Decomposição dos pássaros

Disponibilidade: Brasil/Europa

Quem nos deu a notícia de que Valtinho abocanhou a orelha do irmão foi o Beto, o pequeno mensageiro de oito anos. Paramos o jogo de rouba-bandeira, chutamos ao léu o galho da mangueira que marcava os dois territórios e descemos o morro do Boticão feito um raio em direção ao córrego Lava-pés. Lá chegando, ficamos agachados, espiando a movimentação através dos arcos da ponte de cimento. Jamais perderíamos um escândalo nessa terra morosa. Havia dois carros de polícia e um monte de gente falando alto. Seria bom se os lóbulos das orelhas fossem como os rabos das lagartixas, que se desprendem do corpo nos momentos de perigo e se regeneram naturalmente.

(Tudo o que o mestre mandar, página 19)

R$55,00

_sobre este livro

Contista e romancista, ao surgir, em 2007, com Meu nome agora é Jaque, Eltânia André já era escritora madura. De lá para cá, foram mais três coletâneas de contos, Manhãs adiadas, Duelos e Corpos luminosos, e dois romances, Para fugir dos vivos e Terra dividida, além de um livro em colaboração com Ronaldo Cagiano, Diolindas. E, a cada nova publicação, a escritora foi aprofundando seu universo ficcional, particularizando sua assinatura, marcas que caracterizam e diferenciam os bons autores dos medíocres. A consolidação dessa voz própria pode ser conferida neste Decomposição dos pássaros, volume que reúne, em dez histórias, as melhores qualidades da prosa de Eltânia André: o sentido trágico da vida envolvido por uma intensa carga poética.
As personagens de Decomposição dos pássaros são homens e mulheres ordinárias vivendo situações corriqueiras, nas quais nos reconhecemos como seres falhos que aspiram a alguma redenção — pois Eltânia André consegue insuflar dimensão metafísica a seus enredos. É assim com Ellen, magra como o mapa do Chile, que, em “Pluma e osso”, pouco a pouco toma consciência de seu lugar no mundo. A Ellen, cuja trajetória acompanhamos desde a infância, juntam-se as crianças de “Tudo o que mestre mandar”, que retrata, de forma pungente, o encontro com a violência e a morte, algo que perpassa também “Márrio-Riomar: um nome todo água”. A morte preside ainda “A última música: 2 minutos e 35 segundos”, mas como possibilidade de reparação: o narrador reconcilia-se com o pai, para além do último suspiro.
A derrocada, seja pessoal, seja coletiva, seja psicológica, seja financeira, está presente nas narrativas “Céu na boca”, “Construção” e “Sob o som das matracas”: em algum momento, as escolhas no passado emergem como fantasmas para abalar nosso presente. “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira” e “Subindo as montanhas de xisto da Bulgária” fogem um pouco à unidade do livro, sendo o primeiro uma espécie de crônica irônica da vida e morte de uma legítima sibila nacional, e o segundo uma bela homenagem a Campos de Carvalho, autor maldito, mas reverenciado por um grupo de fanáticos admiradores.
Enfim, Eltânia André mostra o firme domínio do ofício, quando, de certa maneira, sintetiza toda a inquietude na fábula “Decomposição dos pássaros”, na qual resgata e destila nossas angústias ancestrais, num texto eivado de poesia, a começar pelo título, que evoca imenso conhecimento de quem da vida participa corpo-a-corpo. Por isso, por tudo isso, que não é pouco, o nome de Eltânia André vem angariando, mais e mais, espaço no sempre seletivo número de escritores fundamentais da literatura contemporânea.

Luiz Ruffato

_outras informações

revisão: victor negri
isbn: 978-85-7105-318-2
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 96 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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