Tudo gira em torno de uma flor. Ou tudo gira em torno de um móbile onde se penduram vidas em seus desencontros. Ou, melhor, tudo gira. Ou tudo treme. Crônicas de um país em fuga, de Regina Ribeiro, conta histórias do Tain, um território esfacelado e diaspórico, marcado pela ferida colonial, chaga sempre aberta seja nas relações sociais, seja nas relações íntimas, aquelas mais caras: as muitas faces do amor, da amizade. O pensador franco-martinicano Édouard Glissant fala de um “pensamento trêmulo”, que se contrapõe aos grandes sistemas de pensamento homogeneizante ocidental e isso se traduz, nos territórios que passaram pela colonização, em histórias fragmentadas, híbridas, deslocadas. E assim é o Tain e os que lá nasceram, terra em transe, personagens cujas identidades só podem ser compreendidas em turbilhão e, no entanto, emaranhados entre si, indissociáveis. E nisso, a autora capta muito bem o tremor, a instabilidade com uma prosa que emula esses movimentos, sem, no entanto, perder o espírito que os anima.
A narrativa dividida em três partes, as tais crônicas, conta desse lugar sob óticas e momentos históricos distintos, em recortes em que o subjetivo e o coletivo se entrelaçam: Os filhos da cidade, A arte de enfeitar vitrines e A substituta. Em cada uma das crônicas, se destaca um personagem, a sua voz e história: na primeira, um médico que, ao modo dos cientistas viajantes do século XIX, documenta a vida cultural e ambiental daquele território, até que se desencanta com as relações violentas estabelecidas pela elite local; na segunda narrativa, apresenta-se uma jovem diaspórica em crise entre a identidade herdada, seus costumes e crenças e a nova vida escolhida em um país ocidental; e, finalmente, no último relato, as noções identitárias como mônadas são postas em xeque na relação intricada entre duas biólogas e uma planta local, uma fábula sobre o humano e as alteridades radicais representadas pela natureza.
Quem se propõe a escrever ficção a partir da experiência de grandes violências, como a colonial, busca uma outra urgência e forma para as suas narrativas. Uma forma disruptiva em que a complexidade das múltiplas experiências históricas, políticas, naturais (no sentido mesmo da natureza) e afetivas possam ser contempladas. Cada escritor que atua nessa “fratura” busca meios eficazes que possam dar conta de traduzir essa pluralidade, esses organismos de muitas vozes. Nesse sentido, Crônicas de um país em fuga e sua autora são muito felizes. E o leitor é fisgado. Ou colhido.
Micheliny Verunschk