faz do sexo isca para pescar suas imagens poéticas. Guia-nos por espaços clandestinos da urbe — lagoas, banheiros, cabines, motéis — onde o corpo, constantemente febril, é, a um só tempo, linguagem e arquivo.
Aqui, tanto ele quanto seus amantes são feras: mordem, lambem, caçam. De vez em quando, porém, descansa. É quando deixa de ser bicho para revelar sua verdadeira condição humana: ama, chora, adormece, lê, acalma-se ao toque dos terremotos. Até que o dia amanhece, e as feras o chamam novamente.
Nessa busca dolorosa por preencher os vazios, a partir do contato impessoal com homens sem rosto nem nome, o eu-lírico — um desvio no plano divino — se espanta quando se vê encarado de volta pelas ausências que coleciona. O que fazer com elas? Dentes polidos de fera nos convida a enfrentá-las.
Ues Batista